Archive | Maio 2016

O deus da bola

Tecate noéDizem que o futebol é uma religião. Existem santuários, altares, peregrinos, fiéis e orações. Fazem-se promessas e aguardam-se milagres. Há o mal e o bem, exegetas e, até, “a mão de Deus”. Os anúncios da América Latina prestam-se a esta confusão entre o futebol e o sagrado (ver artigo Bendita Bola: https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). O anúncio La Cancha de Noé, da cerveja mexicana Tecate, é mais um exemplo.

Norberto Orlando Echeverriá, Noé para os amigos, tem uma revelação divina: Diego Maradona (deus) diz-lhe o seguinte: “Al fútbol solo lo puede salvar el amor al fútbol. Construíte una cancha”. Noé assim fez: em vez da arca, constrói um campo de futebol. Acabada a obra, em madeira como a arca, e acolhidas as parelhas, o campo é inaugurado com um jogo em que Diego Maradona veste a camisola nº 10 e mete um golo, não com a mão, mas com a cabeça. Milagre!

Marca: Tecate. Título: La cancha de Noé. Agência: Nómades. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. México, Maio 2016.

Keep yourself alive!

Joseph Beuys' signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.

Joseph Beuys’ signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.

No anúncio The Chorus, da Heineken, pessoas distintas cantam, em diversos contextos, a mesma canção: Bohemian Rhapsody, dos Queen (A Night at the Opera; 1975). Partindo dos indivíduos desafinados desemboca-se num gigantesco coro empolgante. Em suma, a potência das massas. Duvida-se que a sintonia do colectivo seja espontânea. Duvida-se, também, da potência das massas. Duvida-se, até, do mito das massas. Quando era aluno de sociologia, por altura da Bohemian Rhapsody, estava na moda falar-se em sociedade de massas. Agora, está na moda falar-se em sociedades globais. Cada época tem os seus chavões. E chapéus para proteger a cabeça. Não impede que este anúncio esteja bem concebido e funcione.

Marca: Heineken. Título: Chorus. Agência: Publicis Milan. Direcção: Antoine Bardout-Jacquet. Itália, Maio 2016.

Admitindo que o Tendências do Imaginário é cada vez mais um albergue espanhol, acrescento uma das primeiras músicas dos Queen, Keep yourself alive, incluída no álbum de estreia da banda: Queen (1973).

Queen. Keep yourself alive. Queen. 1973. Ao vivo, 1975.

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York

Por falar em chapéus, nos anos 1970, tive o privilégio de trocar duas palavras com Joseph Beuys, um dos maiores artistas do século XX. Deram-nos, aos alunos de sociologia, a oportunidade de assistir à montagem das obras pelos próprios artistas no dia anterior à abertura da exposição, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Um dos trabalhos de Beuys incluía, precisamente, o (seu) chapéu.

Estigma. Desporto e missão

Paralímpicos

O Comité Paralímpico de Portugal compara, no anúncio The Most Difficult Sport, o lançamento de uma bola de basquetebol de um jogador profissional e de um atleta paralímpico. Atendendo às diferenças, a performance do atleta paralímpico ultrapassa a performance do jogador profissional.

Anunciante: Portuguese Paralympic Committee. Título: The Most Difficult Sport. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Maio 2016.

Paralímpicos do SC Braga

Atletas paralímpicos de SCB com o meu terceiro rapaz, que está no Qatar. Somos um país pequeno para tanta gente tão grande. Uns têm pernas para sair e outros um apetite sem limites.

A superação, ser melhor do que os “normais”, surge como um desafio para os “estigmatizados” e respectivas associações. O objectivo é ambivalente e, eventualmente, perverso. Ambivalente porque tanto pode mobilizar como desmobilizar. Perverso porque o reforço identitário corre o risco de reverter em obsessão e alienação.

Segue um excerto do livro Estigma em que Erving Goffman aborda algumas destas questões.

Erving Goffman. Estigma. Excerto

A mulher e a liberdade

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Descalça vai para a praia / Leonor  duna em duna / Vai formosa e mui segura. Aparição jovem e bela. Despe peça a peça, passo a passo. Sensual, sem prenúncio de pecado. Se o corpo fosse novelo, seria uma nova Ariana. Sobra-lhe uma toalha, altar do corpo. Despojamento, leveza, sensualidade, com estas palavras se escreve liberdade. O mar é fantástico e caprichoso quando molha os olhos de uma mulher. Lembra-se da Silka, de Ilse Losa, ou da menina do mar, de Sophia de Mello Breyner? A câmara de filmar mostra-se atrevida e a carne tentadora, mas a léguas dos filmes da Pirelli. É um poema ou um sonho de libertação.

Marca: Futah Beach Towels. Título: Freedom. Agência: Garage. Direcção: George Serrasqueiro. Portugal, Maio 2016.

O espírito do surf

Corona The Flow

Em modalidades como o surf, “os desportistas controlam aparelhagens leves e flexíveis gerindo, em equilíbrio instável, as informações provenientes do ambiente (água e vento) de feição a retirar, não pela força mas graças aos reflexos e ao domínio técnico, o melhor proveito da situação” (Gonçalves, Albertino, Vertigens: Para uma sociologia da perversidade). É comum afirmar-se que em desportos como o surf o adversário é a natureza. Duvido. O surfista não joga contra a natureza; joga com a natureza, sua parceira. O surf é um desporto informacional e ecológico. Mas subsistem outros saltos no raciocínio. Encarar, por exemplo, o surf como uma experiência cósmica e quase sagrada, e a sua prática como uma espécie de oração. Proliferam as páginas da Internet que associam o surf ao sagrado. Dorian Paskowitz, surfista, médico, falecido em 2014, uma referência do surf, confirma:

“O surf é algo muito especial. Sei que cada um de vós tem uma ideia do surf – e está correto -, mas à medida que vão envelhecendo vão perceber que há algo de mágico no surf, e misterioso. É do sol que vem a energia para fazer o vento, o vento faz as ondas e nós só precisamos de surfá-las. É como surfar o sol, somos filhos das estrelas. É quase sagrado (…) É preciso o melhor de cada um de vocês. Têm de tomar conta da vossa saúde, amizades, responsabilidades. Surfar é uma prece, é a nossa forma de rezar” (Surftotal – Dorian Paskowitz: https://vimeo.com/110658972).

Acredito que muitos surfistas se reconhecem nas palavras de Dorian Paskowitz. Ao cósmico e ao quase sagrado (almost holy), convém acrescentar a estética. Estética de quem pratica e estética de quem observa. O surf é arte e espectáculo.

Edu Petta

Edu Petta. Uluwatu. Bali. Indonésia.

O anúncio Flow, da Corona, convoca estas vertentes do surf, desde a primeira onda do surfista até à comunhão final. O anúncio absorve estes traços, reais ou imaginados, envolve-os em emoção e beleza, de modo a dar corpo ao espírito do surf e, por extensão, da cerveja Corona. Se tal existe, deve ser isto a sobriedade eloquente.

Dedico este artigo ao Edu Petta, um aficionado do surf e um nómada à escala planetária. Sempre com a câmara fotográfica e a prancha na mão.

Marca: Corona. Título: Flow. Agência: Wieden + Kennedy Amsterdam. Holanda, Maio 2016.

https://vimeo.com/110658972

The Memorable Doc Dorian Paskowitz. Surftotal TV.

O Tempo e a Morte

Danse Macabre at the Chaise-Dieu, circa 1470.

Danse Macabre at the Chaise-Dieu, circa 1470.

Este vídeo dos Tangerine Dream, The Return Of The Time (2010), incide, de um modo insólito, sobre a morte. Está-nos vedada a percepção da morte. Apreendemos o moribundo e o cadáver, mas não a morte. Omar Calabrese escreve sobre a tentativa infrutífera de retratar a morte por parte dos artistas (“Representação da morte e morte da representação” in Como ler uma obra de arte, Edições 70, 1997, pp. 81-96). Esta falha justifica a proliferação de representações da morte. O esqueleto é a mais habitual.

O vídeo aborda a morte de uma forma inesperada. Replicada, burocrática, arregimentada, a morte parece um exército ou uma companhia de bailado. Difere das danças macabras medievais, onde não existe quietude, disciplina ou sincronia. A morte, à solta, tocava em tudo e em todos. Vivia-se o “triunfo da morte”. Agora, a morte domesticada tem dificuldade em regressar ao túmulo. A cada tempo, a sua morte. Nós somos os pastores da morte etiquetada e cronometrada. Triunfo do tempo? Da razão? De qualquer modo, uma morte estranhamente humana.

Tangerine Dream. The Return Of The Time. 2010.

O chá e o clister

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México

Aplicando Enema. Cerâmica Maia de Escuinta. Chiapas. México.

A publicidade aprecia confrontar-nos com dilemas: bom/mau; belo/feio; leve/pesado… O anúncio Colonic da PG Tips propõe vários pares de oposição: dor/prazer; limpo/sujo; alto/baixo; e, sobretudo, infusão ou intrusão. Infusão do chá; intrusão do clister (enema).

Enema. Pressão com uma bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Enema. Pressão com bexiga de animal. Escultura africana de madeira. Séc. XIX.

Entre Deus e o Diabo, o cliente que escolha: ou clister, ou chá. Parafraseando Lenine, o maniqueísmo é a doença infantil da publicidade. O recurso à personificação do cliente mediante crianças, animais, peluches ou desenhos animados tende a aumentar o efeito de persuasão. Em suma, se sofre dos intestinos, se tem cólicas, nada como um chá verde!

Marca: TG Tips. Título: Colonic. Agência: Mother London. Direcção: Mark Denton. UK, Maio 2016.

 

 

Carpideiras

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.

O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.

Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).

Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.

A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.

Cristo de Burgos

01. Cristo. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto.

01. Cristo. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto.

Uma amiga mostrou-me uma fotografia de uma pintura de Cristo com um “saiote” denunciando, aparentemente, traços femininos, ver andróginos. Por exemplo, as pernas. Encontra-se na Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas, no Porto. A inscrição, na base da cruz, identifica-o como “o Santo Cristo de Burgos” (Figura 1).
A imagem original do Santo Cristo de Burgos está, naturalmente, em Burgos, na catedral (Figuras 2 e 3). Data do séc. XIV. Uma lenda advoga que a escultura foi encontrada no mar, num galeão sem tripulação. Acompanhavam-no umas placas a pedir que fosse colocado em local magnificente e conveniente.

2. Santo Cristo de Burgos. Catedral. Espanha.jpg

2. Santo Cristo de Burgos. Catedral. Espanha.

3. Santo Cristo de Burgos. Catedral de Burgos. Espanha.

3. Santo Cristo de Burgos. Catedral de Burgos. Espanha.

Até ao séc. XIX, esteve à guarda do Convento dos Eremitas de Santo Agostinho. Figura proeminente da Semana Santa, a escultura é articulada (Figuras 2 a 4). A zona das articulações é coberta com pele, o cabelo é verdadeiro, bem como as unhas. Consta que o cabelo e as unhas não param de crescer. Imagens do Santo Cristo de Burgos estão disseminadas por todo o mundo, nomeadamente ibero-americano.

4. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. 2016.

4. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. 2016.

5. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. Espanha.

5. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. Espanha.

Para fechar o ciclo e regressar ao início, observe-se a estátua do Santo Cristo de Burgos na Igreja de S. Francisco de Assis (Figura 6), nas Filipinas (Saraya, Quezon). Não sou competente para discernir a eventual androginia das imagens do Santo Cristo de Burgos. Certo é que, tirando o saiote, a imagem do Cristo de Burgos não se distingue das demais (Figura 5).

6. Santo Cristo de Burgos. Saraya, Quezon. Filipinas

6. Santo Cristo de Burgos. Saraya, Quezon. Filipinas.

Mas a questão não é descabida. Carl Gustav Jung sustenta, apoiando-se em Georg Koepgen, a androginia não só de Cristo mas da própria Igreja.
“Koepgen fala do conflito apolíneo-dionisíaco da Antiguidade, cuja solução cristã consiste em “que na pessoa de Jesus o masculino esteja unido ao feminino”. “Somente nele se encontra esse lado-a-lado do masculino e do feminino em vigorosa unidade”. “Se no culto cristão a Deus se encontram reunidos homens e mulheres com direitos iguais, tem isso mais do que um significado casual: é a realização da androginia (…) tornada visível em Cristo (…) “A tensão e a lutas dos opostos do sexual se acha compensada em Jesus por meio da unidade andrógina”. A Igreja quanto à constituição é “hierarquicamente masculina, mas a alma da Igreja é de todo feminina” (…) Para Koepgen, pois, não apenas Cristo é andrógino, mas de modo considerável também a Igreja, conclusão cuja lógica não se pode negar” (Carl Gustav Jung. Mysterium Coniunctionis: Rex e Regina; Adão e Eva; A Conjunção. Editora Vozes, 04/03/2011, pp. 154-155).

Condom vs Baby Sitter

Mary PoppinsPor mais que uma língua se desdobre em palavras, nem sempre encontramos aquela que nos satisfaz. Como traduzir baby sitter? Babá, aia, ama, governanta, nutriz, ama-seca, perceptora… Por que não guardadora de crianças? O Constantino também era guardador de vacas e de sonhos. Em espanhol, destaca-se a palavra niñera. Seguem: nodriza, tata, institutriz, ama, aya, chacha, ñaña… Os franceses, habitualmente avessos a anglicismos, adoptaram a palavra baby sitter. Os portugueses, também. Quanto ao preservativo, entre condom, em inglês e em espanhol, e preservativo, em francês e em português, ainda sobram letras para a poesia: camisa-de-vénus e capote.

Vem este exercício de dicionário a propósito do anúncio espanhol “Ten Más Hijos”, para a Campanha de 2016 da empresa de baby sitters BePoppins, designação inspirada em Mary Poppins, uma das baby sitters mais célebres da história do cinema. A única, segundo consta, que voa (vídeo 2). A BePoppins parte em campanha a favor da natalidade contra a contracepção. As sequências do anúncio da BePoppins lembram outros anúncios, mormente a preservativos. Não é por acaso. A Bepoppins defende uma causa e zela pelos seus interesses. Não há motivo para puritanismos. Não é o facto de um comportamento, ou um pensamento, ser interessado que o torna errado.

Marca: BePoppins.com. Título: Ten Más Hijos. Campaña 2016. Agência: La Fuerza. Espanha, Maio 2016.

Mary Poppins. 1964. Flying Nanny Scene.