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Castrati

Jacopo Amigoni. Portrait of Carlo Broschi, called Farinelli (1705-1782).

Regressando a Händel (ver https://tendimag.com/2018/03/14/musica-e-espectaculo/), a célebre ária Ombra Mai Fù, da ópera Xerxes (1738), foi escrita para ser cantada por um castrato. Não é a única composição de Händel destinada a ser cantada por castrati. As músicas para castrati costumam ser cantadas, nos nossos dias, por uma soprano ou por um contratenor. Segue a interpretação do contratenor francês Philippe Jaroussky.

Philippe Jaroussky – Ombra mai fù | Händel – Serse.

Os castrati atingiram o seu apogeu no período barroco (entre o final do século XVI e meados do século XVIII). Castrados durante a puberdade por cirurgiões e, até, por barbeiros, não lhes cresciam, ao contrário dos seios, nem os pelos nem a maçã de Adão. As consequências desejadas concentravam-se na laringe e nas cordas vocais, de modo a proporcionar características vocais únicas.

“Em 1588, o Papa Sisto V proibiu as mulheres de cantar no palco de qualquer teatro público ou lírico. Essa proibição foi reiterada pelo Papa Inocêncio XI cerca de 100 anos mais tarde (…) Ao tomar essa posição inflexível, a Igreja abriu caminho para um problema ainda mais sério: os castrati!” (https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/101996088#h=21).

Os castrati acabaram por assumir o papel das mulheres, entretanto ausentes, na música e, sobretudo, na ópera. No auge da fama dos castrati, cerca de 5 mil meninos eram castrados todos os anos (“Você conhece a trágica história dos castrati italianos?”: https://www.megacurioso.com.br/historia-e-geografia/101327-voce-conhece-a-tragica-historia-dos-castrati-italianos.htm). Alguns castrati alcançaram fama, poder e riqueza. Constituíam, segundo consta, uma tentação para as nobres, bem como para os nobres. Farinelli (1705-1752) é um expoente que inspira o filme homónimo, realizado por Gérard Corbiau em 1994.

Farinelli il Castrato, de Gérard Corbiau. 1994. Excerto: “Opera Orgasm”.

Alessandro Moreschi (1858-1922), considerado o último castrato, aposentou-se em 1913 da Pontifícia Capela Musical Sistina. Segue uma gravação da sua interpretação da Ave Maria de Bach / Gounod.

Alessandro Moreschi, castrato, canta a Ave Maria, de Bach / Gounod. Início do século XX.

Em Portugal, também existiram castrati italianos e portugueses. Recomendo o artigo “Também houve castrati portugueses”, de Cristina Fernandes, no jornal O Público. (https://www.publico.pt/2012/07/03/jornal/tambem-houve-castrati-portugueses-24791971).

Regressando, mais uma vez, a Händel, o artigo do Tendências do Imaginário que lhe é consagrado (https://tendimag.com/2018/03/14/musica-e-espectaculo/) não inclui a Sarabanda, uma das muitas versões da folia portuguesa (https://tendimag.com/2013/08/02/folia-portuguesa/). Pois não é tarde!

Händel, Sarabande. Do filme Barry Lyndon.

Piropos em série

Barroco era a designação portuguesa de uma pérola defeituosa. Deu nome ao estilo barroco. Piropo (em inglês, pyrope) é uma pedra preciosa. Atirada a uma pessoa, pode causar danos, nomeadamente se for embalada em “propostas de teor sexual”. O anúncio Swipe for Doritos é, com certeza, um anúncio de sensibilização. Assim como se exibem mortos e feridos para prevenção rodoviária, também se somam piropos para inibir o assédio sexual verbal. Caso contrário, não sendo um anúncio de sensibilização, Swipe for Doritos corre o risco, neste país, de ser punido com pena de prisão até um ano.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Doritos SwipeMarca: Doritos. Título: Swipe for Doritos. USA, Janeiro 2016.

O café, o tabaco e o futebol

Bilhete de Totobola, do dia 29 de Novembro de 1964.

Bilhete de Totobola, do dia 29 de Novembro de 1964.

TotobolaNo Tendências do Imaginário, é dia de descentramento. Dia de relativizar o nosso sociocentrismo e as nossas evidências. É um desafio lançado, há meio século, por Jean Piaget, um psicólogo recomendável aos sociólogos. A virtude vem de longe: nas Cartas Persas (1721), Montesquieu já enaltece o olhar do estrangeiro.

O anúncio da Gudang Garam é triplamente estranho. A marca pertence à Indonésia, país com o qual encerrámos “um capítulo de conflito”. É, embora discreto, um anúncio a uma marca de tabaco, fenómeno de que estamos, há anos, protegidos graças à febre proibicionista. Nem os cigarros de chocolate escaparam. Neste domínio, só palhinhas e caveiras!

“É proibido o fabrico e a comercialização de jogos, brinquedos, jogos de vídeo, alimentos ou guloseimas com a forma de produtos do tabaco, ou com logótipos de marcas de tabaco” (Lei nº 37/2007, de 14 de Agosto, artigo 17º, ponto 3).

O anúncio Gudang Garam é um hino à pátria! O anúncio dá a impressão de perseguir o efeito desejado: associar a marca à nação. O que lembra alguns casos portugueses: Português Suave, que ainda existe, e Lusos, que se perdeu na voragem do mercado. O anúncio aos cigarros Lusos e ao café Sical num boletim do Totobola traça um triângulo expressivo do estilo de vida dos anos sessenta: café, tabaco e futebol: “Um prazer… Para quem sabe o que quer!” Recordar, ou seja, entregar-se à “regressão histórica” (Max Weber), é uma forma de descentramento. Seria compensador se este bloque lograsse aproximar-se de uma rampa de descentramento.

Marca: Gudang Garam. Título: The First Day Spirit. Agência: Dentsu Strat Jakarta. Direcção: Abimael Ghandi. Indonésia, Agosto 2015.

É proibido proibir

Gerald Beauchemin. O Capuchinho Vermelho.

Gerald Beauchemin. O Capuchinho Vermelho.

“Segundo decisão do Tribunal da Relação de Évora, os portugueses não podem publicar fotos dos filhos nas redes sociais. O tribunal recorda que as redes sociais podem ser usadas por predadores sexuais” (http://exameinformatica.sapo.pt/noticias/mercados/2015-07-21-E-proibido-publicar-fotos-de-criancas-em-redes-sociais-diz-Tribunal-de-Evora).

O lápis azul nunca nos abandonou. Apenas regressa a uma fase ostensiva.

A propósito da violação de mulheres, Kathleen Basile alerta para o risco de colocar “o ônus da prevenção nas possíveis vítimas, possivelmente obscurecendo a responsabilidade de seus autores e outros” (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2015/06/10/estudo-aponta-sucesso-em-treinar-mulheres-para-prevenir-estupros.htm). Desvia-se o olhar e o juízo do agressor para a vítima. Uma sessão de tribunal pode concentrar-se em indícios tais como a maquilhagem, altura da saia, o recorte do decote ou a decisão de sair, logo de passar pela garagem do prédio, à meia-noite. A sombra de Eva.

Se tiverem um Capuchinho Vermelho não lhe peçam para levar a cesta à avó. Devia ser proibido. A boa acção pode ter péssimo resultado! Como lembra Perrault, os lobos andam à solta!

“MORALIDADE:

Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault).

Anúncios de risco

dacia-kids-driving-1O mundo não é geométrico. Tem pregas. Em 2011, estranhei o zelo na proibição de dois anúncios britânicos: um com uma adolescente sentada na via férrea, o outro com três raparigas a dançar, sem cinto de segurança, no banco de trás de um automóvel! Ambos os anúncios expunham crianças a situações de risco: “hazardous or dangerous situations”( Zelai por nós).

A Dacia acaba de publicar um anúncio com crianças de dez anos a conduzir um automóvel. Exemplo arriscado? O mundo tem pregas. Surpreende. A ideia é simples: até as crianças conseguem conduzir um Dacia. Mas a ideia do anúncio da Rexona, proibido, também era simples: em certas circunstâncias, como, por exemplo, na dança, um desodorizante vem a preceito.

E qual é a ideia deste artigo? Não é, decerto, defender a proibição de qualquer anúncio. A ideia é outra: importa estar atento à dualidade de critérios. É o pão da arbitrariedade, e a arbitrariedade é o vinho do poder.

Marca: Dacia. Título: French Kids Driving Car. Agência: Marcel (Paris). França, Abril 2015.

Zelai por nós!

O anúncio com esta fotografia foi proibido no Reino Unido. Porquê? A própria ASA (Advertising Standards Authority) descarta a suposta postura suicida como motivo. A justificação é outra: “Because the ad showed Hailee Steinfeld, who was 14 years of age only when the photo was shot, in a potentially hazardous situation sitting on a railway track, we concluded the ad was irresponsible and in breach of the code in showing a child in a hazardous or dangerous situation.” Tudo se resume numa questão de segurança. Lógico: se é proibido caminhar pela via-férrea, também o é sentar-se! Ambas configuram uma “hazardous or dangerous situation”. A publicidade não deve dar maus exemplos!

Prada: Miu Miu. Hailee Steinfeld.

Esta proibição lembra o anúncio “Girl”, da Sure/Rexona (duvido que seja possível publicar o vídeo). A mesma ASA proibiu este anúncio em que três adolescentes dançavam no banco de trás de uma carrinha sem cinto de segurança. A jurisprudência é a mesma. Não se brinca nem com a ordem, nem com a segurança, sobretudo, quando estão em causa os nossos filhos. Censura ou zelo?

Em democracia, convém ter cuidado com o acto de proibir. Pode ser “hazardous or dangerous” para a liberdade de expressão e desarmar a nossa indignação face a actos tais como a queima ritual de livros e a vingança colectiva de caricaturas. O lápis que endireita as linhas tortas teima em continuar nas mãos do poder. Em nome da solidez, da segurança e da realidade. A contramão de Bauman, Beck e Baudrillard.

Marca: Rexona / Sure. Título: Girl. Agência: Mcconnells. Reino Unido, Junho 2008.

O poder da lingerie

No artigo “A mulher, o homem e objecto” avancei que “a figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários”. Acentuar-se-ia, em contrapartida, a visibilidade do corpo do homem objecto. Convém ressalvar que existem segmentos do mercado em que o recurso ao corpo feminino não só se mantém como, o que é mais significativo, se renova. É o caso da lingerie, associada a marcas como Victoria’s Secret, Intimissimi, Blush e, especialmente, Agent Provocateur. O corpo da mulher continua exposto, mas cada vez menos como um objecto. As categorias construídas por Erving Goffman (1977) para caracterizar a imagem da mulher na publicidade dos anos sessenta (mulher escondida, mulher longínqua, mulher submissa, mulher dócil, mulher brinquedo, mulher jogadora) não bastam para abarcar a realidade actual. Silvana Mota-Ribeiro acrescentou, entretanto, a categoria “mulher erótica e disponível”. Mas estou em crer que, nos tempos que correm, também já não é suficiente. Anúncios como os da Agent Provocateur confrontam-nos com uma imagem que transcende a mulher erótica e disponível. Erótica, sem dúvida, mas insinuante, provocante, ousada, conquistadora, poderosa… E sensual! Não se vislumbram sinais de disponibilidade expectante no anúncio Proof em que Kylie Minogue monta um “touro de rodeio”. A mulher toma a iniciativa, age e mostra-se pronta a continuar a agir e a segurar as rédeas.

Marca: Agent Provocateur. Título: Proof. Agência: Cdp Travissully. Reino Unido, Janeiro 2002.

Neste tipo de anúncios, a passividade pende para o lado masculino: o homem surge intermitente, secundário, suspenso, de cócoras, a jeito para uma excitante vergastada (anúncio Silvia Demitrova). A cavalo ou a pé, com ou sem chicote, a mulher liberta-se, em todos os sentidos e em todas as orientações sexuais, incluindo a homossexualidade. Como é apregoado no respectivo site, “a Lingerie Agent Provocateur é uma gama de criações (…) destinada a intensificar os prazeres da vida e desbloquear os seus desejos mais íntimos”(http://www.agentprovocateur.com/lingerie.html).

Marca: Agent Provocateur. Título: Silvia Demitrova. Sem país, Outubro 2011.

Pode-se contra-argumentar que estamos perante um caso muito particular. A Agent Provocateur é uma marca que foi criada em 1994 por Joseph Corré e Serena Rees. Ora, Joseph Corré é filho de Viviane Westwood, reputada estilista, e Malcom Mclaren, empresário da banda Sex Pistols, ambos pioneiros do movimento punk. Uma conjugação, extraordinária, de sensibilidade e irreverência. Mas, de facto, não se trata de um caso isolado confinado à Agent Provocateur. Nem sequer ao segmento da lingerie. O fenómeno abrange outros domínios… Até o podemos surpreender num anúncio de sensibilização dedicado à promoção do vegeterianismo (Veggie Love)!

Anunciante: PETA. Título: Veggie Love. Agência: Peta People For The Ethical Treatment of Animals. Direcção: Chris Hooper. EUA, Março 2009.

Elas cavalgam como amazonas, libertam os desejos como sereias e mordem como vampiros (anúncio Fleurs du Mal)! Em suma, uma subversão dos princípios da dominação masculina (Bourdieu, 1998). Enfim, uma coisa é um anúncio, outra a realidade que o circunda. O anúncio Proof foi, por exemplo, proibido em vários países, tornando-se, paralelamente, um sucesso viral. Nem tudo o que luz é tolerado pela “sociedade oficial”.

Marca: Agent Provocateur. Título: Fleurs du Mal. Agência : Epoch Films. Direcção: Justin Anderson. França, Outubro 2011.

Bourdieu, Pierre (1998), La domination masculine, Paris, Ed. du Seuil.

Goffman, Erving (1977), « La ritualisation de la feminité », Actes de la recherche en sciences sociales, Vol.  14, pp. 34-50

Mota-Ribeiro, Silvana (2005), Retratos de mulher, Porto, Campo das Letras.