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Alimentação e diálogo cultural

Gargantua. Gravura de Gustave Dore. 1854.

Gargantua. Gravura de Gustave Doré. 1854.

“Qual é a importância de todas essas imagens do banquete?
Já explicamos que elas estão indissoluvelmente ligadas às festas, aos atos cómicos, à imagem grotesca do corpo; além disso, e da forma mais essencial, elas estão ligadas à palavra, à conversação sábia, à verdade alegre. Já notamos enfim a sua tendência inerente à abundância e à universalidade (…). Na absorção de alimentos, as fronteiras entre o corpo e o mundo são ultrapassadas num sentido favorável ao corpo, que triunfa sobre o mundo (…) Essa fase do triunfo vitorioso é obrigatoriamente inerente a todas as imagens de banquete. Uma refeição não poderia ser triste. Tristeza e comida são incompatíveis (enquanto que a comida e a morte são perfeitamente compatíveis) (…) O triunfo do banquete é universal, é o triunfo da vida sobre a morte. Nesse aspecto, é o equivalente da concepção e do nascimento” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na idade média e no renascimento, São Paulo, Hucitec, pp. 245 e 247).

E não digo mais! Apenas o seguinte: o banquete é um dos principais lugares de comunhão. Comunhão com o outro, comunhão com o mundo e comunhão com a transcendência. No banquete, serve-se e come-se o pão e o vinho. O vocabulário do banquete, do comer, é, porventura, o mais rico independentemente da língua. O anúncio Zomer, da Plus Supermarkets, foi particularmente feliz ao eleger a troca alimentar como charneira do diálogo cultural.

Marca: Plus Supermarkets. Título: Zomer. Agência: JWT Amsterdam. Direcção: Ismael ten Heuvel. Holanda, Agosto 2018.

A dança dos carneiros

O anúncio Commence Operation Boomerang, para o Australia Day Lamb 2016, é uma paródia descomedida de filmes e séries de aventuras. Os australianos radicados no estrangeiro são “ajudados” a regressar à Pátria para comemorar o dia do carneiro. Até a princesa da Dinamarca, australiana, não escapa ao apelo. Várias vedetas integram o elenco do anúncio: Lee Lin Chin, Stephen Moore, Mitch Johnson, Sam Kekovich e, naturalmente, o MasterChef George Calombaris. Tanto espalhafato está suscitou polémica, sendo a iniciativa contestada pelos aborígenes, pelos vegetarianos e pelos defensores dos animais.
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Dia do Carneiro

Marca: Meat & Livestock Australia. Título: Commence Operation Boomerang. Agência: The Monkeys (Sydney). Direcção: Lachlan Dickie. Austrália, Janeiro 2006.

Tudo me serve de pretexto para dizer um disparate. Conhece a expressão “carneiros de Panurge”? É internacionalmente proverbial. No Quart Livre, de François Rabelais, Panurge, companheiro de Pantagruel, desentende-se, a bordo de um barco, com o dono do rebanho de carneiros em carga. Diplomático, Panurge presta-se a comprar um carneiro. Após um interminável regateio, mal adquire o carneiro, atira-o ao mar. Todos os carneiros, sem excepção, seguem. Na tentativa de segurar o rebanho, o dono e os pastores também caíram à água. Em suma, estamos perante carneiros de Panurge quando, enquanto seguidores compulsivos, para onde vai um, vão todos.

Na Austrália, não há só carneiros. O país foi o berço dos Dead Can Dance, formação marcada por uma sonoridade própria e pela voz de Lisa Gerrard. Grupo tem, entre outras, uma costela medieval e renascentista. Yulunga é uma canção do álbum Into the Labyrinth, editado em 1993.
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Dead Can Dance - Into The Labyrinth (1993)Dead Can Dance. Yulunga. Into the Labyrinth. 1993.

Com as orelhas na cabeça

“Ciência sem consciência não passa de ruína da alma” (François Rabelais)

Unknown artist, Surgeon Conducting a Trephination in Guy of Pavia’s Anatomia, c. 1345.

Unknown artist, Surgeon Conducting a Trephination in Guy of Pavia’s Anatomia, c. 1345.

Quando crescer, quero ser cientista. Daqueles que têm sentido de humor e inventam descobertas absurdas, daquelas que só eles entendem e as revistas científicas disputam. Mas estes atributos da ciência têm a idade do Homem. Na Idade Média, salvaguardando a electricidade, abriam-se os crânios com técnicas cirúrgicas semelhantes às actuais.

Medieval Surgeons. Surgery in the 14th century

Medieval Surgeons. Surgery in the 14th century

Não me recordo de um vídeo tão rabelaisiano como este. Não admira, François Rabelais era médico, ria e fazia rir.

Marca: Science&Vie. Título: L’Opération. Produção: Scarfilm. Direcção: Phillippe Geus. França, 2015.

Partos extravagantes

Embora o parto seja um dos atos humanos mais íntimos, não escapa ao humor da publicidade. Em 2002, num anúncio da X-box o nascimento de um bébé assemelha-se à abertura de uma garrafa de champanhe. Neste Birth, do álbum Pocket Symphonies de Sven Helbig, o trabalho de parto é acompanhado por uma orquestra.

Grandville. A alimentação do bébé Gargântua. Magasin Pittoresque, 1840.

Grandville. A alimentação do bébé Gargântua. Magasin Pittoresque, 1840.

Fantasiar a propósito do parto, parodiar o nascimento, não é apanágio do nosso tempo. François Rabelais, num livro escrito em 1534, descreve deste modo o nascimento do gigante Gargântua, pai de Pantaguel: Gargamelle, a mãe, grávida de onze meses, empanturra-se com tripas de boi. Tanto comeu que acaba por dar à luz as próprias tripas. Com as saídas de baixo obstruídas, a criança, Gargântua, “entra na veia cava e, trepando pelo diafragma até acima dos ombros (onde a dita veia se divide em duas), tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha esquerda. Acabado de nascer, não gritou como as outras crianças: ‘Mies! Mies! Mies!’ , mas a alta voz: ‘A beber! A beber! A beber!’, como se estivesse a convidar todo o mundo a beber.” Mas há casos mais complicados do que o de Gargântua. Nascer, por exemplo, de uma costela ou de uma coxa masculina.

Marca: Sven Helbig’s Pocket Symphonies. Título: Birth. Agência: Kolle Rebbe, Hamburg. Direção: Kai Schonrath. Alemanha, Março 2013.

Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência:  Bartle Bogle Hegarty.  Reino Unido, Janeiro 2002.

Choque tecnológico

Em 2008, vigorava em Portugal o “plano tecnológico”. Na China, decorriam os XXIX Jogos Olímpicos de Pequim. E a GE – General Electric produzia, pela ocasião, dois anúncios de humor votados ao desporto e à tecnologia. O primeiro, Discus, parece uma sequência de um filme do Astérix. No segundo, Dragon, o engenho no aproveitamento da chama do dragão para aquecimento dos banhos só tem paralelo na origem, segundo François Rabelais, de algumas das mais famosas termas de França: Pantagruel adoeceu; um “fluxo de bolsa” provocou-lhe urina quente. Esta, infiltrada no solo, deu origem às termas de água quente de Cauterets, de Dax e de outras estâncias termais gaulesas (Le Tiers Livre des faits et dits Héroïques du noble Pantagruel, chapitre 33).

Anunciante: GE. Título: Discus. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008

Anunciante: GE. Título: Dragon. Agência: BBDO New York. Direção: Traktor. EUA, 2008

Criaturas pantagruélicas 2

O interesse pelas personagens grotescas criadas por François Rabelais atravessou fronteiras. Atente-se nestas  gravuras alemãs do século XIX. Contanto coloridas, não se afastam do registo das gravuras de François Desprez (ver: https://tendimag.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=2722&action=edit).

Fig 1. Atribuído a Rabelais. Denkmäler des Theatres VIII. Mappe Groteskkomödie und Stegreifstück. München R. Piper & Co., 0, Plate 15.Séc. XIX

Fig 2. Atribuído a Rabelais. Denkmäler des Theatres VIII. Mappe Groteskkomödie und Stegreifstück. München R. Piper & Co., 0, Plate 15.Séc. XIX

Criaturas pantagruélicas 1

François Rabelais (1494-1553) é um dos grandes nomes da literatura universal. Pantagruel e Gargantua, seguidos pelo Tiers Livre e pelo Quart Livre, são obras-primas originais, escritas num estilo livre, criativo e ousado. Mikhail Bakhtin fala, a seu propósito, em realismo grotesco, eivado por um humor desenfreado, fantástico e exorbitante, francamente inspirado na cultura cómica popular da época. Apesar de sucessivas proibições, os romances de Rabelais foram um caso sério de popularidade.

F01

Em 1979, devorei A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o Contexto de François Rabelais, de Mikhail Bakhtin, e decifrei toda a obra de François Rabelais na versão original. Há coincidências prodigiosas. François Rabelais é, para mim, um dos melhores escritores de todos os tempos e Bakhtin, um dos maiores pensadores do século XX. A influência de Rabelais venceu os séculos. Concebeu situações e seres fantásticos. Artistas, como Salvador Dali, não resistiram à tentação de os desenhar.

F19

O álbum Les Songes drolatiques de Pantagruel, ou sont contenues plusieurs figures de l’invention de maistre François Rabelais, da autoria de François Desprez, é uma das primeiras obras gráficas dedicadas às personagens rocambolescas do livro Pantagruel. Foi editado em 1565, doze anos após a morte de Rabelais. Les songes drolatiques é composto apenas por 120 gravuras legendadas. Segue uma galeria com algumas dessas “criaturas”. Fala-se muito, na atualidade, em ciborgues, homens-máquina e biomecanóides. Mas já em 1565, há mais de quatro séculos, a questão da ligação entre o corpo e a técnica era sistemática e explicitamente abordada. O nosso tempo, dito pós-moderno, compraz-se em barrigadas sociocêntricas. Somos diferentes, claro! Mas muito menos do que se nos afigura.

F20

Recorri a estas imagens numa comunicação intitulada “O tecnohumano na era dos descobrimentos: a pretexto do livro Tecnologia e Configurações do Humano na Era Digital”, no âmbito do encontro Ecosofia na Era Digital, 1º Simpósio Internacional, Universidade do Minho, 28 de Junho de 2011.