Archive | Agosto 2014

Mãos com dentes de tubarão

Southern Comfort

O conto da Capuchinho Vermelho re-revisitado. A versão da canção Little Red Ridding Hood, por Bushwalla e Sallie Ford & The Sound Outside, é primorosa; o ambiente confere; e a postura da mulher desconcerta. Um anúncio global. Tudo encaixa. Não resisto, por isso, a fixar-me num pormenor: as mãos com dentes de tubarão. Anúncio bem concebido pela Wieden+Kenndy.

Marca: Southern Comfort. Título: Shark. Agência: Wieden+Kennedy, New York. Direção: Steve Rogers. UK, Agosto 2014. [Recuperado em 15.08.2026]

Os Olhos de Santa Luzia

Hoje é dia bem aventurado. Não me perguntem a razão. Dedico-o a Santa Luzia, “a Santa Luzia dos meus amores” (Conjunto Maria Albertina).

Francesco del Cossa , Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

01 Francesco del Cossa, Santa Luzia, c. 1472. Detalhe

Santa Luzia (ou Lúcia) é uma virgem mártir cristã do séc. III. Por ordem do Imperador Diocleciano, um soldado arrancou-lhe os olhos e entregou-lhos numa bandeja. Nesse momento, surgem-lhe novos olhos, ainda mais bonitos. A santa foi decapitada.

Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

02 Francesco del Cossa. Santa Luzia, Após 1470.

Nos séculos XV e XVI, era costume pintar Santa Luzia a segurar uma bandeja com dois olhos pousados (ver, por exemplo, figuras 3 a 7).

Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

03 Master of the Legend of Saint Lucy. The Virgin Mary Among the Virgins. Last quarter of the 15th century.

Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

04 Master of the Legend of Saint Lucy, The Virgin Mary Among the Virgins (detail), last quarter of the 15th century,

Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

05 Domenico Beccafumi. Santa Luzia. 1521.

Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

06 Palma il Giovane (1544-1628). Santa Luzia.

Francesco del Cossa  (c. 1430 – c. 1477) dispensa a bandeja; a Santa segura com a mão esquerda os dois olhos, como se estes fossem uma flor. Um efeito de mestre. Não estivessem os nossos olhos habituados ao surrealismo, e o espanto seria outro. Os olhos vêem consoante viram.

Com a devida contrição, a propósito de Santa Luzia, permito-me convocar o Conjunto Maria Albertina. Não é por nada, mas estou convencido que, a seu tempo, venderam, em Portugal, mais discos do que os Pink Floyd.

Conjunto Maria Albertina. Santa Luzia.

 

 

Paródia disparatada

Há dias, fiz um apelo para a interpretação de uma gárgula do Mosteiro da Batalha. Apetece-me, agora, alinhar alguns disparates.

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. Que motiva a Igreja a esculpir estes desmandos? Há quem assegure que a Igreja estava mais empenhada em combater, do que em encobrir, os pecados internos.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

Projecto Golum. Réplicas de gárgulas do Mosteiro da Batalha.

A gárgula pode corresponder a uma freira que teve um filho através de uma relação inaceitável. E a criança? Por que está assim representada? A mulher engole, vomita ou engasga? Nada inibe o escultor grotesco de colocar uma cabeça nos locais mais inconcebíveis: no peito, na barriga, no rabo, na perna… E na boca. Mas não me parece que seja ao acaso.

Continuando a fabular, mas de outro jeito.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

As bruxas também tinham mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, havia muitas bruxas na cabeça das pessoas. No ranking da luxúria, estavam no topo. E constava que comiam crianças, incluindo os filhos. Figura próxima do diabo, a bruxa tinha lugar cativo na tribuna das gárgulas.

A figura desta gárgula com uma criança na boca traz à memória o parto do gigante Gargântua pela orelha da mãe, Gargamelle (ver http://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). As letras francesas e a escultura portuguesa a aproximar-se! Era lindo, não era?

Complicando, mas estamos a lidar com reportórios simbólicos muito sensíveis, já tinha ouvido falar em espécies de rã que têm os filhos pela boca. Segundo o jornal ABC News, de 20 de Março de 2013, uma equipa de cientistas australianos recuperou uma estirpe de rã “que dá à luz pela boca” (http://abcnews.go.com/blogs/technology/2013/03/frog-that-gives-birth-through-mouth-to-be-brought-back-from-extinction/). Ora o sapo é dos animais mais ligados à bruxaria e ao próprio diabo.

CBA News. Rã que dá à luz pela boca

ABC News. Rã que dá à luz pela boca

Sabe bem fabular, delirar, parodiar a argumentação científica. Será que se esconde em cada um de nós um Jonathan Swift ou um Carlo Cippola?

Inocência

doritos-sling-shot-babyAos bobos tudo era permitido, menos enfurecer o rei. Aos bebés, também, menos magoar-se. Os anúncios com crianças comportam ousadias vedadas aos demais. Porquê? Porque são inocentes. No anúncio da Doritos, o bebé voa, fantasticamente, como um herói da Marvel. Num anúncio da Rexona, três jovens divertem-se sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha: censurado (http://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/)! Num anúncio da Zip.Net, um bebé Casanova assedia um anjo atarefado (uma top model), recorrendo, inclusivamente, a violência escatológica: nada! Num anúncio da Tom Tom, uma mulher corre com os peitos, resguardados, a abanar: censurado (http://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/). Qual é a diferença? A inocência infantil! Por exemplo, a mulher que corre, imparável, com os peitos a abanar pode visar um efeito global: pôr o mundo zonzo e desequilibrado para, logo, o endireitar com uma mezinha qualquer: farmacológica, psicológica, religiosa… Sabe-se lá que mais! Abençoadas criancinhas!

Marca: Doritos. Título: Sling Boy. Agência: Goodby, Silverstein & Partners. USA, 2012.

Marca: Zip.Net. Título: Bebé. Agência: F/ Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Rodolfo  Vanni. Brasil, 2000.

O sonho americano dorme na Suíça

Swisscom

Este Love Story With Switzerland conta uma história, fragmento a fragmento, entre o sonho e a realidade. Uma estrela, Tina Turner, brilha e ilumina. Uma chuva de símbolos discretamente convocados. Uma ponte bem conseguida liga a história, a estrela e o produto. Sobra a impressão de que o sonho americano dorme na Suíça.

Marca: Swisscom. Título: Tina Turner’s love story with Switzerland ain iO. Agência: Heimat, Berlin. Direção: Johan Kramer. Alemanha, Agosto 2014. [Recuperado e gravado em 12.08.2026]

Com a criança na boca

Gárgula do Mosteiro da Batalha. atouch of lisbon.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. a touch of lisbon.

A preguiça é minha amiga. Quando me visita, as ideias ficam lentas e moles que nem lesmas. No Mosteiro da Batalha, edifício português com maior número de gárgulas, destaca-se uma gárgula com uma figura de mulher com a cabeça de uma criança na boca. Nos passeios pelo País das Gárgulas, nunca vi nada igual. Estou preguiçoso, mole e lento. Não querem ajudar? Não é desafio, mas pedido. Vai um comentário sobre a figura da gárgula e o seu significado? Junto três fotografias com boa resolução.

Gárgula no Mosteiro da Batalha, Portugal. Fotógrafo Júlio Reis.

Gárgula no Mosteiro da Batalha, Portugal. Fotógrafo Júlio Reis.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

Gárgula do Mosteiro da Batalha. Geolocation.

 

 

Comunicação lactente

Marmite. Love hateConsta que o Tendências do Imaginário se entretém em demasia com as folhas de Adão e Eva. Abrenúncio! Urge mudar de assunto. Por exemplo, contemplar os bebés, essas criaturas mais doces do que a baba de camelo. Corre-se, porventura, o risco de ouvir dizer que o Tendências do Imaginário é contra a natalidade. Nesse caso, vade retro! Volta-se a mudar de assunto.

O anúncio Mother, da Marmite, é um início auspicioso. Ilustra como a comunicação entre mãe e filho é profunda e impactante. Se este anúncio ajudou a vender a pasta Marmite, então não restam dúvidas de que também contribui para o aumento da natalidade.

Carregue em HD para melhor visualização.

Marca: Marmite/Unilever. Título: Mother. Agência: Adam&EveDDB. Direcção: Rory Rooney. UK, 2006.

 

Gárgulas impúdicas

01 Gárgula. Sé Catedral de Braga.

Gárgula. Sé de Braga.

02 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Localização.

02 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha.

03 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

03 Gárgula. Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência estranha mas possível. Em Portugal, existem gárgulas impúdicas na Sé de Braga (figura 1), na Igreja Matriz de Caminha (figuras 2 e 3) e na Sé da Guarda (figura 4). Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Algumas, além do rabo, exibem os genitais. Por exemplo, na Matriz de Caminha, numa casa do século XV em Bruniquel (figura 5) e na Igreja de St Pierre de Dreux (figura 6).

04 Gárgula. Sé da Guarda.

04 Gárgula. Sé da Guarda.

Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se borrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira incontinente.

05 Gárgula. Casa do séc. XV. Bruniquel. França

05 Gárgula. Casa do séc. XV. Bruniquel. França

06 Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

06 Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

07 Gárgula. Catedral de Amiens. França.

07 Gárgula. Catedral de Amiens. França.

O que significa tamanha vulgaridade numa igreja? O fenómeno não é inédito. As danças macabras atemorizam tanto as igrejas como os cemitérios dos sécs. XV e XVI. Nos  edifícios beneditinas, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.

08 Gárgula. Catedral de Fribourg, Brisbau. Alemanha.

08 Gárgula. Catedral de Fribourg, Brisbau. Alemanha.

Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte. Mikhail Bakhtin, convoca os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus.

 

E o bonito se fez feio

Algo ou alguém pode ser belo ou feio e quem o apreciar ter bom ou mau gosto. A estética do feio e a estética do mau gosto podem conjugar-se: uma entidade feia é apreciada com mau gosto. Tanto o feio como o mau gosto podem suscitar atenção e atracção. O anúncio Ugly People (2004), da Volkswagen, pesca nestas águas. Crianças bonitas transformam-se em adultos feios. “What looks cute today might not look so cute tomorrow”. Não obstante o eventual mau gosto do conteúdo, o anúncio visa seduzir o consumidor e promover a compra de automóveis da marca. Coisas da publicidade!

Marca: Volkswagen. Título: Ugly People. Agência: Alma PBBDO São Paulo. Direcção: Marcello Serpa/Tales Bahu/Rodrigo de Almeida. Brasil, 2004.

Boba

Boba? Pensava que os bobos eram como os padres: só no masculino. Não é que me preocupe com bobos, a não ser os bobos da corte que se riem de nós, bobos de terceira classe. Afinal, há bobas! Aparecem em gravuras e pinturas (figuras 1 e 2). Algumas bobas  ficaram célebres.

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

Hans Sebald Beham. The Fool and the Lady Fool. c. 1540

A gravura de Hans Sebald Beham, The Fool and the Lady Fool (c. 1540), com um casal de bobos, despoletou esta indagação. Para quem não é como São Tomé, eis uma evidência a considerar. Mas, pelos vistos, bobas não faltam. Jane Foole, também conhecida com The Queen’s Fool, foi boba da corte inglesa, nomeadamente das rainhas Catherine Parr e Maria I de Inglaterra. Em França, a boba mais famosa foi Mathurine, ao serviço, no séc. XVII, dos reis Henrique III, Henrique IV e Luís XIII.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

Família de Henrique VIII, c. 1545.

No retrato da família de Henrique VIII (c. 1545), pode-se ver, no lado direito, o bobo e, no lado esquerdo, a boba.