Archive | Janeiro 2014

OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)

À memória de Raphael Pividal

Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.

“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280).  Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão.  Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão. Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.

Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar o homem e a mulher a cavalgar um peixe voador.

Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.

Olhos de Mágoa

LeaO olhar das crianças pode ser perturbador. Às vezes, mais do que o olhar omnividente. É um olhar que não está em todo o lado, mas que está ali, no ponto crítico, dorido, humano. Aprecio estes anúncios que contam uma história, em poucos segundos, com o efeito visado e sem desperdício.

Marca: Frauenzentrale. Título: Lea. Agência; Publicis. Direção:  Heike Fincke. Suíça, Janeiro 2014.

Toma lá, que já almoçaste!

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

John enviou do Canadá este anúncio. Para que o comente. Até à data nunca tal me apeteceu. Acontece-me “ignorar” anúncios memoráveis, como este “Despicable” (2001), promovido pela Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. A minha leitura é ambivalente. Impactante, o anúncio não deixa ninguém indiferente e a mensagem, com personagens estereotipadas, assevera-se contundente.

Quais são as reticências?

O anúncio é convincente e gratificante para os anti-racistas. E para os outros? Quem é, afinal, o alvo? Quem se pretende sensibilizar? Os anti-racistas? Nesta hipótese, tão improvável quanto obtusa, tratar-se-ia de um exercício umbilical, de uma “comemoração”.

A simetria é geometria corrente nas relações humanas. Dás-me um pontapé, dou-te outro. Olho por olho, dente por dente… No caso vertente, rebaixar quem rebaixa ou excluir quem exclui. Pior, sentir prazer em rebaixar e em excluir o outro, que, por sinal, rebaixa e exclui alguém. Prolonga-se a espiral, sem a quebrar. Entre ter uma pedra e “ter um sonho”, prefiro o sonho.

A trama deste anúncio lembra uma expressão portuguesa: “Toma lá, que já almoçaste!” Nos anos 2000, vários anúncios portugueses inspiraram-se neste mote (e.g., http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-fumadores-passivos?hd=1). Não aprecio nem a arte, nem o espírito subjacentes.

Um anúncio com esta missão dispensa o meu azedume. Acresce que proceder à sua desmontagem lógica resulta injusto e inadequado. Um anúncio publicitário é, antes de mais, um discurso simbólico, irredutível à mera lógica. Pede uma semiótica ou uma hermenêutica, não um algoritmo. O anúncio presta-se, porém, a esta falácia: verbalizado quanto baste, aposta num encadeamento linear de acções, efeitos e reacções. Uma ação produz um efeito que gera uma reacção “lógica”, até à reacção final, mais lógica do que a lógica. O sucesso do anúncio assenta, em boa parte, neste encadeamento inaugurado com uma discriminação ostensiva e concluído com a devida reparação efectiva.

Pressinto-me isolado nesta interpretação. Mas mais vale isolado do que demasiado bem acompanhado.

Anunciante: Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. Título: Despicable. Agência: Lowe Lintas & Partners. Portugal, 2001.

Make Love, Not War! O Pós-Pós-Moderno

Axe. Make love, not warQuando a Mercedes elogia um automóvel ou a sensação de conduzir, compreendo. Tal como quando a Channel promove a erotização do olfato. Já estranho se a primeira promover um anúncio contra a violência doméstica e a segunda contra as armas químicas. A que título? Vilfredo Pareto não se cansou de insistir que uma valia num domínio não implica igual valia num domínio distinto. Por que havemos de privilegiar a opinião política de um grande cientista?

Este anúncio da Axe é uma caricatura. Uma caricatura dos anúncios promovidos por tantas boas almas empresariais; responsabilidade social, consciencialização social e intervenção pública. É uma caricatura que não deixa de apontar o dedo ao caricato. As teorias da publicidade sustentam que os anúncios comportam uma promessa, a grande responsável pela adesão do público. Mas algo está a mudar. A promessa altera-se, radicaliza-se, tende a insinuar-se como uma promessa de salvação. Entramos, assim, na esfera do religioso. É verdade que o religioso sempre esteve presente na publicidade. Mais, o religioso está em todo o lado. Concedo! Mas estando o religioso em todo o lado, em nenhum outro sítio está como num mosteiro… A religiosidade patente na publicidade atual também é distinta. Trata-se de uma espécie de evangelização dos cartões de crédito, acompanhada pela assunção de que o económico não tem nem limites, nem explicações a dar. A publicidade deste pantocrator dos mercados lembra um triângulo formado por três figuras medievais. mas típicas de todos os tempos: o pregador que proclama a palavra; a alcoviteira que a propaga; e o charlatão que abusa da palavra.

Marca: Axe. Título: Make love, not war. Agência: BBH London. Direção:  Rupert Sanders. UK, Janeiro 2014.

Em que sociedade estamos? Numa sociedade pós-moderna? Talvez, se confundirmos uma sociedade com a sua espuma. Quanto a mim, estamos numa sociedade em que nunca deixamos de estar: no século XIX, no início, no meio e no fim do século XX e no novo milénio. Uma espécie qualquer de capitalismo, com o económico e o financeiro a dominar, como nunca antes, o político. A querer persistir nos pós e na espuma, então estes novos tempos já andam disfarçados de pós-pós-modernos.

Silêncio

CCTV_A-Silent-World_homeimageÉ tempo de regressar à publicidade. Com um anúncio da cadeia de televisão chinesa CCTV. Vários anúncios anteriores habituaram-nos  a encarar os orientais como excelentes contadores de histórias. Por acréscimo, neste anúncio, a história rima com uma causa social, o apoio à surdez, acabando por enfatizar o papel das relações humanas.

Anunciante: CCTV. Título: The Silent World. Agência: Saatchi & Saatchi Beijing. China, Janeiro 2014.

Todos os caminhos vão dar a Babel

Torre de Babel. Bedford Master Book oh Hours. 1423.

Torre de Babel. Bedford Master Book of Hours. 1423.

Devia ter-me inscrito num congresso da minha área de investigação e não o fiz. Cheguei a uma idade em que, em matéria de ciência, não pago para falar, nem pago para ouvir. Autismo? Com certeza! Ou talvez não, nunca partilhei tanto e tão depressa os resultados da investigação como nos últimos anos. Deparei com uma ficha relativa à actividade científica do ano 2013, onde só são contempladas as comunicações em congressos! Parte da minha actividade profissional resvala para a insignificância. Conferências não servem? O mundo dá cada cambalhota! As conferências foram destronadas pelos “papers”. Sexta, apresento, por convite, uma comunicação nas 1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte (ver cartaz). Pelos vistos, atendendo aos rankings profissionais em circulação, não vou fazer nada. Ainda por cima, fora do tempo da cereja. Vou sentir-me pura transparência a pender para a nulidade.

Hendrik III Van Cleve. Torre de Babel. 1563

Hendrik III Van Cleve. Torre de Babel. 1563

À focalização nas revistas com fator de impacto, acrescenta-se a focalização nos congressos. Eis uma nova culinária: todos os caminhos da ciência vão dar a Babel, a torre da ambição desmedida e do colossal desperdício. O triunfo da Bimby!

Cornelis Anthonisz. A Queda da Torre de Babel.1547

Cornelis Anthonisz. A Queda da Torre de Babel. 1547

Nas aulas de Matemática e de Estatística cunhavam-se algumas anedotas do tipo: um homem que tem a cabeça no congelador e as pernas no forno, do ponto de vista da média, está a uma boa temperatura. Outra sentença para rir consistia no seguinte: o que não é quantificável não existe! Eram piadas, mas já preocupavam C. Wright Mills (Sociological Imagination, 1959) e Pitirim Sorokin (Fads and foibles in modern sociology and related sciences, 1956), que alertavam para o risco de quantofrenia. Nunca pensei que a piada se tornasse realidade. Tudo indica, aliás, que temos uma nova versão: só existe o que é facilmente quantificável.

Andreas Zielenkiewicz. Torre de Babel. Contemporâneo.

Andreas Zielenkiewicz. Torre de Babel. Contemporâneo.

1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte

1.as Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Região Norte

Pousio político

Plantu. Il va le faire

Plantu. Il va le faire

Em Novembro de 2013, em Portugal, a taxa do desemprego jovem (com menos de 25 anos) era 36,8%, contra 15,5% no conjunto da população. Na União Europeia, em Outubro de 2013, a taxa do desemprego jovem (24,4%) era o dobro da geral (12,1%). Na mesma data, o desemprego jovem atingia 58,0% na Grécia, 57,4% em Espanha e 52,4% na Croácia.

Esta geração não é apenas a mais qualificada de sempre, evidencia uma disponibilidade para a actividade profissional notável.

Ocorre-me uma conjectura estúpida: se as nossas sociedades não têm, agora, lugar para os mais jovens, talvez, num futuro próximo, não tenham lugar para os mais velhos. Entretanto, a política continua de pousio…

Plantu. Croissance

Plantu. Croissance

Aqui há gato!

Mainzer & Kunzli. Dressed Cats Postcards. Smoking Cats. Início anos 1950.

No tempo em que os gatos fumavam. Mainzer & Kunzli. Dressed Cats Postcards. Smoking Cats. Início anos 1950.

Há anúncios de sensibilização contra o consumo do tabaco que  não são contra os fumadores. Pretendem ajudá-los. Há anúncios de sensibilização que têm sentido de humor, com ou sem gatos. Há anúncios de sensibilização em que as palavras, embora resumidas, não são cortantes. Este anúncio, Only cats have nine lives, é um exemplo. Uma paródia das compilações vídeo que circulam na Internet que lembra que nove vidas, só os gatos. Nove ou sete? Sete, na maior parte do continente europeu, nove, nos países anglo-saxónicos. E os gatos portugueses, quantas vidas têm? Os fumadores, esses, só têm uma vida! E os outros? Ambos têm uma vida e nenhuma eterna.

Anunciante: Quit. Título: Only cats have nine lives. Agência: Iris. UK, Dezembro 2013.

Saudades caseiras

Para o FEndeR

JJ Cale. Troubadour. 1976

JJ Cale. Troubadour. 1976

Domingo é dia de cantorias. No último cd, Landmarks, editado em 2013, o alemão Timo Gross canta Homesick, que me inspira a seguinte pergunta: can someone be homesick at home? Please, ask the Portuguese. Homesick é uma música que ajuda a tonificar a tarde. O estilo de Timo Gross lembra, em boa hora, JJ Cale, falecido em 2013. De JJ Cale, recordo muitas músicas. Publicou mais de 20 álbuns. Foi, por exemplo, o compositor de Cocaine, que Eric Clapton celebrizou. Prefiro a versão de JJ Cale: Cocaine, Troubadour, 1976. Fiz uma viagem de França para Portugal, com apenas duas cassetes no carro. Uma era de JJ Cale, a outra de um grupo de rock progressivo argentino. Troubadour fez parte do pequeno cabaz de discos que oferecia com agrado. Em suma, duas canções para variar da publicidade e das iluminuras medievais.

“Homesick” from Landmarks by Timo Gross. Released: 2013. Track 2 of 11. Genre: Blues.

“Cocaine” from Troubadour by J.J. Cale. Released: 1976. Track 6.

Gatos Músicos

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.

Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível  (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (https://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É  a vez do gato!

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r.

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

05. 'Queen Mary Psalter', London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

05. ‘Queen Mary Psalter’, London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.