Archive | Agosto 2015

Mais real do que o real

Cartier. Winter Tale

“Je me sers des animaux pour instruire les hommes” (Jean de La Fontaine).

A Teresa, antiga colega na Universidade, decidiu prosseguir carreira no México. Agradeço-lhe o vídeo dos anúncios Bel été, de Nicolas Deveaux para a France 3.

Nicolas DeveauxNicolas Deveaux é um jovem talentuoso, graduado, em 2003, pela Escola Superior de Infografia “Supinfocom”. Iniciou no mesmo ano a sua carreira de realizador. Tornou-se reputado pelas curtas-metragens e pelos anúncios surrealistas com animais  “mais reais do que o real”. Palpita-me que Salvador Dali não se importaria de assinar alguns destes trabalhos. Permito-me seleccionar alguns vídeos:

– Uma série de sequências curtas com animais para a France 3: Bel été (desde 2003);

– “7 tonnes 2”, uma curta metragem com um elefante num trampolim (2004);

– “5m80”, um anúncio espectacular, para a Orange (2013), com girafas que mergulham, acrobaticamente, numa piscina (ver http://tendimag.com/2013/05/22/girafas-na-piscina/);

– O anúncio, Wintertale, para a Cartier (2014).

Marca: France 3. Produção: Cube Créative. Direcção: Nicolas Deveaux. Desde 2003.

“7 tonnes 2”. Produção: Cube Créative, Direcção: Nicolas Deveaux. 2004.

Marca: Cartier. Título: Winter Tale 2014, Direcção: Nicolas Deveaux. 2014.

Pêlos

narta-homme-peau-parfaite-513x288

Intriga-me a relação do ser humano com os pêlos e com os cabelos. Um religioso com cabeça e cara rapadas, e.g. um budista, outro, com barba e cabelo coberto, e.g. um ortodoxo ou um copta, qual segue os desígnios de Deus? E os ídolos da música? Como conciliar o cabelo do Elvis Presley, dos Beatles, dos Led Zeppelin , dos Kraftwerk, do Klaus Nomi, dos Misfits e do Billy Corgan?

Misfits

Misfits

O nosso corpo é simbolicamente compartimentado. Tem mais pormenores do que uma pintura do Hieronymus Bosch. Para o comprovar, basta visitar uma capela com ex-votos de cera. Pequenas distâncias fazem grandes diferenças. Há partes que se pode tocar, outras que se pode ver e outras que nem sequer imaginar. Retenhamos apenas quatro partes do corpo humano: o couro cabeludo, a face, o peito e as axilas.

Cristo tentado pelo diabo. Igreja de Hauho em Häme, Finlândia. Idade Média.

Cristo tentado pelo diabo. Igreja de Hauho em Häme, Finlândia. Idade Média.

Estávamos resignados com o velório da barba e eis que, como Lázaro, ressuscita. Não me lembro de tanta barba em tanta cara. Mas a postura muda consoante a parte do corpo. Um homem pode cortar a barba, depilar o peito, mas preservar as axilas. É o caso do bailarino rejeitado do anúncio da Narta. Em contrapartida, o rival tem barba, mas depila o peito e as axilas. A mesma pessoa pode adoptar atitudes distintas face aos pêlos em função da parte do corpo envolvida. Aqui amor, ali ódio; aqui apraz, ali desfaz.

Esta questão dos pêlos tem alguma importância? Pelo menos, a importância que as pessoas lhe concedem. Há quem despenda, entre cabeleireiro e depilação, mais de cinco horas por semana. Atendendo ao tempo disponível, cinco horas por semana é muito tempo.

Rua Sésamo.

Rua Sésamo.

Estes dois anúncios, dedicados aos pêlos, merecem atenção. O primeiro, brasileiro, é fantástico. Uma obra-prima. O segundo coloca o dedo na nossa falha filogenética. Os pêlos provêm da costela de Adão ou do rabo do macaco? Os pelos testemunham a parte do diabo? Nas pinturas da Idade Média, os demónios e, sobretudo, os sátiros são peludos. Ressalve-se, contudo, que os peluches e muitos bonecos da Rua Sésamo são angelicais e peludos…

Marca: Play TV. Título: Beard. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Pedro Becker. Brasil, 2008.

Marca: Narta Homme. Título: Peau Parfaite. Agência: Les Gaulois. Direcção: Jonathan Gurvit. França, 2015.

Futurismos

Del Campo570_15

Nos anos setenta, a turma da disciplina de Sociologia da Arte, da Sorbonne, foi visitar a exposição dedicada ao futurismo no Centro de Arte e de Cultura Georges Pompidou (Beaubourg, Paris). Fui contrariado uma vez que existiam algumas ligações entre o futurismo e o fascismo, ambos de origem italiana. Marinetti, poeta fundador do movimento futurista (Manifesto Futurista, 1909) foi também uma das 119 pessoas presentes, em 1919, na fundação dos Fasci italiani di combattimento, o primeiro partido fascista europeu.

Umberto Boccioni. Unique Forms of Continuity in Space. 1913.

Umberto Boccioni. Unique Forms of Continuity in Space. 1913.

A exposição era impressionante. Aprendi a não confundir arte e ideologia. O futurismo mobilizou todas as artes e a sua herança permanece viva. Centra-se no presente e no futuro, privilegiando o movimento, a velocidade, a inovação e a máquina.

“La littérature ayant jusqu’ici magnifié l’immobilité pensive, l’extase et le sommeil, nous voulons exalter le mouvement agressif, l’insomnie fiévreuse, le pas gymnastique, le saut périlleux, la gifle et le coup de poing.

Nous déclarons que la splendeur du monde s’est enrichie d’une beauté nouvelle: la beauté de la vitesse. Une automobile de course avec son coffre orné de gros tuyaux tels des serpents à l’haleine explosive… une automobile rugissante, qui a l’air de courir sur de la mitraille, est plus belle que la Victoire de Samothrace” (F.T. Marinetti, Manifeste du Futuriste, Le Figaro, 20 de Fevereiro de 1909).

Os anúncios seguintes lembram o futurismo: cores contrastadas, decomposição e recomposição das imagens, exaltação dos movimentos, fascínio pela técnica… Repare-se na semelhança entre a personagem que foge no primeiro anúncio e a escultura de Umberto Boccioni (1913).

Marca: BGH. Título: Persecución. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Jonathan Gurvit. Argentina, Julho 2015.

Marca: AZ Produções e Publicidade. Título: AZ o marketing futurista aqui. Agência: AZ Produções e Publicidade. Brasil, Fevereiro 2015.

Contudo, ela move-se

Science-can-change-the-world-these-unsung-heroes-prove-2Este tipo de anúncio sobre a actividade científica está a tornar-se raro. Um imagem da ciência quixotesca, perseverante e, proporcionando-se, gratificante. Não convoca fundações, nem agências certificadoras, nem fundos, nem feiras de ideias, nem rankings, nem indexações. Apenas a ciência que se faz enquanto se faz. Sem os píncaros da ciência da ciência, nem derivados tóxicos. Há cientistas que formulam e resolvem problemas, longe do carnaval do poder.

A handful of inspirational people – that you’ve probably never heard of – are proving that science doesn’t just change the game. It can change the world for the better. They have devoted their time and energy to solve challenges such as Malaria outbreaks in Tanzania or how to provide food for 9 billion people in 2050. Thanks to their commitment it is possible to turn harmful methane gas into biodegradable plastics and for disabled people to walk again . Meet our unsung heroes of science.

Anunciante: Royal DSM N.V. Título: Unsung Heroes of Science. Agência: 1Camera. Direcção: Hugo Keijzer. Holanda, Junho 2015.

As botas de Gulliver. Magritte em Chicago

Há dias, abordei numa comunicação a questão das barreiras e das distâncias  entre os espaços culturais e determinados segmentos da população.

Relatório final GuimarãesPara a avaliação do impacto de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, foram realizados 19 inquéritos noutros tantos eventos (para aceder ao pdf do relatório final, carregar na imagem ou no linkImpactos Económicos e Sociais. Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura).

Os resultados revelam que a frequência de recintos abertos é relativamente mais elevada entre as pessoas com menos habilitações literárias (Gráfico 1). Cerca de metade  dos licenciados pelo ensino superior foram a eventos em recintos fechados (45,2%). Este valor desce para um quinto nas pessoas com ensino básico (20,2% e 22,1%).

Fonte: Inquérito a 19 eventos de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura

Fonte: Inquérito ao eventos de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura

Estes resultados não surpreendem. Pierre Bourdieu e Alain Darbel chamaram, há meio século, a atenção para esta desigualdade em termos de cultura legítima (L’Amour de l’art. Les Musées et leur public, Paris, Minuit, 1966). Em suma, nos eventos, a natureza do espaço é socialmente discriminante. Ao contrário da ponte, que une, a porta separa ou filtra mundos. Os nossos e os dos outros. Se a ponte remete para a passagem, a porta pode funcionar como barreira, que abre ou fecha consoante a origem e a condição social. Apesar da generosidade do apelo dos espaços sociais, nem todos os visados se sentem chamados.

Visitas 3

Fonte: Inquérito aos residentes no concelho de Guimarães. 2012.

A reserva face aos recintos fechados por parte da população menos escolarizada reaparece nos resultados de outro estudo promovido para a Capital Europeia da Cultura: um inquérito aos residentes no concelho. O gráfico 2 contempla as respostas respeitantes à visita aos espaços culturais locais. Quatro espaços foram visitados, pelo menos uma vez, por mais de 90% dos vimaranenses: Penha (99%), Centro Histórico (97%), Castelo (95%) e Parque da Cidade (92%). Em contrapartida, as visitas situam-se aquém dos 70% no Centro Cultural de Vila Flor (69%), na Citânia de Briteiros (67%), no Museu Alberto Sampaio (66%) e no Museu Martins Sarmento (63%).

Museu Alberto Sampaio

Museu Alberto Sampaio

Entre os espaços culturais mais visitados pelos vimaranenses, predominam os recintos abertos; e entre os menos visitados, os recintos fechados. As excepções fazem sentido. O Paço dos Duques é, dos espaços museológicos sob a alçada da Direcção Regional da Cultura do Norte, o mais visitado do Norte de Portugal: 137 402 visitas no primeiro semestre de 2015. Neste, como noutros casos, é mais adequado falar em fluxo, capaz de se sobrepor à ponte e à porta. Quanto ao Pavilhão Multiusos, há portas que abrem mais do que fecham: aproximam as pessoas e sintonizam mundos (neste domínio, os centros comerciais surgem como um exemplo extremo (ver Albertino Gonçalves. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado).

A abertura dos espaços culturais a novos públicos é um desafio antigo, que se agudizou com o advento do triângulo virtuoso da sustentabilidade, que submete os espaços culturais a três pressões algo desencontradas: redução do orçamento por parte do Estado, incremento das verbas próprias e aumento da afluência de visitantes. Neste cenário, dificuldades, empenho e empreendedorismo não têm faltado. Para aceder ao vídeo seguinte, carregar na imagem.

magritte-chicago

Unthink Magritte. Exposição no Instituto de Arte de Chicago. Leo Burnett. Chicago. 2014.

O vídeo sobre a exposição de René Magritte no Instituto de Arte de Chicago evidencia algumas destas preocupações. Primeiro, a preocupação com a eliminação de barreiras entre o museu e os públicos, bem como com a promoção da participação dos visitantes. Segundo, a eficiência e a atractividade da exposição, com recurso a novas tecnologias, incluindo uma aplicação para tablets e telemóveis. Terceiro, uma campanha de envolvimento, disseminada por diversos locais de Chicago. É certo que as portas do Instituto de Chicago se abrem. Mas, neste caso, abrem-se para sair, para cativar públicos; informação nos telemóveis, cartazes nas ruas e botas na praia. Sobre o efeito no número de entradas,  pouco se sabe. Pressupõe-se….

Montagem a partir de René Magritte pelo Instituto de Arte de Chicago

Montagem a partir de René Magritte pelo Instituto de Arte de Chicago

René Magritte. The Red Model. 1934

René Magritte. The Red Model. 1934

Subsiste um problema. Tão velho quanto a sociologia da arte. As portas e as pontes mais decisivas são interiores, estão na cabeça das pessoas. Aquém e além das tecnologias. São vidas. Não obstante a qualidade da campanha, muitas pessoas não vão porque não lhes interessa. Pressentem que não vão gostar.Como diria Pierre Bourdieu, é difícil gostar de uma obra de arte quando não se dominam os códigos que possibilitam o acesso ao seu valor. As diferenças e as hierarquias culturais são as principais barreiras à democratização da cultura e ao alargamento dos públicos.

Dar um salto: Filmes do Homem 2

Começa hoje, dia 4 de Agosto, a segunda edição dos Filmes do Homem – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. É uma iniciativa oportuna e original, promovida, com entusiasmo e competência, pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. Pode aceder à página do evento no seguinte endereço: http://filmesdohomem.pt/. Quanto ao catálogo, belíssimo, a versão em pdf está disponível no endereço: http://filmesdohomem.pt/doc/filmes-do-homem-2015.pdf ou carregando na seguinte imagem.

Filmes do Homem Catálogo 2015

Escrevi um pequeno texto no catálogo (pág, 14 -17) sobre o filme O Salto (1966) de Christian de Chalonge. No dia 8, faço uma visita guiada ao Espaço Memória e Fronteira. Dê um salto, um salto a Melgaço. Vale a pena!

A ciência, a bicicleta, a cigarra e a formiga

“Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”(Albert Einstein).

Albert Einstein

Albert Einstein

Como foi possível, em menos de uma geração, a ciência tornar-se tão pavloviana? Do lado canino, naturalmente. Balizas, estímulos, recompensas… A distribuição avassala a produção e a autonomia desfaz-se sem eufemismos. Pacotes financeiros, candidaturas, prémios, encontros, intercâmbios, publicações, burocracia, cargos, missões, júris, peritagens, deslocações…. E a investigação? A investigação é a folle du logis. Sobra para quem começa ou se demora na base. A actual divisão do trabalho científico presta-se a estas proezas. Uns investigam e os outros fazem ciência. Uma questão de autoridade. A este propósito, vale a pena consultar os apontamentos de Robert K. Merton sobre a oposição entre “locais” e “cosmopolitas” (Social Theory and Social Action,1949). Se calhar, a fábula da cigarra e da formiga carece revisão. Nos centros de investigação e no ensino superior, quem pedala melhor? A cigarra ou a formiga?

Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião : o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião.

Anunciante: Ministry of Education and Science of the Republic of Macedonia. Título: Religion. Does god exist? Macedónia, 2008.

Flor&Cultura

“C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui rend ta rose importante” (Saint-Exupéry. Le Petit Prince.1943).

maxresdefaultFlower. ps3.

Com ou sem fumo, há sinais de criatividade no mundo digital. Os videojogos são a meca da originalidade. Há jogos para todos os gostos e para todos os sonhos. Por exemplo, o Flower, desenvolvido, em 2009, pela Thatgamecompany para a Playstation 3.

Rene Magritte (1838-1967) L'invitation au voyage, 1961

R. Magritte. L’invitation au voyage, 1961

Salvador Dali. Meditative Rose, 1958

S. Dali. Meditative Rose, 1958

O Davide elegeu este videojogo para o trabalho da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura:
“Para quem está familiarizado com videojogos, mesmo ao nível mais básico, este trailer pode parecer bastante confuso. Se neste momento pedisse a você leitor, para simplesmente pensar em qualquer videojogo, imaginaria você uma temática onde se utiliza o vento para colher pétalas de flores, e revitalizar espaços verdes? Pois essa é a proposta de Flower. Kellee Santiago, a presidente de Thatgamecompany, descreve o jogo como:

“…a videogame  version of a poem. I think asks something different of the player.” (Playstation, 2009)” (Davide Gravato, Flower – Uma poesia interactiva: https://comartecultura.wordpress.com/2015/04/23/flower-uma-poesia-interativa/)”.

O videojogo Flower é sweet, com aroma a flower power. A música (Catch the Wind, 1965), também. Nos antípodas do movimento Punk, Donovan é o compositor e cantor apropriado.

Playstation 3. Flower. Trailer. 2009.

Golpe de misericórdia

johnny-cash-gods-gonna-cut-you-down-wm_480x360_640x360_176590915647Quem diz Johnny Nash (Amanhecer), pensa Johnny Cash e no vídeo musical dirigido por Tony Kaye: God’s gonna cut you down. Um excelente vídeo, realizado em 2006, três anos após a morte de Jonnny Cash. Conta com a participação, mais ou menos fugaz, de celebridades, tais como Bono, Peter Blake, Sheryl Crow, Johnny Depp, Dixie Chicks, Dennis Hopper, Kris Kristofferson, Adam Levine, Chris Martin, Kate Moss, Graham Nash, Iggy Pop, Keith Richards, Patti Smith, Sharon Stone, Justin Timberlake, Kanye West…
Perder tempo com futilidades é um vício ruim, não é? Mais edificante era afinar conceitos para decifrar a sociedade, não era? Há um jeito rafeiro de conhecer a sociedade: conhecê-la, conhecendo-a. E há um jeito não menos rafeiro de partilhar o conhecimento: sem cálculo. As sementes do pensamento não germinam só em estufas.

Johnny Cash. God’s gonna cut you down. Direcção: Tony Kaye. 2006.

Amanhecer

Nescafé Sunrise

Este anúncio da Nescafé (1988) faz, provavelmente, parte do património emotivo da humanidade. Ao amanhecer, numa praia deserta, dentro de um carocha, uma jovem reanima-se com uma chávena de Nescafé. A música é a segunda pele do anúncio: “I Can See Clearly Now” (original: Johnny Nash, 1972).

Marca: Nescafé. Título: Sunrise. Direcção: Derek Coutts. UK, 1988.

Johnny Nash. I Can See Clearly Now. 1973.