A Pega

Pega

Criança, partilhei com o Álvaro uma pega amestrada. Era, como se costumava dizer, mansa, muito mansinha.Vinha quando chamada, pousava no braço e acordava-nos com bicadas na janela. Com ela empoleirada no ombro, parecíamos um Rolls-Royce. Tinha os seus vícios. Adorava ir ao café. O pouso predilecto era o chapéu do padre. Escorripichava tudo quanto era copo de vinho distraído. Na aldeia, todos estavam prevenidos: convinha resguardar tudo quanto fosse miudeza reluzente. Era genético: pegava e escondia. Sempre receámos que um dia lhe desse para levantar voo e não voltar… Não foi bem assim: um caixeiro-viajante raptou-a. Levou-a para o Porto. Em dois dias, a pega morreu. Era uma pega livre, se era! Estava apenas presa pelo coração.

A pega mais conhecida é, provavelmente, La Gazza Ladra (A Pega Ladra), de Gioachino Rossini (1817). Mas atendendo aos menos pacientes, começo com a versão abreviada incluída na banda sonora do filme A Laranja Mecânica (1971).

The Thieving Magpie. The Clockwork Orange. 1971.

Gioachino Rossini. La Gazza Ladra. 1817.

 

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One response to “A Pega”

  1. beatrizmartins.artes@gmail.com says :

    Lindo, desde Rossini, à presa apenas pelo coração

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