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Anúncios que nos dão música

A comunicação nos anúncios publicitários é plural, “orquestral” e “polifónica”. Para além da “racional”, convoca múltiplas vias e dimensões: sensações, sentimentos, emoções, memórias, valores, símbolos… Por acréscimo, parte do efeito costuma ser subliminar. O que importa é que no momento oportuno o comprador, ou quem o influencia, faça a escolha desejada. Neste quadro, o fundo sonoro, especialmente a música, é particularmente relevante.

O segmento automóvel é, porventura, o mais proeminente em quantidade, recursos mobilizados e qualidade. O alcance do(s) anúncio(s) a um (novo) modelo é decisivo. Contratam-se, normalmente, os realizadores mais conceituados e as melhores agências de criatividade e produção.

Um anúncio a um automóvel não atende apenas às propriedades reais ou imaginárias do modelo; considera também as caraterísticas do público alvo a envolver e cativar. Para conseguir que este adira e nele se reconheça, convém conhecê-lo, designadamente as suas prioridades, aspirações e visões do mundo.

Embora bastante esbatida, esboçam-se correspondências entre o tipo de automóvel, as propriedade sociais dos potenciais compradores e o género musical. Ilustra-o, até certo ponto, o vídeo “Anúncios que nos dão música”, apresentado no dia 18 de março de 2026 na segunda parte de uma conferência A Música na Publicidade durante a Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga.

Anúncios que nos dão música. Por Albertino Gonçalves. Conferência A Música na Publicidade, Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga, 18.03.2026

Foco e exorbitância na publicidade

No início do século XXI, a publicidade, algo aliviada das amarras da “mensagem”, como que se soltou aproximando-se da arte: criativa e fabulosa, aposta em cativar através de imagens, emoções e sensações, quase dispensando demorar-se no produto (ver vídeo My Car Is Baroque). Esta propensão esmoreceu nos últimos anos: aumenta o foco no produto em detrimento da exorbitância envolvente. A publicidade torna-se mais racional e menos excêntrica. A divagação e o delírio abrandam. O sonho reside cada vez menos no anúncio, em geral, e mais no produto, em particular. Mas, com maior ou menor prevalência, as diversas modalidades coexistem. Demonstra-o, pelo menos em parte, esta série de anúncios recentes a automóveis. Aliás, até parece que a vaga está em vias de se inverter.

Subaru – The Chase. Ag. Carmichael Lynch. USA, novembro 2025
Peugeot – Kittens. Ag. HAMLET. França, dezembro 2025
Nissan – Nissan KICKS Conquer All Conditions. Ag. Steam • Tam Tam\TBWA • TBWA\Canada. Canadá, janeiro 2026
Alpine – Let’s not be driven by technology. Let’s drive it. Ag. Maison BETC Paris. França, janeiro 2026
Renault – Look back, to move forward. Ag. Publicis Conseil. França, Janeiro 2026

O meu carro é barroco

A pretexto das aulas de Sociologia da Arte e do Imaginário, tenho refeito, aumentado e melhorado, alguns materiais de apoio. É o caso do vídeo O Meu Carro É Barroco que contempla os anúncios a automóveis mencionados no texto “Dobras e fragmentos: a turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis”, publicado em 2009, no livro Vertigens. Para uma sociologia da perversidade (Coimbra: Grácio Editor, p. 47-63). Após tantos anos, resulta possível a leitura do texto acompanhada pelo visionamento dos anúncios. Graças às novas ferramentas, com maior nitidez e resolução. Porventura, um regalo para a vista, o ouvido e a mente.

My Car Is Baroque, by Albertino Gonçalves. 1st edition: 2007. Expanded edition: January 22, 2026

Leveza sobre rodas

70 ans de légèreté é um anúncio de sonho, acelerado e vertiginoso, com recurso inspirado à banda desenhada. Condiz com o país, a França, e com a marca, a Alpine, um ícone do mundo automóvel que completa 70 anos de existência. [Artigo sugerido: A civilização da leveza].

Marca: Alpine. Título: 70 ans de légèreté. Agência: BETC Etoile rouge. Direção: Antoine BARDOU-JACQUET. França, junho 2025

Tentação revolucionária

Para apresentar o novo ë-C3 100% Elétrico como uma tentação finalmente acessível, a Citröen recorre a um anúncio 100% neobarroco (Omar Calabrese, L’età neobarocca, 1987) com recheio grotesco (Mikhail Bakhtin, Cultura Popular na Idade Média, 1ª ed. 1941). Com um jeito, ao mesmo tempo ligeiro e superlativo.

Marca: Citroën ë-C3. Título: The Revolution has begun / Eat the rich. Agência: BETC Paris. Direção: Fredrik Bond. França, maio 2024

A dança das palavras com as imagens

As palavras e as imagens podem enlaçar-se numa espécie de valsa acelerada. No anúncio #YesOfCorsa, do Opel Corsa Electric, as perguntas marcam o compasso e as respostas ilustradas proporcionam o movimento.

Marca: Opel Corsa Electric. Título: Yes, Of Corsa. Agência: Jung von Matt Havel. Direção: Henry Scholfield. Alemanha, outubro 2023

Identidade, alteridade e virtualidade

René Magritte, Decalcomania, 1966,

A publicidade pode ser instrutiva. Acontece com os anúncios “New Dawn”, da Hyundai, e “Un-Australia”, da Meat & Livestock Australia, que ilustram duas noções elementares das ciências sociais, que passo a resumir.

O valor de uma palavra provém do carácter distintivo dos seus usos virtuais. Simplificando, uma palavra vale quando permite dizer algo que as outras palavras não conseguem (a partir de F. Saussure, Cours de Linguistique Générale, 1916).
A identidade não remete para uma essência mas decorre da relação com os outros, com a alteridade. Simplificando, somos o que somos menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (a partir de C. Lévi-Strauss, L’ Identité, 1977).

Marca: Hyundai. Título: New Dawn. Agência: Innocean UK. Direção: Jeroen Mol. Reino Unido, Reino Unido, janeiro 2023
Marca: Meat & Livestock Australia. Título: Un-Australia. Agência: The Monkeys. Direção: Yianni Warnock. Austrália, janeiro 2023

Fantasma ao volante

Toyota HiLux

Com o dia dos mortos à porta, assombram-nos visões e medos. Como é costume, a publicidade antecipa-se: expandem-se os anúncios macabros. Para a Toyota, os espíritos querem-se ao volante.

Marca: Toyota HiLux. Título: An Unbreakable Connection. Agência: Saatchi & Saatchi (Sydney). Direção: Benji Weinstein. Austrália, setembro 2022.

Imperfeição e transfiguração. O sublime em estado líquido

Burberry. Hero. 2021

Estou a estudar o tema da transfiguração na arte paleocristã. Magníficos, deslumbrantes, estes dois anúncios vêm mesmo a propósito. São uma generosa prenda de Natal.

A água, mãe da vida, fluxo, imersão, banho sagrado, batismo, transfiguração. O perfume, fragância do sólido e do líquido, pele sublimada, aura benta, intimidade pública, aparência da essência: transfiguração. A máquina, o outro do mesmo, o humano, o animal, a fuga e a odisseia compulsiva. A noite, a porta, a cruz, o limbo e a margem, a potência, o híbrido, o centauro, o mítico e o profano divino: transfiguração. A demanda da perfeição do imperfeito, a nossa tragédia, a coroa da nossa estética.

Marca: Burberry. Título: Hero. Direção: Jonathan Glaser. Produção: Academy Films. Reino Unido, Julho 2021.
Marca: Ford Ranger. Título: Night Swimming. Agência: AMV BBDO. Direção: Adam Berg. Reino Unido, Dezembro 2021.

A Bela Adormecida. À procura de novas versões

LesObservateurs.CH

“Grã-Bretanha: Uma advogada quer proibir a Bela Adormecida porque “o beijo não é consentido”. Feministas e pedagogas suíças apoiam-na” (https://lesobservateurs.ch/2017/11/29/grande-bretagne-une-avocate-veut-interdire-la-belle-au-bois-dormant-car-le-baiser-nest-pas-consenti-des-feministes-et-pedagogues-suisses-la-soutiennent/).

Por que não substituir o macho pela máquina?

Renault Mégane. Prinzessin Loren. Alemanha. Antes 2010.