Âmbar que te quero âmbar

“É doença natural no homem acreditar que possui a verdade” (Blaise Pascal).

Âmbar com aranha

Âmbar com aranha

Mais um anúncio a um automóvel. Excelente. Confino-me ao uso da cor. Uma tonalidade ambarina, a que se acrescenta, a meio do anúncio, o azul celeste. Estas tonalidades são deliberadas. Panorâmicas, massajam os sentidos. O âmbar é associado à conservação. Os vestígios de vida mais antigos foram descobertos envoltos em âmbar. O âmbar tem propriedades magnéticas: friccionado, atrai os outros corpos. A palavra eletricidade decorre da palavra âmbar em grego: electron. Existem amuletos com âmbar que funcionam simbolicamente como acumuladores de energias: os excessos transitam dos donos para os amuletos. Os eslavos acreditavam que os deuses choravam lágrimas de âmbar. Os heróis e os santos eram contemplados com rostos ambarinos, reflexos do céu. “O âmbar representa o fio psíquico que liga a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 29). E o azul celeste? Azul celeste sobre âmbar? Fica para outra lua.

Pecador, me confesso! Não faço ciência bem temperada. Perante um anúncio tão rico, detenho-me em pormenores laterais, tais como a tonalidade das imagens! A quem interessa? A ciência e o saber certificados alcançam-se mediante uma ascese ajustada ao objecto: inicia com uma ideia, a explicitar e enquadrar; traduz-se a ideia em questões, as questões em problemas e os problemas em hipóteses. As hipóteses convocam conceitos, que convém, por seu turno, operacionalizar, atendendo à abrangência, às dimensões, aos indicadores e aos índices. Segue-se o modelo de análise, configurador e preditor da investigação. Se não foi feito, importa peregrinar os faróis teóricos e delinear a metodologia. E por aí adiante… Assim se faz ciência rumo à Meca da sabedoria consensual, e respectivas métricas. Pecador, abordo o que me apetece como me apetece, almejando a felicidade pascaliana (“Felicidade: fazer o que se quer e querer o que se faz”). Não tenho cura! Valham-me Pascal, Simmel, Weber, Feyerabend, Morin e Santa Madalena! Nos meus artigos não há ciência, serpenteiam, apenas, conhecimentos vadios! Até nesta errância, me afasto da salvação. É certo que há textos científicos em que não consigo descobrir absolutamente nada. Ao quase tudo do saber domesticado, prefiro o quase nada da sabedoria pessoal. Enrolada no colo, a gata ronrona que a ignorância é infinita e a mercadoria científica pouco mais que embalagem.

Marca: Acura. Título: Bottle. Agência: Mullen. Direcção: Johnny Green. USA, Janeiro 2015.

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Sociólogo.

One response to “Âmbar que te quero âmbar”

  1. Beatriz Martins says :

    Âmbar, sim, magnético!

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