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Pausa para trabalhar

Pina Bausch

“Durante muito tempo, pensei que o papel do artista era despertar o público. Hoje, quero oferecer-lhe no palco aquilo que o mundo, cada vez mais duro, deixou de lhe oferecer: momentos de amor puro (Pina Bausch).

A pandemia comprime o tempo e multiplica os surtos de trabalho. Julho revelou-se um pico maior que o Evereste. Ocorre a figura do judeu em terras de faraó a subir a montanha de costas. Nos próximos tempos, prometo empenhar-me em fazer aquilo que não presta, bem como aquilo que não devo. Que prazer poder e não fazer, ouvir as sereias junto à Ilha dos Amores. O Tendências do Imaginário esteve onze dias quedo e mudo. É estranho ter saudades do vício. “O trabalho não liberta”, tal como o resto. “Welcome to the pleasuredome” (https://tendimag.com/2018/06/19/canteiros-do-prazer-pleasuredomes/).

Pina Bausch é a dança. Wim Wenders dedicou-lhe um filme: Pina (2011). O vídeo “Seasons March” é um excerto. A última música é um fado de Coimbra: “Os teus olhos são tão verdes”. Aproveito para recolocar o vídeo “Dead Can Dance – Song of the Stars (Versão Pina Bausch”. Se já viu, é uma ocasião para ver com outros olhos.

Pina Bausch. Seasons March. Do filme Pina, de Wim Wenders (2011).
Dead Can Dance – Song of the Stars (Pina version).

Bateria. Jenkins.

Karl Jenkins

Estou com as pilhas gastas. Acabei um artigo e comecei um prefácio. Somei quatro júris nas duas últimas semanas. Guardo, com zelo, uma trintena de trabalhos práticos para corrigir e tenho, graças ao Senhor, muito que plataformar. Não me queixo, tudo isto é deveras estimulante! Na gíria académica, são amendoins. Mas, para recarregar as baterias, preciso de alguma música que me dê energia. Por exemplo, Palladio, Concerto Grosso para Orquestra de Cordas (1996), de Karl Jenkins, com duas irmãs, pouco compenetradas, no violino. Para complementar, um ramalhete de notas infernais, o Dies Irae Requiem (2008), também de Karl Jenkins. De ficar boquiaberto. E, assim, deste jeito, um nada basta e, até, sobra.

Karl Jenkins. Palladio, Concerto Grosso para Orquestra de Cordas (1996). Orquestra Filarmónica de Monte-Carlo. Intérpretes: Camille Bertholet e Julie Bertholet. 2016.
Karl Jenkins. Dies Irae Requiem, 2008. The Celebrating Karl Jenkins Concert at the Wales. 2009.

Trabalhar até doer a vontade

Jordi Savall.

Estou a pensar na reforma. Ando a sentir náuseas. Admito que não sejam laborais; talvez esteja grávido. Vou investir numa tasquinha com música global e produtos regionais. Convido o Jordi Savall e o Ensemble Musica Narrans para tocar cravo, violino e viola de arco e provar bife de presunto e lampreia escalada, mais umas roscas de Monção e uns charutos dos Arcos. A reforma, se passarem as náuseas, vai ser um regalo, uma folia.

Ensemble MUSICA NARRANS. Folia – Variations by Arcangelo Corelli, Alessandro Scarlatti and Marin Marais. 2014.
Jordi Savall. Folias de España. Festival de Lanvellec en el año 2002.

Vulvas e pirilaus

Libresse

Pelo conteúdo do anúncio No Jobs For C*cks, da associação Oh You Women, os pirilaus, usurpadores, desfrutam de algum protagonismo. Pergunto-me o que aconteceria se o anúncio fosse invertido? Uma indignação?

Marca: Oh You Women. Título: No Jobs For C*cks. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Maio 2018.

Na publicidade, além de pirilaus, temos vulvas. O anúncio Viva la Vulva, da Libresse, consiste numa música cantada por vulvas. Muitas vulvas. Se o anúncio No Jobs For C*cks é um protesto, o anúncio Viva la Vulva é uma celebração. Goste-se ou não!

Marca: Libresse. Título: Viva la Vulva. Agência: AMV BBDO. Direcção: Kim Gehrig. Reino Unido, Novembro 2018.

A indiferença

Swedish Public Employment Service. Make Room. Agência Le bureau Stocholm. Direcção Bjorn Stein. Suécia, Março 2018

“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão” (Anatole France , 1894, Le Lys Rouge).

“A sociedade da prosperidade, aquela que pretende o ser próspero, odeia todos aqueles que não alcançam aquilo que ela institui. O indivíduo desfavorecido é pois julgado e responsabilizado pela coletividade por não ter alcançado melhor lugar no seu seio.
Da mesma maneira em que a sociedade da informação penaliza o indivíduo desinformado; da mesma maneira que a sociedade tecnológica penaliza o indivíduo desprovido de técnica; da mesma maneira que a sociedade politizada penaliza o indivíduo desprovido de polítiquice.
Todos os dias se pode observar como o ricaço escorraça o mendigo com cólera…” (Georg Simmel, através de Pedro Costa).

O diferente é igual? Devemos amar os outros como a nós mesmos ou amar os outros como outros? Pode a igualdade abraçar a diferença sem a apagar? És tão igual quanto prevê a lei? E tão único quanto o teu cartão de cidadão? A expansão da mesmidade aproxima-nos da nulidade, de um deserto em que somos areia. No Make Room, do Swedish Public Employment Service, vale o anúncio, vale a causa e vale a música (de John Lennon). Na canção L’Indifférence, de Gilbert Bécaud, vale o talento e a poesia. Vale a sabedoria: “a indiferença destrói o mundo”.

Anunciante: Swedish Public Employment Service. Título: Make Room. Agência: Le bureau Stocholm. Direcção: Bjorn Stein. Suécia, Março 2018.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence. 1977.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence.

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c’est
L’indifférence

Elle a rompu et corrompu
Même l’enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l’a vu
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Chez toi tu n’es qu’un inconnu
L’indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L’indifférence
Tes vieux n’écoutent même plus
Quand tu leur causes

Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu’elle se dit
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose

L’indifférence
Tu es cocu et tu t’en fous
L’indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L’indifférence
Y a plus de haine, y a plus d’amour
Y a plus grand-chose

L’indifférence
Avant qu’on en soit tous crevés
D’indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L’indifférence
Qu’elle serait belle écartelée
L’indifférence

Amor laboral

bireleys-j-walter-thompson-bangkok-branding-in-asiaNão gosto de amores de torre do castelo; ele rasteiro, ela nas nuvens. Gosto mais dos amores duplex; ele na rua e ela à varanda, tipo Romeu e Julieta. Mas do que gosto mesmo é dos amores rés-do-chão; de bares, bailes e vielas; ambos à altura do corpo. Como no anúncio tailandês  Just One Sipe, da Bireleys. Um amor laboral, esforçado, com pele, carne e osso. O anúncio é fantástico: breve e acelerado, com uma urgência de palavras e uma orgia de objectos. A alteração de velocidade, música e carga sentimental, a meio do anúncio, é digna de registo. Longos ou curtos, os vídeos orientais ensinam-nos como criar e contar histórias.

Marca: Bireleys. Título: Just One Sipe. Agência: JWT Bangkok. Tailândia, Dezembro de 2016

Comprar o que é nosso

There’s a huge natural resource right here in America.It’s not the land, water, or power sources – it’s the people.At WeatherTech®, we celebrate American workers.

Marca: WeatherTech. Título: Resources. Agência: Pinnacle Advertising. USA, Fevereiro 2016.

Mais um anúncio para a Super Bowl. A WeatherTech, uma empresa norte-americana de acessórios de automóveis, desafia os norte-americanos a consumir norte-americano. Porque a gente merece. Trata-se de uma iniciativa de pendor proteccionista. Nada que a tradição do país não justifique. Nem todos são paladinos do mercado livre como a Comunidade Europeia, adepta da política da abertura recíproca dos mercados. De qualquer modo, atendendo ao objectivo, o anúncio está bem conseguido. A oportunidade cria o ladrão: não resisti a fazer um gráfico com as taxas de crescimento do produto interno bruto da União Europeia (a 19), dos Estados-Unidos e de Portugal. Só para exercitar a vista. Curiosamente, e com alguma perversidade, esta apologia do trabalho e do trabalhador norte-americanos traz-me à memória o elogio do trabalho nos selos de correio dos países da União Soviética.

Gráfico: Evolução da taxa do PIB da União Europeia (19 membros), dos Estados-Unidos e de Portugal, entre 2004 e 2014.
Evolução da Taxa do Produto Interno Bruto 2004-2014
Fontes: http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/download.do?tab=table&plugin=1&language=en&pcode=tec00115 e http://www.multpl.com/us-gdp-growth-rate/table/by-year.

 

 

O coro da beneficência

Coca-Cola. Baby Symphony

A Coca-Cola aderiu à RED. À semelhança da American Express, da Apple, da Motorola ou da Giorgio Armani, acede a um rótulo Product Red, uma iniciativa de Bono Vox e Bobby Shriver para angariar donativos para a Global Fund, contra a sida, a tuberculose e a malária. Parte dos resultados das vendas dos produtos RED reverte para o fundo.

O anúncio Baby Symphony, da Coca-Cola, mais do que um hino de alegria é uma ode à esperança. Tudo condiz: a qualidade, o propósito, as crianças, a música… Excelente!

Multiplicam-se os anúncios, beneméritos ou não, com crianças adoráveis e prodigiosas, para gáudio do público. Mas, perante tamanho angelismo, pergunto: Será que somos crianças e os bebés brinquedos?

Desculpem esta pergunta daninha, mas estou em fase de azedume galopante. Tudo parece digno de um pontapé! Não são maus fígados, apenas desgaste. Há instituições que regulamentam tudo, tudo, menos a carga de trabalho. Esta semana, tinha fisioterapia todos os dias ao fim da tarde. Não consegui ir uma única vez! Perdão! Consegui ir sexta à consulta do fisiatra para avaliar o resultado! Este fim-de-semana não tenho teses para ler, tenho teses para corrigir… A culpa é da Coca-Cola, a “fábrica da felicidade”! Naturalmente.

Marca: Coca-Cola. Título: Baby Synphony. Internacional, Novembro 2014.

A Suspensão da Espécie

CRAVINGS maternity, baby, kids.

CRAVINGS maternity, baby, kids.

Este anúncio da Durex lembra os filmes do James Bond (“Condom 007”) e dos gangsters (“Condoms Traffic”). Uma vez localizados, somos pronta e discretamente servidos. O SOS Condoms não surpreende. Foi precedido pelo pacote completo. O cliente localiza-se e recebe a contracepção mais os acessórios.
Vem a propósito a notícia recente de que existem, em Portugal, “empresas que obrigam mulheres a comprometer-se a não engravidar durante cinco anos”. Esta austeridade pode integrar a mesma galeria que os míticos direito à pernada e cintos de castidade. Abre-se e fecha-se. Virgindade, ontem, maternidade, hoje, a violência sobre as mulheres repete-se. Que fazer? Continuar a apelar aos nossos brandos costumes? As chagas de Ourique martirizam este País. Às vezes, penso se não somos mais medievais do que os medievais da Idade Média.

Marca: Durex. Título: SOS Condoms. Agência: Buzzman Middle East. Emirados Árabes Unidos, 2013.

Trabalho em férias

Quino 2Cada vez se trabalha mais, cada vez se vale menos. Ainda bem que a lei prevê as férias:

“A finalidade das férias é «possibilitar a recuperação física e psíquica do trabalhador e assegurar-lhe condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação social e cultural», conforme estabelece o n.º 2 do artigo 171.º do RCTFP, o que justifica a imperatividade do respectivo regime, designadamente no que concerne à obrigatoriedade do seu gozo e à fixação da sua duração mínima.” (Despacho n.º 4932-A/2011).

E se as férias fossem trabalhadas? Por que carga de água? Por exemplo, por motivo de avaliação. Férias com urgência avaliativa… Nos últimos tempos, a avaliação avolumou-se mais do que o défice, o choque tecnológico, as indústrias criativas ou o empreendedorismo. A avaliação não é o submarino, a avaliação é o balão do país. Para que serve? Para fins que a gente não vê nem percebe. Talvez dê jeito para transformar um acto de potência em acto de direcção (Jean Baechler, Le pouvoir pur, Paris, Calmann Lévy, 1978) e levar a água, abençoada, ao moinho. Perversidades (Raymond Boudon, Effets Pervers et Ordre Sociale, Paris. P.U.F, 1977).

Quino_NEW[1]

Nasci antes da guerra colonial. Não me lembro de tropeçar em tanta sede de poder e em tanta prepotência como nos últimos anos.

Quando se tem férias trabalhadas, sente-se uma espécie de “déconfiture”, como canta Isabelle Mayereau, desconhecidíssima mas imitadíssima, Chevalier des Arts et des Lettres, pelo Ministério da Cultura francês, em 2010. Une déconfiture, um descalabro… Valha-nos uma Quinoterapia.

Isabelle Mayereau. Déconfiture. Déconfiture. 1979

Déconfiture

Je sens comme une déconfiture
Un bout de gâteau dans le thé
Comme un immense, immense mur
Un chewing-gum trop mâché (x2)

Tu sens comme une drôle d’aventure
Où tu vas te risquer
Comme un bleu trop violent d’azur
Comme un vieux jean usé (x2)

Je sens comme une presque blessure
Comme un nuage dans le thé
Comme une pomme acide pas mûre
Comme un pétard mouillé (x2)

Tu sens comme une éclaboussure
Comme un peu de rhum dans le thé
Comme un vent trop violent qui dure
De l’eau dans le canoë (x2)

Je sens comme une déchirure
Un bout de citron dans le thé
En quelque sorte, une éraflure,
Des bleus presque violets (x2)

Il reste de cette mésaventure
Un peu de sel dans le thé
Des ecchymoses, des courbatures,
Une envie de pleurer (x2)

Paroles et Musique: Isabelle Mayereau   1979