Archive | Dezembro 2016

Linhas

hero-nadadoraUm “belíssima” anúncio da Peugeot. A raiar o mítico e o cósmico. Ela, terra; o carro, fogo, a água, água; a respiração, ar. O mergulho é fantástico. Lembra aquilo que nunca vimos: a Atlântida. O tridente de Neptuno, em vez da tocha da estátua da liberdade, indicia o fim de uma civilização. E um recomeço: o Peugeot 208, beleza e economia. Entretanto, nem sombra de carros nem de pessoas. O efeito é íntimo, com música a condizer.

Marca: Peugeot. Título : Nadadora. Agência : BETC São Paulo. Direcção: Marcello Lima. Brasil, Novembro 2016.

Usar a cabeça

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A bateria do smartphone está descarregada? Use a cabeça!

Marca: Metal Hammer. Título: Energy Mosher. Alemanha, Dezembro 2016.

Silêncio

Sem palavras.

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Anunciante: Swedish Ministry of Foreign Affairs. Título: Free The Speech. Agência: King (stockholm). Direcção: Johan Soderberg. Suécia, Dezembro 2016.

Simon & Garfunkel. The Sound ofSilence. 1964.

Selfesses: auto-retratos traseiros

culotte-madeinfrance-art-sarahvieilleEm tempo de obsessão pelo corpo e pela expressão corporal, não há recanto carnal que não seja digno de cuidado e exibição. O corpo fala, por todos os poros. Nem as partes mais íntimas se esquivam ao olhar público. Qualquer órgão ou pedaço de pele justifica filmagem, fotografia e divulgação. Trata-se de uma sobre identidade carnal contagiosa. Neste quadro, o rabo, outrora recatado, ascende às luzes da ribalta. La Bobette, marca francesa de culottes (calcinhas) deu um passo em frente: abriu, com sentido de oportunidade empreendedora, um concurso de auto-retratos do rabo em Instagram. As selfies abrem a porta às selfesses. A nossa outra reflexividade. O rabo merece! Mas desencante-se quem pensa que vivemos no limiar dos tempos. A estética do rabo tem milénios. Contemporânea é, oscilando entre a farsa e a tragédia, a febre dos concursos, tantas vezes simulacros de democracia, burocracia e peritagem.

Marca: La Bobette. Título: Selfesse. Direcção: Marion Dupas. Produção: Frenzy Picture. França, Novembro 2016.

A donzela e a morte: morrer a teu lado

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Premiado com um óscar em 2014 (Her, melhor roteiro original) e realizador do filme Quero ser John Malkovich (1999), Spike Jonze destaca-se, ainda, como um dos mais consagrados realizadores de vídeos musicais. To die by your side é uma curta-metragem em stop motion. Uma história de amor entre uma donzela e um esqueleto que convoca várias figuras clássicas da morte: a dança da morte, o beijo da morte e o golpe da morte. Acrescente-se a crença de que a morte, mesmo quando apaixonada, acaba sempre por matar, involuntariamente, o ser amado. É a sua vocação e o seu destino. Um reparo: não é a morte, o esqueleto, que conduz a dança mas a donzela. A revista Time considerou To die by your side o melhor vídeo do ano (2011).

Spike Jonze. Mourir auprès de toi (To die by your side). Dir. Simon Cahn e Spike Jonze. 2011.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

Espírito de Natal

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Poor vs. Rich. funny-pictures-blog.com.

Existem realidades separadas que lucram em aparecer juntas. Nenhuma perde sentido e ambas o potenciam. Acontece com os anúncios da Cruz Vermelha da Bélgica e da Cultura, da França. Juntos, confirmam o contraste entre a sociedade da escassez e a sociedade da abundância. No primeiro, Le Dilemme, a família tem que optar entre celebrar o aniversário ou pagar a conta da electricidade. No segundo,  kdorigami, a embalagem sobrepõe-se ao conteúdo da prenda. “Avec Cultura, le papier cadeau est déjà un cadeau”. Em suma, duas figuras distantes: o oprimido e o blasé, a “cultura do pobre” (Oscar Lewis) e a “classe ociosa” (Thornstein Veblen).

Anunciante: Croix Rouge de Belgique. Título: Dilemme. Agência: Publicis Brussels. Direcção: David Greenwood. Bélgica, Novembro 2016.

Marca: Cultura. Título: Kdorigami. França, Novembro 2016.

Vibrações


Henry Purcell. Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione.

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Henry Purcell (1659-1695).

Que lembra esta música? Um trailer do Assassin’s Creed? O filme A Laranja Mecânica? A canção Iron, do Woodkid? A “Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione”, de Henry Purcell, é um expoente da música barroca. Permanece viva. A pergunta está mal formulada. Purcell não lembra Woodkid ou A Laranja Mecânica. Woodkid é que pode lembrar Purcell. Não são semelhantes, mas nada impede duas diferenças de se lembrar uma à outra. Devia ter invertido as posições: perguntar o que é que o Iron do Woodkid lembra? Talvez ocorra a alguém Henry Purcell e a Musica Per il Funerale Della Regina Maria.

Assim gira o mundo! Acanhado. De tão “comprimido”, o tempo parece anorexo. Encolhe-se no presente sem grande sobra para o passado. Qual é o lugar da memória? A memória comemora-se. No e para o presente, com ou sem funeral. Mais ou menos como um fato domingueiro pendurado num armário.

Woodkid. Iron. 2013.

Recomeço

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Adónis. Estátua de mármore restaurada no séc. XVII. Louvre.

Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
(Rafael Alberti, 1917-1999, Balada para los poetas andalúces de hoy. Ora Maritima. 1953).

O anúncio Del Potro, da Nike Argentina, exorta ao exercício físico e ao cuidado corporal. Te da ganas de ser un hombre. Tanta evidência é de desconfiar. O mais avisado é ouvir os responsáveis pelo anúncio:

“Después de una lesión que casi lo obliga a dejar el tenis, Juan Martín del Potro tuvo un regreso triunfal en 2016. Ganó la medalla de plata en los Juego Olímpicos y, este fin de semana, participó de la victoria del equipo argentino en la Copa Davis. Como un homenaje a todo este esfuerzo, Nike y BBDO realizaron una pieza audiovisual que se publicó antes de la final de la Davis.” (http://www.adlatina.com/publicidad/nike-y-bbdo-rescatan-la-esencia-del-%E2%80%9Cjust-do-it%E2%80%9D-en-la-historia-de-del-potro).

O anúncio centra-se no percurso de Del Potro, jogador de ténis argentino. Condiz com o lema: “Se a tua carreira chegou ao fim, começa uma nova”. Como é costume, esta pessoalização não obsta a leituras mais abrangentes. Pelo contrário, o particular, o “embaixador” Del Potro, ancora e alavanca o geral. Moral à parte, enfatiza-se a actividade corporal. Advoga o investimento físico e, em caso de acidente, o reinvestimento físico, rumo à excelência. With a little help from Nike. É a estética e a ética do guerreiro (Norbert Elias). Segue, a preceito, a canção de Edith Piaff: T’es beau tu sais (1960).

Marca: Nike. Título: Del Potro. Agência: BBDO Argentina. Direcção: Verónica Zetta. Argentina, Dezembro 2016.

Edith Piaff. T’es beau tu sais. C’est l’amour. 1960.

T’es beau tu sais

T’es beau, tu sais
Et ça s’entend lorsque tu passes.
T’es beau, c’est vrai.
J’en suis plus belle quand tu m’embrasses.
Je te dessine du bout du doigt :
Ton front, tes yeux, tes yeux, ta bouche.
Comment veux-tu dessiner ça ?
La main me tremble quand j’y touche…
T’es beau, mon grand,
Et moi, vois-tu, je suis si petite.
T’es beau tout le temps
Que ça me grandit quand j’en profite.

Reste là, ne bouge pas.
Laisse-moi t’imaginer.
T’as l’air d’être l’été,
Celui qui pleut jamais.
Reste là, bouge pas.
Laisse-moi quand même t’aimer.
Je ne peux même pas penser
Que je te méritais.

T’es beau, tu sais.
Ça m’impressionne comme les églises.
T’es beau, c’est vrai,
Jusqu’à ta mère qu’en est surprise.
Tu me réchauffes et tu m’endors.
Tu fais soleil, tu fais colline.
Viens contre moi, il pleut dehors.
Mon coeur éclate dans ma poitrine.
T’es beau partout.
C’est trop facile d’être sincère.
T’es beau, c’est tout.
T’as pas besoin de lumière.

Il était beau et c’était vrai
Mais la gosse ne le voyait pas,
Ses yeux perdus à tout jamais.
Il en pleurait
Quand il guidait ses pas.

T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai.
T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai…

Death Stranding

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O meu rapaz mais velho, o João, ofereceu-me este excelente artigo. Vai resgatar o Tendências do Imaginário da sonolência que o traz enfeitiçado.

Hoje faço uma breve interrupção na revisão de artigos para responder a um desafio que me foi colocado diversas vezes pelo meu pai, contribuir para o blogue dele. Tendo tropeçado na morte, um dos seus assuntos predilectos que é também o tema central de um projeto na Universidade do Minho, pareceu-me a ocasião apropriada para o fazer.

Death Stranding é um videojogo para Playstation 4 que será publicado pela Sony Interactive Entertainment. Se o título deixa antever temas nefastos, o trailer em que o jogo foi revelado confirma essa intuição.

Sem qualquer contexto, dificilmente poderíamos concluir que as imagens estão associadas a um videojogo. Por entre as carcaças de animais marinhos, cordões umbilicais e a nudez de Norman Reedus é necessário um exercício de criatividade para pensar como é que este deambular apocalíptico se poderá transformar em algo jogável. Há, no entanto, alguns fatores externos que ajudam a legitimar este delírio, o envolvimento de um grande estúdio da Sony, a contratação de atores conhecidos e, acima de tudo, a associação ao nome de Hideo Kojima, uma das mentes mais criativas e célebres do mundo dos videojogos. Hoje foi divulgado o segundo trailer.

Quando Pac Man era ‘morto’ pelos fantasmas era o sinónimo do fim-do-jogo, do recomeçar. Quando se tornou possível salvar o jogo, a morte passou a ser apenas um contratempo. Em grande parte dos jogos de atirador na primeira pessoa (FPS) o que vem a seguir à morte não é um renascer, mas um reaparecimento. O revive deu lugar ao respawn. Jogos como Dark Souls tornam-se célebres por nos matar implacavelmente vezes sem conta, castigando o mais pequeno erro dos jogadores. Ainda no mesmo jogo, é possível ver o fantasma de outros jogadores que morreram perto de nós, transformando a morte numa experiência coletiva de aprendizagem. Em Nier, quando tentamos passar o jogo pela segunda vez, descobrimos as atrocidades que cometemos da primeira vez quando é dada voz (e humanidade) às sombras que erradicamos. No mesmo jogo, passado pela terceira vez, o jogador é confrontado no final com a escolha de fazer um sacrifício para salvar outra personagem. Este sacrifício não só resulta na morte do personagem controlado pelo jogador, como na eliminação efetiva de todos os dados gravados do jogo na consola, sendo o jogador impedido de criar outra personagem com o mesmo nome. A morte permanente (permadeath) é um pleonasmo que só faz sentido como resposta à excessiva leveza que a morte adquiriu no universo dos videojogos. Estes são apenas algumas das muitas interpretações que são dadas à morte pelos videojogos, estando sem dúvida omissas contribuições notáveis tanto de grandes produtores como de criadores indie.

Nenhum outro meio nos mata da mesma forma que os videojogos e talvez isso justifique este entusiasmo com Death Stranding. Quando menos esperamos, aparece um título que desafia as convenções estabelecidas para a morte nos videojogos e que nos leva a uma nova forma de jogar. Esta recente criação de Kojima até pode revelar-se uma desilusão, mas até ao seu lançamento irá estimular a imaginação de milhões de jogadores que tentam decifrar o jogo que se esconde entre os cadáveres.