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Variações

António Variações (1944-1984)

No anúncio Llegá, da empresa petrolífera YPF, as pessoas vão chegando animadas por emoções tranquilas. Trata-se de um anúncio de Pucho Mentasti, um dos melhores realizadores da América Latina.

Anunciante: YPF. Título: Llegá. Agência: Ogilvy Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Jul 2011

Em Never Stop, da Universidade de Auckland, as pessoas avançam aceleradas rumo ao topo. O registo desta fábrica de sucessos é futurista. No anúncio Llegá, as pessoas chegam ao lugar desejado, um cais de sentidos e sentimentos. O tempo abranda. O registo é romântico.

Na canção Estou Além, do António Variações, nem se parte, nem se chega. Uma travessia sem ancoragem. O registo é, agora, trágico: “Vou continuar a procurar / A minha forma / O meu lugar / Porque até aqui eu só: / Estou bem onde eu não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não vou” (António Variações, Estou Além”).

António Variações. Estou além. Anjo da Guarda. 1983.

António Variações. Estou além (letra)

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só:
Quero quem quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar
Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só:
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou.

Sem palavras

Um anúncio português culto, desconcertante e macabro. Para aceder ao vídeo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/4-hands-scriptwriting-festival-kitchen/.

Anúncio Português

Anunciante: Portugues Film Academy. Título: Kitchen. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Agosto 2017.

Âmbar que te quero âmbar

“É doença natural no homem acreditar que possui a verdade” (Blaise Pascal).

Âmbar com aranha

Âmbar com aranha

Mais um anúncio a um automóvel. Excelente. Confino-me ao uso da cor. Uma tonalidade ambarina, a que se acrescenta, a meio do anúncio, o azul celeste. Estas tonalidades são deliberadas. Panorâmicas, massajam os sentidos. O âmbar é associado à conservação. Os vestígios de vida mais antigos foram descobertos envoltos em âmbar. O âmbar tem propriedades magnéticas: friccionado, atrai os outros corpos. A palavra eletricidade decorre da palavra âmbar em grego: electron. Existem amuletos com âmbar que funcionam simbolicamente como acumuladores de energias: os excessos transitam dos donos para os amuletos. Os eslavos acreditavam que os deuses choravam lágrimas de âmbar. Os heróis e os santos eram contemplados com rostos ambarinos, reflexos do céu. “O âmbar representa o fio psíquico que liga a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 29). E o azul celeste? Azul celeste sobre âmbar? Fica para outra lua.

Pecador, me confesso! Não faço ciência bem temperada. Perante um anúncio tão rico, detenho-me em pormenores laterais, tais como a tonalidade das imagens! A quem interessa? A ciência e o saber certificados alcançam-se mediante uma ascese ajustada ao objecto: inicia com uma ideia, a explicitar e enquadrar; traduz-se a ideia em questões, as questões em problemas e os problemas em hipóteses. As hipóteses convocam conceitos, que convém, por seu turno, operacionalizar, atendendo à abrangência, às dimensões, aos indicadores e aos índices. Segue-se o modelo de análise, configurador e preditor da investigação. Se não foi feito, importa peregrinar os faróis teóricos e delinear a metodologia. E por aí adiante… Assim se faz ciência rumo à Meca da sabedoria consensual, e respectivas métricas. Pecador, abordo o que me apetece como me apetece, almejando a felicidade pascaliana (“Felicidade: fazer o que se quer e querer o que se faz”). Não tenho cura! Valham-me Pascal, Simmel, Weber, Feyerabend, Morin e Santa Madalena! Nos meus artigos não há ciência, serpenteiam, apenas, conhecimentos vadios! Até nesta errância, me afasto da salvação. É certo que há textos científicos em que não consigo descobrir absolutamente nada. Ao quase tudo do saber domesticado, prefiro o quase nada da sabedoria pessoal. Enrolada no colo, a gata ronrona que a ignorância é infinita e a mercadoria científica pouco mais que embalagem.

Marca: Acura. Título: Bottle. Agência: Mullen. Direcção: Johnny Green. USA, Janeiro 2015.