Que contento estoy!

Alguém se lembra do boneco Macario de um programa de humor da televisão espanhola dos anos oitenta? Celebrizou a expressão “Que contento estoy”. Pois, que contento estoy! Por um lado, terminei um prefácio que se arrastava; por outro, Bruno Aveillam, o meu realizador preferido de anúncios publicitários, acabou de colocar três corações no meu artigo Beleza Tranquila, de 13 de junho de 2026.
Imagem: Starlux puzzle. Macario. Detalhe
Em jeito de celebração, resgato três “artigos do dia” com anúncios notáveis: O sorriso dos alimentos, de 2020; Do You Fantasy?, de 2014; e Uma espécie de spoiler, de 2012, este último com um anúncio dirigido referido pelo próprio Bruno Aveillan. Acrescento um pequeno excerto de um episódio do programa “Jose Luis Moreno y su Macario”.

Miscelânea visual

As agências de produção audiovisual costumam publicar miscelâneas (“medleys”) de vídeos como forma de autopromoção. Algumas raiam a arte. Creio ser o caso de “Showreel”, da agência de pós-produção alemã The Marmalade, anúncio contemplado no artigo A engenharia da imagem, de 10 de julho de 2016. Um regalo duplo: para a vista e para o ouvido.
Herança cultural e identidade de proximidade

O oráculo das boas causas (09.07.2016; restaurado)

Bater-se por uma causa justa é já uma vitória (Anónimo).
Identidade e convívio (09.07.2026)
O anúncio “Inzalo Yelanga” mantém uma linha de comunicação que a Castle Milk Stout tem vindo a desenvolver há vários anos: usar a publicidade não apenas para promover a cerveja, mas também para refletir sobre identidade, herança cultural e relações familiares. A própria marca descreve o filme como um convite a “passar tempo com aqueles que amamos, fazendo aquilo que realmente importa, valorizando o tempo que temos e estando verdadeiramente presentes no momento”…
Ao longo da vida, as pessoas passam grande parte dos seus dias preocupadas com trabalho, obrigações e distrações, acreditando que haverá sempre outra oportunidade para estar com a família ou para dizer aquilo que realmente importa (…) O verdadeiro legado de uma pessoa não é aquilo que possui, mas sim o tempo que dedica aos outros e as memórias que ajuda a construir…
O filme mostra momentos aparentemente simples — encontros familiares, conversas entre gerações, crianças e adultos a partilhar o quotidiano — sugerindo que são precisamente esses instantes que acabam por definir uma vida (…) A cerveja surge apenas no final, integrada como símbolo de convivência e celebração, e não como protagonista da história…. (ChatGPT, 08/07/2026)
A expressão “Inzalo Yelanga” vem das línguas nguni e evoca ideias como: os filhos da luz; aqueles que pertencem a uma mesma linhagem ancestral; a continuidade da vida através das gerações; e o legado transmitido entre avós, pais e filhos (…) O título “Inzalo Yelanga” funciona em dois níveis ao mesmo tempo:
Pessoal, porque fala da família, dos filhos e do legado que deixamos às pessoas mais próximas.
Civilizacional, porque sugere que todos fazemos parte de uma corrente muito maior, recebendo um património cultural dos nossos antepassados e tendo a responsabilidade de o transmitir às gerações seguintes.É precisamente essa dupla leitura que torna o título tão poderoso: o anúncio parece falar apenas de momentos familiares, mas, no fundo, está a refletir sobre o que significa pertencer a uma linhagem e sobre a forma como o tempo transforma presença em herança (ChatGPT, 08.07.2026).
Colar sem pérolas

Este blogue está cheio de retângulos negros correspondentes a vídeos que se tornaram inacessíveis. Autênticas pérolas desaparecidas de um colar. Costumo recuperar essas falhas, procurando endereços alternativos. Mas, às vezes, a missão resulta impossível. Aconteceu, ontem, com o vídeo “La terre se rechauffe”, imputado à General Electrics em 1936 (ver O aquecimento global em 1936, 05.07.2012).
Após horas de pesquisa, com a ajuda da IA, não o desencantei. Trata-se, contudo, de uma peça de arquivo de enorme valor. Parece asseverar-se mais fácil encontrar vestígios de uma gravura do século XVII do que a fonte de uma obra digital do século XXI.
Aprende-se com a experiência. Doravante, não me contentarei em atualizar o acesso online dos vídeos cujo rasto não quero perder; passo a descarregá-los e a gravá-los num disco duro “frio”. O mundo da Internet é demasiado efémero!
Encontrei nos “artigos do dia” dois vídeos desativados: os anúncios “Le Secret”, da L’Oréal, no artigo Emancipação, de 2016, e “The Look”, da P&G (Procter & Gamble), no artigo Não é por mal! A discriminação natural, de 2019. Como não arrisco perder o segundo, gravei-o!
Escrevi este artigo à pressa. Quero acabar um prefácio. Regressarei mais tarde para o aprimorar.
Língua e visão do mundo

As palavras são decisivas. Segundo Ferdinand de Saussure (Cours de linguistique génerale, 1916), a língua organiza a perceção e a experiência humanas; fornece os quadros conceptuais, os sistemas de diferenças e valores, através dos quais pensamos e interpretamos. A existência ou falta de palavras distintivas para dizer uma dada realidade influencia o modo como a apreendemos e expressamos. O anúncio “Always”, no artigo “No princípio, era a palavra”, representa um bom exemplo.
Caminho Negro e Descontrolo

Recoloco o artigo “Para além da virilidade”, de há 12 anos. Aproveito para restaura o anúncio “The Visit” (2014), do Instituto Nacional de Enfermedades Neoplásicas, assim como para acrescentar o anúncio “Descontrol” (2015), da Movistar, e o vídeo musical “El Camion” (1992), dos AGuiRRe, todos sob a direção de Jorge Caterbona, realizador argentino ativo no Perú. Um pretexto, também, para visitar este país andino.
El Camion
Iba por el camino negro
muy contento en mi camion
Iba por el camino negro
rumbo a la demolicion.-Iba por el camino negro
cuando la cana me paro
me pidieron los tomates
para la reparticion.-Buenas curvas
las curvas nuevas de mi pais
buenas rutas
las rutas viejas de mi pais.-Iba por el camino negro
cuando una rubia me paro
me pidio unos pesitos
para ejercer la profecion.-Buenas curvas
las curvas nuevas de mi pais
buenas putas
las putas viejas de mi pais.-Iba por un camino negro
rumbo a la demolicion
Iba por el camino negro
sin saber la solucion.-Voy por el camino negro
con la rubia en el faldon
Voy por el camino negro
muy contento en mi camion.-Voy por mi camino
Voy por mi destino.-
Amor de filha

Às vezes, felizmente cada vez menos, ainda me dá para escrever artigos com trejeitos académicos. Estou convencido que a ideia e o sentimento passariam melhor com meia dúzia de versos bem cantados. A transbordar inspiração e ternura, o anúncio polaco “Masquerade”, colocado em julho de 2017, merecia outra abordagem, mas nem sempre o violino está à mão ou, então, anestesiado, desafina.
Paula Rego – Happy Family – Mother, Red Riding Hood and Grandmother, 2003
Nas nuvens

Quase todos os anos escrevo um artigo a agradecer os votos de bom aniversário. Hoje, com a ida a Melgaço, não sobrou tempo. Não faz mal: aumentam os anos e diminuem os artigos e a estatura. Mas continua a vontade de voar e de comunicar. E de sonhar, também. A amizade ajuda. Recoloco, tardiamente, dois artigos que convocam este espírito: “Memória reincidente” (2020) e “Novidade e originalidade” (2017).


