O enterro da cabeça na areia

Com a modernidade, a cultura descobre-se cada vez mais dependente da economia e da política. Como diria Pascal, “sabe-se isso em mil coisas”: nas teorias, nos usos e nos costumes. Se outrora a postura das elites culturais era o contraposto, agora é o disposto, a fatalidade e o desgosto convertendo-se em vontade e vaidade. E o catavento emerge como figura totémica. O cenário complica-se quando os agentes culturais permanecem provincianos (agacham-se em bicos de pés) e paroquiais (encolhem-se e enredam-se em casulos e teias intramuros).
“Pequenos deuses caseiros”, gravitam ao redor de olimpos terrenos. Cortesãos, apressam-se a beijar as mãos estendidas pelos senhores providenciais. Ser é (a)parecer e agradar. Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão. Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.
Não me tomem muito a sério. Escrevo para o lado que estou virado, consoante o estímulo que acaba de me impressionar. Por exemplo, a curta-metragem animada “The Ostrich politic”, de Mohamad Houhou. Para exacerbar, o tempo apresenta-se com ar seco e luz crua.
Azul desbotado
Je lui dirai les mots bleus
Les mots qu’on dit avec les yeux
Parler me semble ridicule
Je m’élance et puis je recule
Devant une phrase inutile
Briserait l’instant fragile
D’une rencontre
D’une rencontreJe lui dirai les mots bleus
Tous ceux qui rendent les gens heureux
Je l’appellerai sans la nommer
Je suis peut-être démodé
Le vent d’hiver souffle en avril
J’aime le silence immobile
D’une rencontre
D’une rencontre
Que faço nesta paróquia urbana quando me aguardam duas aldeias cosmopolitas? Crescer e acelerar não basta. Convém voar. O avestruz é a maior das aves e a mais rápida em terra, mas não voa. Só em sonhos.
Na tua cabeça

Quand on est couronné,
On a toujours le nez bien fait ( Charles Perrault, Les souhaits ridicules. Contes de ma Mère l’Oye (1697).
A Samsung (Galaxy) aprecia pescoços altos. Gosta, também, de penas e de pelos fofos. No anúncio O Voo do Avestruz, de 2017, um avestruz consegue voar graças à realidade aumentada (ver https://tendimag.com/2017/04/04/o-voo-do-avestruz/ ). No anúncio recente Alpaca, as alpacas, tosquiadas, estilizadas e coloridas pela mão da moda, conquistam as passerelles e andam nas cabeças do mundo.
El encuentro casual de una mujer con las hermosas (y ciertamente tontas) criaturas durante un viaje a Sudamérica le inspira una decisión precipitada. De esta manera se empieza a producir una extraña combinación de moda, arte y cría de animales, dando como resultado un fenómeno global.
Para permitir su visión creativa, esta artista emprendedora utiliza todas las funciones convenientes de su teléfono y su stylus: tomar fotos, grabar videos, dibujar maquetas y crear un plan de negocios (Adlatina, https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-bbh-nueva-york-y-samsung-pasaron-de-los-avestruces-a-las-alpacas-sudamericanas).
Voar é a nossa ambição; uma coroa na cabeça, a nossa perdição. Dois anúncios da Samsung, dois delírios, duas palmas de ouro do Tendências do Imaginário. Um bom pretexto para recordar a música Zombie, dos Cranberries. Because it’s in your head.
O voo do avestruz

“Não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível” (Max Weber, 2004, Ciência e Política: Duas Vocações, São Paulo, Editora Cultrix, p. 123).
Costuma dizer-se “enfiar a cabeça num buraco como um avestruz”. Mas o avestruz não enfia a cabeça em nenhum buraco; em caso de ameaça, coloca a cabeça junto ao solo com o pescoço esticado para se camuflar, à distância, como um arbusto ou uma pequena rocha. Quem enfia a cabeça na areia somos nós, os seres humanos. Tanto que as nossas cabeças ficam a chocalhar. O avestruz voa? Graças à realidade virtual e ao sonho. A ilusão e o sonho tornados vontade e a vontade, técnica e magia. Mais ou menos como voam os seres humanos. Mas há muito quem nem sequer descole.
O voo constitui um dos tópicos preferidos do Tendências do Imaginário. O anúncio da Samsung, Ostrich, é brilhante. A ideia é original e inesperada. A técnica soberba. A história bem contada, a sequência com a sombra no solo do avestruz voador perseguida pelos outros avestruzes é espantosa. O slogan é intemporal: Do what you can’t.
Rare Bird. Flight. As your mind Flies By. 1970.
Animais animados
Gosto da obra do realizador brasileiro Sérgio Amon. Uma obra imensa. Nos seus anúncios costumam aparecer animações com animais: tartaruga, avestruz, formiga… Animais adoráveis em situações surpreendentes. O humor faz bem, aquece!
Marca: Brahma Beer. Título : Avestruz. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 2003.
Marca: Philco do Brasil. Título: Formigas I. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 1995.

