Envolvimento e ternura
O mesmo e o outro. Sujeitos e homjetos

De vez em quando, acontece-me inventar palavras. Na maioria dos casos, já alguém o tinha feito. Por exemplo, “ninguenização”, palavra freia já cunhada no Brasil. Homjeto não significa nada. Nem sequer virando o dicionário do avesso. Mas não dizendo nada, diz o que parece: um misto de homem e coisa. Com a devida sonoridade. Que conste, não existe na internet. Por enquanto, a aberração é minha. Para quê homjeto quando já se diz homem objeto? Porque a expressão “homem objeto” continua a cavar uma dicotomia e a dar primazia ao homem. Não interessa! Seja como for, andamos rodeados, pelo menos desde a Idade Média, de homjetos. (Homjetos, 23.09.2012)
Os pais são reis magos

Há quem prefira a pirueta à espargata. Se recuarmos a 2009, encontramos um caso exemplar: o anúncio de Natal “Los padres no existen”, eventualmente de autopromoção da agência de publicidade Remo, inverte surpreendentemente a narrativa tradicional da descoberta pela criança de que o Pai Natal ou os Reis Magos são os pais.
Nova arte pós-moderna

A bricolagem caseira improvisada pode estar na origem de uma nova forma, imprevisível e efémera, de arte pós-moderna, eventualmente herdeira de um cruzamento de Magritte com Escher.
A criatividade não costuma ser um ato isolado. Quando deparo com algo que me surpreende, disponho-me a procurar mais, a desfiar o novelo. No que respeita à publicidade, sigo normalmente três fios: a marca, a agência e o diretor. Desta vez, começo a busca pelo próprio Tendências do Imaginário. Conta 4 314 artigos (posts) que contemplam muitas centenas de anúncios, por acréscimo filtrados pelo meu radar e pelo meu sistema de relevâncias. Convenha-se que este blogue, ativo desde 2011, se tornou um arquivo apreciável.
Descobri cinco anúncios criados pela agência Fahrenheit DDB Lima, entre os quais este Postmodern Homelistic Art. Três para marca Promart. Em suma, graças a uma memória preguiçosa, constato que não me surpreende apenas o novo mas também o repetido, aliás já retido.
Os demais quatro anúncios, apostados na ironia e na provocação, manifestam-se primorosamente concebidos e apresentados. Recomendo a visualização. Segue a indicação do título, da marca, do ano e do artigo/link em que está acessível.
- Peruvian Dream. Living in Peru. 2011. Inversão
- The Perfect Daughter. Promart. 2014. Iluminar o som
- Long Way. Promart Homecenter Teletón. 2017. Tragédia quotidiana
- The Antipink Pint. Barbarian. 2017. A cerveja, o copo e o macho
Loura e pura
A cerveja, como o tabaco, pode ser um vício de estimação. Uma loura, o outro moreno. Surpreendentemente, ambos podem ser “puros”. Se não é alérgico ao prazer, à beleza, à fantasia e ao disparate, convido-o a saborear estes três anúncios da marca Pure Blonde. Divirta-se! Hoje, domingo, é dia de oração mas também de recreação.
Desfazer-se em palavras

A falar é que a gente entende. Assiste-se a uma viragem na publicidade, menos apostada em imagens do nunca antes visto e mais em conversas triviais do quotidiano. Privilegia-se a interação vulgar e a tagarelice, nomeadamente a chamada “conversa da treta”. O que se passa? Redescobre-se a importância da convivialidade? Ou, confrontados com tamanha erupção de imprevistos indesejados, ficámos subitamente alérgicos a surpresas, preferindo a ba(da)lada do banal eventualmente insignificante?
Plenitude afetiva

A relação entre pai e filha nem sempre é fácil, mas pode propiciar, com a ajuda da tecnologia HP, momentos inesperados de satisfação e plenitude afetivas. Um pouco à margem no anúncio Little Moments, da HP, resulta surpreendente a figura da “mãe”, quase reduzida ao papel, decisivo mas discreto, de fotógrafa.
Fantasma ao volante
Com o dia dos mortos à porta, assombram-nos visões e medos. Como é costume, a publicidade antecipa-se: expandem-se os anúncios macabros. Para a Toyota, os espíritos querem-se ao volante.




