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Benz, Bertha Benz

Bertha Benz 2

Bertha Benz.

Alemã, proveniente de uma família abastada, Bertha Benz (1849-1944), sócia e esposa de Karl Benz, foi a primeira pessoa a conduzir um carro numa longa distância: 106 km, em 1888. Com o dinheiro do dote, financiou a investigação e a “indústria” do marido. Sem o avisar, viajou, acompanhada pelos dois filhos, num Benz Patent-Motorwagen III (ver a reportagem Driving a Mercedes-Benz 1886), desde a sua casa em Mannheim até à casa da mãe em Pforzheim. Teve percalços: reparou pequenas avarias com alfinetes e com uma liga da sua indumentária; recorreu a um sapateiro por causa de uma correia de cabedal; uma vez que o volume do depósito era insuficiente, comprou num farmacêutico um líquido passível de funcionar como combustível; o carro teve que ser empurrado nas subidas mais íngremes. Mas Bertha Benz não desistiu. Esta iniciativa pioneira foi, antes de mais, uma jogada de marketing  amplamente divulgada pelos meios de comunicação social. “Ela conduziu mais do que um carro, ela conduziu uma indústria”.

O anúncio da Mercedes-Benz, dedicado a Bertha Benz, é um anúncio institucional, com o investimento e o aprumo que os anúncios de grandes marcas requerem. O The First Driver é uma celebração que não desmerece. Tudo é requinte e qualidade: a imagem, a cor, o ritmo, a música, o texto, o elenco. Uma beleza sóbria!

Marca: Mercedes-Benz. Título: The First Driver. Agência: R/GA. Estados Unidos, Agosto 2018.

Divórcio

Renault

O divórcio é, curiosamente, assunto omisso no Tendências do Imaginário. Em Portugal, em 2016, houve 69 divórcios para 100 casamentos (Pordata). “Em França, cerca de um em cada dois casamentos termina em divórcio” (https://www.huffingtonpost.fr/2013/08/13/etude-freres-soeurs-impact-risque-divorce_n_3749287.html). A condição de divorciado tornou-se numa nova idade da vida. No anúncio As unexpected as life, da Renault, um carro trespassa uma série de painéis publicitários, tantos quantos os modelos da Renault e as idades da vida. Neste anúncio, a separação é politicamente correcta: ele fica com o automóvel e ela com uma companheira.

Marca: Renault. Título: As unexpected as lif. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Martin Werner. França, Fevereiro 2017.

Nas breves pesquisas que fiz na Internet, não encontrei o que procurava: “quocientes de divorcialidade”. Pelo caminho, deparei com vários saberes pitorescos: os casais com partilha de tarefas domésticas divorciam-se mais, bem como quem fez casamentos caros ou teve filhos cedo. Grande parte dos estudos sobre o divórcio debruça-se sobre os filhos. O anúncio Marked for life, da SIRE, recorre às tatuagens para vincar que aquilo que os pais dizem durante o divórcio “marca os filhos para a vida”.

Marca: SIRE. Título: Marked for life. Agência: 181 Amsterdam. Holanda, Maio 2011.

Histórias mal contadas

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Quem não teve a tentação de emendar o final de um conto?

Na História da Carochinha, o João Ratão não ficou “cozido e assado no caldeirão”. Caiu no caldeirão e comeu tanto, tanto, que, para além de nada sobrar para os convidados, teve que fazer dieta durante sete anos.

Na versão de Perrault, “Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe: «Avó, que grandes braços tem!» «É para melhor te abraçar, minha filha.» «Avó, que grandes pernas tem!» «É para correr melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes orelhas tem!» «É para escutar melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes olhos tem!» «É para ver melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes dentes tem!» «É para te comer.»” Mas o lobo mau não comeu a Capuchinho. Eu estava lá para ver. Ao ouvir as respostas do lobo, a Capuchinho aproximou-se e deu-lhe um beijo; e o lobo mau transformou-se num príncipe maravilhoso, dono da floresta e de todas as terras em redor, mais rico do que o rei Bico de Tordo.

Por altura do Natal, nasceu, durante a noite, um pequeno bode negro com cornos graúdos. Não havia quem lhe fizesse frente: o cão, o homem, os obstáculos, a vaca… Mas eis que surge um monstro de lata com olhos de dragão. As ovelhas afastam-se, mas o pequeno bode negro não arreda pé, até que, a um dado momento, desiste. Desiste? Não, não desistiu, na verdade tinha mais que fazer do que estar a olhar para aquela coisa rolante. Estava atrasado a um encontro com as bruxas.

Marca: Volskswagen. Título: Baby ram. Agência: Adam & Eve/DDB. Direcção: Nick Gordon. Alemanha, Novembro 2017.

O amor da arte

Lexus-NX-The-Art-Of-Standing-Out-Advert

“A arte é o caminho mais curto do homem ao homem” (André Malraux, 1949, Psychologie de art: La création artistique, Genève, Editions Albert Skira)

Um anúncio com arte assinado pela Lexus. É raro surpreender obras de arte tão bem incorporadas num vídeo. Uma pequena galeria com quadros de Vermeer, Mondrian, Van Gogh, Seurat, Hopper e escultura de Koons. Nada como o bom gosto. Diga-o com flores? Diga-o com arte. A Lexus deixa-se afagar pela aura da arte.

Marca: Lexus. Título: The art of standing out. Agência: Chi & Partners. Direcção: NE-O. Europa, Novembro 2017.

As rodas da imaginação

Einstein Imagination

Este anúncio da Ford EcoSport resulta de uma mudança de conceito explicitamente assumida: “Tuvimos un cambio de posicionamiento respecto a la libertad: dejamos de relacionarla sólo al aire libre y pasamos a asociarla a la imaginación, que no tiene hora ni lugar para suceder” (Vico Benevides, director criativo executivo da GTB Brasil). O anúncio Imaginación mostra que se pode ser claro sendo plural e original, citando os outros.

Marca: Ford EcoSport. Título: Imaginación. Agência: GTB. Direcção: Nico Perez Veiga. Iberoamérica, Setembro 2017.

 

 

Violência fraterna

Car one

Tudo espanta os olhos de criança. No anúncio Hermanos, da Car One, uma empresa de carros usados, assiste-se a uma escalada de violência, com ressonâncias bíblicas: “Abel” e “Caim” partilham, para o bem e para o mal, o mesmo quarto. Há quem sustente que o convívio duradouro de seres humanos num espaço exíguo pode gerar mal-estar e violência. Não são os seres humanos animais territoriais que necessitam de uma “muralha de honra” (Émile Durkheim) e de um “espaço vital” (Friedrich Ratzel)? Sem essa “distância pessoal” (Edward T. Hall), os riscos de violência são incalculáveis. Com poucas letras se descreve uma teoria de triste memória.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Na publicidade, o segmento automóvel consta entre aqueles que mais convocam a violência. A violência, mais as duas primas: a sexualidade e a morte. A violência cativa, “prende”. Parte dos grandes espectáculos da humanidade são espectáculos de violência, a começar pelas execuções públicas e a terminar nos atentados terroristas. As cenas mais hilariantes dos filmes mudos, e não só, são cenas de violência, mormente, gratuita.

Parte da violência quotidiana rola sobre rodas. Ao volante e nos demais assentos viajam vulcões adormecidos de agressividade. Até o pacifista mais ecuménico sente que com o pé no acelerador consegue derrubar a Muralha da China. O automóvel ergue-se, ao mesmo tempo, como uma cavalgadura e uma armadura (ver Bestas ao Volante: http://www.jn.pt/domingo/interior/bestas-ao-volante-983646.html). Realidade, ficção ou sonho, a violência activa o olhar, a alma e o corpo (Derrick de Kerckhove).

Quer vencer uma batalha e conquistar espaço vital? Compre um automóvel na Car One.

Marca: Car One. Título: Hermanos. Agência: Leo Burnett Argentina. Direcção: Javier Usandivaras / Miguel Usandivaras. Argentina, Junho 2017.

Técnica de sonho

Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.

Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.

Os gatos e os automóveis

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O que há de comum entre um gato e um automóvel? Ambos dão voltas. Segundo o anúncio russo Cats, o Smart fourfour dá voltas mais apertadas. É recordista na classe. Se o anúncio ao Smart pendura objectos nas caudas dos gatos, a Kotex cola-lhes fitas adesivas em diversas partes do corpo. O resultado é estranho (ver https://tendimag.com/2016/10/14/o-periodo/). Pobres gatos! E o pior ainda está para vir. No anúncio Funny Cat, o gato fica perdido de amores por um Toyota Corolla. Para andar no automóvel, repete acidente após acidente. Assim, desfruta do carro a caminho da clínica veterinária. As desventuras do gato fisgado provoca um misto de humor e compaixão. Que os gatos têm sete vidas atesta-o a parte final do anúncio: a pata do gato irrompe da sepultura.

Marca: Smart. Título : Cats. Agência : Decembrist. Direcção : Ivan Egorov. Rússia, Novembro 2016.

Marca: Toyota Corolla. Título: Cat. Agência: Saatchi & Saatchi New Zealand. Direcção: Hamish Rothwell. Nova Zelândia, Outubro 2012.

ABC da morte

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Há duas semanas, comecei um artigo que desejava publicar hoje, dia de rara comunhão dos vivos e dos mortos. O dito artigo ainda vai a meio. Opto, constrangido, por uma solução de recurso.

O vídeo ABC of Death presume-se ser um falso anúncio. Mas a Volvo autorizou a sua circulação. Apresenta uma série de mortes. O humor negro predomina. A morte é súbita, imprevista e, por vezes, ridícula. Mas não é essa a novidade! Digna de atenção é a seguinte mensagem: nos tempos que correm, os carros conduzem melhor do que os condutores. Ainda bem para os vivos!

Os realizadores do ABC of Death, Daniel Titz e Dorian Lebherz, dirigiram, em 2015, o anúncio Dear Brother, para a Johnnie Walker, um dos anúncios mais criativos e sublimes de que tenho memória. Retomo-o, sem hesitar.

Marca: “Volvo”. Título: ABC of Death. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Alemanha, Outubro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

Preservativo eletrónico

santinoOutrora, as nossas tentações resumiam-se aos sete pecados mortais. Valia-nos a corte celestial. Agora, as tentações são objectos: cigarros, drogas, shots, coca-cola, hamburgers, batatas fritas, sal, açúcar, automóveis e telemóveis. Existem, contudo, objectos inocentes. São, aliás, objectos de salvação. Por exemplo, os preservativos em látex e os preservativos electrónicos. Em látex, protegem da procriação e da doença. Electrónicos, protegem dos acidentes de automóvel. Os santinhos, que o senhor abade nos dava na doutrina, já não são fiáveis. O Santino Safety System revela-se mais seguro. Consegue silenciar o telemóvel, a cigarra do século. Quer-me parecer que, preservativo sim, preservativo não, a pós-modernidade está cada vez mais vitoriana!

Marca: Groupama. Título: Santino Safety System. Direcção: Danielle Brunelletti. Itália, Outubro 2016.