Archive | Novembro 2014

Imaginação e irreverência

1. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 1. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 2. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 2. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Nas margens dos livros medievais existem imagens de uma criatividade e de um atrevimento extremos. No fólio 18v do manuscrito Voeux du Paon (figuras 1 e 2), concluído cerca de 1350, “na margem esquerda, um animal híbrido, com cabeça humana coroada e corpo de serpente, toca gaita-de-foles com o ânus. Um animal híbrido, com cabeça humana, equilibra uma espada com a face” (Pierpont Morgan Library). O tema da gaita-de-foles é várias vezes retomado ao longo do livro.

 

Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Na margem esquerda do fólio 28v, “um homem nu segura a cabeça e a perna amputadas. No fundo da página (bas-de-page), uma serpente engole um homem, do qual se vê apenas a cabeça. Na margem direita, um homem, com o rosto visível, espreita do interior de uma construção, provavelmente uma prisão ou um forno” (Pierpont Morgan Library).

Ambas as páginas nos apresentam híbridos disformes, desmontados e remontados em função da imaginação, mas também do imaginário. Muitas destas imagens eram escrupulosamente codificadas.

Fig 4. Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 4. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 5. Fig 4. Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 5. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

E deixa-me sonhar a vida inteira

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV.

Mais antiga do que a Pietá de Michelangelo, a Notre-Dame de Grasse é uma obra-prima da escultura medieval. Para a dizer, para falar com ela, só um poeta como Antero de Quental.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV. Pormenor.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV. Pormenor.

À Virgem Santíssima
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N’um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental, Sonetos Completos, 1886

Notre-Dame de Grasse. Les Augustins, séc. XV. Pormenor.

Notre-Dame de Grasse. Les Augustins, séc. XV. Pormenor.

Bofetada intercultural

Bodega Uxmar

O pós-moderno, dividido, hesita; o (pré)moderno, convicto, conquista. “El indio no duda”. Quanto à violência gratuita, ela é a pimenta da culinária publicitária. Alongando a análise, nestes dois anúncios a bofetada parece representar um choque de culturas.

Marca: Bodega Uxmal. Título: El indio no duda (moto). Agência: Carlos & Dario. Direção: Matias Scartascini. Argentina, Novembro 2014.

Marca: Bodega Uxmal. Título: El indio no duda (amigas). Agência: Carlos & Dario. Direção: Matias Scartascini. Argentina, Novembro 2014.

O coro da beneficência

Coca-Cola. Baby Symphony

A Coca-Cola aderiu à RED. À semelhança da American Express, da Apple, da Motorola ou da Giorgio Armani, acede a um rótulo Product Red, uma iniciativa de Bono Vox e Bobby Shriver para angariar donativos para a Global Fund, contra a sida, a tuberculose e a malária. Parte dos resultados das vendas dos produtos RED reverte para o fundo.

O anúncio Baby Symphony, da Coca-Cola, mais do que um hino de alegria é uma ode à esperança. Tudo condiz: a qualidade, o propósito, as crianças, a música… Excelente!

Multiplicam-se os anúncios, beneméritos ou não, com crianças adoráveis e prodigiosas, para gáudio do público. Mas, perante tamanho angelismo, pergunto: Será que somos crianças e os bebés brinquedos?

Desculpem esta pergunta daninha, mas estou em fase de azedume galopante. Tudo parece digno de um pontapé! Não são maus fígados, apenas desgaste. Há instituições que regulamentam tudo, tudo, menos a carga de trabalho. Esta semana, tinha fisioterapia todos os dias ao fim da tarde. Não consegui ir uma única vez! Perdão! Consegui ir sexta à consulta do fisiatra para avaliar o resultado! Este fim-de-semana não tenho teses para ler, tenho teses para corrigir… A culpa é da Coca-Cola, a “fábrica da felicidade”! Naturalmente.

Marca: Coca-Cola. Título: Baby Synphony. Internacional, Novembro 2014.

O Rácio e a Fotografia

Não devia queixar-me das teses para ler no fim-de-semana. Um português não se queixa, aguenta! Como o valente Zé Povinho.

Marca: Fotoprix. Título: Babies. Agência: Casadevall Pedreno & Prg. Espanha, 1994.

Em 2006, a portaria nº 231/2006 hierarquiza os cursos de ensino superior atribuindo-lhes um rácio alunos/docente ETI. Salomónica e geómetra, fixa o rácio das Ciências Sociais e das Letras em 20 (simplificando, 20 alunos justificam um docente a tempo inteiro); o rácio de outras Ciências Sociais, como a Comunicação Social ou as Ciências da Educação, desce para 12. Na Enfermagem e nas Artes do Espectáculo, o rácio fixa-se em 8 e 5, respectivamente. Extrapolando, o resto permanecendo igual, a um sociólogo compete-lhe ler duas teses, a um cientista da educação, uma e a um docente das Artes do Espectáculo, meia.

William Blake. The Ancient of Days, 1794.

William Blake. The Ancient of Days, 1794.

God the Geometer. Codex Vindobonensis, ca 1250.

God the Geometer. Codex Vindobonensis, ca 1250.

Qual a razão destes rácios? Abreviando, enquanto uma aula teórica nas Ciências Sociais é uma aula teórica, nas outras Ciências Sociais, uma aula teórica é uma aula teórica;enquanto nas Ciências Sociais, uma aula prática é uma aula prática, nas outras Ciências Sociais, uma aula prática é uma aula prática;  enquanto nas Ciências Sociais, uma aula laboratorial é uma aula laboratorial, nas outras Ciências Sociais, uma aula laboratorial é uma aula laboratorial; enquanto nas Ciências Sociais, uma tutoria é uma tutoria, nas outras Ciências Sociais, uma tutoria é uma tutoria… A este nível, estamos esclarecidos!

Quem diz docência, diz cargos de gestão. Respeitando as proporções definidas pelos rácios, enquanto nas Ciências Sociais para cada cargo existe, na prática, suponhamos, um docente, nas outras Ciências Sociais existem dois e na Enfermagem, quatro. Existem departamentos de Ciências Sociais em que dois terços dos docentes desempenham, pelo menos, um cargo na direção do departamento ou na direção de cursos. Precise-se que não são contemplados cargos como a coordenação dos estágios ou a coordenação dos alunos Erasmus, nem cargos exercidos fora do departamento, ao nível das escolas, dos centros e das extensões culturais, ou fora da Universidade. Não sobram os dedos das mãos para os contar. Há membros com dois ou três cargos. Em suma, há departamentos nas universidades portuguesas em que há mais cargos do que membros! Uma massagem de poder, um milagre de multiplicação das responsabilidades! Uma benção colectiva!

Miniaturista francês desconhecido (activo 1250-1270).

Miniaturista francês desconhecido (activo 1250-1270).

Os departamentos com maior densidade de cargos de gestão são departamentos com mais poder? Desencantemos. No essencial, os cargos de gestão são fonte de desgaste e não fonte de poder. Comportam, ainda, custos de oportunidade.

A portaria n.º 231 / 2006 introduz, ao nível da gestão, uma desigualdade entre departamentos: todos partilham as mesmas tarefas administrativas mas não os mesmos recursos humanos. Será que tal como a diferença entre as bebés, Mary e Andrea, do anúncio da Fotoprix, as diferenças entre departamentos residem na fotografia?

Francisco de Holanda. Da Série De Aetibus Mundi Imagines. 1545-1573.

Francisco de Holanda. Da Série De Aetibus Mundi Imagines. 1545-1573.

“Nasceram no mesmo dia, no mesmo momento, no mesmo lugar, acenavam do mesmo modo, o choro era idêntico,  uma única coisa as tornava diferentes… Agora, as suas fotos 30% maiores pelo mesmo preço. Fotoprix, as melhores fotos, o melhor preço”.

 

Em 2011, escrevi a Fábula das Formigas Sabichonas inspirado nos rácios fixados pela portaria nº 231/2006. É, por sinal, o terceiro artigo mais visualizado do Tendências do Imagináriohttps://tendimag.com/2011/11/13/fabula-das-formigas-sabichonas/.

A Invenção do Amor

monty's christmas 2

A amizade entre uma criança e um animal constitui um tópico maior da nossa fantasia. Qual é o adulto maduro que não se lembra das séries Rin Tin Tin, Lassie ou Skippy? Neste anúncio da Jonh Lewis, de alta tecnologia, orçamentado em cerca de um milhão de Libras, uma criança tem como companheiro de sonho um pinguim. Ambos sonham com o amor. E nós sonhamos com eles.

Marca: John Lewis. Título: Monty The Penguin. Agência: Blink Adamandeve DDB, London. Diteção: Dougal Wilson. UK, Novembro 2014.

Manuel Freire. Pedra Filosofal.

Casas pintadas

Evora

A RTP2 transmitiu, no programa Visita Guiada (II), um excelente documentário sobre “casas pintadas em Évora” (03.11.2014):

“Dos inícios do séc.XVI, as chamadas Casas Pintadas, em Évora, são um conjunto de frescos nas paredes de um alpendre a dar para um jardim. O mais antigo e mais bem preservado exemplar de pintura profana que se conhece em Portugal. Tanto mais surpreendente quanto estas delicadas pinturas são no exterior – o alpendre integra agora instalações que pertencem à Fundação Eugénio de Almeida.
O historiador de arte Joaquim Caetano é o nosso guia nesta visita à cultura estética do Renascimento português. Estas pinturas “falavam” com os seus contemporâneos como hoje os títulos de jornais falam connosco” (RTP2).

É raro em Portugal o acesso ao património abrigado. Felicito a RTP2. Creio, porém, que a abordagem da “casa pintada” não perdia se evidenciasse um nada menos os comentadores e um nada mais os frescos. Fiquei, por exemplo, com a curiosidade suspensa a propósito dos grotescos da parte inferior dos frescos, quase sempre filmados como fundo. Na música, a folia é um encanto..

Ao vídeo do programa da RTP2, acrescenta-se um documentário produzido pela Fundação Eugénio da Almeida: Jardim das Casas Pintadas em Évora (2010?).

RTP évora

Visita Guiada (II). Casas Pintadas. RTP2. 03 de Novembro de 2014.

Fundação Eugénio da Almeida: Jardim das Casas Pintadas em Évora (2010?).

 

Sociologia sem palavras 8: Empreendedorismo

O humor de Mr. Bean (Rowan Atkinson) é inconfundível. A maioria dos seus filmes são relativamente extensos. Este excerto de Do-It-Yourself Mr. Bean tem a duração ideal para ajudar a responder a mais uma pergunta da série Sociologia sem palavras.

Sociologia sem palavras 8: Empreendedorismo. Do-It-Yoursel Mr. Bean.

A última Valsa

lastwaltzDuas teses para ler: uma de mestrado (207 páginas) para defesa segunda, dia 03; outra, de doutoramento (410 página) para defesa terça, dia 04. Um fim-de-semana edificante. Para compensar, costumo recorrer à música. Hoje, é a vez do concerto de despedida dos The Band, em 1976, filmado por Martin Scorsese em The Last Waltz (1978). Interpretam I Shall Be Released (do album Music from big pink, de 1968) Bob Dylan, Ronnie Hawkins, Neil Young, Neil Diamond, Eric Clapton, Van Morrison, Joni Mitchell, Ringo Starr, Ronnie Wood…

The Band, I Shall Be Released, The Last Waltz, Martin Scorsese, 1976/1978.