Uma formiga com uma dúzia de ovos numa ponte silenciosa


No dia 15 de dezembro, entre as 21 e as 23 horas, o Tendências do Imaginário “bateu um recorde”: o artigo Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia“ obteve 1 033 visualizações (correspondentes a mais de 500 visitantes) provenientes dos Estados Unidos, mormente nas cidades de Portland (931 visualizações) e Ashburn (45). Precise-se que, de um modo geral, dois terços (67,4%) das visualizações do blogue têm origem fora de Portugal. Algo como vibrações cosmopolitas pelas tímidas antenas de uma formiguinha eremita perdida na imensa selva digital.
Para assinalar o momento, um anúncio com “doze ovos”, realizado pelo criativo Michel Gondry para o iPhone 13 Pro, da Apple, e um vídeo musical com “o som do silêncio” e uma “ponte sobre água turbulenta” dos inesquecíveis Simon & Garfunkel (ao vivo, naturalmente).
Falácias da Perceção

Apesar de vacinado, vim engripado do Serões dos medos. Deve ter sido um sortilégio. Por falar nos Serões dos medos, nas edições anteriores abordámos os diferentes tipos de alucinação. Mas coloca-se a questão da fidelidade da perceção mesmo quando não existe alucinação. Registamos a realidade tal como existe ou construída por nós?
Os próprios órgãos dos sentidos não são de fiar. Basta ensaiar a velha experiência de colocar uma esfera entre o dedo maior e o indicador cruzados. De olhos fechados, sentimos duas esferas em vez de uma. Acresce que o próprio desempenho dos nossos sentidos está condicionado. Atualmente, com a vista minimamente cansada e o olhar relaxado, vejo dois objetos em vez de um.

Além das perturbações inerentes aos sentidos, a nossa perceção de realidade depende tanto das pressuposições como das sugestões. Para o ilustrar, retomo, adaptando, um exemplo partilhado por Edgar Morin [tem103 anos] no livro Pour sortir du XX siècle (1981). Tal como ele, recorro à primeira pessoa.
René Magritte. The Blank Sgnature. 1965
Caminhava absorto nos meus pensamentos quando um acidente me chama bruscamente a atenção. Em frente, no cruzamento, um mercedes, que não respeitou o sinal vermelho, bateu contra um citroën “dois cavalos”. Aproximei-me disposto a prestar testemunho.
O que vi e como?
Da infinidade de informações que os meus sentidos captavam, concentrei-me apenas numa pequena parte, no acidente. Procedi, portanto, a uma abstração.
Provavelmente, não assisti ao choque propriamente dito, observei o resultado, uma vez que foquei a cena apenas após ouvir o estrondo. Ver o mercedes a não respeitar o sinal vermelho e a bater no dois cavalos resulta de uma reconstituição, de uma construção imediata e automática. Trata-se de uma sugestão que me leva a “ver” o que, de fato, não vi.
Com que olhar? O caraterístico do homem contemporâneo que tende a atribuir às coisas propriedades exclusivas do ser humano (reificação). O mercedes não desrespeitou o sinal vermelho, quem o fez foi, quando muito, o condutor.
De qualquer jeito, estava convencido que vi o mercedes a bater no dois cavalos. Ao aproximar-me, a “prova dos fatos” corrigiu-me: a frente do dois cavalos que bateu no lado do mercedes! Foi, portanto, o dois cavalos que embateu no mercedes.
Restava uma “certeza”: foi o condutor do mercedes quem desrespeitou o sinal vermelho. Pois não! O condutor do dois cavalos assumiu a culpa.
Afinal, o que sucedeu?
Não vi realmente o choque e ainda menos os momentos que o precederam. Alertado pelo estrondo, vi o resultado. A partir deste, reconstrui o resto. Quase tudo o que “vi” foi por inferência, por sugestão. Mas foi “isso” mesmo que “vi”. Para mim, uma realidade mais real do que o real.
Por que é que registei o acontecimento desse modo, nesses termos? Porque, sugestionado, o construí em conformidade com as minhas predisposições, com os meus valores e esquemas mentais. Assevera-se lógico, natural, ser o grande e forte a bater no pequeno e fraco. Raciocínio similar se aplica à questão da responsabilidade, da culpa. Trata-se de uma espécie de arquétipo que rege a minha “presciência” e (pre)visão do mundo. O que eu vejo com os meus esquemas mentais, além de se tornar mais real do que o próprio real, faz mais sentido! Ao mesmo tempo que percecionamos, atribuímos sentido, sentido que resiste à dissonância com os nossos valores e esquemas mentais.
Como testemunha num tribunal teria feito triste figura. Muitos romances policiais, como, por exemplo, do Erle Stanley Gardner, cujo protagonista é advogado, incluem episódios em que os testemunhos decisivos acabam desmontados de fio a pavio.
Amor em tempo de feira

“Scarborough Fair” é uma balada britânica de origem medieval em que uma pessoa pede à pessoa amada proezas impossíveis. Um tema recorrente no universo dos contos. Scarborough é uma cidade que tinha, na Idade Média, uma das feiras mais importantes de Inglaterra. Segue a balada em duas versões: instrumental clássica, interpretada por Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra); e canção pop, interpretada por Simon e Garfunkel. Pode encontrar a letra e a tradução da balada neste endereço: https://pt.wikipedia.org/wiki/Scarborough_Fair .
