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Homens e Bestas 2

No que respeita à fisiognomonia, Giambattista della Porta não foi um caso isolado. O imaginário da Idade Média destacou-se pela proximidade, híbrida ou não, entre seres humanos e animais. Gostaria de mencionar três grandes vultos da história da arte que também abordaram o tema: Ticiano Vecellio, Peter Paul Rubens e Charles Le Brun.

Ticiano. Alegoria da prudência. C. 1565-1570

Comecemos, neste artigo, com Ticiano Vecellio. Falecido em 1576, pintou entre 1565 e 1570, alguns anos antes do tratado de Giambattista della Porta, a Alegoria da Prudência. O quadro comporta dois níveis. Em cima, três rostos humanos, dispostos segundo as idades da vida: um idoso, à esquerda, de perfil na sombra; um adulto, ao centro, de face; e um jovem, à direita, de perfil, algo ofuscado pela luz. Há quem sustente, incluindo Erwin Panofsky, que os retratados são, da esquerda para a direita, o próprio Ticiano, seu filho Orazio e o seu jovem primo Marco. Em baixo, figuram três cabeças de animais alinhadas do mesmo modo que os três humanos: o lobo corresponde ao idoso, o leão ocupa o centro, a direita sobra para o cão. Para além destes dois reinos ou ordens, o quadro encerra mais duas dimensões. Em primeiro lugar, o tempo: passamos, gradualmente, do ancião para o jovem, do passado para o futuro. Em segundo lugar, a dimensão comportamental ou “psicológica”. A “prudência” assenta, da esquerda para a direita, em três pilares: a memória, a inteligência e a previdência. O lobo recorda ciosamente as suas presas, e o ancião as proezas. As figuras centrais, incluindo o leão, concentram-se, rápidas e vorazes, no imediato. Estão no vértice da ação. À direita, o jovem e o cão aguardam o futuro, afagam esperanças. O seguinte mote acompanha o quadro: “Com a experiência do passado, o presente age com prudência, para não comprometer a ação futura”.

Em próximo artigo, contemplaremos os outros dois “vultos da história da arte” anunciados.

Publicidade a dobrar

Um anúncio dentro de um anúncio só pode ser obra de publicitários. O cão parece ter queda para a publicidade. Mostra a utilidade do produto e não esquece a sensibilização do público. A meu ver, aposta demais na primeira e de menos na segunda.

Marca: Thinkbox. Título: Dogs. Agência: The Red Brick Road. Direção:  Si & Ad. UK, Maio 2012.

Corta!

Corta! Corta! Corta! Estas cenas de filmagem comportam tantos cortes que sobram apenas as cabeças. Humor brasileiro desinibido e macabro. Trata-se, no entanto, de ficção: o vídeo é brasileiro e retalha corpos; não é português, nem adapta salários.

Marca: São Paulo Creative Club. Título: Gold Magic. Agência: Borghierh/Lowe Prodigo. Direção: Vellas & Laga. Brasil. Abril 2012.

A mecânica da paixão

Acabou de sair um anúncio de Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade preferido. Em L’Odyssée de Cartier, Aveillan confirma que, não obstante uma obra vasta e variada, ainda é capaz de inovar, sem, no entanto, prescindir de um piscar de olhos a anúncios anteriores. Este anúncio, que celebra os 160 anos da casa Cartier, é também uma homenagem a Jeanne Toussain, mais conhecida por Coco Chanel. Aproveito o ensejo para repescar este Mechanics of Passion, um anúncio muito escheriano da Cartier, realizado, desta vez, por Christophe Hewitt.

Marca: Cartier. Título: L’Odyssée de Cartier. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direção: Bruno Aveillan. França, Março 2012.

Marca : Calibre de Cartier. Título: Mechanics of Passion Episode II. Produção : Moonwalk. Direcção: Christophe Hewitt. França, 2011.

À volta da lareira

Ao fim de semana, chovem menos anúncios. Boa maré para a pesca nos baús de antiguidades. À primeira sondagem, três relíquias: uma, ternurenta; outra, ousada; e a última, “nojenta”. Estes anúncios davam para uma aula de sociologia: o primeiro, a constituição de blocos de classes e fracções de classe, segundo Karl Marx; o segundo, a persistência das estruturas antropológicas do imaginário, segundo Gilbert Durand; e o terceiro, a força coerciva do grupo, segundo Emile Durkheim. Tudo sob o signo do fogo.

Anunciante: Real Fire. Título: Dog, Cat, Mouse. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1989.

Anunciante: Real Fire. Título: Python. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1990.

Marca: Coca-Cola. Título: Round the fire. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Josh Taft. Argentina, 2006.

O ouriço-cacheiro: a road movie

Gosto de ouriços-cacheiros. Os agricultores, também. Porque os ouriços se alimentam de animais nocivos, tais como lesmas e escaravelhos. Um ouriço atropelado representa uma falha na protecção das colheitas. Gosto deles, mas não lhes toco, numa espécie de encontro mediato do 4º grau. Os ouriços não disfarçam, têm os espinhos à vista. Deus não estava cansado quando os criou, ao contrário de certos humanos que, se fossem transparentes como os ouriços, ninguém abraçaria. Retomando o anúncio. Os carros Volkswagen são quase como os ouriços-cacheiros. A gente, em princípio, pode tocar-lhes, mas, na prática, não consegue. Faz sentido a sugestão do anúncio: contentarmo-nos, como os ouriços, com a contemplação do símbolo, do logótipo pendurado na nossa impotência.

Anunciante: Volkswagen. Título: Hedgehogs. Agência: Agence.v.Paris, Saint-Ouen. França, Novembro 2011.

Quem fala de ouriços-cacheiros também pode falar de toupeiras. Acrescento um anúncio, com animação 3D,  já antigo mas bem humorado, com a particularidade de recuperar a música de um filme de Jacques Tati.