Archive | Dezembro 2012

Labirintos portáteis

Samuel Steinberg

Samuel Steinberg

Os labirintos fascinam-nos. Ou não se consegue entrar, ou não se consegue sair. Para os maneiristas, o labirinto eranem mais nem menos do que a imagem do mundo. Os labirintos mais emaranhados começam em nós. São, antes de mais, labirintos de espelhos. Os desenhos do artista norte-americano de origem romena Saul Steinberg (1914-1999) retratam bem os contornos destes labirintos pessoais.

Saul Steinberg.The Family, in The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg.The Family, in The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg,The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steinberg,The Labyrinth, Harper & Brothers, NY, 1960

Saul Steiberg. Untitled. 1957

Saul Steiberg. Untitled. 1957

Hedonologia

“Que prazer ter um livro para ler e não o fazer”…  Quem me dera ser hedonólogo! Dominar a “ciência do prazer” (Amado, Casimiro, 2006, Axiologia Educacional, Universidade de Évora). Mas já não vou a tempo.

Dustin O’Halloran. Opus 23. Piano Solos Vol. 2. 2006.

Dustin O’Halloran é um jovem pianista norte-americano residente na Alemanha. Ouvi pela primeira vez o seu Prelude 2 no anúncio A Rythm of Lines, da Audi (2007). Dustin O’Halloran presta-se à ciência do prazer. Seguem os vídeos respeitantes à composição Opus 23 e ao anúncio A Rythm of Lines.

Marca: Audi A5. Título: A Rythm of Lines. Agência: BBH, London. Reino Unido, 2007. Música: Prelude 2, de Dustin O’Halloran.

Até que a morte nos separe

Impacto é coisa que não falta a esta campanha da APAV. Tão pouco esmero técnico e estético. Bem preparado, o volte face final é, no mínimo, surpreendente. Esta campanha, “até que a morte nos separe”, com anúncios na imprensa e na televisão, “participou no concurso internacional Create 4 the UN – “SAY NO to Violence Against Women”, promovido pela ONU, sendo selecionada como uma das 15 melhores campanhas”.

APAV. Até que a morte nos separe. Lintas. 2012

APAV. Até que a morte nos separe. Lintas. 2012

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima enuncia os propósitos da campanha do seguinte modo: “As imagens veiculadas nesta campanha implicam uma reflexão sobre os contrastes existentes nesta problemática, os quais podem confundir ou toldar a sua visibilidade social. Assim, a campanha, inclui, por exemplo, dois retratos de mulheres vítimas de violência doméstica, as quais apresentam marcas da vitimação no rosto e pescoço. Estas mulheres estão vestidas de noiva, segurando ramo de flores e ostentando anel de noivado e aliança de casamento. Acompanha-as a frase «Até que a morte nos separe», a qual remete para a existência de um crescente número de mulheres vítimas de violência doméstica que são assassinadas pelos seus maridos ou companheiros conjugais” (http://apav.pt/apav_v2/index.php/pt/main-menu-pt/384-campanha-apav-25-novembro-dia-internacional-pela-eliminacao-da-violencia-contra-as-mulheres).

Anunciante: APAV. Título: Até que a morte nos separe / Bride. Agência: Lintas. Direção: Miguel Coimbra. Portugal, Dezembro 2012.

Toda a campanha coloca a ênfase no matrimónio. No anúncio para a televisão, a noiva percorre todos os momentos emblemáticos do matrimónio, até à revelação final. Nos retratos, as mulheres estão vestidas de noiva. Será que se pretende associar a violência doméstica ao matrimónio? Assim se pode pensar, assim se pode sentir. É certo que em grande parte dos casos o agressor é o marido. Significa isso que a violência doméstica decorre do matrimónio? Existem mais riscos de violência num casamento do que numa união de facto? Do que entre namorados? Do que entre amantes? Graças à sua longa experiência, ninguém está mais habilitado do que a APAV para responder a estas perguntas. A violência doméstica está a aumentar. Em contrapartida, as denúncias estão a diminuir. É nesta realidade que nos devemos concentrar. É esta a realidade que urge combater.

Move on to hell

RIPUm anúncio indiano fantasmagórico: sete palmos abaixo da terra, procuram-se óculos!

Anunciante: Fastrack. Título: Move on to hell. Agência: Fisheye Creative Solutions, Bangalore. Índia, Dezembro 2012.

Com o euro na garganta

O euro anda a fugir-me dos bolsos e a atravessar-se na garganta.

Desde a adesão ao euro, a taxa de crescimento do produto interno bruto desceu, com uma ou outra oscilação, de 3,2 (em 1999) para -1,5% (em 2011). Desde o ano 2000, a taxa não atingiu uma única vez o valor de 2% (Gráfico 1). Não sendo o mais acentuado, este é o decréscimo do PIB mais persistente desde 1960.

Gráfico 1Fonte: Eurostat

Com a adesão ao euro, perdemos duas opções cruciais da política monetária: a desvalorização da moeda e a fixação das taxas de juro. Isto não significa que ficamos sem política monetária; temos uma política monetária gizada à escala da União Monetária Europeia, mais precisamente, uma política monetária condizente com a realidade dos grandes países europeus, realidade diferente da nossa. Keynesiano por formação, não descuro Milton Friedman: os instrumentos monetários são decisivos na condução da política económica. Neste sentido, a intervenção na Grécia, na Irlanda e em Portugal pode ser encarada como uma “experiência”. Está-se a lidar com crises económicas e financeiras graves sem o auxílio dos instrumentos clássicos da política monetária. Estamos perante uma política neoliberal reciclada. Incide sobre o orçamento e apoia-se na iniciativa do governo, sobretudo em termos das ditas reformas estruturais. Mantém, no entanto, a tradicional luta contra o défice e a aposta no emagrecimento do Estado. O que lembra uma espécie de harakiri do Estado numa ópera trágica interpretada por uma troupe de governantes, peritos e bufões ansiosos.

Sem política monetária própria, um país expõe-se a ser palco de incongruências demasiado perniciosas devido às ilusões induzidas.

Gráfico 2 Fonte: Eurostat.

Nos primeiros anos do euro, até 2006, a taxa de inflação em Portugal e na Irlanda fixou-se acima da média europeia, ultrapassando anos a fio as taxas de juros fixadas pelo Banco Central Europeu. Esta distância foi particularmente acentuada entre 2001 e 2005 (Gráfico 2).

Gráfico 3. Endividamento das famílias

Gráfico 3 Fonte: Banco de Portugal, Relatório de Estabilidade Financeira, Nov. 2012.

Este desvio entre a dinâmica económica e a política monetária contribui para o embaratecimento do dinheiro, sem que tal se traduza necessariamente, como alerta Milton Friedman, num incremento da produção. Este cenário favorece a eclosão de um optimismo consumista alimentado pela ilusão de um aumento duradouro do poder de compra. O embaratecimento artificial do dinheiro e o optimismo consumista concorreram para a bolha do imobiliário na Irlanda e para o ritmo acelerado de endividamento das famílias em Portugal: o endividamento das famílias com a habitação, rubrica mais sensível, passou de menos de 60% do rendimento disponível, em 2000, para mais de 90%, em 2006 (gráfico 3).

De dois em dois séculos, Portugal perde independência: em 1580, para os Filipes de Espanha; a seguir às invasões francesas, para o Wellington e para o Beresford de Inglaterra; agora, para a União Europeia. Emprestam dinheiro e, por tabela, ajudam a governar, dando ordens. Ordens, não! Fixam metas e os caminhos para as alcançar: défice público, idade da reforma, vencimentos da função pública, legislação laboral, prestações sociais… Trata-se de uma intervenção, de uma tentativa solidária. Nunca antes se lidou com um desafio como o da Grécia, da Irlanda e de Portugal: conseguir uma quebra drástica do défice público sem recurso aos instrumentos da política monetária. Resta, pelos vistos, dosear a injecção com libertação controlada de empréstimos com um emagrecimento do Estado e da população. Caso não baste ou sobrevenham efeitos perversos, volta-se a tentar, com novas doses.

A compreensão de um fenómeno passa, frequentemente, pela escolha de uma palavra para o dizer. Portugal está a viver sob o signo da poda. A União Europeia quer e o Governo manda: poda aqui, poda ali, poda acolá. O mais rente possível. Porque se acredita que os países, os estados e as pessoas são como as árvores. Quanto mais severa for a poda, mais vigorosos serão os novos rebentos. Se for preciso, corte-se até às raízes. Vivemos tempos de grande poda!

Prisioneiros do tabaco

Uma amiga chamou-me a atenção sobre a importância dos outdoors nos Estados Unidos. São abundantes, enormes e apelativos. Esta campanha antitabaco da ClearWay Minnesota é um bom exemplo. Painéis de grande dimensão, simples, originais e convincentes.

ClearWay Minnesota. We All Pay billboard 1

ClearWay Minnesota. We All Pay billboard 2

Anunciante: ClearWay Minnesota. Título: We All Pay billboard. Agência: Clarity Coverdale Fury, Minneapolis. EUA, Janeiro 2011.

Desconforto

Fondation Abbé Pierre. La Maison

Uma das virtudes da ficção consiste em mostrar-nos a realidade. Uma realidade que os nossos olhos não estão habituados a ver, a não ser emoldurada no ecrã. É o caso das condições miseráveis de habitação de muitos dos nossos concidadãos.

Anunciante: Fondation Abbé Pierre. Título : La Maison. Agência: BDDP & fils, Paris. Direção: Valérie Pirson. França, Novembro 2012.

Jean-Michel Folon

Folon. Un monde.

Folon. Un monde.

Gosto dos desenhos de Folon. Lembram Magritte. Os mais melancólicos vestem-se com cores de veludo. Yves Duteil compôs uma canção intitulada, precisamente, “Comme dans les dessins de Folon”. Folon alivia-nos do peso dos dias, com ele voamos sem dar cabeçadas no céu. Por lá deve andar, com asinhas de pincel.

Partilho este vídeo que encontrei com a canção de Duteil e desenhos de Folon.

Chove na liberdade

Folon. Homme Volant“Il peure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville » (Paul Verlaine – 1844-1896). Chove no meu País, chove na liberdade. E é inverno. Existem, felizmente,  iniciativas que dão asas à vontade e à imaginação. Por exemplo, este genérico, dos anos 1970, de fecho de emissão da Antenne 2. A imagem é do pintor belga Jean-Michel Folon, falecido em 2005, e a música do francês Michel Colombier, falecido em 2004. Seguem o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 e a música Wings, de Michel Colombier, interpretada por Toots Thielemans. Não deixem que a liberdade se constipe!

Presentes de reis magos

Há mais de dois mil anos, num estábulo em Belém, o divino fez-se homem. Do Natal, gosto muito do São Martinho e do Carnaval. Fujo a sete pés da cacofonia simbólica dos pais natais, da missa do galo e das figurinhas de presépio. Comove-me, no entanto, o “espírito de Natal”, que a Unicef soube captar nestes dois anúncios contra os desperdícios da quadra natalícia. No primeiro, os reis magos escolhem as prendas para o menino Jesus; no segundo, Maria não sabe que destino lhes dar.

Anunciante: Unicef. Títulos: Three wise men / Maria. Agência: Forsman & Bodenfors, Stockholm. Suécia, Dezembro 2012