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A Cor dos Caras Pálidas

Dear White FellaOs caras pálidas são uns troca-tintas. Mudam de cor como quem muda de pele. Não são unos. Nem puros. Nada são em permanência. E depois? É preciso ser claramente coisa alguma? Ser-se, como se diz, igual a si próprio? Arriscado é combater o racismo com os argumentos do racismo. Este anúncio faz sentido com sentido de humor. Eventualmente, como paródia de si mesmo.

Anunciante: Anti Racism. Título: Dear White fella: Colours of racism. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Palmer. UK, 2001.

Um quase nada que muda quase tudo

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Lendo em francês as letras LHOOQ obtém-se: Elle  a chaud au cul.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Em francês as letras LHOOQ lêem-se Elle a chaud au cul.

O Botafogo, equipa de futebol brasileira, alterou a camisola: as listas pretas passam a brancas, e as brancas, a pretas. Marcel Duchamp não teria feito melhor.

O objectivo confesso é a luta contra o racismo. Como diria Vladimir Jankélévitch (Le je-ne-sais-quoi et le presque rien, 1980), trata-se de um quase nada que muda quase tudo.

 

 

Há princípios que importa inventar: quanto menor for o ícone maior a mobilização. Por outras palavras, a comunhão é grande quando a hóstia é pequena.

A troca das listas da camisola do Botafogo logra, porventura, mais efeito do que dezenas de encontros internacionais de cientistas, activistas e intelectuais.

É a força da cidadania! É o simbólico, estúpido! É o marketing, estúpida! É o hiper-real, estúpidos!

Anunciante: Botafogo. Título: Camisa invertida. Agência: Africa. Direcção: Daniel Lieff / Gabriel Ghidalevich. Brasil, Junho 2014.

Toma lá, que já almoçaste!

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

John enviou do Canadá este anúncio. Para que o comente. Até à data nunca tal me apeteceu. Acontece-me “ignorar” anúncios memoráveis, como este “Despicable” (2001), promovido pela Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. A minha leitura é ambivalente. Impactante, o anúncio não deixa ninguém indiferente e a mensagem, com personagens estereotipadas, assevera-se contundente.

Quais são as reticências?

O anúncio é convincente e gratificante para os anti-racistas. E para os outros? Quem é, afinal, o alvo? Quem se pretende sensibilizar? Os anti-racistas? Nesta hipótese, tão improvável quanto obtusa, tratar-se-ia de um exercício umbilical, de uma “comemoração”.

A simetria é geometria corrente nas relações humanas. Dás-me um pontapé, dou-te outro. Olho por olho, dente por dente… No caso vertente, rebaixar quem rebaixa ou excluir quem exclui. Pior, sentir prazer em rebaixar e em excluir o outro, que, por sinal, rebaixa e exclui alguém. Prolonga-se a espiral, sem a quebrar. Entre ter uma pedra e “ter um sonho”, prefiro o sonho.

A trama deste anúncio lembra uma expressão portuguesa: “Toma lá, que já almoçaste!” Nos anos 2000, vários anúncios portugueses inspiraram-se neste mote (e.g., http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-fumadores-passivos?hd=1). Não aprecio nem a arte, nem o espírito subjacentes.

Um anúncio com esta missão dispensa o meu azedume. Acresce que proceder à sua desmontagem lógica resulta injusto e inadequado. Um anúncio publicitário é, antes de mais, um discurso simbólico, irredutível à mera lógica. Pede uma semiótica ou uma hermenêutica, não um algoritmo. O anúncio presta-se, porém, a esta falácia: verbalizado quanto baste, aposta num encadeamento linear de acções, efeitos e reacções. Uma ação produz um efeito que gera uma reacção “lógica”, até à reacção final, mais lógica do que a lógica. O sucesso do anúncio assenta, em boa parte, neste encadeamento inaugurado com uma discriminação ostensiva e concluído com a devida reparação efectiva.

Pressinto-me isolado nesta interpretação. Mas mais vale isolado do que demasiado bem acompanhado.

Anunciante: Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. Título: Despicable. Agência: Lowe Lintas & Partners. Portugal, 2001.