Equidade fiscal. Os filhos da nação

Ai estes são os filhos da nação / Adultos para sempre / Ansiosos por saber / Se a cruz é salvação (Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994).
Surpresa! Os fumadores são os ricos da nação. O imposto sobre o tabaco volta a aumentar. Para bem da equidade. Existe alguma razão específica? Invocar a prevenção avizinha-se de uma fraude. Há décadas que, ano após ano, o imposto sobre o tabaco aumenta e a prevalência do tabaco não desce:
“Entre 2005/06 e 2014, a proporção de fumadores de ambos os sexos diminuiu 1 ponto percentual (…) sendo de 20% em 2014” (Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017).
Aprecio relatórios. São informativos. O Relatório da Direcção-Geral da Saúde é parcimonioso:
“As prevalências de consumo mais elevadas observaram-se no grupo com a escolaridade secundária: mais de um quarto das pessoas com ensino secundário fumava (26,0%)”. Nada a acrescentar sobre os outros grupos de escolaridade… Não existem dados? Nada sobre os níveis de rendimento, tão pouco sobre as categorias socioprofissionais. Mas fica-se a saber que “na população desempregada, mais de um terço fumava (35,9%)”. Assim esclarecido, arrisco conjecturar: a maior prevalência do tabaco incide sobre as classes populares e as categorias sociais mais pobres.

Às vezes, as vias da misericórdia são insondáveis. Desenha-se uma nova teoria da prevenção sanitária: quanto menos dinheiro tiver uma população, mais saudável é. Com esta arte, se trata da saúde dos outros. Convém desfazer o nó do encantamento profilático: o governo precisa deste dinheiro e não tem coragem de taxar outros segmentos da população. Um em cada três desempregados é contemplado por este sapatinho de Natal. Louvado sejas!
O cachimbo e o apagador de velas

O pessoal foi para Flandres. Detesto viajar. Fiquei como guardador de gatos e de sonhos. Tornou-se costume enviarem-me fotografias de obras de arte passíveis de me interessar. Por exemplo, esta pintura do neerlandês Jan Steen (1626-1679). À direita, um adulto coloca o cachimbo na boca de uma criança. Dados ao anacronismo, esta imagem choca-nos. Podemos, naturalmente, corrigir a arte e a realidade. Não era a primeira vez. Talvez, uma palhinha ou uma flauta fossem bons substitutos (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/).
O tabaco, fumado com cachimbo, é um tema recorrente na obra de Jan Steen. Retive cinco quadros (ver galeria). Quem observa estas pinturas fica com a impressão de uma associação do consumo de tabaco à ostentação e ao conforto. Na mesma época, outros artistas pintaram fumadores. Por exemplo, O Fumador (1635-36), de Joos van Craesbeeck, ou Os Fumadores (1637), de Adriaen Brouwer (figuras 6 e 7). Naquela época, fumar nem sempre compensava. Havia cidades, por exemplo, na Áustria e na Alemanha, que proibiam o consumo de tabaco, administrando penas severas (ver Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar: https://tendimag.com/page/6/?s=tabaco).
Imaginemos! Por esse tempo, eclodiu o barroco, o pintor teórico, a pintura de segredo, os efeitos de ilusão e as anamorfoses. Neste contexto, como diria René Magritte, os cachimbos não são cachimbos. Os cachimbos de Jan Steen, Joos van Craesbeeck e Adriaen Brouwer são apagadores de velas. Isso mesmo! Não há nada como imaginar a realidade, para sossegar as almas.
Beber inspiração

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.
John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.
“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!
O rabo do diabo

Vós, que sois os ministros do nosso bem, livrai-nos de todo o mal! Da violência, do sexo, do álcool, do tabaco, da droga, da obesidade, dos maus pensamentos, do chupa-chupa e do sorvete. Um rosário de imagens feridas de prazer nefasto. Uma mesa mais pesada do que a mesa dos sete pecados mortais de Hieronymus Bosch. Quer-me parecer que a árvore do mal mais do que da ciência é do prazer. Deus não condenou Adão e Eva à ignorância mas ao sacrifício. Mais Eva do que Adão. Filhos de Adão, Filhas de Eva é o título de um livro João de Pina Cabral (1989). Somos todos filhos de Eva.
Galeria: Mal-aventurados

01. Sem para-quedas. 
02. Crucificada. 
03. Amor letal. 
04. Fumo infernal. 
05. O bafo do diabo. 
06. Chupa-chupa malévolo. 
07. Lambidela mórbida. 
08. Pela boca… 
09. Ceci n´est pas une drogue 
10. A epidemia da obesidade. 
11. Encarcerada. 
12. De volante em volante.
Pensei acompanhar este rosário de doze imagens com um requiem, funesto, ou com uma valsa, vital: o Lux aeterna (Requiem for a Dream), de Clint Mansell (https://www.youtube.com/watch?v=CZMuDbaXbC8); ou Sylvia, Intermezzo and Slow Waltz, de Leo Delibes (https://www.youtube.com/watch?v=rmOdU0o8Ke8). Como somos todos belas pessoas, escolhi Beautiful People, de Marilyn Manson.
Morrer só uma vez. Humor negro

Pega num cigarro tranquilo. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Qual era a frase de ontem? “Fumar causa o cancro do pelo”? Ou algo parecido. Estava a viciar-se em mensagens anti tabaco. Sentou-se na varanda. Alinhou umas letras. Pousou o cinzeiro e os cigarros sobre o papel. E saltou.
O delegado afastou o cinzeiro e o maço de cigarros. No papel, uma frase singela: “é preferível uma única morte a tantas quantas nos prometem”. O bafo do Estado não engana: “o Homem é um ser para a morte”. Escusava, talvez, ser uma vanitas tão briosa. Existem anúncios anti tabaco que se resumem a espantalhos mórbidos.
A salvação e o vício

Fumar mata, deixar de fumar é uma tortura, não fumar é uma salvação. Um mês sem cigarros e uma pessoa sente-se “mais zen, mais forte, mais livre”. Não há salvação sem sacrifício, sem alteração. O tabaco é a incarnação contemporânea do mal. Desde o fumo até à cinza. A profecia da desgraça é uma profecia da salvação, assente na conversão dos ímpios. Os ex-fumadores lembram os mouriscos, os cristãos novos ou, por exemplo, Madelena, a pecadora bem-aventurada. Assim reza a palavra refastelada no trono da verdade.
Atendendo à vulgata antitabaco, o anúncio #MoiSansTabac, da Santé Publique de France, revela-se interessante. Não promete a morte, mas uma vida melhor. Não mente com a verdade mas empenha-se na partilha da experiência. Tem, sobretudo, a vantagem de alertar os fumadores para a dificuldade de deixar de fumar. Visa o abandono do tabaco, sem incriminar os fumadores. Abre janelas de esperança, onde lavrava a retórica da condenação. Justifica, no entanto, uma reserva: o anúncio envereda pela metáfora do jogo, mas a vida não é um jogo, tem carne e osso. Oxalá esta nova sensibilização pegue! A anterior tornou-se enfadonha e sinistra. Afirmar que os fumadores vão morrer de alguma doença é pouca comunicação para tanto altifalante, tanta verdade decretada.
Entre quatro linhas

“Quanto mais a água é pura, menos peixes tem” (Provérbio chinês)
Aprende-se quando se viaja. O aeroporto do Luxemburgo é magnânimo: permite fumar fora do edifício. Nuns rectangulozinhos chamados smoking areas, situados entre as entradas. Com 6 graus abaixo de zero, as calças pareciam cubos de gelo. Acodem-me dois sentimentos: um de culpa e outro de idiotice. Tanta chaminé bípede a expelir fumo magoa a cidadania: em tempos de aquecimento, os fumadores tanto aquecem os pulmões como o planeta. Mas mais do que fumar tabaco, fumam-se impostos. No tempo do volfrâmio, consta que havia quem acendesse o cigarro com notas de dinheiro. O fumo do tabaco também se desfaz no orçamento do Estado. Aproximo-me da smoking area. Uma jaula sem grades para párias. Fuma-se e defuma-se até à última cinza.

Esta segregação justifica-se: afasta os fumadores das entradas. A segregação sabe-se quando começa, não se sabe onde acaba. Com uma ponta de humor negro, imagino os cemitérios com um recanto destinado aos falecidos fumadores. Protecção tanto na morte como na vida. Em poucas décadas, a intolerância face ao tabaco disparou. A aversão das pessoas não é só mental, é física. O fumo incomoda. Na Europa, uma em cada três pessoas com mais de 15 anos fuma (28%). É muita população sem privilégios sobrecarregada com impostos. Uma nova versão da solidariedade social e da repartição democrática dos rendimentos. O confinamento rectangular do fumador não estranha. Faz parte do imaginário. Na topografia das almas, o único lugar que não tem fumo é o Céu. Não obstante, insisto que a obsessão pela pureza é perigosa. O puro pode ser imundo. Vou ter que deixar de fumar. É uma estupidez que dura uma vida. Não me apetece ser ovelha estrelada numa pastagem de cimento. Let us smoke on the water!
Matar o vício
Existem realidades que escapam ao meu entendimento. Suspendem-me no vazio, com os pés junto às brasas. “Roubam-me Deus / Outros o diabo / Quem cantarei (José Afonso, Epígrafe Para A Arte de Furtar, 1970). Não há vício que resista à campanha Get Rid of Your Old Self, da revista masculina Men’s Health. Quando o outro interior nos mata, de que morte se trata? Do alívio da eutanásia, do desprendimento do suicídio ou da promiscuidade do extermínio? Quem aponta a metralhadora e prime o gatilho? O exército de salvação, o Doutor Mabuse, o superego ou a razão cidadã? É apenas uma campanha simbólica. Nada mais potente, nada mais lamacento, do que o simbólico. Virar o outro contra si mesmo, transformá-lo numa besta a abater, releva de uma tentação humana arcaica. Pois que se armem os puros de espírito, não com uma metralhadora, mas com um espelho! Caçar os vulneráveis é coragem típica dos eunucos e dos cobradores de palavras.
José Afonso. Os Eunucos (No Reino da Etiópia). Traz Outro Amigo Também. 1970.
Men’s Health é a revista masculina com maior audiência na África do Sul. Para comemorar o vigésimo aniversário, promove uma campanha subordinada os lema “Livre-se do seu antigo eu”. Encomendou os vídeos a quatro realizadores. Partindo do mesmo conceito, cada realizador produziu um vídeo com a sua assinatura. Importava reforçar alguns princípios da revista:
“That’s two decades of helping the everyday man be better. Becoming the best version of yourself can be a daunting task. It takes courage.
We wanted to celebrate this milestone and recognise men who, over the years, have risen to the challenge. So we tasked four directors with exploring the idea of getting rid of your old self. The result was the same story told in four different ways and four very different short films” (Men’s Health).
Admito alguma insensata alergia a esta glosa do bem para conversão higienista do mal, do outro. Não tanto pelo princípio, nem pelo meio, nem pelo fim, mas pela respectiva pegada histórica. Uma pegada funesta. Se alguém me pedir para confeccionar uma salada de fanáticos, rego-a com este molho de purga do próximo. Respeito a misericórdia e a piedade, são virtudes veneráveis, apenas me molestam os profetas e os messias da normalização e da rectificação do humano, obstinadamente demasiado humano.
José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz Outro Amigo Também. 1970.
Os quatro anúncios perfilham um conceito claro e a realização mostra-se primorosa. O limbo sobressai como atmosfera. O ritmo oscila entre a imobilidade e a passagem. A narrativa é imprecisa. Num clima claustrofóbico, sufoca-se à espera da luz, do resgate, da libertação do velho eu.
Enquanto escrevia estas linhas, ocorreram-me duas canções do José Afonso, do mesmo álbum (Traz outro amigo também, 1970). intercalo-as no texto, antes dos vídeos.
Enfim, estou constipado. Fico azedo e má companhia. Peço, desde já, desculpa à Men’s Heath por eventuais exageros e mal entendidos. Acontece-me insistir em bater no ceguinho. Se sou contra a ajuda a pessoas com problemas de álcool, obesidade ou tabaco? Se puder ajudar alguém, ajudo; se puder contribuir para uma associação honesta, contribuo; não vou tocar o sino da igreja.
Marca: Men’s Health. Título: Peanuts. Agência: Mullen Lowe. Direcção: SJ Myeza Mhlambi. África do Sul, Maio2018.
Marca: Men’s Health. Título: The Arrival. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Lourens van Rensburg. África do Sul, Maio 2018.
Marca: Men’s Health. Título: The Deser. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Shane Knock. África do Sul, Maio 2018.
Marca: Men’s Health. Título: The Surgeon. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Dirk van Niekerk. África do Sul, Maio 2018.
Três dedos abaixo de cão
Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).
O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.
Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.
Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso. Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.
Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.
Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.
É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.
Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999












