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A viúva de mármore

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

01. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

Em 1981, o escultor Peter Schipperheyn foi contactado por Laurie Matheson para fazer uma escultura em tamanho natural de sua mulher, Christine. Em 1986, Laurie morre. A viúva, Christine, contacta Peter Schipperheyn para encomendar uma nova escultura, desta vez tumular, chamada Asleep: um nu que demonstra o seu apego ao marido. Asleep encontra-se no cemitério do Mte Macedon, em Victoria, na Austrália.

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

02. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

03. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

04. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

05. Peter Schipperheyn. Asleep. Mt Macedon Cemetery in Victoria, Australia. 1987

Mortos interactivos

 

Terceiro dedo.

Terceiro dedo.

O último capítulo do livro A Morte na Arte conduziu-me pelos cemitérios em busca de esculturas mortuárias veladas. Quem procura uma coisa encontra outras. Sempre que procuro perco-me. Intrigaram-me algumas esculturas de “mortos interactivos”. Partes do corpo dos mortos irrompem dos túmulos numa espécie de comunicação com os vivos. Nas figuras 2 a 4, destacam-se as mãos, nas figura 5 e 7, partes do corpo. Na figura 1, uma mão aponta o terceiro dedo. Não são casos de somenos importância. Os túmulos das figuras 5 e 6 pertencem a Jules Verne e ao poeta Gerges Rodenbach. A figura 1, a mais fática, justifica algumas reservas. Embora não seja rara na Internet, não consegui identificar nem o local, nem o fotógrafo. Pode ser falsa (fake).

Há quem acredite que a vida e a morte não são mundos tão separados quanto a razão dita. Existe uma zona de intersecção onde deambulam, por exemplo, as almas penadas e os mortos vivos. Existem imaginários que sustentam este contrabando, torto por linhas tortas, entre a vida e a morte.

Transi 2: A decomposição do corpo

(Continuação do artigo Transi 1: As artes da morte).

Os Transi

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
Fernando Pessoa, Se te queres matar… Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944.

Este desvio pelas artes mortuárias da Idade Média constitui um preâmbulo a uma visita aos transi, a mais tardia das artes medievais da morte.  Transi significa, em francês arcaico, trespassado. Adquiriu, entretanto, o sentido de estremecido, tolhido e petrificado, palavras associadas à sensação de medo e pavor. Os transi referem-se, sobretudo, a esculturas tumulares de corpos em decomposição, alguns pasto de vermes, insectos e sapos. Ao contrário das danças macabras e das Ars Moriendi, a difusão dos transi circunscreve-se a uma zona específica da Europa. Embora existam casos  na Bélgica, na Itália e na Suíça, a maioria dos transi provém do Leste da França, da Alemanha Ocidental e da Inglaterra. Na Península Ibérica resumem-se a casos excepcionais.

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Fig 13. Transi de Guillaume de Harcigny. 1394. Museu de Laon. Pormenor.

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Fig 14. Transi de Guillaume de Harcigny. 1394. Museu de Laon.

O transi mais antigo de que há conhecimento remonta a 1394. Trata-se da lápide funerária de Guillaume de Harcigny, médico do rei Carlos VI (Figuras 13 e 14). Consta que, no testamento de bens que legou à Igreja, pediu para que fosse cinzelada uma escultura do seu corpo no estado em que se encontrasse um ano após o seu falecimento. Comparados com as danças macabras ou as Ars Moriendi, os transi são mais raros. Estão, no entanto, inventariados mais de duzentos transi na Europa. Eram encomendados pelas elites: reis, rainhas, nobres, cardeais, médicos, por sinal, as únicas pessoas com poder e recursos para encomendar a escultura e reservar um espaço para o efeito no interior das igrejas.

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Fig 15. Cadáver não identificado. St Andrews church. Devon. Feniton. Séc. XV. Pormenor.

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Fig 16. Cadáver não identificado. St Andrews church. Devon. Feniton. Séc. XV.

Estas esculturas tumulares expõem o corpo desnudado do falecido. São caracterizadas por um elevado realismo macabro. A degradação do corpo torna-o descarnado e ressequido. O sudário ou as mãos ocultam os genitais. Por vezes, com pudica delicadeza, conjugam-se as mãos e o sudário (Fig. 15).

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Fig 17. Transi do Cardeal Jean de la Grange, falecido em 1402. Musée du Petit Palais. Avignon. “Tu serás em breve como eu um cadáver horrendo pasto dos vermes”.

Os transi exibem despojamento e humildade nos lugares nobres das igrejas. Uma humildade exposta ou uma exposição humilde? Mostram-se aos passantes mas também a Deus. Interpelam-nos. Funcionam como memento mori. Alertam-nos. No túmulo do Cardeal Jean de la Grange, lê-se: “Tu serás em breve como eu um cadáver horrendo pasto dos vermes” (Fig 17).

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Fig 18. Transi. Jazente desconhecido. Numa parede da Collegiale de Saint Gervais e Saint Protais, Gisors. 1526.

O transi da Collégiale de St Gervais et St Protais, em Gisors, solicita a nossa atenção e a nossa compaixão: “Sejas tu quem fores, acautela-te, chora. Eu sou o que tu serás, um punhado de cinzas. Implora, reza por mim” (Fig 17). Na escultura tumular de Guillaume Lefranchois, a mensagem sai da própria boca do defunto: “Tenho esperança na minha salvação na única misericórdia de Deus” (Fig 20).

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Fig 19. Transi. Francis de la Serra. Sarraz. Suíça. Fim do séc. XIV.

Mas existem transi mais radicais na representação da decomposição após a morte. O corpo evidencia putrefacção, percorrido ostensivamente por vermes e outros necrófilos. Partes do corpo estão desprovidas de carne e pele. Aproximam-se da “morte seca” (esqueleto).

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Fig 20. Transi de Guillaume Lefranchois. Após 1446. Musée de Beaux-Arts d’Arras.

A minúcia cirúrgica destes corpos em decomposição lembra a noção de realismo grotesco aplicada por Mikhail Bakhtin à cultura popular medieval e renascentista (alguns transi relevam do Renascimento e, até, do Maneirismo).

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Fig 21. L’Homme à Moulons. Por Jacques Du Broeck. Bélgica. Séc. XVI.

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Fig 22. Transi de Joana de Bourbon. Condessa de Boulogne e d’Auvergne (1465-1521).

Quem decide e quando a construção do túmulo? A quem cabe a iniciativa? Segundo consta, ao próprio. O príncipe holandês René de Chalon (Figura 23) manifestou, no leito da morte, a vontade de ser esculpido como se encontrasse três anos após o falecimento . O médico Guillaume d’Harcigny (Figuras 13 e 14) legou por testamento os grandes bens à Igreja de Laon pedindo que fosse feita uma escultura do seu corpo uma ano após a morte. A rainha Catherine de Médicis encomendou a sua estátua funerária em 1565 (Figura 24); faleceu 24 anos depois, em 1589. O arcebispo de Canterbury, Henry Chichele (Figuras 26 e 27), concluiu o seu próprio túmulo por volta de 1426; falecido em 1443, teve o ensejo de contemplar a sua última morada durante 18 anos. Trata-se, no mínimo, de uma decisão amadurecida.

Fig 23. Transi de René de Chalon, por Ligier Richier, ca. 1545.

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Fig 24. Girolamo della Robbia. Esboço da escultura mortuária de Catherine de Médicis. 1565.

Existe um tipo de túmulos com transi mais complexo. Trata-se dos “túmulos de dois andares”, como os baptizou Erwing Panofsky (Sculpture Funeraire, Paris, Flammarion, [1964] 1995). No andar superior repousa uma escultura do jazente adormecido, sereno, com as prerrogativas da sua vida terrena: fama, poder e riqueza. Está voltado para o céu. Por baixo, no primeiro andar, aparece a figura do transi, despojada, desconfortável e disforme. Perto da terra  (Figuras 25 e 26).

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Fig 25. Túmulo de Sir John Golafre. Em Fyfield, Osfordshire. Após 1442.

Nestas circunstâncias, torna-se tentador esboçar algumas associações e oposições ao jeito estruturalista: alto/baixo; céu/terra; luz/sombra; sossego/retracção; vestido/nu; beleza/fealdade; perfeição / degradação; ostentação/despojamento… Nestes túmulos, os contrários permanecem lado a lado, tocam-se. Mas a humildade característica do transi é, paradoxalmente, envolta no fausto da globalidade do túmulo.

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Fig 26. Transi em túmulo de dois andares de Henry Chichele, arcebisto de Canterbury. 1424-26.

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Fig 27. Túmulo de Henry Chichele, Acebisto de Canterbury, Catedral de Canterbury. 1424-1426.

(Continua no artigo Transi 3: Viver com os mortos).

O rei vai nu!

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Fig 1. Efígies dos cadáveres do rei Luís XII (1498-1515)  e da rainha Ana de Bretanha (1477-1514). Escultura da autoria de Jean Juste (1485-1549)

Vira o ano, toca o mesmo! Iniciei em Outubro um artigo aprazado para o Dia dos Mortos. Ainda não acabei. À medida que o vou cinzelando sobram algumas arestas como é o caso desta escultura mortuária de Jean Juste (1485-1549) com as efígies do rei Luís XII e da rainha Ana de Bretanha. São raros os túmulos em que os corpos de membros da nobreza ou do alto clero se mostram nus. Desvelam a humildade e o despojamento da morte após uma vida de excessos. A nudez íntima do morto (Figura 1) e a opulência pública da vida (Figura 2) num túmulo tão contraditório quanto o destino humano.

Creio não ter colocado nenhuma música dos King Crimson. Chegou o momento. Acrescento a música e a letra da canção Epitaph, do álbum In the court of the Crimson King (1969), numa versão quase só vocal. Reconsiderei: acrescento também a versão instrumentada do álbum de 1969.

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Túmulo de Luís XX (1408-1515) e Ana de Bretanha (1477-12514). Basílica de Saint-Denis, Ville de Saint-Denis. Esculpido por Jean Juste (1485-1549)

King Crimson. Epitaph. Álbum In the court of the Crimson King (1969). Quase vocal.

King Crimson. Epitaph. Álbum In the court of the Crimson King (1969).

Epitaph

The wall on which the prophets wrote
Is cracking at the seams.
Upon the instruments of death
The sunlight brightly gleams.
When every man is torn apart
With nightmares and with dreams,
Will no one lay the laurel wreath
When silence drowns the screams.

Confusion will be my epitaph.
As I crawl a cracked and broken path
If we make it we can all sit back and laugh.
But I fear tomorrow I’ll be crying,
Yes I fear tomorrow I’ll be crying.
Yes I fear tomorrow I’ll be crying

Between the iron gates of fate
The seeds of time were sown
And watered by the deeds of those
Who know and who are known.
Knowledge is a deadly friend
If no one sets the rules.
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools.

The wall on which the prophets wrote
Is cracking at the seams.
Upon the instruments of death
The sunlight brightly gleams.
When every man is torn apart
With nightmares and with dreams,
Will no one lay the laurel wreath
When silence drowns the screams.

Confusion will be my epitaph.
As I crawl a cracked and broken path
If we make it we can all sit back and laugh.
But I fear tomorrow I’ll be crying,
Yes I fear tomorrow I’ll be crying.
Yes I fear tomorrow I’ll be crying
Crying..
Crying…
Yes I fear tomorrow I’ll be crying
Yes I fear tomorrow I’ll be crying
Yes I fear tomorrow I’ll be crying
Crying…