Piropos em série
Barroco era a designação portuguesa de uma pérola defeituosa. Deu nome ao estilo barroco. Piropo (em inglês, pyrope) é uma pedra preciosa. Atirada a uma pessoa, pode causar danos, nomeadamente se for embalada em “propostas de teor sexual”. O anúncio Swipe for Doritos é, com certeza, um anúncio de sensibilização. Assim como se exibem mortos e feridos para prevenção rodoviária, também se somam piropos para inibir o assédio sexual verbal. Caso contrário, não sendo um anúncio de sensibilização, Swipe for Doritos corre o risco, neste país, de ser punido com pena de prisão até um ano.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Doritos. Título: Swipe for Doritos. USA, Janeiro 2016.
O café, o tabaco e o futebol
No Tendências do Imaginário, é dia de descentramento. Dia de relativizar o nosso sociocentrismo e as nossas evidências. É um desafio lançado, há meio século, por Jean Piaget, um psicólogo recomendável aos sociólogos. A virtude vem de longe: nas Cartas Persas (1721), Montesquieu já enaltece o olhar do estrangeiro.
O anúncio da Gudang Garam é triplamente estranho. A marca pertence à Indonésia, país com o qual encerrámos “um capítulo de conflito”. É, embora discreto, um anúncio a uma marca de tabaco, fenómeno de que estamos, há anos, protegidos graças à febre proibicionista. Nem os cigarros de chocolate escaparam. Neste domínio, só palhinhas e caveiras!
“É proibido o fabrico e a comercialização de jogos, brinquedos, jogos de vídeo, alimentos ou guloseimas com a forma de produtos do tabaco, ou com logótipos de marcas de tabaco” (Lei nº 37/2007, de 14 de Agosto, artigo 17º, ponto 3).
O anúncio Gudang Garam é um hino à pátria! O anúncio dá a impressão de perseguir o efeito desejado: associar a marca à nação. O que lembra alguns casos portugueses: Português Suave, que ainda existe, e Lusos, que se perdeu na voragem do mercado. O anúncio aos cigarros Lusos e ao café Sical num boletim do Totobola traça um triângulo expressivo do estilo de vida dos anos sessenta: café, tabaco e futebol: “Um prazer… Para quem sabe o que quer!” Recordar, ou seja, entregar-se à “regressão histórica” (Max Weber), é uma forma de descentramento. Seria compensador se este bloque lograsse aproximar-se de uma rampa de descentramento.
Marca: Gudang Garam. Título: The First Day Spirit. Agência: Dentsu Strat Jakarta. Direcção: Abimael Ghandi. Indonésia, Agosto 2015.
É proibido proibir
“Segundo decisão do Tribunal da Relação de Évora, os portugueses não podem publicar fotos dos filhos nas redes sociais. O tribunal recorda que as redes sociais podem ser usadas por predadores sexuais” (http://exameinformatica.sapo.pt/noticias/mercados/2015-07-21-E-proibido-publicar-fotos-de-criancas-em-redes-sociais-diz-Tribunal-de-Evora).
O lápis azul nunca nos abandonou. Apenas regressa a uma fase ostensiva.
A propósito da violação de mulheres, Kathleen Basile alerta para o risco de colocar “o ônus da prevenção nas possíveis vítimas, possivelmente obscurecendo a responsabilidade de seus autores e outros” (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2015/06/10/estudo-aponta-sucesso-em-treinar-mulheres-para-prevenir-estupros.htm). Desvia-se o olhar e o juízo do agressor para a vítima. Uma sessão de tribunal pode concentrar-se em indícios tais como a maquilhagem, altura da saia, o recorte do decote ou a decisão de sair, logo de passar pela garagem do prédio, à meia-noite. A sombra de Eva.
Se tiverem um Capuchinho Vermelho não lhe peçam para levar a cesta à avó. Devia ser proibido. A boa acção pode ter péssimo resultado! Como lembra Perrault, os lobos andam à solta!
“MORALIDADE:
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault).
Anúncios de risco
O mundo não é geométrico. Tem pregas. Em 2011, estranhei o zelo na proibição de dois anúncios britânicos: um com uma adolescente sentada na via férrea, o outro com três raparigas a dançar, sem cinto de segurança, no banco de trás de um automóvel! Ambos os anúncios expunham crianças a situações de risco: “hazardous or dangerous situations”( Zelai por nós).
A Dacia acaba de publicar um anúncio com crianças de dez anos a conduzir um automóvel. Exemplo arriscado? O mundo tem pregas. Surpreende. A ideia é simples: até as crianças conseguem conduzir um Dacia. Mas a ideia do anúncio da Rexona, proibido, também era simples: em certas circunstâncias, como, por exemplo, na dança, um desodorizante vem a preceito.
E qual é a ideia deste artigo? Não é, decerto, defender a proibição de qualquer anúncio. A ideia é outra: importa estar atento à dualidade de critérios. É o pão da arbitrariedade, e a arbitrariedade é o vinho do poder.
Marca: Dacia. Título: French Kids Driving Car. Agência: Marcel (Paris). França, Abril 2015.
Zelai por nós!
O anúncio com esta fotografia foi proibido no Reino Unido. Porquê? A própria ASA (Advertising Standards Authority) descarta a suposta postura suicida como motivo. A justificação é outra: “Because the ad showed Hailee Steinfeld, who was 14 years of age only when the photo was shot, in a potentially hazardous situation sitting on a railway track, we concluded the ad was irresponsible and in breach of the code in showing a child in a hazardous or dangerous situation.” Tudo se resume numa questão de segurança. Lógico: se é proibido caminhar pela via-férrea, também o é sentar-se! Ambas configuram uma “hazardous or dangerous situation”. A publicidade não deve dar maus exemplos!
Esta proibição lembra o anúncio “Girl”, da Sure/Rexona (duvido que seja possível publicar o vídeo). A mesma ASA proibiu este anúncio em que três adolescentes dançavam no banco de trás de uma carrinha sem cinto de segurança. A jurisprudência é a mesma. Não se brinca nem com a ordem, nem com a segurança, sobretudo, quando estão em causa os nossos filhos. Censura ou zelo?
Em democracia, convém ter cuidado com o acto de proibir. Pode ser “hazardous or dangerous” para a liberdade de expressão e desarmar a nossa indignação face a actos tais como a queima ritual de livros e a vingança colectiva de caricaturas. O lápis que endireita as linhas tortas teima em continuar nas mãos do poder. Em nome da solidez, da segurança e da realidade. A contramão de Bauman, Beck e Baudrillard.
Marca: Rexona / Sure. Título: Girl. Agência: Mcconnells. Reino Unido, Junho 2008.
O poder da lingerie
No artigo “A mulher, o homem e objecto” avancei que “a figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários”. Acentuar-se-ia, em contrapartida, a visibilidade do corpo do homem objecto. Convém ressalvar que existem segmentos do mercado em que o recurso ao corpo feminino não só se mantém como, o que é mais significativo, se renova. É o caso da lingerie, associada a marcas como Victoria’s Secret, Intimissimi, Blush e, especialmente, Agent Provocateur. O corpo da mulher continua exposto, mas cada vez menos como um objecto. As categorias construídas por Erving Goffman (1977) para caracterizar a imagem da mulher na publicidade dos anos sessenta (mulher escondida, mulher longínqua, mulher submissa, mulher dócil, mulher brinquedo, mulher jogadora) não bastam para abarcar a realidade actual. Silvana Mota-Ribeiro acrescentou, entretanto, a categoria “mulher erótica e disponível”. Mas estou em crer que, nos tempos que correm, também já não é suficiente. Anúncios como os da Agent Provocateur confrontam-nos com uma imagem que transcende a mulher erótica e disponível. Erótica, sem dúvida, mas insinuante, provocante, ousada, conquistadora, poderosa… E sensual! Não se vislumbram sinais de disponibilidade expectante no anúncio Proof em que Kylie Minogue monta um “touro de rodeio”. A mulher toma a iniciativa, age e mostra-se pronta a continuar a agir e a segurar as rédeas.
Marca: Agent Provocateur. Título: Proof. Agência: Cdp Travissully. Reino Unido, Janeiro 2002.
Neste tipo de anúncios, a passividade pende para o lado masculino: o homem surge intermitente, secundário, suspenso, de cócoras, a jeito para uma excitante vergastada (anúncio Silvia Demitrova). A cavalo ou a pé, com ou sem chicote, a mulher liberta-se, em todos os sentidos e em todas as orientações sexuais, incluindo a homossexualidade. Como é apregoado no respectivo site, “a Lingerie Agent Provocateur é uma gama de criações (…) destinada a intensificar os prazeres da vida e desbloquear os seus desejos mais íntimos”(http://www.agentprovocateur.com/lingerie.html).
Marca: Agent Provocateur. Título: Silvia Demitrova. Sem país, Outubro 2011.
Pode-se contra-argumentar que estamos perante um caso muito particular. A Agent Provocateur é uma marca que foi criada em 1994 por Joseph Corré e Serena Rees. Ora, Joseph Corré é filho de Viviane Westwood, reputada estilista, e Malcom Mclaren, empresário da banda Sex Pistols, ambos pioneiros do movimento punk. Uma conjugação, extraordinária, de sensibilidade e irreverência. Mas, de facto, não se trata de um caso isolado confinado à Agent Provocateur. Nem sequer ao segmento da lingerie. O fenómeno abrange outros domínios… Até o podemos surpreender num anúncio de sensibilização dedicado à promoção do vegeterianismo (Veggie Love)!
Anunciante: PETA. Título: Veggie Love. Agência: Peta People For The Ethical Treatment of Animals. Direcção: Chris Hooper. EUA, Março 2009.
Elas cavalgam como amazonas, libertam os desejos como sereias e mordem como vampiros (anúncio Fleurs du Mal)! Em suma, uma subversão dos princípios da dominação masculina (Bourdieu, 1998). Enfim, uma coisa é um anúncio, outra a realidade que o circunda. O anúncio Proof foi, por exemplo, proibido em vários países, tornando-se, paralelamente, um sucesso viral. Nem tudo o que luz é tolerado pela “sociedade oficial”.
Marca: Agent Provocateur. Título: Fleurs du Mal. Agência : Epoch Films. Direcção: Justin Anderson. França, Outubro 2011.
Bourdieu, Pierre (1998), La domination masculine, Paris, Ed. du Seuil.
Goffman, Erving (1977), « La ritualisation de la feminité », Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 14, pp. 34-50
Mota-Ribeiro, Silvana (2005), Retratos de mulher, Porto, Campo das Letras.




