Horror pedagógico
De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:
Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).
Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.
Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!
Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.
Misantropia
Tenho visto muitos anúncios da PETA (People for Ethical Treatment of Animals). Alguns estão incluídos no Tendências do Imaginário. Uma doutoranda em Ciências da Comunicação está a concluir uma tese sobre o impacto efectivo, em crianças e adultos, da publicidade de consciencialização. Um dos anúncios retidos é da PETA. Intriga-me a sensação de que esta reputada instituição respeita mais os animais do que os homens, alvos privilegiados da sua notória agressividade. Boa parte dos anúncios consiste em colocar, de forma chocante, os seres humanos no lugar dos animais. Misantrópica ou não, trata-se de uma opção legítima. Como terá dito Madame de Sévigné (1626-1696): “Quanto mais vejo os homens, mais admiro os cães”. Seguem dois anúncios recentes da PETA.
Anunciante: PETA UK. Título: Could you stomach this? Agência: Don’t Panic (London). Direcção: Errol Ettienne. Reino Unido, Novembro 2016.
Anunciante: PETA UK. Título: Londoners were offered dog meat – This is how they reacted. Reino Unido, Outubro 2016.

