Archive | Janeiro 2015

Âmbar que te quero âmbar

“É doença natural no homem acreditar que possui a verdade” (Blaise Pascal).

Âmbar com aranha

Âmbar com aranha

Mais um anúncio a um automóvel. Excelente. Confino-me ao uso da cor. Uma tonalidade ambarina, a que se acrescenta, a meio do anúncio, o azul celeste. Estas tonalidades são deliberadas. Panorâmicas, massajam os sentidos. O âmbar é associado à conservação. Os vestígios de vida mais antigos foram descobertos envoltos em âmbar. O âmbar tem propriedades magnéticas: friccionado, atrai os outros corpos. A palavra eletricidade decorre da palavra âmbar em grego: electron. Existem amuletos com âmbar que funcionam simbolicamente como acumuladores de energias: os excessos transitam dos donos para os amuletos. Os eslavos acreditavam que os deuses choravam lágrimas de âmbar. Os heróis e os santos eram contemplados com rostos ambarinos, reflexos do céu. “O âmbar representa o fio psíquico que liga a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 29). E o azul celeste? Azul celeste sobre âmbar? Fica para outra lua.

Pecador, me confesso! Não faço ciência bem temperada. Perante um anúncio tão rico, detenho-me em pormenores laterais, tais como a tonalidade das imagens! A quem interessa? A ciência e o saber certificados alcançam-se mediante uma ascese ajustada ao objecto: inicia com uma ideia, a explicitar e enquadrar; traduz-se a ideia em questões, as questões em problemas e os problemas em hipóteses. As hipóteses convocam conceitos, que convém, por seu turno, operacionalizar, atendendo à abrangência, às dimensões, aos indicadores e aos índices. Segue-se o modelo de análise, configurador e preditor da investigação. Se não foi feito, importa peregrinar os faróis teóricos e delinear a metodologia. E por aí adiante… Assim se faz ciência rumo à Meca da sabedoria consensual, e respectivas métricas. Pecador, abordo o que me apetece como me apetece, almejando a felicidade pascaliana (“Felicidade: fazer o que se quer e querer o que se faz”). Não tenho cura! Valham-me Pascal, Simmel, Weber, Feyerabend, Morin e Santa Madalena! Nos meus artigos não há ciência, serpenteiam, apenas, conhecimentos vadios! Até nesta errância, me afasto da salvação. É certo que há textos científicos em que não consigo descobrir absolutamente nada. Ao quase tudo do saber domesticado, prefiro o quase nada da sabedoria pessoal. Enrolada no colo, a gata ronrona que a ignorância é infinita e a mercadoria científica pouco mais que embalagem.

Marca: Acura. Título: Bottle. Agência: Mullen. Direcção: Johnny Green. USA, Janeiro 2015.

Fibra

fleetwoodRhythm’s what you need, my friend!
Toca a mexer que tanta anestesia faz mal!

Fleetwood Mac, banda fundada em 1967, é um dos grandes nomes da história do Rock. Esta interpretação ao vivo das canções Tusk e Don’t Stop propicia uma autêntica explosão de ritmo e alegria.

Fleetwood Mac. Tusk e Don’t Stop.

 

Duas bocas

Inferno. Missal de Raoul du Fou, Normandia, França, ca. 1479.

Inferno. Missal de Raoul du Fou, Normandia, França, ca. 1479.

Giovanni da Modena, Inferno.Pormenor, ca. 1410.

Giovanni da Modena, Inferno.Pormenor, ca. 1410.

Às vezes, sinto-me feliz por dedicar alguma atenção à publicidade. Há anúncios que valem a pena: criativos, com uma boa história e excelente fotografia.

O William, da Madrid Fusión, tem duas bocas, atributo incómodo numa sociedade que sobrevaloriza a normalidade.

Os demónios também têm várias bocas e, como muita gente, várias caras.

Anunciante: Madrid Fusión 2015. Título: WilliaM. Agência: VCCP. Produção: Attic Films. Espanha, 2015.

A importância dos cabelos

Dove. Love your curlsOs cabelos “são o que as mulheres têm de mais querido” (Eudes de Chateauroux, séc. XII).

Marca: Dove. Título: Love your curls. Agência: Ogilvy & Mather Paris. França, Janeiro 2015.

Adamastor

Vitamin wellÉ tempo de recarregar, é tempo de ressurgir. Em câmara ultra lenta. Um belíssimo efeito. O recarregado é o futebolista Zlatan Ibrahimovic. É bizarro, mas esta figura vagarosamente emergente recorda-me o Adamastor.

Marca: Vitamin Well. Título: It’s time to reload. Agência:  Acne. Suécia, Janeiro 2015.

Via láctea

 

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Tudo neste anúncio está perversamente bem concebido. Não há tempo para comentar. Nem é preciso.

Marca: Plain Milch. Título: Mutter. Direcção: Bernd Faass. Alemanha, Janeiro 2015.

O enterro do Super-Homem

superman-hd-wallpaper-and-desktop-backgroundOs super-heróis são os semideuses da actualidade. Graças a esses sobre-humanos, acontece-nos reconhecer o humano, com traços grossos e excessivos. Somos feitos deste barro. Desconfiamos do espelho e do outro, mas rendemo-nos à refracção que retoca uma humanidade desbotada. Trata-se de um desencontro que consola. Comigo funciona: a minha barriga é o peito do Super-Homem e o tabaco, a kriptonita. Mas, desenganemo-nos, os super-heróis são, afinal, caducos. Até ao próximo episódio, o Super-Homem morre ingloriamente por uma causa ilustre: revelar que até os super-heróis carecem dos serviços de uma seguradora.

Marca: Banorte. Título: Enterro de Superman. Agência: DDBO. México, 2001.

Cem donzelas crepitantes

Frigideira japonesaAdoramos paradas e listas (Umberto Eco): fanfarras, eventos desportivos, cortejos académicos, romarias, congressos, concursos… Cem donzelas em mini saia a cozinhar uma panqueca, eis uma parada palpitante. Depois das esferas e das peças de automóvel, um dominó com panqueca e frigideira, mediante coreografia em série feminina. Cem criadas para cozinhar uma panqueca não condiz com a reputação da produtividade japonesa. Mas não se trata de uma panqueca qualquer! É uma panqueca de luxo, digna de assinatura. Assim como há alta costura também há alta cozinha. Esta panqueca é especial. Sabe a cem donzelas e faz crescer o cabelo! A panqueca não é para comer, é para colocar, quentinha, na cabeça.

Estou a desconversar. Hoje, acordei para desconversar. É a missão do dia. O novo milénio está a servir-nos tantas maravilhas que não há mezinha que resista. As cem criadas japonesas recordam-me as quatro instrumentistas do vídeo musical Addicted To Love, de Robert Palmer. Porquê? Pela sincronia? Pela precisão dos gestos? Pela estética robótica? Pelo resto, certamente.

Em suma, um excelente anúncio!

Marca: FlavorStone. Título: 100 Sizzling Japanese Maids in Action. Agência: Dentsu (Tokio). Japão, Janeiro 2015.

Interacção entre gerações

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As partes baixas do corpo são o húmus do grotesco, um redemoinho fecundo. Tudo amortalham e tudo regeneram. Quanto mais distante estiver a entidade rebaixada maior tende a ser o efeito grotesco. A cabeça, o trono e o céu são alvos de eleição. Compensa mais rebaixar o nariz do que o umbigo, o rei do que o servo, o santo do que o peregrino. Acrescente-se uma segunda tendência: Quanto mais familiar for a entidade estranhada maior é o efeito grotesco. Neste caso, um ancião senta-se no chão, conjugando dois tópicos baixos: do corpo e da sala. O carro de brincar do neto, o rebento da família, acerta, veloz, nos genitais do avô, o tronco da família. Em termos de humor grotesco, nada de novo, tanto mais que a Volkswagen tem vindo a enveredar por este registo desconcertante e irreverente.

Marca: Volkswagen. Título: Acceleration. Agência: Tribal Worldwide, Beijing. Direcção: Angle Garcia. China, Dezembro 2014.

Qualidade e qualificação

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“ A Internet acelera o advento da sociedade de mercado, com um impulso violento da concorrência e da competição” (Alain Minc). Dá para sentir. Mas também dá para sentir que a competição muda de natureza. A qualificação sobrepõe-se à qualidade. Ter qualidade não basta, carece qualificação. Em contrapartida, a qualificação não requer qualidade. Quem vai vingar? A qualidade. O circo é um espectáculo efémero.

Aproveito este falso artigo, para anexar dois artigos para os alunos.
Pdf: Emigração e envelhecimento num concelho do Minho Interior
Pdf: Envelhecimento e saúde em Melgaço