Made in Italy

Milão
A Alzheimer Portugal (Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer) lançou, recentemente, o anúncio Primeiro Encontro, encomendado à BBDO Milan e falado em inglês. Um anúncio italiano, para uma ONG portuguesa, em inglês, lembra um arco-íris multicultural. Convém considerar que os anúncios de sensibilização inscrevem-se, muitas vezes, de um modo próprio no mercado da publicidade. Milão? Tem uma boa imagem ao nível do calçado, da moda, do design e do futebol. A Piazza del Duomo abriga, para além da catedral, uma das “esferas públicas” nocturnas mais concorridas do planeta. Um produto italiano, em inglês, para uma organização portuguesa, a que público se destina? Estima-se que esta campanha para angariar donativos tem uma abrangência internacional.
Não desgosto do anúncio. Atendendo à sensibilidade do tema, apesar de comovente, não se desdobra em sentimentos e emoções. Apela à reflexão e à consciência. O olhar solicitado é proustiano. Prefere os pormenores aos detalhes. O todo refaz-se, não se desfaz. O todo é urdido por pontas soltas e retalhos. Desculpem este linguajar maneirista, “ao jeito italiano” (e.g. Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, 1ª ed. 1978). Por outras palavras, o todo e as partes estão interligados: “je tiens impossible de connaître les parties sans connaître le tout non plus que de connaître le tout sans connaître particulièrement les parties” (Pascal, Blaise, Pensées, obra póstuma, 1670). O que Pascal entendeu por bem não dizer é que o todo e as partes se podem percorrer de várias maneiras: do todo para a parte, da parte para o todo, do todo para o todo, da parte para a parte e, também, por travessia. Quer-me parecer que, no anúncio, os pés descalços não são preditos pelo todo, convidam, antes, a imaginá-lo e a descobri-lo.
Anunciante: Alzheimer Portugal. Título: First Date. Agência: BBDO Milan. Direcção: Alessio Fava. Itália, Abril 2016.
A música do anúncio é um cover da canção Have You Ever Seen The Rain (1970), dos Creedence Clearwater Revival. Segue uma interpretação ao vivo.
Regresso à Cruz de Ferro

Desencantei, finalmente, uma cópia do filme A Cruz de Ferro (Brum do Canto, 1968) rodado em Castro Laboreiro (ver https://tendimag.com/2015/10/23/a-cruz-de-ferro/). Retrata o conflito entre duas aldeias por causa de um namoro e, por arrasto, da água. Agradeço este reencontro com A Cruz de Ferro, passado meio século, ao Valter Alves, um estudioso das gentes de Melgaço, cujo blogue recomendo: http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/. O filme completo está acessível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8. Segue um excerto. Privada de água, a população, na maioria mulheres, decide construir um engenho de rodas articuladas capaz de elevar a água do rio até à aldeia (vídeo 1). Uma demonstração da potência popular, sobre-humana, cara ao Estado Novo, patente, também, no episódio da reconstrução, “durante três dias e três noites”, da Praça de Touros de Guimarães, no ano de 1947 (vídeo 2).
Vídeo 1. A Cruz de Ferro. Realizador: Brum do Canto. Portugal. 1968. Excerto: 01.32.20 – 01.41.40.
Vídeo 2. Reconstrução da Praça de Touros de Guimarães (1947).
Livrai-nos do mal

Caravaggio. São Mateus com o anjo. 1602.
1. Não julgueis, e não sereis julgados. 2. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos (Mateus 7:1,2).
Os anúncios da PETA trazem-me confuso: trata-se de uma campanha de uma ONG para o “tratamento ético dos animais” ou de uma série de horror? De qualquer modo, atendendo ao propósito, chocar com choque, distinto de “dizer chique com choque”, os anúncios da PETA são notáveis.
Anunciante: PETA. Título: Les Dessous du Cuir. Agência: Ogilvy & Matter. Tailândia, Maio 2016.
O Ditador Caprichoso
A paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.
Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.
AC/DC em Lisboa
Não é fácil conceber a estrutura, a forma ou a configuração. A ideia do todo para além das partes colide com a experiência quotidiana e o acerbo de conhecimentos disponíveis (Alfred Schutz, Collected Papers 1. The Problem of Social Reality, 1962). Os AC/DC são um bom exemplo de configuração: mudam-se os membros e a banda continua. Actuaram, ontem, em Lisboa, com o Axl Rose como vocalista. A minha tribo veio encantada. Pelos vistos, foi um concerto memorável.
AC/DC (Feat. Axl Rose), Rock or Bust. Ao vivo em Lisboa, 7 de Maio de 2016.
Cadeiras vazias
Feliz aniversário! Que o tempo aconteça, depressa ou devagar, mas sempre com a tua marca. O resto é um hipermercado de horas!
No início dos anos 1970, Lori Lieberman assiste a um concerto de Don McLean. Extasiada com a canção Empty Chairs (vídeo 1), escreve Killing Me Softly With His Song, que publica e interpreta em 1972 (vídeos 2 e 3). A canção alcança um enorme sucesso graças, sobretudo, à versão de Roberta Flack (1973; vídeo 4). Don Mclean e Lori Lieberman nunca se encontraram, a não ser 40 anos depois, em 2011, num espectáculo em que Don McLean canta Empty Chairs para Lori Lieberman (https://www.youtube.com/watch?v=nIM9nvwOj64). Esta é a história de uma inspiração: um quase nada com uma ponta de felicidade. Em Killing Me Softly, ecoa Empty Chairs.
Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1971.
Lori Lieberman. Killing Me Softly With His Song. Lori Lieberman. 1972.
Lori Lieberman. Killing Me Softly. The story.
Roberta Flack. Killing Me Softly With His Song (1973).
Pode ser!
“Um dia surgirá, por distracção do senhor, uma geração com direito a tudo e vontade de nada, bem-aventurada nos recursos e melancólica nas consequências. A geração do “pode ser” consta entre as mais esfíngicas dos últimos séculos” (AG, 2016).
O anúncio Scouts (Canal Digital) é absurdo, um exemplo de absurdo lógico. Com boa consciência e decisão ajustada, um grupo de escuteiros ajuda criminosos homicidas. A “ética da convicção” impele-os a ajudar o próximo. Trata-se, segundo Max Weber, de “uma acção racional com relação a valores” (Economia e Sociedade, 1910/1922), ou, segundo Vilfredo Pareto, de “uma acção não-lógica do 2º género” (Tratado de Sociologia Geral, 1916). Soa a “estúpido”, resumiria Carlo Cipolla (Allegro ma non troppo, 1976).
O anúncio Scouts é ousado. À primeira leitura, estranha-se, eventualmente, por “dissonância cognitiva” (Leon Festinger, A Theory of Cognitive Dissonance, 1957). À segunda leitura, percebe-se a narrativa, mas o anúncio não se entranha. À terceira, comenta-se. Vem à memória a palavra francesa con: “idiota”, segundo os dicionários. Na verdade, não existe nenhuma palavra portuguesa com “valor” semelhante. Basta o francês con significar também o sexo feminino. Os franceses abusam da palavra, mas não nos iludamos: os franceses têm a palavra e a realidade; nós não temos a palavra, mas temos a realidade. Georges Brassens, na canção Le temps ne fait rien à l’affaire (1961) repete 29 vezes a palavra con. Se pode ser, com algum jeito, também pode fazer. Angelo Branduardi mostra, na canção Si Può Fare, o quanto se pode fazer, em todos os sentidos e com as devidas contradições.
Marca: Canal Digital. Título: Scouts. Agência: TBWA/Stockholm. Direcção: Bart Timmer. Suécia, Maio 2016.
Charles Brassens. Le temps ne fait rien à l’affaire. 1961.
Angelo Banduardi. Si può fare. Si può fare. 1992. Ao vivo, em 1996.
Arqueologia de uma relação
O anúncio The First Meeting, da Pedigree, apresenta uma travessia solitária num mundo lunar ou vulcânico. Há lugares onde os passos não deixam marca nem levam a lado nenhum. Mas, ao contrário do Godot de Samuel Beckett, quem procura, mesmo sem saber o quê, pode encontrar. A epifania, com ou sem anjos, é a bênção das almas perdidas. Pois este anúncio termina com uma epifania. Para além da esperança razoável, o cão encontrou o homem.
Hoje, falei num mosteiro. Apetece-me, agora, ouvir. Duas músicas do álbum que mais ofereci: Pavlov’s Dog, Pampered Menial, 1974. Optei por duas interpretações ao vivo, mais raras. Não dispensam a audição da gravação de estúdio. Os Pavlov’Dog eram músicos exímios e originais. O vocalista é um assombro. Foram, contudo, um caso exemplar de insucesso comercial.
Marca: Pedigree. Título: The First Meeting. Agência: Proximity BBDO Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Abril 2016.
Pavlov’s Dog. Julia. Pampered Menial. 1974.
Pavlov’s Dog. Theme From Subway Sue. Pampered Menial. 1974.
Máquinas de sonhos

O sonho é de todos os tempos. Nosso é o “admirável mundo novo” das máquinas oníricas. A Samsung e a Wieder + Kennedy resgatam o sonho do inconsciente para o tornar refém de uma extensão do corpo: a realidade virtual propiciada pelo Smartphone Galazy S7 Edge: “Dreams are awesome. And if you could experience anything in a dream just by putting a phone on your face, why wouldn’t you get that phone?” Outrora, sonhávamos com máquinas, hoje, sonhamo-nos em máquinas. Nos sonhos, voa-se e levita-se. Este anúncio não é excepção. “Quando um homem sonha” é uma quimera; quando muitos homens partilham o mesmo sonho é uma realidade, uma realidade colectiva.
O sonho é tema de inúmeras canções. Retenho duas: All I Have To do Is Dream (1958), dos Everly Brothers; e Dreamer (1974), dos Supertramp.
Marca: Samsung. Título: Dreams. Agência: Wieden + Kennedy (Portlland). Direcção: Adam Berg. USA, Abril 2016.
Everly Brothers. All I Have To Do Is Dream. 1958.
Supertramp. Dreamer. 1974.
A primeira vez

O mundo anda assim. Parece avariado. Espreita-se um anúncio e não se percebe nada. Um corpo, não se sabe se vestido ou despido, e uma voz, esticada das profundezas do inconsciente. Um corpo à David Hamilton? Uma reflexividade à Ingmar Bergman? Um vídeo pelo olhar de um fotógrafo? Presumivelmente, não. Há calendários para o iPhone? Saiu um novo perfume ou uma nova bebida light? Quanto à música, apenas uns acordes na parte final. Ou se ouvia a voz quase robótica ou a música electrónica. Acertaram: se não tem música, é sobre música: o anúncio de um festival de música dance, em Madrid. A nós, ninguém nos engana. Mas a primeira vez ainda está para vir. El mundo es de los jóvenes!
Marca: Festival Utopia 2016. Título: You won’t have another chance to experience this first edition. Agência: La Despensa Ingredientes Creativos. Direcção: Imanol Ruiz de Lara. Espanha, Abril 2016.
