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GUIMARÃES JAZZ 2020

GUIMARÃES JAZZ 2020

Apesar da pandemia, ocorreu, de 12 a 22 de novembro de 2020, a 29ª Edição do Guimarães Jazz. Os obstáculos requerem engenho e inovação. Recorrendo sobretudo a músicos portugueses e estrangeiros a residir em Portugal, o Festival assumiu

um olhar mais alargado do que o habitual sobre o panorama musical nacional, catalisando novas colaborações e suscitando diferentes aproximações artísticas. Apesar das limitações impostas pelas contingências, o Guimarães Jazz mantém-se fiel à sua identidade, sustentada no ecletismo e numa grande abertura estilística e geracional” (Ivo Martins).

A proximidade de um festival com a qualidade e a originalidade do Guimarães Jazz é uma bênção. Apetece acreditar que a cultura está ao nosso alcance. “Pula e avança como uma bola colorida ” (António Gedeão, Pedra Filosofal).

GUIMARAES JAZZ 2020 | Aftermovie. A Oficina. 2020.

Um milhão de visualizações

As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

René Magritte. Golconda. 1953.

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade,  a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.

Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Tabela 1. Visualizações do Tendências do Imaginário por país. 07.12.2020.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267.  Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

Tabela 2.Artigos do Tendências do Imaginário mais visualizados.07.12.2020.

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.

Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.

Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.

Judy Collins. Send in the Clowns. Judith. 1975. Ao vivo em 1976.
Judy Collins & Leonard Cohen. Suzanne. Ao vivo em 1976.

A importância dos objetos

A importância dos objetos. Pietro Cavallini (1250 – 1330), o Romano. Adoração dos Magos. Basílica de Santa Maria in Trastevere. Pormenor.

Separados pelo confinamento, avô e neta aproximam-se graças às novas tecnologias e a um pequeno urso de peluche. Os objetos são bons meios de comunicação e comunhão. Uma jangada de afetos. Um anúncio da NOS, pela agência HAVAS Portugal.

Marca: NOS. Título: Separação. Agência: HAVAS Portugal. Direção: João Nuno Pinto. Portugal, novembro 2020.
Do Natal aos Reis. Catarina Moura, César Prata e Ariel Ninas. “Cantar de ls Reis” em mirandês. Santuário de Nª Srª da Nazaré. 4 Janeiro 2019.

Testamento

Vanitas ‘Last will & Testament’- English school of the 17th century.

Primeiro anúncio: Se existem anúncios a agências funerárias (ver https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/), por que não a associações de notários? A morte é um negócio que, pelos vistos, os cogumelos alimentam. Convém não esquecer o testamento.

Segundo anúncio: Velho Testamento; Novo Testamento; Testamento indeciso. “Se não não tem de quem goste, pense em nós”, contemple uma instituição de solidariedade social.

Anunciante: Chambre des Notaires de la Gironde. Título: Le Testament. Agência: Le Vestiaire. Direção: Antoine Lassort. França, novembro 2018.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao anúncio.

Anunciante: Tcs – hospiz rennweg. Título: Anti-exclusion – Old Testament. Agência: Film Factory. Áustria, 2001.

Surtos

“O Secretário Adjunto de Estado e da Saúde, António Lacerda Sales, anunciou na habitual conferência de imprensa para dar conta da evolução da pandemia, que estão identificados 477 surtos em escolas em todo o país, mas este número reflete a situação em todo o território. Um comunicado do Ministério da Saúde indica que nos estabelecimentos de ensino se registavam 68 surtos a 16 de novembro
Portugal tem 68 surtos ativos de infeção em escolas pelo novo coronavírus, de acordo com um comunicado emitido pelo Ministério da Saúde e que corrige a informação prestada esta sexta-feira pelo secretário de Estado da Saúde, que indicou haver 477 surtos ativos em estabelecimentos de ensino quando este número se refere ao total que se verifica no país.
“Os surtos identificados” a 16 de novembro, esclarece a nota do Ministério, “distribuem-se da seguinte forma: 3 na ARS Norte, 11 na ARS Centro, 50 na ARS LVT, 2 na ARS Alentejo e 2 na ARS Algarve, no total de 68 em todo o Continente”” (https://expresso.pt/sociedade/2020-11-20-Covid-19.-Ministerio-corrige-o-secretario-de-Estado-da-Saude-ha-68-surtos-de-infecao-ativos-em-escolas).

Falta ou descoordenação da informação? Divergência de critérios? Ou desaparecimento fugaz de mais de quatrocentos surtos?

Saber, através do Ministério da Saúde, que existem 68 surtos de infeção nas escolas ou saber pela FENPROF, que existiam, a 11 de Novembro, 695 estabelecimentos de ensino com casos de Covid-19 pouco me elucida. O caso mudaria de figura se fossem as escolas as infetadas em vez dos alunos, dos professores ou dos auxiliares. Não se trata, porém, de reparar telhados mas de proteger vidas humanas.

Tropecei, imprudentemente, na palavra “surto”. A partir de que quantitativo começa um surto? Recorri ao glossário do Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novocoronavírus (COVID-19), de 2020:

“Surto – Ocorrência de um número de casos de uma doença, superior ao que seria considerado expectável, numa determinada população durante um período de tempo bem definido” (https://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/03/Plano-de-Conting%C3%AAncia-Novo-Coronavirus_Covid-19.pdf).

Estou esclarecido! Quando contam 68 surtos não sei o alcance. O que gostaria de saber era uma estatística simples e escorreita. Quantos alunos foram infetados com a Covid-19 desde o início das aulas até à presente data? Qual é a curva da evolução das infeções? Qual é a percentagem na respetiva população? E os professores? E os auxiliares?Trata-se de vidas humanas, independentemente de qualquer agregação.

Assim embalados, estes números suscitam suspeitas. Mas estou convicto de que não existe motivo para suspeição. Apenas opções estatísticas! . Aguardava, há uns dias, publicação oficial sobre a Covid-19 nas escolas. Essa informação acabou por ser facultada. Fiquei a saber um pouco mais que nada.

Kraftwert. Pocket Calculator. Minimum-Maximum Notebook. 2005.

Jornalismo zombie

Canal Q. Perto de si. 2018.

Sempre desconfiei da televisão e da Internet por cabo. No solo, existem raízes, minhocas, água e labaredas infernais. Notícias e imagens, não! Com estas novidades, desencovam-se jornalistas zombies, como sucede no anúncio The Zombie, da dinamarquesa TV2 (2020). Os portugueses descobriram o caminho marítimo para a Índia. Pois também descobriram, antes dos dinamarqueses, a figura do jornalista zombie. Atente-se na curta-metragem da Agência Q: Perto de Si, a série sobre jornalistas zombies | Inferno (2018).

Marca: TVE 2. Título: The Zombie. Dinamarca, Outubro 2020.
Agência Q: Perto de Si, a série sobre jornalistas zombies | Inferno T8 Ep.35. Portugal, 2018.

Sem máscara

Máscara Reutilizável personalizada.

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.

O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.

Marca: One Medical. Título: You’re Freaking us out. Agência: Goodby Silverstein & Partners and barrettSF. Direcção: Jeff goodby & jamie Barrett. Estados-Unidos, Outubro 2020.

Que bom ser bom

Tintoretto. The Murder of Abel. 1551-52

Que bom ser bom

Proteger as pessoas e os animais

É tão bom ser bom

Preocupar-se com os outros

Mais do que os próprios

Que bom ser bom

Salvar os impenitentes

E resgatar os náufragos

Que bom ser bom

Subir pelas escadas do bem

Até ao cume da bondade

E converter de altas alturas

Os rebanhos cevados a erva daninha

Que mau ser banal

Sem chamamento, missão ou apostolado

Que mau ser mau (AG)

Sérgio Godinho. O Novo Normal. O Novo Normal. 2020.

Morrinha

Moledo do Minho visto de Santa Tecla.

Em Moledo, sinto-me galego. Quando a chuva é miudinha, há quem lhe chame morrinha. Na Galiza, a morriña é um sentimento de melancolia com enxerto de saudade. Seguem dois cantos a Galiza distintos: Romeiro Ao Lonxe, dos Luar Na Lubre, e Un Canto a Galicia, de Júlio Iglesias, ao vivo com Amália Rodrigues.

Luar Na Lubre. Romeiro ao lonxe (con Diana Navarro). Ao vivo. 2009.
Júlio Iglesias (com Amália Rodrigues). Un Canto a Galicia. Ao vivo. 1980.

Lembrete. O efeito Frankenstein.

Publicidade antitabaco.

Na embalagem de cigarros, uma imagem deveras feia: uma perna com cortes e suturas (ver, no mosaico, a imagem em baixo à direita). Quem, por coincidência, aguarde cirurgia à perna, não por obstrução das artérias mas por uma veia alargada, deve agradecer esta simpatia ou lembrete de Estado. Não há nada como a propaganda de massas a exalar falta de decoro. Quando o bem se diz com choque é chocante. É terrível e histórica a tentação de pregar o bem com o mau.

Serge Gainsbourg com Catherine Deneuve. Dieu fumeur de havanês. Single. 1980.