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Não é por mal! A discriminação natural

Chew. Diversity. 2016.

Acometem-me, por vezes, arrufos de sociólogo. Excessivos, como hoje.

Por discriminação natural entendo uma discriminação que releva da atitude natural, noção cara à sociologia fenomenológica, designadamente de Alfred Schutz (Collected Papers. I The Problem of Social Reality, 1962). Uma atitude é natural quando dispensa o recuo reflexivo. Assume-se como parte da “ordem natural do mundo”. Os comportamentos são considerados como garantidos (taken for granted). No anúncio The Look, da P&G (Procter & Gamble), as condutas são naturais, não são “calculadas”. Nenhum protagonista toma posição ou emite uma opinião. O anúncio dispensa, aliás, a palavra.

Existem, na área da comunicação e da sociedade, duas especialidades que se sobrepõem: a proxémica e a cinética. A proxémica debruça-se sobre os usos sociais do espaço, mormente as relações entre pessoas, com destaque para as distâncias e as proximidades. Que intervalos respeitamos numa fila de espera? Como nos distribuímos numa praia? Como nos acomodamos numa sala de aula? Como nos arrumamos num elevador? Os estudos de Edward T. Hall são a principal referência da proxémica. Menciono os dois primeiros livros: The Sillent Language (1959) e The Hidden Dimension (1966). As posições no espaço completam-se com a mobilidade e a gestualidade, domínio de estudo da cinética. Gregory Bateson foi um dos autores pioneiros (Balinese Character, a Photographic Analysis, 1942). Nas aulas, assinalo o papel da cinestesia do olhar na condução de uma entrevista: para cima, para baixo, na horizontal, para a direita, para a esquerda, no centro, a cinestesia do olhar indicia o que se passa na mente dos entrevistados: imagem construída, memória auditiva… É um truque que funciona! Gregory Bateson e Edward T. Hall são membros fundadores da célebre Escola de Palo Alto.

O anúncio The Look oferece-se como um caso raro que combina a fenomenologia da atitude natural, a proxémica e a cinética, num exercício centrado na comunicação não-verbal que encena uma espécie de racismo incorporado. Nada se diz com choque, antes com inteligência e sensibilidade. Guardo este anúncio na minha caixa de originalidades geniais. Penso projectá-lo como inspiração e exemplo nas aulas.

Genial e subtil, The Look pede mais do que um visionamento.

Marca: P&G (Procter & Gamble). Título: The Look. Agência: BBDO (New York). Direcção: Malik Vitthal. Estados Unidos, Junho 2019.

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

Capitalismo do coração

Entramos na era do capitalismo virtuoso. Sem nos dar conta. O nosso capitalismo exala uma aura de bondade. Em politiquês correcto, é socialmente responsável. Já arranhei o assunto. Os anúncios Wind never felt better, da Budweiser, e Our flavor has no race, da Postobón ressuscitam o azedume.

Marca: Budweiser. Título: Wind never felt better. Agência: David Miami. Direcção: Adam Berg. Estados Unidos, Janeiro 2019.

Wind never felt better é um anúncio excelente. Com pouco comunica-se muito. A música de Bob Dylan não engana: estamos, duplamente, no vento. Preocupada com a ecologia, a Budweiser só consome energia eólica. E se fossem outras empresas? A energia é como os impostos. Não há cobrança com destino específico, apenas o dinheiro do orçamento. It’s the symbolic, stupid! Um parêntesis: Estamos no vento é um livro de Fernando Namora (1974) dedicado aos movimentos juvenis contestatários dos anos cinquenta e sessenta. Contribuiu para a minha vocação como sociólogo.

Marca: Postobón. Título: Our flavor has no race. Agência: Sancho BBDO. Colômbia, Janeiro 2019.

Our flavour has no race aposta na mobilização, simbólica, contra o racismo. A colombiana Postobón vende vários tipos de bebida, cada de sua cor. Para comemorar o dia de luta contra o racismo, retira o colorante às bebidas tornando-as todas iguais: transparentes como a água. Uma pergunta perversa: metáfora por metáfora, qual é o maior entorse racista? Manter as cores ou apagá-las? Convém não esquecer que uma das vertentes do racismo consiste em converter os outros para os tornar iguais a nós. Algo como uma cruzada pela mesmidade.

E pronto! Não há como uma boa dose de maledicência.

As mil faces da discriminação

Ravi shankar

Ravi Shankar

A discriminação tem a pele dura, seja o motivo a raça, a religião, o género ou a estratificação social. A denúncia da discriminação tem aumentado na publicidade, mas, sem diversidade e sem complexidade, lembra um catálogo com poucas e interessadas páginas. O anúncio indiano Shree Ganesh Apnepan Ka singulariza-se: por um lado, não caricatura as diferenças e, por outro, manifesta rara sensibilidade ao nível da interacção humana. Mas a discriminação não se resolve com chás. É uma realidade enraizada, com vários tronco,s que se firmam em vários terrenos. Neste aspecto, o anúncio falha: sugere que a descriminação, unidireccional, radica apenas na figura do hindu. Deus escreve direito por linhas tortas? Escreve direito por linhas direitas? O mais avisado é acreditar que Deus não escreve direito. E pronto! Provocação à parte, gosto do colorido dos filmes indianos.

Marca: Brooke Bond Red Label. Título:  Shree Ganesh Apnepan Ka. Agência: Geometry Emcompas. Índia, Setembro 2018.

Com a cítara por perto, Ravi Shankar é uma lenda da música indiana e mundial. Pai de Norah Jones, tocou no Woodstock, compôs e tocou, entre outros, com George Harrison e Yehudi Menuhin. Compôs um disco, Passages, com Philip Glass. Depois de muito hesitar, optei pela faixa 4: Ragas in Minor Scale.

Ravi Shankar & Philip Glass. Ragas in Minor Scale. Passages. 1990.

Racismos

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

“Somos sempre o estranho de alguém. Aprender a viver em conjunto, eis o que é lutar contra o racismo” (Jelloun, Tahar Ben, 1998, Le racisme expliqué à ma fille, Paris, Éditions du Seuil).

O anúncio português O mundo está cheio de pessoas assim, de Festival Política, não condiz com a quadra. O que vale é que a quadra natalícia não é nenhum espanador de ideias.

O racismo contamina a relação com o outro. E, dialogicamente, a relação consigo mesmo. O racismo é uma poluição humana. Caricaturar o outro, rebaixá-lo, estigmatizá-lo e reduzi-lo a um exemplar não se me afigura anti-racismo. Antes pelo contrário. O racismo é uma falácia, uma entorse do espírito, a que ninguém é imune. Todos somos vulneráveis. É avassaladora a tentação de embalsamar o outro com os nossos medos e as nossas certezas. O racista está convencido que escreve direito por linhas tortas. Ousemos escrever torto por linhas direitas.

Marca: Festival Política. Título: O mundo está cheio de pessoas assim. Agência: 004. Direcção: Gonçalo Franco. Portugal, Abril 2017.

A cor e o farnel

Mordillo. Ajedrez.

Mordillo. Ajedrez.

Dois anúncios portugueses acabados de sair. Um contra o racismo, o outro pelo hambúrguer! Ambos contam histórias, que lembram episódios de séries de televisão. No primeiro, Stop (SOS Racismo), um jovem negro não escapa à conjunção de dois actos de racismo. No segundo, Typical McDrive (McDonald’s), o hambúrguer vai às festas de Santo António, de tão típico e familiar.

Anunciante: SOS Racismo. Título: Stop. Agência: Havas Worldwide Lisboa. Direcção: Roger Serrasqueiro. Portugal, Abril 2015.

Marca: McDonald’s. Título: Typical McDrive. Agência: TBWA Lisbon. Portugal, Abril 2015.

A Cor dos Caras Pálidas

Dear White FellaOs caras pálidas são uns troca-tintas. Mudam de cor como quem muda de pele. Não são unos. Nem puros. Nada são em permanência. E depois? É preciso ser claramente coisa alguma? Ser-se, como se diz, igual a si próprio? Arriscado é combater o racismo com os argumentos do racismo. Este anúncio faz sentido com sentido de humor. Eventualmente, como paródia de si mesmo.

Anunciante: Anti Racism. Título: Dear White fella: Colours of racism. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Palmer. UK, 2001.

Um quase nada que muda quase tudo

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Duchamp. A Fonte. 1917.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Lendo em francês as letras LHOOQ obtém-se: Elle  a chaud au cul.

Marcel Ducham. LHOOQ. 1919. Em francês as letras LHOOQ lêem-se Elle a chaud au cul.

O Botafogo, equipa de futebol brasileira, alterou a camisola: as listas pretas passam a brancas, e as brancas, a pretas. Marcel Duchamp não teria feito melhor.

O objectivo confesso é a luta contra o racismo. Como diria Vladimir Jankélévitch (Le je-ne-sais-quoi et le presque rien, 1980), trata-se de um quase nada que muda quase tudo.

 

 

Há princípios que importa inventar: quanto menor for o ícone maior a mobilização. Por outras palavras, a comunhão é grande quando a hóstia é pequena.

A troca das listas da camisola do Botafogo logra, porventura, mais efeito do que dezenas de encontros internacionais de cientistas, activistas e intelectuais.

É a força da cidadania! É o simbólico, estúpido! É o marketing, estúpida! É o hiper-real, estúpidos!

Anunciante: Botafogo. Título: Camisa invertida. Agência: Africa. Direcção: Daniel Lieff / Gabriel Ghidalevich. Brasil, Junho 2014.

Toma lá, que já almoçaste!

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Pormenor da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

John enviou do Canadá este anúncio. Para que o comente. Até à data nunca tal me apeteceu. Acontece-me “ignorar” anúncios memoráveis, como este “Despicable” (2001), promovido pela Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. A minha leitura é ambivalente. Impactante, o anúncio não deixa ninguém indiferente e a mensagem, com personagens estereotipadas, assevera-se contundente.

Quais são as reticências?

O anúncio é convincente e gratificante para os anti-racistas. E para os outros? Quem é, afinal, o alvo? Quem se pretende sensibilizar? Os anti-racistas? Nesta hipótese, tão improvável quanto obtusa, tratar-se-ia de um exercício umbilical, de uma “comemoração”.

A simetria é geometria corrente nas relações humanas. Dás-me um pontapé, dou-te outro. Olho por olho, dente por dente… No caso vertente, rebaixar quem rebaixa ou excluir quem exclui. Pior, sentir prazer em rebaixar e em excluir o outro, que, por sinal, rebaixa e exclui alguém. Prolonga-se a espiral, sem a quebrar. Entre ter uma pedra e “ter um sonho”, prefiro o sonho.

A trama deste anúncio lembra uma expressão portuguesa: “Toma lá, que já almoçaste!” Nos anos 2000, vários anúncios portugueses inspiraram-se neste mote (e.g., http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-fumadores-passivos?hd=1). Não aprecio nem a arte, nem o espírito subjacentes.

Um anúncio com esta missão dispensa o meu azedume. Acresce que proceder à sua desmontagem lógica resulta injusto e inadequado. Um anúncio publicitário é, antes de mais, um discurso simbólico, irredutível à mera lógica. Pede uma semiótica ou uma hermenêutica, não um algoritmo. O anúncio presta-se, porém, a esta falácia: verbalizado quanto baste, aposta num encadeamento linear de acções, efeitos e reacções. Uma ação produz um efeito que gera uma reacção “lógica”, até à reacção final, mais lógica do que a lógica. O sucesso do anúncio assenta, em boa parte, neste encadeamento inaugurado com uma discriminação ostensiva e concluído com a devida reparação efectiva.

Pressinto-me isolado nesta interpretação. Mas mais vale isolado do que demasiado bem acompanhado.

Anunciante: Comissão Portuguesa para os Direitos do Homem. Título: Despicable. Agência: Lowe Lintas & Partners. Portugal, 2001.