Tecnofilia surrealista
Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!
Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!
Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.
Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!
Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.
A tentação surrealista: António Pedro
Para variar, já fez sol em Moledo do Minho. Nada como um cigarro! Em frente, do outro lado da rua, a casa de António Pedro. Nascido em 1909, “o gigante esquecido” (Vasco Rosa, Jornal Observador, 17 de Agosto de 2016) é uma figura incontornável da arte portuguesa do século XX. De muitos modos e feitios. Foi pintor, escultor, escritor, poeta, dramaturgo, encenador, jornalista, radialista, galerista… Passou a infância em Moledo do Minho, estudou na Galiza, em Coimbra e em Lisboa. Entre 1934 e 1935, viveu em Paris, tendo frequentado o Instituto de Arte e Tecnologia da Universidade da Sorbonne. Junto com 25 artistas dos movimentos surrealista e Dada, entre os quais Joan Miró, Hans Harp, Sonia Delauney, Marcel Duchamp, Wassily Kandisnky e Francis Picabia, assinou, em 1936, o Manifeste Dimensioniste (carregar para aceder ao pdf). Em 1941, expõe a sua obra no Brasil. Entre 1944 e 1945, foi cronista e crítico de arte na BBC, em Londres.

02. António Pedro, Refoulement, 1936.
Em 1933, cria a Galeria UP, a primeira a acolher em Portugal uma exposição de Helena Vieira da Silva (1935). Em 1940, participa, com dezasseis pinturas, na realização da primeira exposição surrealista em Portugal, na Casa Repe em Lisboa. Em 1947, integra o Grupo Surrealista de Lisboa.

04. António Pedro. O anjo da guarda. 1939.
Homem de teatro, foi director do Teatro Apolo, em Lisboa. Foi fundador e director, entre 1953 e 1962, do Teatro Experimental do Porto. Entre vários textos dramáticos, escreveu a Comédie en un acte. Viveu os últimos anos em Moledo do Minho onde faleceu no dia 17 de Agosto de 1966. Para uma apresentação mais detalhada e circunstanciada, sugiro o artigo “António Pedro Pintor”, de José-Augusto França, publicado na revista Portuguese Cultural Studies 5, Spring 2013 , bem como o vídeo António Pedro Presente! I apresentado, também, por José-Augusto França e publicado pela Companhia de Dança de Lisboa (ver vídeo 1).

05. António Pedro. Ilha do Cão. 1940. Ver vídeo 2.
Pesquisar imagens da arte portuguesa manifesta-se, muitas vezes, frustrante. Poucas estão acessíveis na Internet e com fraca resolução. Às vezes, só com a ajuda de uma lupa. Não sei se é por causa dos direitos, se é por causa dos tortos. Aposto nos tortos, mais precisamente, na aristocracia dos direitos e na irresponsabilidade dos tortos. No que respeita à obra de António Pedro, fiz o que pude, nem sempre bem. Vale a dezena de vídeos publicados pela Companhia de Dança de Lisboa.
Está fresco em Moledo. Apago o cigarro. António Pedro fumava. As andorinhas continuam a voar em bando à volta da sua casa.
António Pedro: Galeria de Imagens
Vídeo 1. ANTÓNIO PEDRO – 1909 / 1966 – Presente! ( I ). Companhia de Dança de Lisboa.
Vídeo 2. António Pedro – Óleos sobre tela, 1936 / 1946. Companhia de Dança de Lisboa.
Vídeo 3. António Pedro – Óleos sobre Tela – 1944, 1939 e 1936. Companhia de Dança de Lisboa.
Vídeo 4. “Tríptico solto de Moledo” 1943 – António Pedro. Companhia de Dança de Lisboa.
Vídeo 5. ” Paz Inquieta “- 1940 – António Pedro. Companhia de Dança de Lisboa.
Surreal: o homem piano
Encontrei no sapatinho das maravilhas este anúncio do Banff Center for Arts and Creativity, do Canadá. Estranho e delirante, vibra nos meus sentidos com uma invulgar ternura surreal. Discute-se nas redes sociais se é ou não arte. Afirma-se mais original, criativo e impactante do que muita arte que tive o privilégio de observar. Mas, se é ou não arte, que o ponderem os juízes da estética. Lembra-me arte. Arte da melhor! Por exemplo, Hieronymus Bosch (ver https://tendimag.com/2016/12/19/hieronymus-bosch-death-metal/) ou François Desprez (ver https://tendimag.com/2012/04/21/criaturas-pantagruelicas-1/).
A lembrança é amiga da vadiagem do espírito. Lembrei-me dos Ban (Irreal Social, Surrealizar, 1988). Conquistaram um apreciável sucesso nacional no final dos anos oitenta. É um grupo com música identificável. Uma das qualidades para ser digno de memória. No Tendências do Imaginário, os visitantes portugueses estão em minoria. Não admira. O blogue fala do mundo em língua portuguesa. Podia falar de Portugal, ou do mundo, em língua estrangeira. Sempre seria mais friendly! Seja como for, Portugal, embora nem sempre pareça, faz parte do mundo. Venham os Ban! Pim-Pam-Pum!
Marca: Banff Center. Título: Things you can’t unthink. Agência: Cossette Toronto. Direcção: Rodrigo García Saiz. Canadá, Abril 2017.
Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias. Instrumentos musicais.




Hieronymus Bosch. Jardim das delícias. Inferno. Detalhes. 1503-1504.
François Desprez. Songes Drolatiques. Homens instrumentos musicais.



François Desprez. Songes Drolatiques. 1565.
Ban, Irreal Social, Surrealizar, 1988.
Grandville: Disfarces e Metamorfoses
Jean-Jacques Grandville (1803-1847) é um ilustrador e caricaturista francês da primeira metade do século XIX. Adquiriu fama com as suas metamorfoses envolvendo homens, animais, vegetais e objectos.
Conhecido como o “avô do surrealismo”, Grandvielle convoca o maneirismo, nomeadamente Giovanni Battista Braccelli e Lorenz Stoer (ver figuras 07 e 12). Algumas gravuras antecipam M.C. Escher (ver figuras 1, 7, 8, 9 e 19). Os Queen recorreram aos desenhos de Grandville para as capas do álbum Innuendo (1991) e respectivos singles (figuras 11 a 14.1).
Exceptuando as figuras 1 e 10, ambas de 1847, todas as imagens deste artigo foram extraídas directamente do livro Un Autre Monde, publicado em 1844. Grandville ilustrou vários livros, tais como as Fábulas, de La Fontaine, o Don Quixote, de Cervantes, as Viagens de Gulliver, de Swift, ou Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.
Segue a música Innuendo, dos Queen (1991) e uma galeria com imagens de Grandville e do álbum Innuendo, dos Queen.
Galeria de imagens: J.J. Grandville e Innuendo dos Queen.
A Besta Humana
“Mais les bêtes sauvages restent des bêtes sauvages, et on aura beau inventer des mécaniques meilleures encore, il y aura quand même des bêtes sauvages dessous” (Emile Zola, La Bête Humaine, 1980).
A PeTA (People for Ethical Treatment of Animals) não é nada meiga com quem moleste os animais. Em termos de publicidade de consciencialização, as suas campanhas destacam-se como o protótipo da contundência. Introduzindo a voz de Sia, este vídeo retoma o anúncio de 2013 (Runway Reversal: http://tendimag.com/2013/02/13/humor-negro-e-humor-colorido/), mantendo o procedimento de inversão de papéis entre humanos e animais: por uma vez, é o corpo humano que veste os animais. A estilização é tão fantástica e surrealista, para não dizer maneirista, que temo que alguma informação se perca por entre ruídos e efeitos.
Carregar na imagem par aceder ao anúncio.
Anunciante: PeTA. Título: Sia Wants to “Free the Animal. Agência: Ogilvy & Mather China. Direcção: Rain Yu. China, Novembro 2015.
Almas danadas
Volta e meia, cruzo-me com autores maneiristas, de Agnolo Bronzino (1503-1572) a Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), passando por Francisco de Holanda (1517-1585) e Wenzel Jamnitzer (1507-1585).Calhou a vez a Marten de Vos (1532-1603), pintor de Antuérpia.
O inferno do Juízo Final (1570), de Marten de Vos, é impressionante: fogo, demónios e condenados formam uma corrente rumo à boca do inferno. Os corpos, com os seus movimentos, contorcem-se como labaredas. Trata-se de um fluxo onde não há parte sem todo. Este dinamismo lembra a queda no abismo, no inferno do Juízo Final (1467) de Hans Memling. (1430-1494).
Reencontramos as figuras fantásticas, demoníacas e grotescas na Tentação de Santo Antão (1591-1594), que lembra, por sua vez, a Tentação de Santo Antão, quer de Hieronymus Bosch (1502), quer de Mathias Grunewald (1512-1516). Todos juntos lembram o surrealismo.
Para terminar, uma nota curiosa: o “dinossauro” pintado, antes da data, na parte inferior direita da Tentação de Santo Antão, de Marten de Vos. E Pronto! Quando a vista se regala, a língua cala.
A esfinge digital
“MTV – now on your television, on your phone, on your computer, even on the chip in your brain. MTV is the marriage of the biological and the digital, a perfect combination of soundwaves, particles and lust. It is mooniest compressed into a signal for terrestrial and extra terrestrial consumption. A machine is exact. An animal is flexible. MTV is not one or the other. It is both and it makes me want to dance. You are a series of electrical impulses in a meat sack. MTV is a series of letters that used to stand for words. In the future, we don’t use the word ‘future,’ and MTV isn’t not the future. Because knows what gravity is but everyone knows that dancing is fun…”
Estreado durante o evento 2015 MTV Video Music Awards, “Tagline Here” é um meta-anúncio surrealista, que tacteia sem encontrar. Trata-se de uma montagem que alinha, sem sentido nem razão, 35 excertos de filmes. As sequências desenrolam-se sem se cruzar. Não há consolidação. A esboçar-se alguma identidade, ela será flexível e transitória, como uma esfinge híbrida que dança, sem se cansar, por entre espaços e tempos, ondas, audiências, mapas e calendários.
Marca: MTV. Título: Tagline Here. Agência: Ghost Robot. Direcção: Benjamin Dickinson. USA, setembro 2015.
Mais real do que o real
“Je me sers des animaux pour instruire les hommes” (Jean de La Fontaine).
A Teresa, antiga colega na Universidade, decidiu prosseguir carreira no México. Agradeço-lhe o vídeo dos anúncios Bel été, de Nicolas Deveaux para a France 3.
Nicolas Deveaux é um jovem talentuoso, graduado, em 2003, pela Escola Superior de Infografia “Supinfocom”. Iniciou no mesmo ano a sua carreira de realizador. Tornou-se reputado pelas curtas-metragens e pelos anúncios surrealistas com animais “mais reais do que o real”. Palpita-me que Salvador Dali não se importaria de assinar alguns destes trabalhos. Permito-me seleccionar alguns vídeos:
– Uma série de sequências curtas com animais para a France 3: Bel été (desde 2003);
– “7 tonnes 2”, uma curta metragem com um elefante num trampolim (2004);
– “5m80”, um anúncio espectacular, para a Orange (2013), com girafas que mergulham, acrobaticamente, numa piscina (ver http://tendimag.com/2013/05/22/girafas-na-piscina/);
– O anúncio, Wintertale, para a Cartier (2014).
Marca: France 3. Produção: Cube Créative. Direcção: Nicolas Deveaux. Desde 2003.
“7 tonnes 2”. Produção: Cube Créative, Direcção: Nicolas Deveaux. 2004.
Marca: Cartier. Título: Winter Tale 2014, Direcção: Nicolas Deveaux. 2014.
Pneus surrealistas
Acabar a avaliação justifica uma celebração. O Joel, aluno de Sociologia da Arte, da licenciatura em música, analisou o anúncio Tested for the Unexpected I (Dunlop, 1993) do realizador Tony Kaye, que dirigiu vários filmes, documentários e vídeos musicais (e.g., Red Hot Chili Peppers, Roger Waters, Johnny Cash). De anúncio para anúncio, vem à memória o Tested for the Unexpected II, para a mesma marca (1993). O primeiro, com música dos Velvet Underground (Venus in Furs), o segundo com música dos Doors (The End). Estes anúncios são insólitos, com uma invejável desenvoltura grotesca. Metamorfoses, figuras estranhas, contornos indefinidos, deformações, movimentos bruscos… Convocam o surrealismo, a pop art, o psicadelismo e outros movimentos artísticos. Este género de anúncio marcou os anos noventa. Atente-se nos anúncios Diablo, do Renault Clio (1998) e Ghosts (1997) e Vampires (1997), da Citroen: http://tendimag.com/2013/01/08/nos-limites/. Gosto de anúncios assim, sulfurosos. Je suis comme je suis, je plais à qui je plaît (Jacques Prévert).
Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected I. Agência: AMV. Direcção: Tony Kaye. UK, 1993.
Marca: Dunlop. Título: Tested for the Unexpected II. Agência: AMV BBDO. Direcção: Jason Harrington. USA, 1993.



















