Tag Archive | Sérgio Godinho

Coros políticos

A demagogia é para as democracias o que o anzol é para os peixes (AG)

A política é coisa séria: afeta a vida das pessoas. Não é mera verborreia. Nunca pensei vir a escrever esta banalidade, mas a fruta da época não para de ganhar bicho e começa a cheirar a podridão. A ética da responsabilidade sucumbe a uma profusão de “cantares ao desafio” com refrões falaciosos. Ecoam na comunicação social, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia. E o povo parece disposto a dançar!

Sérgio Godinho – Lá isso é. Pano-Cru, 1978

A roda da vida

“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).

O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.

Jorge Palma, Sérgio Godinho – O Primeiro Dia. Juntos, 2015. (Sérgio Godinho, Pano-Cru, 1978). Ao vivo no Theatro Circo Braga, 2015.
Manuel Freire – Pedro Só. Canção do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa, 1972
Carlos do Carmo – Canção da Vida.  E ainda… – Obrigado! (Ao vivo), 2021
Caetano Veloso – O Homem Velho. Velô. 1984. Music video 2012
José Afonso – Minha Mãe. Baladas e Canções, 1964
Jorge Palma – A gente vai continuar. Só, 1991. Ao vivo na Quinta de Valbom, EA LIVE Évora, 2018

Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).

Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos

Francisco Fanhais – Cantilena. EP, 1969
José Afonso – Os eunucos. Traz Outro Amigo Também. 1970
Sérgio Godinho – Que força é essa?. Os Sobreviventes. 1972. Ao vivo: espetáculo “Três cantos”, com José Mário Branco e Fausto, Lisboa e Porto, 2009
Manuel Freire – Pequenos deuses caseiros. EP. 1973

Fios de aranha e voos de borboleta

Por Mohanad Shuraideh

Que força é essa? Que força é essa?
Que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer?
Que só te manda obedecer?
(Sérgio Godinho, Que Força É Essa. Os Sobreviventes, 1972).

Pouco ou muito coloridas, as nossas sociedades toleram cada vez menos o voo das borboletas. Imprevisível, importa discipliná-lo, dar-lhe moldura geométrica, à semelhança, por exemplo, do alinhamento das formigas ou da formação dos gansos.

Na justiça, palaciana ou popular, a presunção de inocência conheceu melhores dias. A corrente incontinência de regras, procedimentos e controlos parece assentar no primado do mal e na bênção exorcista. Para prevenir qualquer hipótese de falhas ou desvios, as leis e os procedimentos desconfiam de tudo e de todos. Tentam acautelar, em particular, os “efeitos borboleta”, os pequenos nadas aleatórios suscetíveis de subverter a arquitetura impecável do conjunto, porventura uma gaiola dourada.

As regras e as normas visam menos a orientação ou a coordenação e mais a restrição e a filtragem. Multiplicam-se e complicam-se os postigos e as chaves. Não obstante, com tamanha urdidura, profilaxia e purga, há cada vez menos notícia de pessoas, gestos e obras decentes. Sem um mínimo de confiança, as relações humanas resultam perversas e penosas. Enquistam, definham e degradam-se.

Entretanto, as borboletas continuam a voar como se não existissem teias de aranha.

Willie Nelson. Butterfly. God’s Problem Child. 2017
Bénabar. L’effet papillon. Infréquentable. 2008
Sérgio Godinho. Que Força É Essa? Os Sobrevivente, 1972

Notável e notório. A formiga e a cigarra, o galo e a galinha

Moledo, domingo. Proporciona-se um mergulho no adubo humano.

Notável é aquilo que é “digno de nota”, “merecedor de consideração e apreço”; notório, o que é notado, “conhecido por um grande número de pessoas”. Pode-se ser notável sem ser notório; e notório, mas não notável. Numa sociedade da imagem, da rede e do artifício, prevalece o notório. Chegados a esta encruzilhada, apetece reequacionar a fábula de La Fontaine: hoje, quem morre de fome não é a cigarra, notória, mas a, a formiga, notável. A cigarra polariza o reconhecimento. Sendo esta a verdade mundana, importa refundar as pragmáticas, as éticas e as teodiceias.

A propósito da cigarra e da formiga, acode-me a relação entre o galo e a galinha, cantada, com inspiração e humor, por Sérgio Godinho.

Sérgio Godinho. O Galo é o Dono dos Ovos. Pano-Cru. 1978. Ao vivo no Centro Cultural de Belém.

Publiquei, em 2011, uma fábula no ComUm, boletim da Universidade do Minho, com o título “Fábula comUM” (contemplada no Tendências do Imaginário com o título “Fábula das formigas sabichonas”). A Universidade tinha a virtude da homeopatia: sabia digerir o “mal”, a adversidade, expondo-se à crítica mordaz e sarcástica. É certo que as farpas se afogavam na gordura académica. Destilada e delirante, a escrita enferma de um vício que não me larga: discorrer sem explicitar o assunto. O leitor que adivinhe e o resto reverbere. O “segredo” remetia para a implementação da política dos rácios alunos/docentes consoante os cursos, depressa extrapolada, abusivamente, para os departamentos. Um veneno que as universidades, em particular a do Minho, devoraram. Este desvio de uma fórmula de financiamento para uma forma de governo desvirtuou o mundo académico, resultando numa legitimação e num reforço dos interesses e privilégios instalados ou em vias de instalação. Uma deformação que, a par do controverso processo de Bolonha, contribuiu estruturalmente para o atual desequilíbrio institucional das universidades portuguesas.

Para aceder à “Fábula das formigas sabichonas”, carregar na imagem seguinte ou no endereço https://tendimag.com/2011/11/13/fabula-das-formigas-sabichonas/

Desequilíbrio fórmico

Que bom ser bom

Tintoretto. The Murder of Abel. 1551-52

Que bom ser bom

Proteger as pessoas e os animais

É tão bom ser bom

Preocupar-se com os outros

Mais do que os próprios

Que bom ser bom

Salvar os impenitentes

E resgatar os náufragos

Que bom ser bom

Subir pelas escadas do bem

Até ao cume da bondade

E converter de altas alturas

Os rebanhos cevados a erva daninha

Que mau ser banal

Sem chamamento, missão ou apostolado

Que mau ser mau (AG)

Sérgio Godinho. O Novo Normal. O Novo Normal. 2020.

O exílio da responsabilidade. Frases batidas

Francis Bacon. Crucificação. Fragmento. 1950.

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais
(José Afonso. Os Eunucos. Traz Outro Amigo Também. 1970).

Sentir o poder é um prazer. Apontam nesse sentido as noções de libido dominandi, de Santo Agostinho, e vontade de poder, de Nietzsche. O resto é acessório. Parafraseando Gil Vicente, mais vale uma decisão estúpida que nos carregue do que uma sábia que nos derrube. Assim caminhamos, de soberba em soberba e de disparate em disparate. O rei nunca vai nu. É agasalhado por oportunistas, néscios e bajuladores. Uma pirâmide de lambe-botas. Quanto mais em baixo, maior a língua. E assim por aí acima. Neste coro de línguas sem papilas, é mais execrável quem suporta o poder do que quem o detém. É o exílio da responsabilidade.

Estas palavras não passam de uma catarse. Não possuem, substantivamente, nenhum valor. São frases batidas (Sérgio Godinho). De vez em quando, apetece descarregar. Um desabafo! Ninguém gosta de desabafos. Prefere-se o abafo, prefere-se abafar numa orgia de poder.

Está um bom dia para ouvir o Sérgio Godinho: O Primeiro Dia (álbum Pano-cru, 1978) e Os Vampiros, uma versão ao vivo da canção homónima de José Afonso (álbum Os Vampiros, 1963).

Sérgio Godinho. O Primeiro Dia. Pano-cru. 1978
Sérgio Godinho. Os vampiros. Ao vivo. Versão de José Afonso (Álbum Os Vampiros, 1963).

Nostalgia do Futuro (revisto)

Ontem, fiz anos! Não fiz nenhuma proeza. Mas faz-se de conta. O importante é o resto. Os anos passam. Mais complicado do que ser velho é envelhecer. Inteirámo-nos, a cada momento, que já não somos quem éramos, nem podemos o que podíamos. Envelhecemos, sem pausas, até ao último momento. É a nossa condição.

“E agora que vou fazer / com todo este tempo que será a minha vida?” (Gilbert Bécaud). Renascer todos os dias? “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” (Sérgio Godinho). O que fazer? Nada, como de costume, um nada muito bonito. Com o passado a pesar no presente, não dá para andar para trás. Cumpre-nos encarar o futuro até ter saudades:  saudades do futuro sonhado. Equívocos de um  viciado em  palavras.

Agradeço os vossos votos de aniversário. Fizeram-me sentir mais humano. Entre o peso do passado e a nostalgia do futuro, é bom contar com os amigos no presente.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo com a canção “Et maintenant”, de Gilbert Bécaud.

Gilbert Bécaud- Et maintenant, 1962. Live in Amsterdam 1964. Substituído em 01.07.2026

Sérgio Godinho. O primeiro dia. Pano-cu. 1978.

 

 

 

Amaiai-vos uns aos outros

Vinvent Van Gogh. Noite estrelada sobre o Ródano. 1888.

Vincent Van Gogh. Noite estrelada sobre o Ródano. 1888.

“Desejo tudo de bom”! Para ser estrela, não é preciso entrar em órbita, basta “um brilhozinho nos olhos”.

Em conversas com velhos da minha paróquia, aprendi que, outrora, existiam grupos de “amaiantes”. Digo “velhos” porque, na altura, os velhos ainda eram velhos. Não eram pessoas de idade, como toda a gente, nem a terceira ou a quarta idade, nem seniores que senilizavam, nem pessoas maiores cada vez mais pequenas. Eram velhos que envelheciam. O Primeiro de Maio é o Dia do Trabalhador. Ironicamente, Maio era, antigamente, o mês de maior azáfama na agricultura. A lavoura requeria cooperação. Eram raros os agricultores que possuíam juntas de bois, arados ou grades. Um grupo de “amaiantes” congregava várias “casas” que ajustavam entre si a actividade de todos. Uns disponibilizavam os bois, outros a mão-de-obra… Os campos eram lavrados com o contributo de cada um à data combinada.

Em Maio, “amaiai-vos” uns aos outros!

Terence Tren D’Arby. Wishing Well. Introducing the Hardling Accor. 1987.

Sérgio Godinho – Com Um Brilhozinho Nos Olhos. Canto da Boca. 1980.

Marca: giffgaff. Título: Free to go. Free to stay. Reino Unido, Abril 2017.

Com a cabeça entre as pernas

Honda faces

Ulisse Aldrovandi's 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia)

Fig 1. Ulisse Aldrovandi’s 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia).

É difícil, porventura incerto, corrigir um perfil. Pior ainda quando se ajusta sempre o mesmo, do mesmo modo, no mesmo sítio.

Amassa-se a miséria, embala-se e empurra-se para baixo.

Como no monstro da Figura 1, a cabeça desce quase até aos pés. De tempos em tempos, talvez dê para bater as asas e pôr um ovo (Figura 2).

Mas, equacionados todos os pontos e todos os ângulos, equilíbrio redondo, provavelmente, só ao volante de um crossover Honda HR V.

Marca: Honda. Título: Give and Take. Agência: RPA. USA, Junho 2015.

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Fig 2. Ulisse Aldrovandi’s 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia)

Imagine-se um desfile de monstros acompanhado pelo “Coro das Velhas”, de Sérgio Godinho, “a caminho de Caminha”.

Sérgio Godinho. Coro das Velhas. Era uma vez um rapaz. 1985.