Archive | Novembro 2014

Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda

Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)

Berlin 1936 OG, Shooting of "Olympia", documentary film by Leni RIEFENSTAHL - A cameraman on the diving board, filming a female diver.O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também.  Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!

Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.

O voo da galinha

tigerairÀ semelhança do que sucedeu com as tartarugas, os sapos e os porcos, as galinhas estão em vias de valorização simbólica (https://tendimag.com/2013/10/06/a-galinha-e-o-politico/). Menos estúpidas, mais vistosas, as galinhas são, agora, empreendedoras. Ainda não voam, mas estão prestes a fazê-lo, tal como os clientes potenciais da companhia de aviação australianaTigerair.

 “The Infrequent Flyer program represents exceptional value for Australians who don’t fly all that often. And who better than the chickens of Australia to represent those who just don’t fly that much? It’s a deliberately fun and unconventional spot, just like the program itself” (McCann Melbourne).

Marca: Tigerair. Título: Chickens. Agência: McCann Melbourne. Direcção: Raphael Elisha. Austrália, Novembro 2014.

Mulher sujeito

Marion-Cotillard-Snapshot-in-LA_4

Já mulher objecto não sou! Mulher sujeito, se faz favor! Não me encosto a automóveis e muito menos a electrodomésticos. Sou o centro das atenções, a diagonal do ecrã!

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j’ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
(Jacques Prévert. Je suis comme je suis. Paroles. Excerto)

Marion Cotillard, Óscar como melhor atriz principal em 2008, Lady Dior neste anúncio, é uma mulher sujeito. Atrai o espectador durante uma espécie de coreografia de cinco minutos. Bebe, repousa, anda, dança, nada, mergulha, surrealiza… Apenas ela, o ambiente e a música. Uma mulher sujeito e um público cativo.

Marca: Dior. Título: Snapshot in LA. Produção: Bliss Inc. Direção: Eliot Bliss & Marion Cotillard. Internacional., Novembro 2014.

A doutora do anúncio à Playstation 4 também não é uma mulher objecto. Não se encosta a automóveis, nem a eletrodomésticos. Se a Marion Cotillard tem, subtilmente, pernas, a doutora tem, descaradamente, boca. E pela boca sai um quid pro quo entre o sexo e a consola.

Marca: Sony Playstation. Título: Doctor. Agência: TBWA Brussels. Bélgica, Novembro 2014.

 

In Vino Veritas

02 Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Pormenor.  Séc. I.

Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Pormenor. Séc. I.

No inverno, entre São Martinho e São Nicolau, castanhas e vinho! Num fresco de Pompeia, do século I, Baco aparece todo vestido com uvas (figuras 1 e 2). O vinho,  apreciado pelos antigos egípcios, gregos e romanos (figuras 3 e 4), conhece na Idade Média um franco recrudescimento. Graças, sobretudo, aos monges e aos mosteiros (figura 5). Existem muitas iluminuras e tapeçarias medievais alusivas ao vinho. Selecionei uma pequena mão cheia.

Nas Très Riches Heures du Duc de Berry (1400), uma vindima ilustra o mês de Setembro (figura 6). Nas Grandes Heures de Rohan (1415), uma iluminura contempla o ciclo do vinho: vindima; transporte; pisar das uvas; introdução do vinho nas pipas (figura 7). A tapeçaria exposta no museu de Cluny, do início do séc. XVI, acrescenta a imagem de uma prensa mecânica, a lembrar uma lagareta (figura 8). Dá o cacho de uvas tantas voltas para um dia transbordar das taças, bebido em companhia (figura 9), e, por vezes, em demasia (figura 10).

Trégua

Sainsbury's

Este anúncio da Sainsbury’s respira espírito natalício. Ao Halloween segue o Natal. Uma trégua ocorre entre as tropas inglesas e alemãs nas trincheiras da primeira guerra mundial. Três tópicos sobressaem neste belo anúncio: a canção (Silent Night), o futebol e o chocolate. O coro é contagiante: exalta e envolve à distância. O futebol é dos poucos rituais colectivos capazes de aproximar hostes inimigas. O chocolate, associado à energia, era consumido pelos soldados. Era também um alimento incontornável, nos anos 1960, dos emigrantes portugueses clandestinos rumo a França. Este anúncio lembra o filme Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg (2011). Ambos ficcionam uma trégua durante uma guerra particularmente hedionda e mortífera. A memória da primeira guerra mundial pode não ser sagrada, mas, nem por isso, é menos importante: foi um momento de revelação do ser humano: a imagem do Homem nunca mais foi a mesma. Parte das vendas natalícias dos chocolates Sainsbury’s vai para a Royal British Legion. Este espírito de partilha respeita uma vetusta tradição. Há séculos que o capital se mostra benemérito. Hoje, não me apetece criticar. Nem sequer o aproveitamento comercial da Primeira Grande Guerra. Outros o fazem: Sainsbury’s 1914 Christmas Truce ad exploits memory of Great War, The Telegraph, 13 Nov. 2014.

Marca: Sainsbury’s. Título: The 1914 Christmas Truce. Agência: AMV BBDO. Direcção: Ringan Ledwidge. UK, Novembro 2014.

Gerontofobia

Giotto, Juízo Final , Capela Arena, Pádua, c. 1305.

Giotto, Juízo Final, Pádua, 1305

Neste anúncio da prevenção rodoviária belga, o paraíso parece saído de um filme do Fellini. Nada a ver com a placidez dos eleitos celestes enfileirados nos paraísos das pinturas medievais do Juízo Final. No novo “paraíso”, há luxúria, gula e depravação. E velhos, só velhos! “Le paradis est super. Quand on est vieux”.
A minha sensibilidade é mesquinha. Uma vez que o Paraíso está pejado de velhos, o melhor é esperar. Esperar o quê? A velhice? Eis uma forma bem humorada de discriminar e segregar. Não há lugar para jovens no “paraíso dos velhos”? É repulsivo? Este anúncio tem laivos de gerontofobia. Se, em vez da idade, estivesse em causa o género, e em vez de velhos, tivéssemos homossexuais, já se teriam ouvido os sinos em Marte. Apetece-me ouvir Neil Young.

Anunciante: IBSR (Institut Belge pour la Sécurité Routière). Título: Le paradis c’est super. Quand on est vieux. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Pavel Dundas. Bélgica, 2010.

Neil Young. Old Man.

 

O Apelo da Rua

 

RunTherapyEm 2010, Deus interpela a tribo do futebol argentina num anúncio à cerveja Quilmes (https://tendimag.com/2013/12/08/bendita-bola/). Quatro anos depois, a rua convoca a tribo do footing brasileira num anúncio às sapatilhas Puma. O conceito e a tónica são praticamente os mesmos. Ambos apostam no monólogo e no chamamento explícito. O movimento é, contudo, inverso: Deus aproxima-se da humanidade; a rua aproxima-se da divindade.

No Brasil, existem quatro milhões de “corredores”. O segundo mercado mundial, em franco crescimento, na área do fitness. Não espanta que a “rua” fale aos brasileiros, nem que os brasileiros lhe prestem ouvidos, neste anúncio soberbo. Aprecio este género de publicidade: assume um propósito, não o esconde e consegue o que pretende. Acontece-me, quando vejo e revejo um anúncio, fechar os olhos à espera da emergência de alguma impressão, por exemplo, a modernidade a correr com sapatilhas pós-modernas. E, no meu mundo, quem corre não são as sapatilhas…

Marca: Puma. Título: Run Therapy. Agência: Peppery Comunic. Brasil, Maio 2014.

Aproximar

steinlager-be-the-artist-not-the-canvas

O excesso de álcool é amigo do sono. O “artista”, consumidor moderado, pinta os corpos dos amigos adormecidos. As pinturas, graffiti sobre pele, adaptam-se ao corpo com humor. O anúncio Be the artist, not the canvas, da Steinlager, aborda, assim, com boa disposição, um comportamento socialmente indesejado: o alcoolismo. Não precisa de indispor a tela, nem o artista, nem o público. As pinturas não estigmatizam, convocam e tribalizam. Aqui, o lúdico dispensa diabolizações e maniqueísmos. Quem bebe em excesso é envolvido numa homeopatia sem catarse, que chama sem afastar e convence sem anular. Uma opção rara na publicidade de consciencialização. Curiosamente, este é um anúncio a uma marca de cerveja. Leão de Ouro em Cannes!

Marca: Steinlager. Título: Be the artist, not the canvas. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Pippa Lekner. Austrália, Outubro 2013.

Como cativar um avião

Dream_TurkishAirline“O quinto elemento” da família é um globetrotter. Mal recomposto da China, regressa da Rússia. Entre aviões, lembra-me anúncios, como este prodigioso Dreams, da Turkish Airlines. Imaginação, vontade, magia, e o sonho navega com “asas de desejo”. No alfabeto da alma, às crianças cabem-lhes letras especiais. Com elas, se escreve o bom, o bem e o belo. Mas também o abismo da humanidade. “Existe uma criança [escondida] em cada um de nós”. Mas nem sempre a merecemos.

Marca: Turkish Airlines. Título: Dreams. Agência: Lowe Istanbul. Direção: Bahadir Karatas. Turquia, Fevereiro 2014.

Rir de medo

bud-light-hed-2013Fazer rir é difícil! Meter medo, também! Por vezes, o riso e o medo dançam um vira batido, como neste anúncio da Bud Light. O riso e o medo até podem ser perigosos: morre-se de riso e morre-se de medo.

Marca: Bud Light. Título: But he has Bud Light. Agência: DDB (Chicago). USA, 2008.