Comida pornográfica. Anúncio censurado

Devour. Food Porn. 2019

As línguas evoluem graças a dinâmicas internas, externas e entrelaçadas. O surgimento de uma nova palavra ou de uma nova sintaxe é natural. Mas há casos estranhos. Por exemplo, o termo “adição” para designar a dependência à droga, ao álcool, ao jogo, ao sexo, à Internet… Na língua inglesa, “addiction” significa “an inability to stop doing or using something, especially something harmful: drug addiction” (Cambridge Dictionary). Na língua portuguesa, adição é sinónimo de soma. “Addiction”, em inglês, e adição, em português, não possuem, como diria Ferdinand Saussure, o mesmo valor. O inglês contempla o adjectivo addicted: “unable to stop taking drugs, or doing something as a habit”. E o português? Adicionado? Adido? Aditado? Talvez, adicto. As línguas evoluem para cima, para baixo, por dentro e por fora. O português e, pelos vistos, o francês evoluem muito de fora para dentro, por enxertos e injecções importados via marítima. No anúncio Porn Food, da Devour, as legendas em francês convocam, inicialmente, o termo tradicional accro (preso); acaba, todavia, com a palavra addiction (dependência). Não é um problema português, nem francês, mas uma atitude própria de “lorpalândias”. Habilidades de jornalistas? De professores? De cientistas? De artistas? De políticos? De tradutores? Há quem sinta dificuldades em se exprimir em português. Não desfazendo, uns barbarian addicts. Cá com os meus tamanquinhos, só quando me faltarem as palavras é que vou pescar estrangeirismos. À “adição” e ao “adicto”, prefiro dependência, dependente, vício, viciado, vicioso e viciar.

Porn Food é um anúncio cuidado. Não é por menos, paga uma fortuna para passar nos intervalos do Super Bowl. Trata-se de uma paródia dos estereótipos sobre as dependências recorrendo ao próprio produto. Uma ironia arriscada. Por sinal, durante o Super Bowl passa, não esta versão longa, mas, segundo a Adweek, uma versão de 30 segundos sem a palavra Porn; ou, segundo notícia mais recente do Observador, nem sequer essa miniatura. Liminarmente censurado! Assim anda o mundo: aqui, adita-se, lá, subtrai-se.

“Devour created two versions of its Super Bowl spot, a longer spot that uses the word “porn” and a shorter version that doesn’t, since the word “porn” isn’t supposed to be uttered during a Big Game spot. The Kraft-Heinz brand released the longer version of the ad earlier this month. Today, the company has unveiled the shorter 30-second spot that will run during the third quarter of the Super Bowl” (Adweek, 31.01.2019: https://www.adweek.com/brand-marketing/heres-the-30-second-censored-version-of-devours-food-porn-super-bowl-spot/).
“Vieram a público dois anúncios criados para o Super Bowl banidos pela CBS. Um fala do uso medicinal da canábis, outro de “food porn”. Nunca vão ver a luz do dia no Big Game (…)A tradição de eliminar anúncios de cariz sexual também se manteve na edição número 53 do Big Game. No passado, já aconteceu com as publicidades criadas por páginas como o site pornográfico PornHub, o site de encontros online Man Crunch ou com a Bud Light, uma versão mais leve das famosas cervejas Budweiser. Este ano não foi excepção e a CBS baniu uma publicidade chamada “Food Porn” criada pela Devour, uma marca de comida congelada (Observador, 02.02.2019: https://observador.pt/2019/02/02/canabis-e-food-porn-os-dois-anuncios-banidos-do-super-bowl-deste-ano/).

Marca: Devour. Título: Food Porn. Agência: David Miami. Estados Unidos. Janeiro 2019.

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