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Sociologia sem palavras 12. Artes do poder

le roi et loiseau_01Sabe bem jejuar das superproduções globais. O Rei e o Pássaro é um magnífico filme de animação, de Paul Grimault, inspirado no conto A Pastora e o Limpa-chaminés, de Hans Christian Anderson. O texto, de Jacques Prévert, e a música, de Wojciech Kilar, são ambos excelentes. Vários realizadores japoneses se confessam influenciados por este filme. Iniciado nos anos cinquenta, este filme surrealista só foi concluído nos anos setenta. Este excerto contempla um inventário dos órgãos do Estado e o ritual do retrato do rei.

Sociologia sem palavras 12. Artes do poder. Excerto de Le Roi et l’Oiseau, de Paul Grimault. 1980

O exibicionismo da galinha dos ovos de ouro

J. J. Caffieri. Rameau. 1760

J. J. Caffieri. Rameau. 1760

Ainda existem galinhas dos ovos de ouro em França, a Gália! Na minha terra, as galinhas dos ovos de ouro extinguiram-se há séculos. Ficaram, em contrapartida, muitos galos. Somos o país dos galos. Os italianos até nos chamam Portogallo. Os galos cantam mas não põem ovos. Também galam as galinhas e papam milho. As galinhas, para além dos ovos, criam os pintainhos e esgaravatam o chão. Têm uma vida rasteira. Um destes dias, a ciência de excelência ainda vai inventar galos “poedeiros” e galinhas voadoras. A composição La Poule (Pièces de Clavecin, 1724), de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), ilustra o interminável esgaravatar picotado das galinhas. Em suma, dois anúncios surrealistas e uma música barroca tardia. Intersectam-se.

Marca: La Française de Jeux. Título: Bus Shelter. Agência: BEPC Paris. Direcção: José António Prat. França, Abril 2014.

Marca: La Française de Jeux. Título: Street. Agência: BEPC Paris. Direcção: José António Prat. França, Abril 2014.

Jean-Philippe Rameau. La Poule. Pièces de Clavecin. 1724. Interpretação: Grigory Sokolov.

 

Não olhe para trás

Burn Não Olhe Pra Trás

Mágico, surrealista, psicadélico, illuminati, oculto? Um anúncio brasileiro para a Burn (Coca-Cola).

Marca: Burn. Título: Não olhe pra trás. Agência: MatosGrey Brasil. Direção: Carlão Busato. Brasil, Fevereiro 2014.

A Ceia dos Pobres (eventualmente chocante)

The notorious Last Supper sequence in Luis Buñuel's VIRIDIANA.  

Os símbolos mais sagrados, como a hóstia, não estão ao abrigo do rebaixamento grotesco. Antes pelo contrário (http://tendimag.com/2013/06/26/sacrilicioso/). Memória puxa memória, e eis que se insinua a paródia da última ceia no filme Viridiana (1961), de Luis Buñuel. Vi Viridiana, filme de culto, palma de ouro em Cannes, há mais de trinta anos. A sequência ainda hoje impressiona.

Na ausência dos patrões, um grupo de pobres apropria-se, por um tempo, da casa senhorial. A visita descamba em orgia coletiva. A transgressão culmina no episódio em que a ceia decalca o quadro de Leonardo da Vinci. Trata-se de um cúmulo do grotesco: o tópico mais elevado da religião cristã, a Eucaristia, é, a pretexto de um simulacro de fotografia, associado ao tópico simbolicamente mais baixo do corpo humano, os órgãos genitais femininos. Este tipo de grotesco, sinistro e dissolvente, lembra a fase negra de Goya e, naturalmente, o filme surrealista Le Chien Andalou (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali.

Junto um excerto do filme Viridiana, suscetível de perturbar os espíritos mais sensíveis e mais devotos. Acrescento o filme Le Chien Andalou, porventura ainda mais desconcertante e mais violento. O filme Viridiana, nome de santa do século XIII, foi censurado pelo papa João XXIII, por blasfémia e indecência, e proibido em Espanha até 1977, dois anos após a morte de Franco.

Luis Buñuel. Viridiana. Episódio da ceia. Espanha, 1961.

Luis Buñuel e Salvador Dali. Le Chien Andalou. França, 1928.

Anúncios de outro mundo

Pelephone. Train.

Saiu, há semanas, um novo anúncio da Pelephone, uma empresa de telecomunicações israelita. Já publicámos alguns anúncios desta marca (http://tendimag.com/?s=pelephone). Este Speed Makes all Difference inscreve-se no mesmo estilo criativo: surrealismo, contos de encantar e, sobretudo, sonho. Aproveita-se o ensejo para recordar um anúncio mais antigo (2011) mas que tem pixéis de arte quanto baste: Train.

Marca: Pelephone. Título: Speed  Makes all Difference. Agência:  Mulla Productions Adler Chomski & Warshavsky Grey. Direção: Eli Sverdlov. Israel, Março 2012.

Marca: Perlephone. Título: Train. Agência: Adler Chomski Group/ Grey Israel. Direção: : Eli Sverdlov. Israel, 2011 (?)

Caminhos

Este blogue esforça-se por albergar anúncios de todo o mundo. Neste momento, dedica alguma atenção aos chamados “países de leste” onde, como em toda a parte, se faz boa publicidade. Os “intelectuais” teimam em não gostar da publicidade porque esta é um isco e uma alienação. É um reflexo condicionado, contra o qual é difícil argumentar. Os “intelectuais” criticam… e a publicidade passa.

Marca: O2. Título: New Paths. Agência: VCCP Prague. Direção: Lance Acord. República Checa, 2011.

Braccelli. À maneira surrealista

Giovanni Battista Braccelli publicou, em 1624, o livro Bizzarie di varie figure composto por cinquenta gravuras. Alguns dos seus desenhos lembram a obra pioneira de Arcimboldo. Veja-se, por exemplo, os desenhos das páginas 4, 5 e 39. Mas não é a ligação ao passado que distingue Braccelli. É, antes, a sua projeção no futuro. Muitos consideram Braccelli uma espécie de surrealista avant la lettre. Não o foi, evidentemente: não se pertence a um movimento antes de este ser criado. Foi, outrossim, um expoente do maneirismo. É, porém, verdade que as suas gravuras lembram artistas do século XX. Por exemplo, Fernand Léger, Giorgio de Chirico, Georg Grosz ou Maurits C. Escher. Ao seu jeito, Salvador Dali também marcou presença. Segue uma selecção de gravuras do livro de Braccelli, acompanhada por alguns quadros de pintores do séc. XX.

Reis Sábios

O que importa é a visibilidade. Criar não basta. Não fazer coisa que dê nas vistas é fazer coisa nenhuma. É perda de tempo, puro desperdício. Até na ciência, a obra vale pela notoriedade e não pela qualidade. A recepção sobrepõe-se à produção. Mais apostados na disseminação do que na inseminação, borboleteamos a cheirar flores sem folhas. O que não aparece não é, e o que parece é. Tamanho discernimento ofusca-nos e ensina-nos que melhor do que pensar é ter conhecimentos. A propósito de relações e conhecimentos, os Reis Magos também se limitaram a aparecer, com a sua estrela e os seus presentes. E têm mais notoriedade do que Santo Antão, Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. Boas Festas!

René Magritte. The Red Model. 1934