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Consolo tóxico

Na publicidade dos anos sessenta, os cigarros faziam bem à saúde e o fumador era um homem de sucesso. Nos anos oitenta, o fumador é um contrariado compensado pelo tabaco. Nos anos 2 000, o tabaco é um veneno e o fumador, um cadáver em potência. Atendendo à censura vigente, não é curial colocar estes quatro anúncios da marca Hamlet. Mas o eclipse do mal nunca fez bem ao bem. São dezenas os anúncios desta campanha cujo conceito remonta aos anos sessenta e se prolongou até aos anos noventa. Retenho quatro curtas “histórias sem palavras” que evidenciam que o prazer pode não provir da virtude.

Marca: Hamlet. 1966.
Marca: Hamlet. Título: Robots. Reino Unido, anos setenta.
Marca: Hamlet. Título: Football. Reino Unido, 1989.
Marca: Hamlet. Título: La Photo de Famille. Agência: Cdp. Reino Unido, 1990.

Fumo tóxico

Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Gunfight. Agência: Factory01 Co., Ltd. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, Março 2020.

Agarrar o vento

Tenho duas dúzias de reis magos em casa. Dá para poucas escapadelas. Sou perito: deixo-me descair na cadeira e passo por baixo do tapete. Ninguém dá pela minha falta. A invisibilidade é crucial: o protagonismo é fatal às escapadelas. Sem tempo, resolvo escolher um álbum à sorte. Sai o Donovan’s Greatist Hits (1969). Donovan foi um compositor e cantor de sucesso, sobretudo, nos anos sessenta. Pertence à geração Bob Dylan, Velvet Underground e The Doors. Donovan foi amigo de um meu amigo, em Paris.

Um dos reis magos veio de Angola. Fomos fumar, à espera da estrela. Tive uma sensação de estranheza: o Marlboro dele não tinha cenas eventualmente chocantes. Em África, os profetas da desgraça devem ter outras preocupações. Segunda estranheza: o preço de um Marlboro em Angola é 1:20 euros. Em Portugal, ascende a 5 euros! Inspeccionei: a única diferença reside nas imagens eventualmente chocantes. Devem ser muito caras!

Donovan. Catch the wind (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. Season of the Witch (1966). Donovan’s Greatist Hits (1969).
Donovan. The Hurdy Gurdy Man (1968). Donovan’s Greatist Hits (1969).

Equidade fiscal. Os filhos da nação

O cobrador de impostos. Festa da Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado

Ai estes são os filhos da nação / Adultos para sempre / Ansiosos por saber / Se a cruz é salvação (Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994).

Surpresa! Os fumadores são os ricos da nação. O imposto sobre o tabaco volta a aumentar. Para bem da equidade. Existe alguma razão específica? Invocar a prevenção avizinha-se de uma fraude. Há décadas que, ano após ano, o imposto sobre o tabaco aumenta e a prevalência do tabaco não desce:

“Entre 2005/06 e 2014, a proporção de fumadores de ambos os sexos diminuiu 1 ponto percentual (…) sendo de 20% em 2014” (Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017).

Aprecio relatórios. São informativos. O Relatório da Direcção-Geral da Saúde é parcimonioso:

“As prevalências de consumo mais elevadas observaram-se no grupo com a escolaridade secundária: mais de um quarto das pessoas com ensino secundário fumava (26,0%)”. Nada a acrescentar sobre os outros grupos de escolaridade… Não existem dados? Nada sobre os níveis de rendimento, tão pouco sobre as categorias socioprofissionais. Mas fica-se a saber que “na população desempregada, mais de um terço fumava (35,9%)”. Assim esclarecido, arrisco conjecturar: a maior prevalência do tabaco incide sobre as classes populares e as categorias sociais mais pobres.

Adriaen van Ostade. A Peasant in a Red Beret Smoking a Pipe, 1646

Às vezes, as vias da misericórdia são insondáveis. Desenha-se uma nova teoria da prevenção sanitária: quanto menos dinheiro tiver uma população, mais saudável é. Com esta arte, se trata da saúde dos outros. Convém desfazer o nó do encantamento profilático: o governo precisa deste dinheiro e não tem coragem de taxar outros segmentos da população. Um em cada três desempregados é contemplado por este sapatinho de Natal. Louvado sejas!

Quinta do Bill. Filhos da nação. 1994

O cachimbo e o apagador de velas

Jan Steen. The Way you Hear it is the Way you Sing it (As the Old Sing, So Twitter the Young) c. 1665

O pessoal foi para Flandres. Detesto viajar. Fiquei como guardador de gatos e de sonhos. Tornou-se costume enviarem-me fotografias de obras de arte passíveis de me interessar. Por exemplo, esta pintura do neerlandês Jan Steen (1626-1679). À direita, um adulto coloca o cachimbo na boca de uma criança. Dados ao anacronismo, esta imagem choca-nos. Podemos, naturalmente, corrigir a arte e a realidade. Não era a primeira vez. Talvez, uma palhinha ou uma flauta fossem bons substitutos (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/).

O tabaco, fumado com cachimbo, é um tema recorrente na obra de Jan Steen. Retive cinco quadros (ver galeria). Quem observa estas pinturas fica com a impressão de uma associação do consumo de tabaco à ostentação e ao conforto. Na mesma época, outros artistas pintaram fumadores. Por exemplo, O Fumador (1635-36), de Joos van Craesbeeck, ou Os Fumadores (1637), de Adriaen Brouwer (figuras 6 e 7). Naquela época, fumar nem sempre compensava. Havia cidades, por exemplo, na Áustria e na Alemanha, que proibiam o consumo de tabaco, administrando penas severas (ver Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar: https://tendimag.com/page/6/?s=tabaco).

Imaginemos! Por esse tempo, eclodiu o barroco, o pintor teórico, a pintura de segredo, os efeitos de ilusão e as anamorfoses. Neste contexto, como diria René Magritte, os cachimbos não são cachimbos. Os cachimbos de Jan Steen, Joos van Craesbeeck e Adriaen Brouwer são apagadores de velas. Isso mesmo! Não há nada como imaginar a realidade, para sossegar as almas.

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.

O rabo do diabo

Sem para-quedas. De 24 a 28 de Junho as escolas municipais trabalharam com os alunos o tema de Combate ao uso de drogas. Prefeitura Municipal de Campo Magro.

Vós, que sois os ministros do nosso bem, livrai-nos de todo o mal! Da violência, do sexo, do álcool, do tabaco, da droga, da obesidade, dos maus pensamentos, do chupa-chupa e do sorvete. Um rosário de imagens feridas de prazer nefasto. Uma mesa mais pesada do que a mesa dos sete pecados mortais de Hieronymus Bosch. Quer-me parecer que a árvore do mal mais do que da ciência é do prazer. Deus não condenou Adão e Eva à ignorância mas ao sacrifício. Mais Eva do que Adão. Filhos de Adão, Filhas de Eva é o título de um livro João de Pina Cabral (1989). Somos todos filhos de Eva.

Galeria: Mal-aventurados

Pensei acompanhar este rosário de doze imagens com um requiem, funesto, ou com uma valsa, vital: o Lux aeterna (Requiem for a Dream), de Clint Mansell (https://www.youtube.com/watch?v=CZMuDbaXbC8); ou Sylvia, Intermezzo and Slow Waltz, de Leo Delibes (https://www.youtube.com/watch?v=rmOdU0o8Ke8). Como somos todos belas pessoas, escolhi Beautiful People, de Marilyn Manson.

Marilyn Manson. Beautiful People, Antichrist Superstar. 1996.

Morrer só uma vez. Humor negro

Campanha anti tabaco.

Pega num cigarro tranquilo. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Qual era a frase de ontem? “Fumar causa o cancro do pelo”? Ou algo parecido. Estava a viciar-se em mensagens anti tabaco. Sentou-se na varanda. Alinhou umas letras. Pousou o cinzeiro e os cigarros sobre o papel. E saltou.

O delegado afastou o cinzeiro e o maço de cigarros. No papel, uma frase singela: “é preferível uma única morte a tantas quantas nos prometem”. O bafo do Estado não engana: “o Homem é um ser para a morte”. Escusava, talvez, ser uma vanitas tão briosa. Existem anúncios anti tabaco que se resumem a espantalhos mórbidos.

Anunciante: Cnct – comité national contre la tabagisme. Título: Antitabac, The Costo f Living. Agência: Euro RSCG 360. França, Setembro 2011.

A salvação e o vício

Santé Publique France. #MoiSansTabac. 2018

Fumar mata, deixar de fumar é uma tortura, não fumar é uma salvação. Um mês sem cigarros e uma pessoa sente-se “mais zen, mais forte, mais livre”. Não há salvação sem sacrifício, sem alteração. O tabaco é a incarnação contemporânea do mal. Desde o fumo até à cinza. A profecia da desgraça é uma profecia da salvação, assente na conversão dos ímpios. Os ex-fumadores lembram os mouriscos, os cristãos novos ou, por exemplo, Madelena, a pecadora bem-aventurada. Assim reza a palavra refastelada no trono da verdade.

Atendendo à vulgata antitabaco, o anúncio #MoiSansTabac, da Santé Publique de France, revela-se interessante. Não promete a morte, mas uma vida melhor. Não mente com a verdade mas empenha-se na partilha da experiência. Tem, sobretudo, a vantagem de alertar os fumadores para a dificuldade de deixar de fumar. Visa o abandono do tabaco, sem incriminar os fumadores. Abre janelas de esperança, onde lavrava a retórica da condenação. Justifica, no entanto, uma reserva: o anúncio envereda pela metáfora do jogo, mas a vida não é um jogo, tem carne e osso. Oxalá esta nova sensibilização pegue! A anterior tornou-se enfadonha e sinistra. Afirmar que os fumadores vão morrer de alguma doença é pouca comunicação para tanto altifalante, tanta verdade decretada.

Anunciante: Santé Publique France. Título: #MoiSansTabac. França, Outubro 2018.

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal