Cavalgada de imagens
Vim a banhos, banhos de solidão.
O anúncio Actitud de Campeones, da Pony Malta, lembra um carrossel de imagens em corridinho. A explosão e a aceleração das sequências provocam palpitações no olhar e soluços no cérebro. Parece a Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner. Um cavalo à solta, “este corcel que não sossego à desfilada no meu peito (José Carlos Ary dos Santos). Uma “passagem para o breve, breve instante da loucura” (idem). Potência, desejo, tonificação… Aturdidos ou excitados, toma-nos a sede de vencer, a sede de beber, de beber Pony Malta, o mais milagroso dos remédios santos.
Marca: Pony Malta. Título: Actitud de Campeones. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Juan Carlos Beltrán. Colômbia, Agosto 2018.
Richard Wagner. Cavalgada das Valquírias. A Valquíria. 1856.
Fernando Tordo / Ary dos Santos. Cavalo à Solta. 1971.
Publicidade sem medo
É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.
Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.
Inversão de papéis
“Aruba es uno de los destinos más románticos del caribe. #HeSaidYes es una iniciativa de la Isla Feliz que invita a las mujeres a cambiar los roles del amor”.
Trata-se de uma inversão dos papéis de género num gesto densamente simbólico: o pedido de casamento. Um anúncio polémico? Sinais dos tempos? Crítica de clichés? Pequenos passos a caminho de grandes mudanças?
Ressalvando o Mamma Mia, o pedido de casamento é um ritual em vias de esvaziamento social e simbólico. Ainda do meu tempo, a família do futuro noivo deslocava-se a casa da futura noiva para pedir a sua mão. Algumas décadas atrás, negociavam-se os dotes e os contratos de casamento. Há alguns séculos, a comitiva da prometida deslocava-se em coche durante dias e dias para ir ao encontro do prometido. Quanto às novas gerações, vai chegar a altura em que um sms basta (ou talvez não).
Ao visionar o anúncio, insinua-se uma dúvida: quem influencia a escolha dos destinos turísticos? Ele? Ela? Ambos? Os filhos? Pelos vistos, elas são as mais influentes na escolha dos paraísos terrestres, como a ilha Feliz, em Aruba.
Marca: Isla de Aruba. Título: #HeSaidYes. Agência: Mullen Lowe Bogotá. Colômbia, Agosto 2018.
Saudades! Saudades de quê? De pedidos de casamento como o do anúncio Marry Me, da Siemens.
Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.
Música “tradicional” portuguesa
Em período de férias, aumentam as festas e diminuem as visualizações portuguesas do Tendências do Imaginário . Não ultrapassam os 17%. A minha praia anda demasiado ruidosa. Anteontem, os metal, ontem, os indie, hoje os tecno. Apetecem-me outras músicas. Dedico este ramalhete de músicas “tradicionais” portuguesas aos visitantes dos demais países. A selecção é arbitrária, incompleta e a meu gosto. Procura dar uma ideia da riqueza e da diversidade da música portuguesa.
Amália Rodrigues. Malhão.
Mariza. Barco Negro. Ao vivo na Sydney Opera House. 2006. Música original brasileira.
Dulce Pontes. Canção do mar. Lágrimas. 1993.
José Afonso. Milho verde. Cantigas de Maio. 1971.
Raízes. Boiada. Música tradicional portuguesa. 1982.
Brigada Victor Jara. Vira de Coimbra. Tamborileiro. 1979.
Brigada Victor Jara. Se fores ao São João. Tamborileiro. 1979.
Brigada Victor Jara. Pézinho da Vila. Eito Fora. 1977.
Brigada Victor Jara. Ao romper da bela aurora. Eito Fora. 1977.
Júlio Pereira. Vira velho. Braguesa. 1983.
Apagar o inferno
Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda da estética e do imaginário contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.
We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.
Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).
Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.
Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.
Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.
Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.
A sereia académica

HR Giger. Biomechanoid 75. 1975.
Vale a pena dedicar uns minutos à publicidade produzida pelas universidades para cativar candidatos. O anúncio Launch Yourself, da Universidade de Leicester, antecipa duplamente o futuro: o futuro prometido pelas universidades e o futuro presumido dos candidatos. Que sugerem as imagens? O Homem de Leicester parece lidar apenas com objectos. Nenhuma interacção humana! O ambiente do Homem de Leicester é a técnica e o interlocutor o objecto. A alquimia académica transforma uma distopia sinistra numa utopia excitante.
O que realmente importa numa realidade costuma ser aquilo que ela não contempla (neste caso, a interacção humana). A Universidade de Leicester tem as suas razões: sabe-se, desde há décadas, que o objecto é o futuro do homem e que a interacção humana é cada vez mais mediada por objectos. Até a relação sexual é mediada pelo preservativo. “Queda e ascensão do preservativo, eis a história sexual da segunda metade do século XX” (Philip Roth, The Dying Animal, London, Penguin, 2001, p. 68).
Marca: University of Leicester. Título; Launch Yourself. Agência: TBWA / Manchester UK. Direcção: Yoni Weisburg. Reino Unido, Agosto 2018.
A Mãe e a Guerra
Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.
O Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).
A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.
Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.
José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.
Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).
John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.
Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).
Adão, José & cia
Nascemos para ser pais! Cada vez menos. Nascemos para falhar! Cada vez mais. Nascemos, fatalmente, para ser filhos. Mas existem efemérides que nos resgatam. Por um dia, somos pais ideais. Hoje, domingo, 12 de Agosto, é o Dia dos Pais no Brasil.
Marca: O Boticário. Título: Pais; Agência: AlmapBBDO. Direcção: Luciano Podcaminsky & Heitor Dhalia. Brasil, Agosto 2018.
João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.
“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.
(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).
Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.
A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.
Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.
Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.
Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.
Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.
Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.
Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).





