Archive | Agosto 2014

A Fuga dos Demónios

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

01 Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV.

Há uns anos, fiz uma comunicação sobre São Bento, no Mosteiro de Tibães. Djævleuddrivelse.Sublinhei que São Bento era exigente: por um lado, as promessas, como se sabe, são para cumprir, por outro lado, tem fama de expulsar os demónios à paulada e à chapada. As pessoas ouviram, e deram-me um desconto.
No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

02 Julgamento de uma bruxa. 1598.

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

03 Jesus expulsa um demónio de um homem mudo. (De T. Troels Lund. A vida quotidiana na região nórdica VI, p 30).

Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas (figura 4) e umas pauladas (figuras 5 e 6).

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

04 Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio., 1637-1714

05  Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído.  Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença.  1387

05 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

06 Spinello Aretino, O Santo Liberta um monge possuído. Pormenor.

06 Spinello Aretino. São Bento Liberta um monge possuído. Pormenor.

Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio (figura 8).

07 Giotto Arezzo.  Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo Entre 1297 e 1299

07 Giotto Arezzo. Lenda de São Francisco. Exorcismo dos Demónios em Arezzo. Entre 1297 e 1299.

Não é só o demónio que sai pela boca, a alma também. No último sopro, a alma liberta-se do corpo. Incapazes de captar o momento da morte, muitos pintores optaram por figurar a alma a despedir-se do corpo. Engendraram diversas soluções: na figura 9, a alma transita sob a forma de uma criança que é acolhida por um anjo.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter's Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

08 The Angel of Death, taking the soul, in the form of a child, from a dying man. From Reiter’s Mortilogus, printed by Oegelin and Nadler, Augsburg, 1508.

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é a parte mais cósmica do corpo humano. A este propósito, ouvi falar de um país que alberga demónios tão graúdos que não há boca nem orifício por onde consigam passar. Só de cesariana.

A Bengala Branca

 

sa-tourism-1Fazer um anúncio é criá-lo. Não há outro modo. No Reconsider, da Ireland/Davenport, a atenção oscila entre os sítios e o visitante. De sensação em sensação, tece-se uma trama de prenúncios. A bengala branca é a chave final: o visitante é cego. Há tanto prazer para além do ver! Curiosamente, no anúncio, o som resume-se à música e à voz. Uns não vêem, outros não ouvem. “Avózinha, para que é esse silêncio tão grande? É para te ver melhor”. Naturalmente.

Anunciante: South African Tourism. Título: Reconsider. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. República da África do Sul, Maio 2014.

Tenho bastante admiração pela agência Ireland/Davenport, da República da África do Sul. Produziu, em tempos, um dos mais belos anúncios da história da publicidade: Aesthetics. Vale a pena rever.

Anunciante: BMW. Título: Aesthetics. Agência:  Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Adrian de Sa Garces. República da África do Sul, Novembro 2006.

Esqueletos vampiros

Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália foram descobertos túmulos medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca, cabeça entre as pernas, corpos cravados com estacas… São “esqueletos de vampiros”. Pertenciam a cadáveres passíveis de se tornar vampiros. Impunha-se evitar a saída do túmulo. Macabro? Sem dúvida, mas “somos homens: nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio). Aliás, esqueletos vampiros soa-me algo familiar, soa-me a vampiros sem esqueleto. Seguem o documentário Vampire Skeletons Mystery, da National Geographic, mais os “Vampiros” de José Afonso.

National Geographic. Vampire Skeletons Mystery. Documentário. 2012. [Recuperado em 05.08.2026]

José Afonso. Vampiros. Álbum República. 1975.

Um Mundo Bobo

The Fool’s Cap Map of the World, circa 1580-1590

The Fool’s Cap Map of the World, circa 1580-1590

Desde Pitágoras e Aristóteles que a terra é um globo. Sempre a globalizar-se. Hoje, globalização é uma palavra mestre. Sem deixar de  ser grande, o mundo está a ficar mais pequeno… Comprime-se. Aumenta a acessibilidade e a exposição. E o tempo? Será que a abertura espacial se presta a um encolhimento do tempo, designadamente histórico? Quanto mais nos perdemos no tempo, mais pressentimos a estreiteza do espaço. Um espaço sem distância e um tempo sem espessura. Acode-me um conceito, ora pedante, ora vadio, de uma certa tradição marxista (Georg Lukacs, Lucien Goldmann, Joseph Gabel, Herbert Marcuse, Karel Kosic): reificação. Folhas sem tronco nem raiz; flores sem terra. Em tempos idos, alguém concebeu um mundo globalizado bobo. Quatro séculos depois, estamos a vivê-lo.

Plantu

Plantu

A Pedra Filosofal na Era Electrónica

apple

Acaba de sair um anúncio da Apple, Dreams, centrado na versatilidade e nas potencialidades do iPhone 5s. Trata-se de uma opção clássica. Pelos vistos, o iPhone 5s é mais do que um canivete suíço; é um canivete suíço electrónico. Se o MacGyver possuísse um iPhone 5s, os episódios da série seriam mais curtos. O anúncio culmina, porém, com uma frase banal que é um golpe de mestre: “You are more powerful than you think”!

Um capítulo do livro Vertigens (download em pdf: Dobras e Fragmentos) releva que muitos anúncios ganham em ser encarados como alegorias. Por outro lado, um artigo deste blogue (http://tendimag.com/2014/06/14/todos-tugas-chamamento/) chama a atenção para uma tendência recente na publicidade: o anúncio como chamamento. Mais do que o produto ou do que a marca, o anúncio pretende caracterizar o consumidor. “O anúncio não é teu, tu és o anúncio, mais precisamente, tu és o anunciado.”

Neste novo anúncio da Apple, o essencial não é, afinal, o canivete suíço versão iPhone 5s. O anúncio tem ares de pedra filosofal da idade electrónica. O anúncio é, mas não é, uma descrição do produto. O anúncio é, mas não é, uma alegoria da marca. O conteúdo é uma alegoria do consumidor. A marca é uma alegoria do consumidor. Ambos profetizam o que ele é e o que ele pode. O anúncio é, assim, uma alegoria do consumidor. A aura do produto e da marca adere à pele do consumidor, “mais poderoso do que imagina”.

Marca: Apple – iPhone 5s. Título: Dreams. Agência: TBWA / Media Arts Lab (Los Angeles). USA, Agosto 2014.

A Caixinha da Felicidade

quesera

West End e o humor britânico de braço dado num anúncio neozelandês! Um cover, com letra adaptada, do clássico Que sera sera a acompanhar uma série de situações indesejáveis. Neste mundo de infortúnios, existe um refúgio, uma caixinha de felicidade: a SKY TV.

Marca: SKY TV. Título: Que Sera Sera. Agência: DDB New Zealand. Direcção: David Shane. Nova Zelândia, 2009.

Quem não se lembra da canção Whatever Will Be, Will Be? E da cantora, Doris Day? E do filme The Man Who Knew Too Much (1957)? Eu lembro-me, e ainda não tinha nascido… Coisas da compressão do espaço-tempo (David Harvey)!

The Man Who Knew Too Much / Que Sera Sera. [Excerto] 1957. [Recuperado em 04.08.2026]

A Parte e o Corpo

The Hands of Orlac . 1924.

The Hands of Orlac . 1924.

Realidade ou fantasia, a personalidade dupla é um tópico comum. Mais insólito é o tópico da corporalidade dupla. Mais prótese, menos prótese, o corpo pode prescindir de uma parte. A ficção científica vai mais longe: no romance Não Temerei Nenhum Mal, de Robert Heinlein (I Will Fear No Evil,1970), Johann Sebastian Bach Smith enxerta o seu cérebro no corpo de uma funcionária. O problema resume-se em saber a que parte vai sair o híbrido: ao patrão ou à funcionária? O dilema é antigo. No filme mudo The Hands of Orlac (1924), um pianista sofre um acidente que lhe destroça as mãos. Recorre a um transplante. Mas o pianista começa a adoptar comportamentos criminosos. As mãos transplantadas pertenciam a um assassino!

Marca: Cervejaria Nacional. Título: Bike & Beer Belgium 2014. Agência: Brancozulu. Brasil,  Julho 2014.

Este comentário sofre de um vício de interpretação. O anúncio é uma comédia e o comentário enreda-se em tragédias. Como redimir esta perversidade? Neste blogue, analisam-se  muitos anúncios, o que não quer dizer que seja essa a sua vocação. O blogue é um grande “desvocacionado”. Os anúncios são, frequentemente, tomados como pretexto. Neste caso, a aura cultural, e civilizacional, do romance I Will Fear No Evil e do filme The Hands of Orlac é de tal ordem que, proporcionando-se, ignorá-los seria uma falha. No blogue Tendências do Imaginário, os dedos correm sobre as teclas como se fossem cabras.

Jogo à portuguesa

libidium-fast-paulo-futre-portugal-football

Nos últimos quatro séculos, o que mudou na representação do sexo? Por que motivo a televisão portuguesa dispensa a suposta potência de Paulo Futre e os iconoclastas protestantes toleraram as obscenidades de Hans Sebald Beham?

Marca: Libidium Fast. Título: Paulo Futre. Agência: ExcentricGrey, Lisbon. Portugal, Julho 2014.

A Profilaxia da Luxúria (Para maiores de 18 anos)

07 Nude woman lying asleep on a bed. After Sebald Beham. 1553.

Nude woman lying asleep on a bed. After Sebald Beham. 1553.

Hans Sebald Beham (1500-1550) é um gravurista alemão. Com o irmão, Barthel Beham, e o primo, Georg Pencz, foi considerado herege, “pintor sem Deus”, e expulso, em 1525, da cidade de Nuremberga pelos luteranos. O motivo residia na sua simpatia por Thomas Müntzer, o discípulo mais indigesto de Martinho Lutero. Hans Sebald Beham volta a ser expulso da cidade, em 1528, acusado de plágio de um desenho inédito de Albrecht Dürer.

02 Hans Sebald Beham. Death and the Indecent Pair. 1529

02 Hans Sebald Beham. Death and the Indecent Pair. 1529

As gravuras de Hans Beham são ousadas em matéria de sexualidade. Mas a prática não era rara. Por exemplo, as ilustrações do Romance da Rosa ultrapassavam-nas em fantasia e evidência. Configuram um apelo a Sodoma e a Gomorra? Hans Sebald Beham era religioso, cristão temente de Deus. Gravou dezenas de imagens de santos. Não existiam ateus no tempo de François Rabelais (Lucien Febvre). Ainda menos entre os seguidores de Thomas Müntzer, “teólogo da revolução” (Ernst Bloch).

03 Hans Sebald Beham. Morte e Três Mulheres Nuas. 1540.

03 Hans Sebald Beham. Morte e Três Mulheres Nuas. 1540.

Estas imagens querem-se profilácticas. Não seduzem, esconjuram! Mostram o mal, para o evitar. Quanto mais chocantes, mais eficazes. Caso contrário, como explicar a profusão de diabos nas iluminuras medievais? A profilaxia pela imagem precedeu a catequese pela imagem. “Para maior glória de Deus”. Os desígnios do Senhor são insondáveis…

04 Hans Sebald Beham. O Bobo no Banho de Mulheres. 1541

04 Hans Sebald Beham. O Bobo no Banho de Mulheres. 1541

Nas gravuras de Hans Sebald Beham, o corpo nu não vale pelo nu mas pela carne pecadora, irredutível ao nu estético e depurado da antiguidade clássica e do renascimento italiano.

05 Hans Sebald Beham. Three women in the bath-house. 1548.

05 Hans Sebald Beham. Three women in the bath-house. 1548.