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Amor laboral

bireleys-j-walter-thompson-bangkok-branding-in-asiaNão gosto de amores de torre do castelo; ele rasteiro, ela nas nuvens. Gosto mais dos amores duplex; ele na rua e ela à varanda, tipo Romeu e Julieta. Mas do que gosto mesmo é dos amores rés-do-chão; de bares, bailes e vielas; ambos à altura do corpo. Como no anúncio tailandês  Just One Sipe, da Bireleys. Um amor laboral, esforçado, com pele, carne e osso. O anúncio é fantástico: breve e acelerado, com uma urgência de palavras e uma orgia de objectos. A alteração de velocidade, música e carga sentimental, a meio do anúncio, é digna de registo. Longos ou curtos, os vídeos orientais ensinam-nos como criar e contar histórias.

Marca: Bireleys. Título: Just One Sipe. Agência: JWT Bangkok. Tailândia, Dezembro de 2016

Comprar o que é nosso

There’s a huge natural resource right here in America.It’s not the land, water, or power sources – it’s the people.At WeatherTech®, we celebrate American workers.

Marca: WeatherTech. Título: Resources. Agência: Pinnacle Advertising. USA, Fevereiro 2016.

Mais um anúncio para a Super Bowl. A WeatherTech, uma empresa norte-americana de acessórios de automóveis, desafia os norte-americanos a consumir norte-americano. Porque a gente merece. Trata-se de uma iniciativa de pendor proteccionista. Nada que a tradição do país não justifique. Nem todos são paladinos do mercado livre como a Comunidade Europeia, adepta da política da abertura recíproca dos mercados. De qualquer modo, atendendo ao objectivo, o anúncio está bem conseguido. A oportunidade cria o ladrão: não resisti a fazer um gráfico com as taxas de crescimento do produto interno bruto da União Europeia (a 19), dos Estados-Unidos e de Portugal. Só para exercitar a vista. Curiosamente, e com alguma perversidade, esta apologia do trabalho e do trabalhador norte-americanos traz-me à memória o elogio do trabalho nos selos de correio dos países da União Soviética.

Gráfico: Evolução da taxa do PIB da União Europeia (19 membros), dos Estados-Unidos e de Portugal, entre 2004 e 2014.
Evolução da Taxa do Produto Interno Bruto 2004-2014
Fontes: http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/download.do?tab=table&plugin=1&language=en&pcode=tec00115 e http://www.multpl.com/us-gdp-growth-rate/table/by-year.

 

 

O coro da beneficência

Coca-Cola. Baby Symphony

A Coca-Cola aderiu à RED. À semelhança da American Express, da Apple, da Motorola ou da Giorgio Armani, acede a um rótulo Product Red, uma iniciativa de Bono Vox e Bobby Shriver para angariar donativos para a Global Fund, contra a sida, a tuberculose e a malária. Parte dos resultados das vendas dos produtos RED reverte para o fundo.

O anúncio Baby Symphony, da Coca-Cola, mais do que um hino de alegria é uma ode à esperança. Tudo condiz: a qualidade, o propósito, as crianças, a música… Excelente!

Multiplicam-se os anúncios, beneméritos ou não, com crianças adoráveis e prodigiosas, para gáudio do público. Mas, perante tamanho angelismo, pergunto: Será que somos crianças e os bebés brinquedos?

Desculpem esta pergunta daninha, mas estou em fase de azedume galopante. Tudo parece digno de um pontapé! Não são maus fígados, apenas desgaste. Há instituições que regulamentam tudo, tudo, menos a carga de trabalho. Esta semana, tinha fisioterapia todos os dias ao fim da tarde. Não consegui ir uma única vez! Perdão! Consegui ir sexta à consulta do fisiatra para avaliar o resultado! Este fim-de-semana não tenho teses para ler, tenho teses para corrigir… A culpa é da Coca-Cola, a “fábrica da felicidade”! Naturalmente.

Marca: Coca-Cola. Título: Baby Synphony. Internacional, Novembro 2014.

A Suspensão da Espécie

CRAVINGS maternity, baby, kids.

CRAVINGS maternity, baby, kids.

Este anúncio da Durex lembra os filmes do James Bond (“Condom 007”) e dos gangsters (“Condoms Traffic”). Uma vez localizados, somos pronta e discretamente servidos. O SOS Condoms não surpreende. Foi precedido pelo pacote completo. O cliente localiza-se e recebe a contracepção mais os acessórios.
Vem a propósito a notícia recente de que existem, em Portugal, “empresas que obrigam mulheres a comprometer-se a não engravidar durante cinco anos”. Esta austeridade pode integrar a mesma galeria que os míticos direito à pernada e cintos de castidade. Abre-se e fecha-se. Virgindade, ontem, maternidade, hoje, a violência sobre as mulheres repete-se. Que fazer? Continuar a apelar aos nossos brandos costumes? As chagas de Ourique martirizam este País. Às vezes, penso se não somos mais medievais do que os medievais da Idade Média.

Marca: Durex. Título: SOS Condoms. Agência: Buzzman Middle East. Emirados Árabes Unidos, 2013.

Trabalho em férias

Quino 2Cada vez se trabalha mais, cada vez se vale menos. Ainda bem que a lei prevê as férias:

“A finalidade das férias é «possibilitar a recuperação física e psíquica do trabalhador e assegurar-lhe condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação social e cultural», conforme estabelece o n.º 2 do artigo 171.º do RCTFP, o que justifica a imperatividade do respectivo regime, designadamente no que concerne à obrigatoriedade do seu gozo e à fixação da sua duração mínima.” (Despacho n.º 4932-A/2011).

E se as férias fossem trabalhadas? Por que carga de água? Por exemplo, por motivo de avaliação. Férias com urgência avaliativa… Nos últimos tempos, a avaliação avolumou-se mais do que o défice, o choque tecnológico, as indústrias criativas ou o empreendedorismo. A avaliação não é o submarino, a avaliação é o balão do país. Para que serve? Para fins que a gente não vê nem percebe. Talvez dê jeito para transformar um acto de potência em acto de direcção (Jean Baechler, Le pouvoir pur, Paris, Calmann Lévy, 1978) e levar a água, abençoada, ao moinho. Perversidades (Raymond Boudon, Effets Pervers et Ordre Sociale, Paris. P.U.F, 1977).

Quino_NEW[1]

Nasci antes da guerra colonial. Não me lembro de tropeçar em tanta sede de poder e em tanta prepotência como nos últimos anos.

Quando se tem férias trabalhadas, sente-se uma espécie de “déconfiture”, como canta Isabelle Mayereau, desconhecidíssima mas imitadíssima, Chevalier des Arts et des Lettres, pelo Ministério da Cultura francês, em 2010. Une déconfiture, um descalabro… Valha-nos uma Quinoterapia.

Isabelle Mayereau. Déconfiture. Déconfiture. 1979

Déconfiture

Je sens comme une déconfiture
Un bout de gâteau dans le thé
Comme un immense, immense mur
Un chewing-gum trop mâché (x2)

Tu sens comme une drôle d’aventure
Où tu vas te risquer
Comme un bleu trop violent d’azur
Comme un vieux jean usé (x2)

Je sens comme une presque blessure
Comme un nuage dans le thé
Comme une pomme acide pas mûre
Comme un pétard mouillé (x2)

Tu sens comme une éclaboussure
Comme un peu de rhum dans le thé
Comme un vent trop violent qui dure
De l’eau dans le canoë (x2)

Je sens comme une déchirure
Un bout de citron dans le thé
En quelque sorte, une éraflure,
Des bleus presque violets (x2)

Il reste de cette mésaventure
Un peu de sel dans le thé
Des ecchymoses, des courbatures,
Une envie de pleurer (x2)

Paroles et Musique: Isabelle Mayereau   1979

 

Mais humano do que o humano

Há filmes que nos abalam os assentos: Laranja Mecânica, O Tambor, Blade Runner… As máquinas podem humanizar-se? Tenho muitas dúvidas. Os homens podem desumanizar-se? Tenho poucas dúvidas. Pareço um alambique a destilar trabalhos: gota a gota. Este, dedicado ao filme Blade Runner, é uma colheita bem refinada da disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte, do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Para aceder, clicar na imagem ou neste endereço http://comartecultura.wordpress.com/?s=blade+runner.

Espremidela

Ao menos o emprego deste anúncio é no Japão; por cá sofria ainda um corte de 24% no vencimento.

Anunciante: Sanko kogyo : Employment agency. Título Sponge. Agência:  Hakuhodo (tokyo). Japão, 2006