O deus da bola
Dizem que o futebol é uma religião. Existem santuários, altares, peregrinos, fiéis e orações. Fazem-se promessas e aguardam-se milagres. Há o mal e o bem, exegetas e, até, “a mão de Deus”. Os anúncios da América Latina prestam-se a esta confusão entre o futebol e o sagrado (ver artigo Bendita Bola: https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). O anúncio La Cancha de Noé, da cerveja mexicana Tecate, é mais um exemplo.
Norberto Orlando Echeverriá, Noé para os amigos, tem uma revelação divina: Diego Maradona (deus) diz-lhe o seguinte: “Al fútbol solo lo puede salvar el amor al fútbol. Construíte una cancha”. Noé assim fez: em vez da arca, constrói um campo de futebol. Acabada a obra, em madeira como a arca, e acolhidas as parelhas, o campo é inaugurado com um jogo em que Diego Maradona veste a camisola nº 10 e mete um golo, não com a mão, mas com a cabeça. Milagre!
Marca: Tecate. Título: La cancha de Noé. Agência: Nómades. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. México, Maio 2016.
Keep yourself alive!

Joseph Beuys’ signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.
No anúncio The Chorus, da Heineken, pessoas distintas cantam, em diversos contextos, a mesma canção: Bohemian Rhapsody, dos Queen (A Night at the Opera; 1975). Partindo dos indivíduos desafinados desemboca-se num gigantesco coro empolgante. Em suma, a potência das massas. Duvida-se que a sintonia do colectivo seja espontânea. Duvida-se, também, da potência das massas. Duvida-se, até, do mito das massas. Quando era aluno de sociologia, por altura da Bohemian Rhapsody, estava na moda falar-se em sociedade de massas. Agora, está na moda falar-se em sociedades globais. Cada época tem os seus chavões. E chapéus para proteger a cabeça. Não impede que este anúncio esteja bem concebido e funcione.
Marca: Heineken. Título: Chorus. Agência: Publicis Milan. Direcção: Antoine Bardout-Jacquet. Itália, Maio 2016.
Admitindo que o Tendências do Imaginário é cada vez mais um albergue espanhol, acrescento uma das primeiras músicas dos Queen, Keep yourself alive, incluída no álbum de estreia da banda: Queen (1973).
Queen. Keep yourself alive. Queen. 1973. Ao vivo, 1975.

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York
Por falar em chapéus, nos anos 1970, tive o privilégio de trocar duas palavras com Joseph Beuys, um dos maiores artistas do século XX. Deram-nos, aos alunos de sociologia, a oportunidade de assistir à montagem das obras pelos próprios artistas no dia anterior à abertura da exposição, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Um dos trabalhos de Beuys incluía, precisamente, o (seu) chapéu.
Estigma. Desporto e missão
O Comité Paralímpico de Portugal compara, no anúncio The Most Difficult Sport, o lançamento de uma bola de basquetebol de um jogador profissional e de um atleta paralímpico. Atendendo às diferenças, a performance do atleta paralímpico ultrapassa a performance do jogador profissional.
Anunciante: Portuguese Paralympic Committee. Título: The Most Difficult Sport. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Maio 2016.

Atletas paralímpicos de SCB com o meu terceiro rapaz, que está no Qatar. Somos um país pequeno para tanta gente tão grande. Uns têm pernas para sair e outros um apetite sem limites.
A superação, ser melhor do que os “normais”, surge como um desafio para os “estigmatizados” e respectivas associações. O objectivo é ambivalente e, eventualmente, perverso. Ambivalente porque tanto pode mobilizar como desmobilizar. Perverso porque o reforço identitário corre o risco de reverter em obsessão e alienação.
Segue um excerto do livro Estigma em que Erving Goffman aborda algumas destas questões.
A mulher e a liberdade
Descalça vai para a praia / Leonor duna em duna / Vai formosa e mui segura. Aparição jovem e bela. Despe peça a peça, passo a passo. Sensual, sem prenúncio de pecado. Se o corpo fosse novelo, seria uma nova Ariana. Sobra-lhe uma toalha, altar do corpo. Despojamento, leveza, sensualidade, com estas palavras se escreve liberdade. O mar é fantástico e caprichoso quando molha os olhos de uma mulher. Lembra-se da Silka, de Ilse Losa, ou da menina do mar, de Sophia de Mello Breyner? A câmara de filmar mostra-se atrevida e a carne tentadora, mas a léguas dos filmes da Pirelli. É um poema ou um sonho de libertação.
Marca: Futah Beach Towels. Título: Freedom. Agência: Garage. Direcção: George Serrasqueiro. Portugal, Maio 2016.
O espírito do surf
Em modalidades como o surf, “os desportistas controlam aparelhagens leves e flexíveis gerindo, em equilíbrio instável, as informações provenientes do ambiente (água e vento) de feição a retirar, não pela força mas graças aos reflexos e ao domínio técnico, o melhor proveito da situação” (Gonçalves, Albertino, Vertigens: Para uma sociologia da perversidade). É comum afirmar-se que em desportos como o surf o adversário é a natureza. Duvido. O surfista não joga contra a natureza; joga com a natureza, sua parceira. O surf é um desporto informacional e ecológico. Mas subsistem outros saltos no raciocínio. Encarar, por exemplo, o surf como uma experiência cósmica e quase sagrada, e a sua prática como uma espécie de oração. Proliferam as páginas da Internet que associam o surf ao sagrado. Dorian Paskowitz, surfista, médico, falecido em 2014, uma referência do surf, confirma:
“O surf é algo muito especial. Sei que cada um de vós tem uma ideia do surf – e está correto -, mas à medida que vão envelhecendo vão perceber que há algo de mágico no surf, e misterioso. É do sol que vem a energia para fazer o vento, o vento faz as ondas e nós só precisamos de surfá-las. É como surfar o sol, somos filhos das estrelas. É quase sagrado (…) É preciso o melhor de cada um de vocês. Têm de tomar conta da vossa saúde, amizades, responsabilidades. Surfar é uma prece, é a nossa forma de rezar” (Surftotal – Dorian Paskowitz: https://vimeo.com/110658972).
Acredito que muitos surfistas se reconhecem nas palavras de Dorian Paskowitz. Ao cósmico e ao quase sagrado (almost holy), convém acrescentar a estética. Estética de quem pratica e estética de quem observa. O surf é arte e espectáculo.
O anúncio Flow, da Corona, convoca estas vertentes do surf, desde a primeira onda do surfista até à comunhão final. O anúncio absorve estes traços, reais ou imaginados, envolve-os em emoção e beleza, de modo a dar corpo ao espírito do surf e, por extensão, da cerveja Corona. Se tal existe, deve ser isto a sobriedade eloquente.
Dedico este artigo ao Edu Petta, um aficionado do surf e um nómada à escala planetária. Sempre com a câmara fotográfica e a prancha na mão.
Marca: Corona. Título: Flow. Agência: Wieden + Kennedy Amsterdam. Holanda, Maio 2016.
The Memorable Doc Dorian Paskowitz. Surftotal TV.
O Tempo e a Morte
Este vídeo dos Tangerine Dream, The Return Of The Time (2010), incide, de um modo insólito, sobre a morte. Está-nos vedada a percepção da morte. Apreendemos o moribundo e o cadáver, mas não a morte. Omar Calabrese escreve sobre a tentativa infrutífera de retratar a morte por parte dos artistas (“Representação da morte e morte da representação” in Como ler uma obra de arte, Edições 70, 1997, pp. 81-96). Esta falha justifica a proliferação de representações da morte. O esqueleto é a mais habitual.
O vídeo aborda a morte de uma forma inesperada. Replicada, burocrática, arregimentada, a morte parece um exército ou uma companhia de bailado. Difere das danças macabras medievais, onde não existe quietude, disciplina ou sincronia. A morte, à solta, tocava em tudo e em todos. Vivia-se o “triunfo da morte”. Agora, a morte domesticada tem dificuldade em regressar ao túmulo. A cada tempo, a sua morte. Nós somos os pastores da morte etiquetada e cronometrada. Triunfo do tempo? Da razão? De qualquer modo, uma morte estranhamente humana.
Tangerine Dream. The Return Of The Time. 2010.
O chá e o clister
A publicidade aprecia confrontar-nos com dilemas: bom/mau; belo/feio; leve/pesado… O anúncio Colonic da PG Tips propõe vários pares de oposição: dor/prazer; limpo/sujo; alto/baixo; e, sobretudo, infusão ou intrusão. Infusão do chá; intrusão do clister (enema).
Entre Deus e o Diabo, o cliente que escolha: ou clister, ou chá. Parafraseando Lenine, o maniqueísmo é a doença infantil da publicidade. O recurso à personificação do cliente mediante crianças, animais, peluches ou desenhos animados tende a aumentar o efeito de persuasão. Em suma, se sofre dos intestinos, se tem cólicas, nada como um chá verde!
Marca: TG Tips. Título: Colonic. Agência: Mother London. Direcção: Mark Denton. UK, Maio 2016.
Carpideiras
Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.
O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.
Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).
Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.
A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.
Cristo de Burgos

01. Cristo. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto.
Uma amiga mostrou-me uma fotografia de uma pintura de Cristo com um “saiote” denunciando, aparentemente, traços femininos, ver andróginos. Por exemplo, as pernas. Encontra-se na Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas, no Porto. A inscrição, na base da cruz, identifica-o como “o Santo Cristo de Burgos” (Figura 1).
A imagem original do Santo Cristo de Burgos está, naturalmente, em Burgos, na catedral (Figuras 2 e 3). Data do séc. XIV. Uma lenda advoga que a escultura foi encontrada no mar, num galeão sem tripulação. Acompanhavam-no umas placas a pedir que fosse colocado em local magnificente e conveniente.
Até ao séc. XIX, esteve à guarda do Convento dos Eremitas de Santo Agostinho. Figura proeminente da Semana Santa, a escultura é articulada (Figuras 2 a 4). A zona das articulações é coberta com pele, o cabelo é verdadeiro, bem como as unhas. Consta que o cabelo e as unhas não param de crescer. Imagens do Santo Cristo de Burgos estão disseminadas por todo o mundo, nomeadamente ibero-americano.
Para fechar o ciclo e regressar ao início, observe-se a estátua do Santo Cristo de Burgos na Igreja de S. Francisco de Assis (Figura 6), nas Filipinas (Saraya, Quezon). Não sou competente para discernir a eventual androginia das imagens do Santo Cristo de Burgos. Certo é que, tirando o saiote, a imagem do Cristo de Burgos não se distingue das demais (Figura 5).
Mas a questão não é descabida. Carl Gustav Jung sustenta, apoiando-se em Georg Koepgen, a androginia não só de Cristo mas da própria Igreja.
“Koepgen fala do conflito apolíneo-dionisíaco da Antiguidade, cuja solução cristã consiste em “que na pessoa de Jesus o masculino esteja unido ao feminino”. “Somente nele se encontra esse lado-a-lado do masculino e do feminino em vigorosa unidade”. “Se no culto cristão a Deus se encontram reunidos homens e mulheres com direitos iguais, tem isso mais do que um significado casual: é a realização da androginia (…) tornada visível em Cristo (…) “A tensão e a lutas dos opostos do sexual se acha compensada em Jesus por meio da unidade andrógina”. A Igreja quanto à constituição é “hierarquicamente masculina, mas a alma da Igreja é de todo feminina” (…) Para Koepgen, pois, não apenas Cristo é andrógino, mas de modo considerável também a Igreja, conclusão cuja lógica não se pode negar” (Carl Gustav Jung. Mysterium Coniunctionis: Rex e Regina; Adão e Eva; A Conjunção. Editora Vozes, 04/03/2011, pp. 154-155).
Condom vs Baby Sitter
Por mais que uma língua se desdobre em palavras, nem sempre encontramos aquela que nos satisfaz. Como traduzir baby sitter? Babá, aia, ama, governanta, nutriz, ama-seca, perceptora… Por que não guardadora de crianças? O Constantino também era guardador de vacas e de sonhos. Em espanhol, destaca-se a palavra niñera. Seguem: nodriza, tata, institutriz, ama, aya, chacha, ñaña… Os franceses, habitualmente avessos a anglicismos, adoptaram a palavra baby sitter. Os portugueses, também. Quanto ao preservativo, entre condom, em inglês e em espanhol, e preservativo, em francês e em português, ainda sobram letras para a poesia: camisa-de-vénus e capote.
Vem este exercício de dicionário a propósito do anúncio espanhol “Ten Más Hijos”, para a Campanha de 2016 da empresa de baby sitters BePoppins, designação inspirada em Mary Poppins, uma das baby sitters mais célebres da história do cinema. A única, segundo consta, que voa (vídeo 2). A BePoppins parte em campanha a favor da natalidade contra a contracepção. As sequências do anúncio da BePoppins lembram outros anúncios, mormente a preservativos. Não é por acaso. A Bepoppins defende uma causa e zela pelos seus interesses. Não há motivo para puritanismos. Não é o facto de um comportamento, ou um pensamento, ser interessado que o torna errado.
Marca: BePoppins.com. Título: Ten Más Hijos. Campaña 2016. Agência: La Fuerza. Espanha, Maio 2016.
Mary Poppins. 1964. Flying Nanny Scene.













