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Mastectomia à Liberdade

Imagem extraída do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025). Kolimprint Art

Parece que estamos a viver uma nova contra reforma. No documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025), estranha-se a figura da liberdade desmamada. Nem a arte escapa à censura! Automática, com algoritmos em vez de revisores. O cigarro foi substituído pela palhinha, os seios, apagados, seguir-se-á o riso, congelado ou amarelo?

Eugène Delacroix. A Liberdade Guiando o Povo (1830), Museu do Louvre. Após restauração de 2024

Estrela d’Alva

A Estrela d’Alva está particularmente brilhante. A privacidade e a liberdade parecem em quarto minguante. Mais exposição e controlo e menos expressão e tolerância. Em nome de direitos, negócios, costumes e ideais. Sopram ventos de sonolência confortável. Dorme meu menino, mas cuida da Estrela d’Alva. Não a deixes murchar!

Zeca Afonso – Canção de Embalar. Cantares do Andarilho, 1968

As asas, a águia e a galinha

A águia voa alto; mas corta-lhes as asas e ficará uma galinha grande (provérbio cigano)

Nunca tivemos tantas capacidades e nos sentimos tão tolhidos. Palas e mais palas, metas e mais metas! A puxar lesmas com GPS, sem horizontes, nem descaminhos. Solta-te e levanta os pés do chão! Que não te aparem as asas. Sai do aviário, deambula, aventura-te em labirintos! E, por uma vez, não repitas yes, fala a tua própria língua. Prega aos peixes, mas não te pregues na cruz! Abre-te aos outros, povos e culturas, cores e sons. Delicia-te com os Barcelona Gipsy Klezmer/Balkan Orchestra.

Jean-Michel Folon, Folon for Amnesty International, 1977

Barcelona Gipsy balKan Orchestra – Lule Lule. Europe Closes the Border (Original Motion Picture Soundtrack). 2016
Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra/Nihan Devecioğlu – Yagmur Yagar. Balkan Reunion. 2015
Barcelona Gipsy balKan Orchestra/Bora Dugić – Običan Balkanski Dan. Live at Teatre Grec- 2017
Barcelona Gipsy balKan Orchestra – Marijo deli bela kumrijo. Nova Era. 2020

A albarda e a liberdade jovial

Continuo a colocar música alemã. Uma pequena greve ao inglês. Presta-se a sondar outros horizontes. Há hegemonias que lembram albardas [e palas] irresistíveis. Por birra, aplico-me a deixá-las descansar, por um tempo, a um canto. Há quem não acuse o peso das albardas. De tão habituados, integram a sua identidade. Pois, a mim, incomodam-me, sobretudo quando sobra alguém a querer sentar-se em cima.

O Zé Povinho – Depois das eleições, à vontade do seu dono, O Antonio Maria, 1880

Berge – Wir sind frei. Vor uns die Sinnflut. 2015
Berge – Für die Liebe. Für die Liebe. 2019
Berge – Das Heiligste der Welt (Unplugged). Für die Liebe. 2019

Pedra d’água

Se no artigo anterior, a liberdade e o amor surgem como rivais, hoje apetece-me corrigir a mão. A liberdade ama-se e o amor salva do pior dos tiranos: nós mesmos. Uma canção que me faz sentir a liberdade é a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, interpretada por Manuel Freire. Dir-me-ão que não incide sobre a liberdade mas sobre o sonho. Pois, sem sonho não há liberdade, fica-se prisioneiro, não do amor, mas da realidade.

Junto com a Pedra Filosofal, vem a magnífica Menina dos olhos d’água, interpretada por Pedro Barroso.

António Gedeão

Manuel Freire – Pedra filosofal / Pedro Barroso – Menina dos olhos d´água

Esta (des)conversa inspira-se em Ernst Bloch, autor erudito e complexo, ídolo dos movimentos estudantis dos anos sessenta. As obras mais reputadas são Espírito da Utopia (1918) e O Princípio Esperança (3 vols., 1954-1959). Os meus textos inspiram-se sempre em algo ou alguém. Poucas novidade acrescentam. Neste caso, andei na adolescência às voltas com um livro menos conhecido de Ernst Bloch: Thomas Münzer, Teólogo da Revolução (1921).

Em 1978, fiz um trabalho dedicado precisamente ao Thomas Münzer (1490-1525), com o título Thomas Munzer, a sutana e o martelo. Münzer foi um teólogo “revolucionário” do século XVI. Crítico de Lutero, acabou por liderar a “guerra dos camponeses” na “Alemanha” (1524-1525). Pregava as os seus textos nas portas das igrejas e assinava: “Thomas Münzer à martelada”. Almejava criar o Reino de Deus na Terra. Foi decapitado em 1525. Friedrich Engels dedica-lhe um pequeno livro: As guerras camponesas na Alemanha (1850).

O trabalho, de uma trintena de páginas, possuía uma introdução extensa sobre a abordagem das ideologias. Graças a ele desemboquei em obras interessantes, tais como O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), da socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz, ou Ideologias: inventário crítico dum conceito (1978), do José Madureira Pinto. Emprestei o trabalho a uma doutoranda grega e nunca mais lhe pus a mão.

Junto a tradução em português do livro Thomas Münzer, Teólogo da Revolução, de Ernst Bloch(Editora Tempo Brasileiro, 1973).

Brisa de liberdade

Gosto de sentir abril em fevereiro. A liberdade respira-se. Se é difícil de conquistar, não é menos de preservar. Memórias tangíveis ajudam. Algumas canções reavivam-na. Retenho uma mão cheia. Entre estas, composta por Georges Moustaki para Serge Reggiani, Ma Liberté sobressai. Pelos vistos, a acreditar no poema, a liberdade só tem um rival à altura: o amor.

Serge Reggiani. Ma liberté. 1969

Ma liberté
Longtemps je t’ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C’est toi qui m’as aidé
A larguer les amarres
Pour aller n’importe où
Pour aller jusqu’au bout
Des chemins de fortune
Pour cueillir en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune
Ma liberté
Devant tes volontés
Mon âme était soumise
Ma liberté
Je t’avais tout donné
Ma dernière chemise
Et combien j’ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Tes moindres exigences
J’ai changé de pays
J’ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance
Ma liberté
Tu as su désarmer
Mes moindres habitudes
Ma liberté
Toi qui m’as fait aimer
Même la solitude
Toi qui m’as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m’as protégé
Quand j’allais me cacher
Pour soigner mes blessures
Ma liberté
Pourtant je t’ai quittée
Une nuit de décembre
J’ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière
Et je t’ai trahie pour
Une prison d’amour
Et sa belle geôlière.

(Serge Reggiani. Ma Liberté)

Princípios e regras. As dobras da transgressão

“Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos.” (André Malraux, L’Espoir, 1ª ed. 1937)

A liberdade consiste em poder escolher as suas cadeias”. Desde a adolescência que este pensamento me persegue. Habituei-me a atribuí-lo a André Malraux, mas não garanto. Jeanne Moreau sugere uma ideia semelhante: “A liberdade consiste no poder de escolher de quem se é escravo”.

Cedo me apressei a acrescentar um complemento: “Cada cadeia que se quebra é uma nova margem de liberdade que se conquista”, propícia a novas escolhas (A. Malraux também escreveu: “A liberdade pertence àqueles que a conquistam”). Juntas, as duas frases compõem um “paradoxo” de minha particular estimação.

André Malraux

O desafio das regras sempre foi uma tentação, mas em consonância com um fundo de princípios que permaneceu bastante estável ao longo da vida. Deparo, agora, com uma encruzilhada, senão um impasse. Nos últimos, e certamente nos próximos, tempos, quem mais pretende subverter as regras ameaça também os respetivos (meus) princípios. Não resulta, portanto, claro se se está a contribuir para abrir ou para fechar. Que fazer? Refrear a tentação de transgressão para salvaguardar o essencial, mais precisamente a possibilidade da diferença e da transgressão?

Voltar a escutar Breaking The Rules, de Jack Savoretti, inspirou, hoje, este devaneio. Insisto, logo existo. Acrescento a canção India Song, de Jeanne Moreau.

ack Savoretti.  Breaking The Rules. Before the Storm. 2012. Live Acoustic at Teatro Carlo Felice, Genova, Italy on 26 Feb 2017
Jeanne Moreau. India Song. De Carlos D’Alessio & Marguerite Duras. Single, 1975

Um quase nada efémero

Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso

O universo é infinito e a humanidade imensa. E há tanto de que gostar. Mas tudo fazemos para os tornar pequenos. O que abraçamos é um quase nada.

A libertação é um tema recorrente nas canções da América Latina. De resistência, exprimem uma experiência vital. A letra resulta fulcral, a instrumentação simples e a voz sentida. Recorde-se, por exemplo, Victor Jara.

Luis Eduardo Aute. De Paso. Albanta. 1978. Em direto na RTVE, Musical Express 1978

De Paso
(Luís Eduardo Aute)
Decir espera es un crimen
Decir mañana es igual que matar
Ayer de nada nos sirve
Las cicatrices
No ayudan a andar
Sólo morir permanece
Como la más inmutable razón
Vivir es un accidente
Un ejercicio
De gozo y dolor
Qué no, qué no
Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso
Quien pone reglas al juego
Se engaña si dice que es jugador
Lo que le mueve es el miedo
De que se sepa
Que nunca jugó
La ciencia es una estrategia
Es una forma de atar la verdad
Que es algo más que materia
Pues el misterio
Se oculta detrás
Qué no, qué no
Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso

Desafio

culturepub é um arquivo de publicidade excelente onde se descobrem anúncios que não não se consegue encontrar noutro lado. Por exemplo, o anúncio italiano Freedom, da Vodafone, estreado em 2008. culturepub acompanha os anúncios com palavras-chave. Neste caso, escolheu as seguintes: Animal; Apartamento: Árvore; Bem-estar; Felicidade; Sapato; Joaninha; Esquilo; Fauna; Flor; Flora; Fio elétrico; Natureza; Borboleta; Guaxinim; e Cidade. Quase todas símbolos de liberdade. Esqueceu-se, contudo, de, pelo menos, um tópico, omnipresente e, porventura, o mais marcante. Qual é? Se descobrir, tornar-se-á tão evidente que saberá que acertou.

Para aceder ao anúncio na página culturepub, carregar na seguinte imagem (recomendo resolução 1080p).

Marca: Vodafone. Título: Freedom. Agência: Mercurio cinematografica (milan). Itália, 2008.

E tudo o vento devolveu

Schindler’s List (1993)

Diga-o com música!

Returns to Cracow e Schindler’s List Theme, do filme A Lista de Schindler, e Lara’s Theme, do filme E tudo o vento levou (1939), interpretados por Itzhak Perlman.

John Williams. Return to Cracow. Do filme Schindler’s List (1993). Intérprete: Itzhak Perlman.
John Williams. Theme from Schindler’s List. Do filme Schindler’s List (1993). Intérpretes: Itzhak Perlman e John Williams.
Tara’s Theme from “Gone With The Wind” (1939). Compositor: Max Steiner. Intérprete: Itzhak Perlman.