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Contacto à distância

Quino

Quino

Gregarismo humano: as pessoas têm tendência a fazer companhia a quem a tem; logo, a não fazer companhia a quem não a tem. Respeitamos a solidão.

Quem dera escrever como o Quino desenha. Um homem e uma mulher não param de falar ao telemóvel. Regressados a casa, permanecem em silêncio ou aproveitam o facto de estar juntos para cada um comunicar pelo telemóvel com outras pessoas. Estamos telemobilizados, formatados para o contacto à distância.

Se fosse o Quino, fazia dois desenhos: 1) uma série de ilhas, cada uma com uma pessoa a falar ao telemóvel; 2) um casal a dormir com a cabeça repousada em almofadas com forma de telemóvel. Como não sou o Quino, limito-me a partilhar anúncios publicitários. Existem muitos anúncios dedicados aos usos do telemóvel. Alguns, de consciencialização, encenam catástrofes, designadamente acidentes rodoviários. O motivo dos anúncios da Levi’s e da Durex afigura-se-me mais interessante e, porventura, mais grave: a insularidade afectiva do ser humano.

Este artigo nasceu pequeno. Para não descarregar a bateria.

Marca: Levi’s. Título: Sea of Blue. Agência: FCB West. Estados Unidos, Fevereiro 2017.

Marca: Durex. Título: Turn off to turn on. Internacional, Março 2014.

Potentes, prepotentes e impotentes

Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

01. Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

Há pouco tempo, olhava-se em redor, só se viam prédios em construção. Agora, olha-se em redor, só se vêem hierarquias. Zelo do Homo Hierarchicus (Dumont, Louis, 1966). A igualdade é folha caída. Rankings, concursos, orgânicas, burocracias, protocolos, paradas… A cada um as suas asas de cera, mais o seu ninho de poder. Parafraseando Francis Bacon, o poder, a exemplo da aranha, tece a teia com a sua própria substância, quem nela cai raramente se levanta. Quanto mais resiste, mais se enreda.

 

Funcionários do espírito

O mais avisado é não escrever nada. Acrescentar apenas uma ilustração.

Quino. Monotonia

Quino. Monotonia.

A Academia

del álbum, Gente en su sitio - De todas las razones que me dan. Gente en su sitio. 1986

Fig 1. Quino. Gente en su sítio.

Gulliver convidou-me a visitar à Academia de Lagado. Os sábios são competentes em tudo. Todos sabem demais, todos são capazes de colocar o ovo em qualquer lugar. Investigam muito, ensinam pouco e aprendem menos. Nesta orgia da inteligência, proliferam concursos e escasseiam obras. Na primeira visita de Gulliver à Academia de Lagado, nem todas as aberrações se manifestam inconsequentes. Visionárias e pioneiras, esperam, por vezes, séculos para atingir os resultados. Um exemplo:

“O primeiro mecânico que avistei pareceu-me um homem magríssimo: tinha a cara e as mãos cheias de gordura, a barba e o cabelo crescidos, com uma roupa e uma camisa cor da pele; entregava-se, havia oito anos, a um curioso projecto, que consistia, segundo ele, em recolher os raios do sol, a fim de os encerrar em frascos hermeticamente fechados, os quais podiam servir para aquecer o ar quando os estios fossem pouco quentes; declarou-me que outros oito anos seriam suficientes para fornecer aos jardins dos ricos proprietários raios de sol por preço módico” (Jonathan Swift, Gulliver, 1726).

Reconhecemos nestes “frascos hermeticamente fechados” cheios de raios de sol os painéis e as baterias solares. Assim os concebeu, antes do tempo, o académico Jonathan Swift, doutorado pela Universidade de Oxford.

Quino visitou, possivelmente, a Academia de Lagado. Atestam-no as seguintes gravuras:

Ecologia do Espírito

Quino

Quino

A originalidade é uma raridade. Um descuido dos deuses. Tanta criação antes de nós. Esta dificuldade em ser original sobressai, curiosamente, no universo da magia e da fantasia. Por isso, há tanta reciclagem da Alice, da Capuchinho Vermelho e da Cinderela. E do Pinóquio, do Peter Pan e do Aladino. A imaginação não é tão infinita quanto nos apressamos a acreditar. Daqui não advém mal ao mundo. As ideias coçadas podem ser brilhantes. São artes e manhas da “ecologia do espírito”. Nos anúncios Choose  Go, da Nike, e Rewind City, da Orange, a repetição dos gestos concorre para a mudança desejada.

Marca: Nike. Título: Choose Go. Agência: Must Be Something. Direcção: Edgar Wright. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Marca: Orange. Titulo: Rewind City. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ringan Ledwidge. França, Maio 2008.

Quinologia

Quino é um dos meus mestres. Se alguém perguntar se quero ler um livro disto ou daquilo, a resposta é imediata: um livro de Quino. Pena tê-los relido todos. Seguem quatro desenhos de Quinologia pura. Hoje, o meu rapaz mais novo está doente. Quero vê-lo sorrir.

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1. Em busca da identidade perdida. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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2. Cooperação. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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3. Auto-realização. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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4. Esperança de vida. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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5. Impacto social. Quino. Cada um no seu lugar.

Manifesto contra a liquidez

quinoterapia

Quino. Quinoterapia. 1995.

Em O Amor Líquido (Relógio D’Agua, 2008), o sociólogo Zygmunt Bauman diagnostica um afrouxamento dos laços sociais. Mais passageiros e mais “escorregadios”. Pois o anúncio Valores, da MoviStar, parece um manifesto contra a liquidez. Atente-se no texto:

Dizem que o Natal já não é como dantes
Dizem que hoje as crianças já não escrevem cartas
Que já não nos olhamos nos olhos
E que se perdeu a magia
Dizem que antes eramos felizes com nada
Que já não compartilhamos
Dizem que hoje não ajudamos sem pedir algo em troca
E que já ninguém se coloca no lugar do outro
Dizem que as famílias já não estão unidas
Que digam o que quiserem.

As imagens do anúncio revelam o contrário. Curiosamente, trata-se de um anúncio de uma operadora de telecomunicações. Poucas profissões lidam tanto com os valores como a publicidade. Investiga-os e mobiliza-os. Na sociologia, um erro corrige-se, na publicidade, paga-se. Não se pode sustentar que a publicidade é anti-líquida; muitos anúncios apostam na liquidez, mas numa liquidez que pode vir de longe, como de longe vem a “solidez” do espírito de Natal. A contemporaneidade é sólida e “desfaz-se no ar”? Ou é líquida e escorre por entre os dedos? Talvez sólida como a areia e líquida como os coágulos.

Marca: MoviStar. Título: Navidad “valores”. Agência: Dhélet Y&R Latam. Direcção: Maxi Blanco. Argentina, Dezembro 2016.

Geometria do poder

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Linhas. Quino. Hombres de bolsillo. 1977.

Há séculos que se conhece a diferença entre uma linha recta e uma linha curva. A primeira é clássica e a segunda, barroca. Comparada com a linha recta, a linha curva acentua a sensação de volume, movimento, desequilíbrio, jogo luz e sombra e aproximação dos opostos. Para Quino as linhas também se distinguem na sua relação com o poder. A recta é mais obediente, mais disciplinada e, em suma, mais alinhada e mais correcta.

Deflorestação

Quino. Pensamiento

Quino. Pensamento

Este blogue anda meio macabro. Não é de estranhar. Participo numa equipa de investigação sobre a morte nos media e estou a dedicar-lhe a escrita de um livro. A própria sociedade também anda obcecada com a morte. Tropecei com anúncio argentino Sin bosques nos ahogamos todos, da Greenpeace. O título é sugestivo: nos ahogamos todos. Mas o vídeo reforça: um homem, fechado num recipiente transparente, fica sem ar, à medida que as florestas são destruídas, até ao afogamento. Um “espectáculo” de morte.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sin bosques nos ahogamos todos. Agência: Wofbpp. Argentina, Agosto 2016.

Para contrariar esta onda funesta, pesquisei as entradas felicidade, alegria e vitalidade nas bases de anúncios. Saiu este Moved by Magic, da rádio Magic FM. Estimulante.

Marca: Magic FM. Título: Moved by Magic. Agência: Mother. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2003.

 

Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.