A mecânica da paixão
Acabou de sair um anúncio de Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade preferido. Em L’Odyssée de Cartier, Aveillan confirma que, não obstante uma obra vasta e variada, ainda é capaz de inovar, sem, no entanto, prescindir de um piscar de olhos a anúncios anteriores. Este anúncio, que celebra os 160 anos da casa Cartier, é também uma homenagem a Jeanne Toussain, mais conhecida por Coco Chanel. Aproveito o ensejo para repescar este Mechanics of Passion, um anúncio muito escheriano da Cartier, realizado, desta vez, por Christophe Hewitt.
Marca: Cartier. Título: L’Odyssée de Cartier. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direção: Bruno Aveillan. França, Março 2012.
Marca : Calibre de Cartier. Título: Mechanics of Passion Episode II. Produção : Moonwalk. Direcção: Christophe Hewitt. França, 2011.
À volta da lareira
Ao fim de semana, chovem menos anúncios. Boa maré para a pesca nos baús de antiguidades. À primeira sondagem, três relíquias: uma, ternurenta; outra, ousada; e a última, “nojenta”. Estes anúncios davam para uma aula de sociologia: o primeiro, a constituição de blocos de classes e fracções de classe, segundo Karl Marx; o segundo, a persistência das estruturas antropológicas do imaginário, segundo Gilbert Durand; e o terceiro, a força coerciva do grupo, segundo Emile Durkheim. Tudo sob o signo do fogo.
Anunciante: Real Fire. Título: Dog, Cat, Mouse. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1989.
Anunciante: Real Fire. Título: Python. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1990.
Marca: Coca-Cola. Título: Round the fire. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Josh Taft. Argentina, 2006.
O ouriço-cacheiro: a road movie
Gosto de ouriços-cacheiros. Os agricultores, também. Porque os ouriços se alimentam de animais nocivos, tais como lesmas e escaravelhos. Um ouriço atropelado representa uma falha na protecção das colheitas. Gosto deles, mas não lhes toco, numa espécie de encontro mediato do 4º grau. Os ouriços não disfarçam, têm os espinhos à vista. Deus não estava cansado quando os criou, ao contrário de certos humanos que, se fossem transparentes como os ouriços, ninguém abraçaria. Retomando o anúncio. Os carros Volkswagen são quase como os ouriços-cacheiros. A gente, em princípio, pode tocar-lhes, mas, na prática, não consegue. Faz sentido a sugestão do anúncio: contentarmo-nos, como os ouriços, com a contemplação do símbolo, do logótipo pendurado na nossa impotência.
Anunciante: Volkswagen. Título: Hedgehogs. Agência: Agence.v.Paris, Saint-Ouen. França, Novembro 2011.
Quem fala de ouriços-cacheiros também pode falar de toupeiras. Acrescento um anúncio, com animação 3D, já antigo mas bem humorado, com a particularidade de recuperar a música de um filme de Jacques Tati.
