Tag Archive | liberdade

Canções de solidão e mal-estar

A companhia da solidão, 28.09.2018
A mãe do soldado e a ilha da liberdade, 28.09.2019
Música triste, 28.09.2021

O Novo País das Maravilhas

Al!ce, by MIMAGIE, 2026

Os artigos A Teia e Extensões do Homem, de 28 de setembro de 2014, desafiam-me, mas não me são estranhos. Consigo enxergá-los. Em contrapartida, a curta-metragem Al!ce não me é estranha, mas ultrapassa-me. Não logro alcançar as potencialidades de tantas artes e possibilidades. Não “alicia” ser arrastado por uma enxurrada de afluentes sem leito nem estuário antecipáveis. Tamanha maravilha confunde-me.

A Teia, 28.09.2014
Extensões do homem, 28.09.2014
Al!CE SHORT FILM by MIMAGIE, posted 16/09/2026. Produced by mimagie studio, with a screenplay by Daria Sherstobitova and directed by Miguel Ivanov

AL1ICE: Uma fábula cômica surreal sobre uma Alice moderna que ensaia inspirar um filme de IA para uma competição. Consoante a produção se desenrola, a linha entre a vida real, o processo de filmagem e o País das Maravilhas começa a dissolver-se. Estruturado como uma narrativa recursiva, a curta-metragem trata o País das Maravilhas não como uma adaptação, mas como um ciclo de retroalimentação cultural, onde a ficção do século XIX, a produção de imagens contemporânea e a mitologia do cinema começam a se influenciar mutuamente. Produzido pelo estúdio MIMAGIE, com roteiro de Daria Sherstobitova e direção de Miguel Ivanov, Al!CE foi originalmente desenvolvido para a competição Higgsfield. O trabalho combinou desenvolvimento de roteiro e argumento, seleção de elenco, figurino e design de locação, planeamento de storyboard, pré-visualização, geração de vídeo, edição, preparação de diálogos, música e design de som. O processo visual central começou com o texto. Rostos e figurinos gerados tornaram-se referências para composições cénicas; essas composições, por sua vez, guiaram a geração de vídeo. Ilustrações de Tenniel, em domínio público, serviram de inspiração para poses e arranjos selecionados. As imagens foram editadas e tiveram suas cores corrigidas no Photoshop antes de ser preparadas para o Seedance, enquanto as músicas foram desenvolvidas com o Suno. Todas as vozes foram criadas nos laboratórios elevel. Os locais foram construídos como ambientes gerados, com atenção à geografia, ângulos reversos e iluminação consistente. O tratamento guiou a atuação, o movimento da camara e a revisão ao longo de todo o processo.

Imagine Dragons – Mad World (Gary Jules cover). Evolve, 2017. 1Live Session. Posted 28.06.2017

Des-graças

Francisco de Goya – Duelo a garrotazos, 1820 – 1823. Museu do Prado

Continuo pouco criativo. Nem sequer adianto um prefácio urgente. Entretenho-me a repescar “artigos do dia”, com dificuldade de amostragem. As flores do mal, de 2019, encerra um isco que me assombra: a ambivalência do mal. Adiciono, a preceito, a curta-metragem disfórica The Gloaming (14 minutos), extraída do artigo Descontrolo, de 2012.

The Gloaming. Curta-metragem dirigida por Nobrain e produzida por Autour de Minuit. França, 2010

Mastectomia à Liberdade

Imagem extraída do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025). Kolimprint Art

Parece que estamos a viver uma nova contra reforma. No documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025), estranha-se a figura da liberdade desmamada. Nem a arte escapa à censura! Automática, com algoritmos em vez de revisores. O cigarro foi substituído pela palhinha, os seios, apagados, seguir-se-á o riso, congelado ou amarelo?

Eugène Delacroix. A Liberdade Guiando o Povo (1830), Museu do Louvre. Após restauração de 2024

Estrela d’Alva

A Estrela d’Alva está particularmente brilhante. A privacidade e a liberdade parecem em quarto minguante. Mais exposição e controlo e menos expressão e tolerância. Em nome de direitos, negócios, costumes e ideais. Sopram ventos de sonolência confortável. Dorme meu menino, mas cuida da Estrela d’Alva. Não a deixes murchar!

Zeca Afonso – Canção de Embalar. Cantares do Andarilho, 1968

As asas, a águia e a galinha

A águia voa alto; mas corta-lhes as asas e ficará uma galinha grande (provérbio cigano)

Nunca tivemos tantas capacidades e nos sentimos tão tolhidos. Palas e mais palas, metas e mais metas! A puxar lesmas com GPS, sem horizontes, nem descaminhos. Solta-te e levanta os pés do chão! Que não te aparem as asas. Sai do aviário, deambula, aventura-te em labirintos! E, por uma vez, não repitas yes, fala a tua própria língua. Prega aos peixes, mas não te pregues na cruz! Abre-te aos outros, povos e culturas, cores e sons. Delicia-te com os Barcelona Gipsy Klezmer/Balkan Orchestra.

Jean-Michel Folon, Folon for Amnesty International, 1977

Barcelona Gipsy balKan Orchestra – Lule Lule. Europe Closes the Border (Original Motion Picture Soundtrack). 2016
Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra/Nihan Devecioğlu – Yagmur Yagar. Balkan Reunion. 2015
Barcelona Gipsy balKan Orchestra/Bora Dugić – Običan Balkanski Dan. Live at Teatre Grec- 2017
Barcelona Gipsy balKan Orchestra – Marijo deli bela kumrijo. Nova Era. 2020

A albarda e a liberdade jovial

Continuo a colocar música alemã. Uma pequena greve ao inglês. Presta-se a sondar outros horizontes. Há hegemonias que lembram albardas [e palas] irresistíveis. Por birra, aplico-me a deixá-las descansar, por um tempo, a um canto. Há quem não acuse o peso das albardas. De tão habituados, integram a sua identidade. Pois, a mim, incomodam-me, sobretudo quando sobra alguém a querer sentar-se em cima.

O Zé Povinho – Depois das eleições, à vontade do seu dono, O Antonio Maria, 1880

Berge – Wir sind frei. Vor uns die Sinnflut. 2015
Berge – Für die Liebe. Für die Liebe. 2019
Berge – Das Heiligste der Welt (Unplugged). Für die Liebe. 2019

Pedra d’água

Se no artigo anterior, a liberdade e o amor surgem como rivais, hoje apetece-me corrigir a mão. A liberdade ama-se e o amor salva do pior dos tiranos: nós mesmos. Uma canção que me faz sentir a liberdade é a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, interpretada por Manuel Freire. Dir-me-ão que não incide sobre a liberdade mas sobre o sonho. Pois, sem sonho não há liberdade, fica-se prisioneiro, não do amor, mas da realidade.

Junto com a Pedra Filosofal, vem a magnífica Menina dos olhos d’água, interpretada por Pedro Barroso.

António Gedeão

Manuel Freire – Pedra filosofal / Pedro Barroso – Menina dos olhos d´água

Esta (des)conversa inspira-se em Ernst Bloch, autor erudito e complexo, ídolo dos movimentos estudantis dos anos sessenta. As obras mais reputadas são Espírito da Utopia (1918) e O Princípio Esperança (3 vols., 1954-1959). Os meus textos inspiram-se sempre em algo ou alguém. Poucas novidade acrescentam. Neste caso, andei na adolescência às voltas com um livro menos conhecido de Ernst Bloch: Thomas Münzer, Teólogo da Revolução (1921).

Em 1978, fiz um trabalho dedicado precisamente ao Thomas Münzer (1490-1525), com o título Thomas Munzer, a sutana e o martelo. Münzer foi um teólogo “revolucionário” do século XVI. Crítico de Lutero, acabou por liderar a “guerra dos camponeses” na “Alemanha” (1524-1525). Pregava as os seus textos nas portas das igrejas e assinava: “Thomas Münzer à martelada”. Almejava criar o Reino de Deus na Terra. Foi decapitado em 1525. Friedrich Engels dedica-lhe um pequeno livro: As guerras camponesas na Alemanha (1850).

O trabalho, de uma trintena de páginas, possuía uma introdução extensa sobre a abordagem das ideologias. Graças a ele desemboquei em obras interessantes, tais como O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), da socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz, ou Ideologias: inventário crítico dum conceito (1978), do José Madureira Pinto. Emprestei o trabalho a uma doutoranda grega e nunca mais lhe pus a mão.

Junto a tradução em português do livro Thomas Münzer, Teólogo da Revolução, de Ernst Bloch(Editora Tempo Brasileiro, 1973).

Brisa de liberdade

Gosto de sentir abril em fevereiro. A liberdade respira-se. Se é difícil de conquistar, não é menos de preservar. Memórias tangíveis ajudam. Algumas canções reavivam-na. Retenho uma mão cheia. Entre estas, composta por Georges Moustaki para Serge Reggiani, Ma Liberté sobressai. Pelos vistos, a acreditar no poema, a liberdade só tem um rival à altura: o amor.

Serge Reggiani. Ma liberté. 1969

Ma liberté
Longtemps je t’ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C’est toi qui m’as aidé
A larguer les amarres
Pour aller n’importe où
Pour aller jusqu’au bout
Des chemins de fortune
Pour cueillir en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune
Ma liberté
Devant tes volontés
Mon âme était soumise
Ma liberté
Je t’avais tout donné
Ma dernière chemise
Et combien j’ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Tes moindres exigences
J’ai changé de pays
J’ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance
Ma liberté
Tu as su désarmer
Mes moindres habitudes
Ma liberté
Toi qui m’as fait aimer
Même la solitude
Toi qui m’as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m’as protégé
Quand j’allais me cacher
Pour soigner mes blessures
Ma liberté
Pourtant je t’ai quittée
Une nuit de décembre
J’ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière.

(Serge Reggiani. Ma Liberté)