A crise chega aos animais do presépio

O Papa dispensou a vaca e o burro do presépio, não obstante tantos séculos de antiguidade e uma assiduidade irrepreensível. Logo no meio desta crise. Mas a vaca e o burro não baixam os braços. São animais pró-activos. Este anúncio da Opal conta toda a história. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Opal Publicidade. Natal Vitae. Dezembro 2012.

Opal Publicidade. Natal Vitae. Dezembro 2012.

Anunciante: Opal. Título: Natal Vitae. Agência: Opal Publicidade, Porto. Direcção artística: Tiago Ribeiro e Gonçalo Santos. Portugal, Dezembro 2012.

 

A Arte pela Arte

Gautier. AvatarEste anúncio, Let Art Decide: Dog, remete-nos para a divisa “a arte pela arte”, adoptada por Théophile Gautier nos anos 1830. Pierre Bourdieu considerou esta divisa como a expressão mais emblemática da autonomia do campo da arte. Como reivindica este anúncio, “a arte pela arte” requer que a avaliação das obras artísticas se paute exclusivamente por princípios e critérios intrínsecos à arte, emancipando-se, assim, da moral, da religião, da economia e da política. Téophile Gautier escreveu vários textos fantásticos, entre os quais Avatar (1856), um conto em que as almas das personagens migram de corpos em corpos. Segue o pdf em português: Théophile Gautier. 1856 Avatar.

Anunciante: Art Directors Club. Título: Let Art Decide – Dog. Agência: The Conquistadors Collective. Direção: Jordi Soler. EUA, Dezembro 2012.

Anúncio vintage

1300576213-17Há anúncios que, ano após ano, reaparecem nos ecrãs. Lembro-me de marcas como Old Spice, Ferrero Rocher ou Nespresso. O fenómeno é antigo: em Itália, o Martini, e em França, os anúncios Fruit d’Or, com Tintim, e Panzani, com Don Camillo, resistiram longos anos. Mas estes anúncios venceram o tempo renovando-se. Apresentam novas versões. Não é o caso deste anúncio da agência kbs+p para o perfume Acqua di Gioia, de Giorgio Armani. Estreado em 2010, mantem-se tal e qual nos ecrãs. O que é que ele tem que os outros não têm? A música “Arrival of the Birds”, dos The Cinematic Orchestra? Ajuda, mas não basta. A modelo norte-americana Emily DiDonato? Também ajuda, mas não basta… O que é que este anúncio tem que os outros não têm?

De perder a vista

HD+. Abandoned.O terror é boa receita! Nos anúncios e não só. É um excelente contraponto seja lá ao que for, desde tecnologias prodigiosas a experiências de encantar. Gera picos de emoção quase instantâneos. Depois dos tempos de cólera, aguarda-se o amor em ambientes de arrepio. Uma boa oportunidade para investir neste nicho do mercado. A empresa poderia chamar-se “O Cupido da Transilvânia”, “A Gárgula do Amor” ou “A Orgia dos Zombies”. Peço desculpa por este coro de asneiras mas acontece-me, por vezes, entrar em disforia asnática. Nada a fazer, só aguardar que passe.

Marca: HD+. Título: Abandoned. Agência: Hello, Munich. Direção: Misko Iho. Alemanha, Outubro 2012.

Feliz Natal

Riu, riu chiu é um cântico de Natal espanhol do séc. XVI, que alguns atribuem a Mateo Flecha, o Velho (falecido em 1553). Dá para ouvir dentro e fora da igreja. A interpretação é de The Sixteen, sob a direcção de Harry Christophers. Boas festas!


Riu, riu chiu (letra):

Refrão:
Riu, riu, chiu
La guarda ribera
Dios guarde el lobo
De nuestra cordera.

El lobo rabioso la quiso morder,
Mas Dios poderoso la supo defender;
Quisole hazer que no pudiesse pecar,
Ni aun original esta Virgen no tuviera.
Riu, riu, chiu, etc.

Este qu’es nascido es el gran monarca,
Cristo patriarca de carne vestido;
Hanos redimido con se hazer chiquito,
Aunqu’era infinito, finito se hizera.
Riu, riu, chiu, etc.

Muchas profecias lo han profetizado,
Y aun en nuestros dias lo hemos alcancado.
A Dios humanado vemos en el suelo
Y al hombre nel cielo porqu’er le quisiera.
Riu, riu, chiu, etc.

Yo vi mil Garzones que andavan cantando,
Por aqui bolando, haciendo mil sones,
Diziendo a gascones Gloria sea en el cielo,
Y paz en el suelo qu’es Jesus nascieta.
Riu, riu, chiu, etc.

Este viene a dar a los muertos vida
Y viene a reparar de todos la caida;
Es la luz del dia aqueste mocuelo;
Este es el cordero que San Juan dixera.
Riu, riu, chiu, etc.

Pues que ya tenemos lo que desseamos,
Todos juntos vamos presentes llevemos;
Todos le daremos nuestra voluntad,
Pues a se igualar con el hombre viniera.
Riu, riu, chiu, etc.

Bedford Hours. 1430. London, British Library.

The Nativity. Bedford Hours. 1430. London, British Library.

Labirintos portáteis

Samuel Steinberg

Samuel Steinberg

Os labirintos fascinam-nos. Ou não se consegue entrar, ou não se consegue sair. Para os maneiristas, o labirinto eranem mais nem menos do que a imagem do mundo. Os labirintos mais emaranhados começam em nós. São, antes de mais, labirintos de espelhos. Os desenhos do artista norte-americano de origem romena Saul Steinberg (1914-1999) retratam bem os contornos destes labirintos pessoais.

Saul Steinberg.The Family, in The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg.The Family, in The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg,The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg,The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steiberg. Untitled. 1957

Saul Steiberg. Untitled. 1957

Hedonologia

“Que prazer ter um livro para ler e não o fazer”…  Quem me dera ser hedonólogo! Dominar a “ciência do prazer” (Amado, Casimiro, 2006, Axiologia Educacional, Universidade de Évora). Mas já não vou a tempo.

Dustin O’Halloran. Opus 23. Piano Solos Vol. 2. 2006.

Dustin O’Halloran é um jovem pianista norte-americano residente na Alemanha. Ouvi pela primeira vez o seu Prelude 2 no anúncio A Rythm of Lines, da Audi (2007). Dustin O’Halloran presta-se à ciência do prazer. Seguem os vídeos respeitantes à composição Opus 23 e ao anúncio A Rythm of Lines.

Marca: Audi A5. Título: A Rythm of Lines. Agência: BBH, London. Reino Unido, 2007. Música: Prelude 2, de Dustin O’Halloran.

Até que a morte nos separe

Impacto é coisa que não falta a esta campanha da APAV. Tão pouco esmero técnico e estético. Bem preparado, o volte face final é, no mínimo, surpreendente. Esta campanha, “até que a morte nos separe”, com anúncios na imprensa e na televisão, “participou no concurso internacional Create 4 the UN – “SAY NO to Violence Against Women”, promovido pela ONU, sendo selecionada como uma das 15 melhores campanhas”.

APAV. Até que a morte nos separe. Lintas. 2012

APAV. Até que a morte nos separe. Lintas. 2012

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima enuncia os propósitos da campanha do seguinte modo: “As imagens veiculadas nesta campanha implicam uma reflexão sobre os contrastes existentes nesta problemática, os quais podem confundir ou toldar a sua visibilidade social. Assim, a campanha, inclui, por exemplo, dois retratos de mulheres vítimas de violência doméstica, as quais apresentam marcas da vitimação no rosto e pescoço. Estas mulheres estão vestidas de noiva, segurando ramo de flores e ostentando anel de noivado e aliança de casamento. Acompanha-as a frase «Até que a morte nos separe», a qual remete para a existência de um crescente número de mulheres vítimas de violência doméstica que são assassinadas pelos seus maridos ou companheiros conjugais” (http://apav.pt/apav_v2/index.php/pt/main-menu-pt/384-campanha-apav-25-novembro-dia-internacional-pela-eliminacao-da-violencia-contra-as-mulheres).

Anunciante: APAV. Título: Até que a morte nos separe / Bride. Agência: Lintas. Direção: Miguel Coimbra. Portugal, Dezembro 2012.

Toda a campanha coloca a ênfase no matrimónio. No anúncio para a televisão, a noiva percorre todos os momentos emblemáticos do matrimónio, até à revelação final. Nos retratos, as mulheres estão vestidas de noiva. Será que se pretende associar a violência doméstica ao matrimónio? Assim se pode pensar, assim se pode sentir. É certo que em grande parte dos casos o agressor é o marido. Significa isso que a violência doméstica decorre do matrimónio? Existem mais riscos de violência num casamento do que numa união de facto? Do que entre namorados? Do que entre amantes? Graças à sua longa experiência, ninguém está mais habilitado do que a APAV para responder a estas perguntas. A violência doméstica está a aumentar. Em contrapartida, as denúncias estão a diminuir. É nesta realidade que nos devemos concentrar. É esta a realidade que urge combater.

Move on to hell

RIPUm anúncio indiano fantasmagórico: sete palmos abaixo da terra, procuram-se óculos!

Anunciante: Fastrack. Título: Move on to hell. Agência: Fisheye Creative Solutions, Bangalore. Índia, Dezembro 2012.

Com o euro na garganta

O euro anda a fugir-me dos bolsos e a atravessar-se na garganta.

Desde a adesão ao euro, a taxa de crescimento do produto interno bruto desceu, com uma ou outra oscilação, de 3,2 (em 1999) para -1,5% (em 2011). Desde o ano 2000, a taxa não atingiu uma única vez o valor de 2% (Gráfico 1). Não sendo o mais acentuado, este é o decréscimo do PIB mais persistente desde 1960.

Gráfico 1Fonte: Eurostat

Com a adesão ao euro, perdemos duas opções cruciais da política monetária: a desvalorização da moeda e a fixação das taxas de juro. Isto não significa que ficamos sem política monetária; temos uma política monetária gizada à escala da União Monetária Europeia, mais precisamente, uma política monetária condizente com a realidade dos grandes países europeus, realidade diferente da nossa. Keynesiano por formação, não descuro Milton Friedman: os instrumentos monetários são decisivos na condução da política económica. Neste sentido, a intervenção na Grécia, na Irlanda e em Portugal pode ser encarada como uma “experiência”. Está-se a lidar com crises económicas e financeiras graves sem o auxílio dos instrumentos clássicos da política monetária. Estamos perante uma política neoliberal reciclada. Incide sobre o orçamento e apoia-se na iniciativa do governo, sobretudo em termos das ditas reformas estruturais. Mantém, no entanto, a tradicional luta contra o défice e a aposta no emagrecimento do Estado. O que lembra uma espécie de harakiri do Estado numa ópera trágica interpretada por uma troupe de governantes, peritos e bufões ansiosos.

Sem política monetária própria, um país expõe-se a ser palco de incongruências demasiado perniciosas devido às ilusões induzidas.

Gráfico 2 Fonte: Eurostat.

Nos primeiros anos do euro, até 2006, a taxa de inflação em Portugal e na Irlanda fixou-se acima da média europeia, ultrapassando anos a fio as taxas de juros fixadas pelo Banco Central Europeu. Esta distância foi particularmente acentuada entre 2001 e 2005 (Gráfico 2).

Gráfico 3. Endividamento das famílias

Gráfico 3 Fonte: Banco de Portugal, Relatório de Estabilidade Financeira, Nov. 2012.

Este desvio entre a dinâmica económica e a política monetária contribui para o embaratecimento do dinheiro, sem que tal se traduza necessariamente, como alerta Milton Friedman, num incremento da produção. Este cenário favorece a eclosão de um optimismo consumista alimentado pela ilusão de um aumento duradouro do poder de compra. O embaratecimento artificial do dinheiro e o optimismo consumista concorreram para a bolha do imobiliário na Irlanda e para o ritmo acelerado de endividamento das famílias em Portugal: o endividamento das famílias com a habitação, rubrica mais sensível, passou de menos de 60% do rendimento disponível, em 2000, para mais de 90%, em 2006 (gráfico 3).

De dois em dois séculos, Portugal perde independência: em 1580, para os Filipes de Espanha; a seguir às invasões francesas, para o Wellington e para o Beresford de Inglaterra; agora, para a União Europeia. Emprestam dinheiro e, por tabela, ajudam a governar, dando ordens. Ordens, não! Fixam metas e os caminhos para as alcançar: défice público, idade da reforma, vencimentos da função pública, legislação laboral, prestações sociais… Trata-se de uma intervenção, de uma tentativa solidária. Nunca antes se lidou com um desafio como o da Grécia, da Irlanda e de Portugal: conseguir uma quebra drástica do défice público sem recurso aos instrumentos da política monetária. Resta, pelos vistos, dosear a injecção com libertação controlada de empréstimos com um emagrecimento do Estado e da população. Caso não baste ou sobrevenham efeitos perversos, volta-se a tentar, com novas doses.

A compreensão de um fenómeno passa, frequentemente, pela escolha de uma palavra para o dizer. Portugal está a viver sob o signo da poda. A União Europeia quer e o Governo manda: poda aqui, poda ali, poda acolá. O mais rente possível. Porque se acredita que os países, os estados e as pessoas são como as árvores. Quanto mais severa for a poda, mais vigorosos serão os novos rebentos. Se for preciso, corte-se até às raízes. Vivemos tempos de grande poda!