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O Rei Vai Transparente

Fonte – http://incakolanews.blogspot.com/2011/01/on-copper-etfs-emperors-and-new-clothes.html

Vídeos que convocam a nudez, estilizada ou não, como os seguintes são cada vez mais raros na publicidade e na comunicação social. Migraram para as redes sociais e páginas especializadas da Internet. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de sensibilidade, de uma contradança acelerada a que o homem eletrónico nos habituou.

Anunciante: Greenpeace. Título: La Poire. Internacional, 1990

Neste contexto e com esta dinâmica, não admira que estes três anúncios sejam difíceis de encontrar, sobretudo La Poire, de 1990, e Anti Dioxine, de 1997. Para exibir o primeiro, recorri ao arquivo pessoal; o fabuloso arquivo da Culturepub valeu-me no segundo. Procurei e procurei, principalmente o Antidoxine, cujo acesso, em dois tempos, não é amigável: primeiro, carrega-se na imagem do artigo; em seguida, abre-se o vídeo na Culturepub. Nem sequer no arquivo da Greenpeace International o encontrei. O que se compreende. Diferente dos demais, Anti Dioxine não mostra, como diria um tio, as “partes pudibundas”. Sugere algo pior. Dá asas à imaginação. Ora, os neurónios em voo não são de fiar.

Anunciante: Greenpeace. Título: Anti Dioxine. Internacional, 1997

Andam deveras zelosos os guardiões da ética. E muito atarefados, também. A amplitude e as subtilezas do mal não param de alastrar. Neste cenário adverso, toda a ajuda é pouca!

Há quatro ou cinco séculos, as famílias respeitáveis retocavam ou amputavam as pinturas e as esculturas para furtar as crianças a semelhantes obscenidades. Hoje, os bebés mergulham, porventura demasiado cedo, nos ecrãs e folheiam histórias duvidosas. Até a literatura infantil requer pente fino. A começar pelos títulos. Proponho, por exemplo, a alteração de O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, para “O Rei Vai Transparente”. Assim, toda aquela multidão não “vê” o rei nu mas transparente! Esta solução possui, aliás, a virtude de se coadunar com o linguajar e as preocupações atuais.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sunshine. USA, 2007

Enfim, o único intuito com que partilho estes vídeos indecorosos é de ordem meramente profilática, em jeito de vacina ou para homeopatia. Não se brinca com estas coisas!

Diga-o com robots!

Touch Community Services. Human Touch. Singapura. 2022

Parece-me que estou a ficar senil, mas não resisto a repetir: manifesta-se impressionante como o ser humano tem de recorrer à mediação do não-humano (animais, animações, objetos) para expressar, significar, o humano.

Singaporean charity TOUCH Community Services has released a heart-warming film about the power of the human touch, produced by BBH Singapore. / The ‘touching’ film is set in the future and tells the story of Alfie, a robot assistant, who learns about the human touch from the family and community it interacts with. / Accompanied by an acoustic arrangement of the classic hit, Human, written by The Killers, the campaign film embodies TOUCH’s commitment to inspire hope and transform lives through the power of human connection, both in the present and the future (Ads of the World, The Human Touch: https://www.adsoftheworld.com/campaigns/the-human-touch, acedido em 11.10.2022).

Anunciante: Touch Community Services. Título: Alfie / The Human Touch. Agência: BBH Singapore. Direção: Roslee Yusof. Singapura, outubro 2022.

Voar sem dar cabeçadas no céu

Gosto do artista belga Jean-Michel Folon (ilustrador, pintor e escultor, 1934-2005). Também gosto do cantor francês Yves Duteil. Gosto de ouvir Duteil a cantar Folon. Sam ambos criativos, joviais, sensíveis e ternurentos. Apraz-me recuperar dois pequenos vídeos com gravuras de Folon: Comme Dans Les Dessins de Folon, de Yves Duteil; e Levitar, que montei em 2013, com a música Emmanuel, de Michel Colombier.

Yves Duteil, Comme Dans Les Dessins de Folon, La langue de chez nous, 1985. Imagens de Jean-Michel Folon. Montagem do vídeo: Christine Glassant, 2011.
Albertino Gonçalves, Levitar, 2013. Imagens de Jean-Michel Folon e música de Michel Colombier (Emmanuel, Wings, 1971; versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002).

Como ser mais humano?

Reebok. Be More Human. 2015.

Os nossos tempos andam confusos e divididos. Ora apelam à superação, ao esforço e ao rendimento ((anúncios 1 a 3), ora sugerem a descontração, a lentidão e a sensibilidade (anúncios 4 e 5). Os nossos tempos ou nós?

Reebok. Be More Human. Agência: Venables Bell & Partners. Estados-Unidos, 2015.
Marca: Reebok. Título: Find Your Way – Be More Human. Direção: Maicon Desouza. Estados-Unidos, julho 2016.
Marca: Under Armour. Título: Rule Yourself – Michael Phelps. Agência: Droga5, New York. Direção: David Droga. Estados-Unidos, março 2016.
Marca: Alabama Tourism Department. Título: Take Your Mind to Alabama’s Beaches. Agência: Intermark Group. Direção: Jason Wallace. Estados-Unidos, maio 2022.
Marca: Alabama Tourism Department. Título: Mind Trip to Alabama’s Outdoors :30. Agência: Intermark Group. Direção: Jason Wallace. Estados-Unidos, maio 2022.

Eclipses

Kia. Robo Dog. 2022.

Existem fases para descarregar e fases para carregar. Em boa hora, carreguemos!

O anúncio Robo Dog, da Kia, constitui mais um exemplo da criatividade e da sensibilidade ímpares do realizador Noam Murro para humanizar máquinas e objetos. Da mais de uma dezena de anúncios de Noam Murro contemplados no Tendências do Imaginário, recoloco dois: Old Friends, para a Macy’s, e Monsters, para a Hummer.

Marca: Kia. Título: Robo Dog. Agência: David&Goliath. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2022.
Marca: Macy’s. Título: Old Friends. Agência: BBH (New York). Direcção: Noam Murro. Estados-Unidos, novembro 2016.
Marca: Hummer. Título: Monsters. Agência: Modernista. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2006.

A cópia e o fragmento

“Nós só conhecemos verdadeiramente aquilo que é novo, aquilo que introduz bruscamente na nossa sensibilidade uma mudança de tom que nos choca, aquilo que o hábito ainda não substituiu pelos seus pálidos fac-símiles. Mas foi sobretudo este fraccionamento de Albertina em numerosos fragmentos, em numerosas Albertinas, que era o seu único modo de existência em mim (…) Cada um de nós não é uno, mas contém numerosas pessoas que não possuem todas o mesmo valor moral” (Marcel Proust, À la recherche du temps perdu. Livre 6 : Albertine Disparue, 1927).

Sempre que me deparo com o tema da sensibilidade, acode-me Marcel Proust, “o realista da alma” (Gazette de Lausanne, 15 de Abril de 1914). Leio e releio Proust pelo prazer literário, mas também pela vontade de aprender. Muitos autores, a começar por Pierre Bourdieu, encaram a obra de Marcel Proust como uma inspiração e uma referência da micro-sociologia. Na presente citação, Marcel Proust releva o “fraccionamento de Albertina (…) em numerosas Albertinas”. No que respeita à fragmentação identitária e à polifonia, Marcel Proust sucede a Arthur Rimbaud (“Eu é um outro”; Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871), mas precede Mikhail Bakhtin e Erving Goffman. Sem ofensa deontológica, no ofício recorro tanto a Blaise Pascal, Marcel Proust, Thomas Mann e Fernando Pessoa, quanto aos faróis mais sublimes do panteão da sociologia académica. Talvez por influência da sociologia fenomenológica, acredito que o conhecimento do social não começa, nem acaba, com um diploma ou uma certificação.

Men Pioneers, da Nívea (México), é um excelente anúncio. Encerra várias ressonâncias que compete a cada um interpretar. Por exemplo, a contradição entre o gládio e a taça (Gilbert Durand) e, eventualmente, a alusão à homossexualidade. Os episódios são impactantes, uns originais, outros, como diria Proust, fac-símiles: concentrados de sentido e emoção já circulados e testados. Despoletam um efeito garantido. O eco e a redundância podem ser amigos da persuasão.

Marca: Nivea for men. Título: Men Pioneers. Agência: FCB Mexico. Direcção: Nico Perez Veiga. México, Outubro 2019.

Andróide

androide-3Anunciam-se tempos em que mais vale dar ouvidos a um andróide do que a um humano. Com vontade mas sem sensibilidade.

“I am faster than you, stronger than you. Certainly I will last much longer than you. You may think that I am the future. But you’re wrong. You are. If I had a wish, I wish to be human. To know how it feels. To feel, to hope…”.

Marca: Johnnie Walker. Título: Human (Android). Agência: BBH London. Direcção: Dante Ariola. Reino Unido, 2006.

Na Ponta dos Dedos

Orange. Ten LIttle Fingers.Com dedos, com fragmentos de dedos, se conta, se digitaliza, o destino. A arte, inconfundível, é de Bruno Aveillan. Sublime!

Marca: Orange. Título: Ten Little Fingers. Agência: Marcel. Direção: Bruno Aveillan. França, Julho 2013.

Sensibilidade humana

marie curieO artigo anterior abordava a sensibilidade da máquina. Com este anúncio, a Marie Curie Cancer Care mergulha-nos na sensibilidade do ser humano. Há anúncios e anúncios, assuntos e assuntos, olhares e olhares. Este convoca uma sensibilidade extrema: “Your last moments should mean as much as your first”.

“Marie Curie’s main fundraising event, the ‘Great Daffodil Appeal’ takes place in March and involves collectors standing on the streets, giving out daffodils in exchange for a donation. The charity provides free nursing care to people with terminal illnesses and vital support for loved ones, allowing people to spend quality time with their families in their final days. DLKW Lowe, London’s idea was to juxtapose the first and last moments of life to show that the final moments of someoneâs life should be filled with experiences that are just as important and poignant as the moments that define the start of it. Birthdays, kisses and words were used to depict these symmetrical moments in life, providing a compelling case to support the charity’s worthwhile work.” (DLKWLowe).

Anunciante: Marie Curie Cancer Care. Título : Simmetry. Agência :  DLKW Lowe, London. Direção: Tom Tagholm. Reino Unido, Fevereiro 2013.

Lágrimas. O Mar Interior

“E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!”

Florbela Espanca: Lágrimas Ocultas