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Eu, a IA e o Ninho

Em Prado modernizante

Deixei há décadas de ser um Homo academicus. Apenas um Homo sapiens ludens, com costelas de Homo aestheticus e, naturalmente, de Homo vulgaris. Avesso a “revisões sistemáticas da literatura”, “estados da arte”, “modelos de análise” e “planos do método”, não me sobra paciência nem tempo para vénias redundantes, imaturidades apressadas e produtos descartáveis.

Gosto de me perder em explorações, desvios e, caso disso, recuos. Oscilo entre as partes e os todos, com a intuição e a imaginação como remos e velas. As pistas, as achegas e as leituras escolho-as a dedo. Quando acontece enganar-me, adquiri um mecanismo biológico de alerta: começo a bocejar. Prefiro adormecer e sonhar a acumular referências e citações.

Motiva-me mais aprender do que comunicar. Nada se perde: o que é bem pensado já o foi por outros ou sê-lo-á. Não obstante, publiquei acima de uma centena de textos, quase todos a pedido de outrem. Os da minha iniciativa coloco-os, de preferência frescos, no Tendências do Imaginário, um arquivo com uma dupla vantagem: menos formalidades e mais consultas. Aposentado, a investigação é um lazer, sem metas, métricas ou necessidade de reconhecimento. Trata-se de um defeito de estimação, com rugas e barbas.

Esta autossuficiência ostensiva tem, contudo, pés de barro. Faltam interlocutores. Talvez por défice de rede ou corrente: não me encosto, nem sirvo de encosto. Este isolamento não é propício à lucidez: criar sem dialogar arrisca a ilusão.

Acompanham-me dois parceiros: a Almerinda Van Der Giezen, paciente, atenta e criativa, com quem me atardo ao telemóvel, e o meu filho Fernando, que, embora renitente e intermitente, mas crítico e inspirador, me vai aturando. No que respeita a troca de ideias, o contorno (amigos e colegas) parece mumificado, com um ou outro parasita.

Quanto ao Tendências do Imaginário, funciona como um buraco negro. São Francisco de Assis e Santo António faziam sermões aos pássaros e aos peixes. Eu não sei para quem escrevo. Neste momento, o blogue soma 1 519 865 visualizações e 646 378 visitantes; só 1302 comentários, menos de 2 por 1 000 acessos. Santo Antão retirou-se para o deserto e atraiu multidões. Eu refugiei-me num blogue com “seguidores” afónicos.

Acresce a IA. Sempre disponível, bem informada e educada e bastante bajuladora. De vez em quando, fabula. Mas os meus colegas e eu próprio também nos enganamos. Pior, induzimos em erro com outra autoridade. “Errar é humano”, por que não maquínico?

Inicialmente, a IA aprendia com o conhecimento humano, agora tende a ser cada vez mais a sua própria fonte. “Autointoxica-se”, numa espécie de “incesto digital”, que promete degenerescência. Seja como for, convém saber formular as perguntas e não se contentar com a primeira resposta. Desafiada a reconsiderar, aprofundar, especificar, alargar ou procurar alternativas, a IA costuma corresponder. Contrariada, até pode surpreender positivamente. Enfim, costuma empenhar-se especialmente quando pressente que pode aprender connosco.

 A Academia.edu e a Almerinda pediram, entretanto, à IA para comentar alguns dos meus textos. O resultado revelou-se admirável. E pioneiro: que recorde, nenhum dos meus textos justificou, até à data, um comentário da mesma envergadura. Talvez por serem insípidos ou indigestos, eventualidade que não demoveu o algoritmo.

Em 2019, escrevi dois textos dedicados à freguesia de Prado, em Melgaço, no âmbito do projeto Quem somos os que aqui estamos?: o primeiro, “Prado. População e estilos de vida” (no livro Quem Fica, pp. 110-113), propõe um balanço da evolução demográfica; o segundo, “Prado subjectivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, esboça um balanço das mudanças socioculturais (não chegou a ser publicado).

O texto “O egomundo e a pavimentação da vida”, uma ressonância abreviada do “Prado subjetivo…”, visa resgatar a sensibilidade do autor e a pulsação anímica dos fenómenos abordados. O quarto e último texto corresponde aos comentários que suscitou à IA.

Coloco os dois primeiros texto, sobretudo, para arquivo. Para apreciar o comentário da IA, importa (re)ler “O egomundo e a pavimentação da vida”.

Texto 1: Prado. População e estilos de vida. 2019

Texto 2: Prado Subjetivo: Metamorfoses de uma freguesia modernizada. 2019. Não publicado

Texto 3: O egomundo e a pavimentação da vida. Tendências do Imaginário. 2019

Texto 4: Comentários da IA, em diálogo com Almerinda Van Der Giezen, ao artigo “O egomundo e a pavimentação da vida”. 2025

As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

A. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Entre os primeiros temas a surgir, as Termas do Peso no início do século XX foi dos últimos a ser adotado. Apesar do inegável interesse, pela carga histórica, mas também como promessa para o futuro, receava-se que se revelasse demasiado difícil. Ao contrário dos outros temas, não se tratava de encenar um evento ou uma ação, mas um ambiente, que, por sinal, se repartia por cenários distintos: as fontes, o balneário, os hotéis, as festas, os bailes, os serões, os passeios…

O tema acabaria por vingar graças a vários argumentos decisivos.

B. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Num início do Século XX de indigência e precariedade, as Termas do Peso constituíam um reduto de luxo, hedonismo e elegância reservado à elites, visitantes mas também locais, onde se ensaiavam iniciativas de progresso e, até, de vanguarda. Recorde-se a criação, em 1912, da empresa de transporte passageiros entre Melgaço a Valença e, em 1913, do cinematógrafo, ambos pelo Cícero Cândido Solheiro, “brasileiro” empreendedor e visionário.

Inestimável embaixadora do concelho, a estância termal atraía pessoas, muitas ilustres, que conhecedores, quando não estudiosos, do património local o divulgam. Não é só o mundo que vem a Melgaço, Melgaço também corre o mundo. Este duplo efeito de atração e expansão ainda não se dissipou por completo. Ainda sensibiliza muita gente, por via direta ou indireta. Nem todas as brasas se reduziram a cinzas, persistem, por experiência própria ou por contágio, fagulhas que podem tornar-se centelhas. Recorde-se, por exemplo, Manoel de Oliveira e o filme Viagem ao Princípio do Mundo, estreado em 1997. As memórias podem revelar-se mais resistentes do que as paredes do hotel Rocha.

C. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município. Detalhe

Mas a história das Termas do Peso não se restringe aos visitantes. Convoca, também, os residentes que as promoveram, como o António Ranhada, ou que, em elevado número, as frequentaram, principalmente nos anos sessenta e setenta. Impôs-se como um local de encontro, convívio, lazer e desporto que deixou marcas indeléveis.

Permito-me um parênteses com um testemunho pessoal para ilustrar a influência das termas na vida das pessoas.
Enquanto jovem, frequentava regularmente as termas: jogava mini golf, ténis ou patela, andava de barco, convivia e pasmava a observar a vegetação, as trutas, as libelinhas e os meus semelhantes. Assisti, ainda, aos bailes no salão devoluto do Grande Hotel do Peso. Tive, assim, acesso a atividades invulgares numa sociedade rural.
Íamos ao Peso em grupo por atalhos através dos campos. Pelo caminho, fazíamos questão de provar as uvas e antecipar a vindima. Tínhamos muito respeitinho a uma gruta que considerávamos um refúgio do Tomás das Quingostas.
Acontecia aventurar-me só com os meus patins imprudentes, da Serra ao Peso, pela estada de alcatrão muito liso. Sempre a descer, sem parar. A não ser para um ou outro tombo. Nem sequer as “carreiras”, que em algumas curvas ocupavam quase toda a passagem, me inibiam. Numa queda, em Bouça Nova, quase afocinhei num tanque de água.
O tio Nino era diabético. As águas não podiam faltar em casa. No verão, colocadas na mina, misturavam-se com vinho. Servia como refresco. Uma figura típica de Prado, a Vera, uma idosa solteira dedicava-se ao transporte de garrafas de águas a pedido. Ainda se conta que um dia um par de malandros lhe deu boleia num carrinho com rodas de rolamentos. Radiante, acenava a anunciar: “Cá imos (caímos)!”.
Na garagem do hotel Rocha, fiz, em 1975, um dos meus primeiros e últimos comícios políticos e no café Internacional festejámos a vitória nas eleições. Apareceu o responsável pelo partido rival que, com fair-play, fez questão de nos felicitar demorando-se a confraternizar. Naquele tempo, os cafés do Peso constavam entre os mais frequentados do concelho.
O meu avô paterno, Avelino, foi quase toda a vida cozinheiro chefe no hotel Rocha. Contava, a brincar ou não, que quando havia demasiados comensais até às latas de ervilhas se recorria na cozinha. Quando, à noite, regressava a pé do Peso aos Moinhos, comentava-se que cheirava bem, cheirava, naqueles tempos de carestia, a comida boa!
A casa onde cresci comprou-a o meu avô materno, Amadeu, ao Cícero, figura incontornável das termas no início do século XX, entretanto com casa no Peso, a casa da Dona Angelina. A casa era, portanto, duplamente de “brasileiro”: mandada construir por um e comprada por outro.
Ainda me lembro do leilão, muito participado, do mobiliário do Grande Hotel do Peso. O meu avô, oportuno, aproveitou para renovar um quarto que eu viria a ocupar; arrebatado, arrematou um lote de várias dezenas de lavatórios. Atafulharam anos a fio uma das divisões do rés-do-chão.
É assim! Quando se desfia o passado, tudo se enrosca de tal feição que resulta difícil escapar à teia que se avoluma e adensa. Cada um tem o seu próprio percurso, mas no que respeita a sentir o Peso nas veias, estou muito longe de ser um caso isolado.
D. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Outros motivos contribuíram para a eleição do tema.

Antes de mais, a manifesta adesão por parte das juntas da freguesia de Paderne e do Agrupamento das Freguesias de Prado e Remoães. Tratava-se de uma condição indispensável, tanto mais que a missão se apresentava exigente e complicada.

E. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

A estância termal do Peso comporta uma importância atual estimável enquanto promessa para o futuro. Há tempos que o Município almeja a sua revitalização económica e social. A reabilitação e ampliação do Grande Hotel do Peso e a tendência presente para o incremento do turismo termal podem concorrer para esse desígnio. A inclusão do tema no Cortejo Histórico assinala simbolicamente esta aposta do Município. O estudo de Antero Leite e Susana Ferraz, “O edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço)” ( Boletim cultural, 2007. N.º 6, p. 109-136), associado a um projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, conclui com esse repto: O Complexo Termal do Peso, como outras estâncias, aguarda um plano de revitalização centrado não só na reabilitação dos edifícios dos seus hotéis e na exploração das suas águas mas também considerando outras valências. A animação deverá ser uma delas tirando partido da sua envolvente natural e patrimonial”. Há lugares que, como a Bela Adormecida, parecem estar à espera de algo ou de alguém para despertar.

F. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Dois motivos suplementares reforçaram a adesão ao tema. Por um lado, existe imensa documentação, sobretudo fotografias e artigos de jornais, sobre as termas no início do século XX, o que facilitava a caraterização dos figurantes e dos ambientes. Por outro lado, podia-se contar com a colaboração do Válter Alves, que acabara de escrever um artigo sobre as termas para publicação no próximo Boletim Cultural. Fonte inesgotável de informação, o Válter Alves foi o autor do texto para a apresentação durante o Cortejo, bem como da galeria de imagens das termas no início do século XX para o presente artigo.

Galeria de imagens das Termas do Peso selecionadas por Válter Alves

Tanto argumento favorável não diminuiu significativamente a dificuldade da missão. Valeu a mobilização e o engenho das juntas e das gentes da freguesia de Paderne e do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. Merece especial menção a forma como souberam envolver entidades locais tais como a APPACDM, o Centro Hípico de Melgaço e associação Noites Gaiteiras.

Um pequeno incidente ocorreu durante o cortejo. Um dos cavalos das carruagens evidenciou sinais de nervosismo. Por precaução, a apresentação foi abreviada, ficando por apresentar algumas cenas. Por exemplo, a distribuição de águas do Peso pelo público assistente.

G.. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Houve um pouco de quase tudo: carruagens, cavalos, uma maquete da fonte primitiva, empregadas fardadas a rigor e aquistas trajados à moda da Belle Époque. Ao todo, cerca de 60 participantes.

 De um modo geral, o cortejo valorizou o acompanhamento musical. Abriu com música medieval e fechou com uma valsa. A música era um dos ingredientes da vida das termas, com recurso a orquestras (chegaram a coexistir várias em Melgaço) nas festas e nos bailes e ao piano e ao canto nos serões. Intentou-se formar uma pequena orquestra, pedindo a cedência de instrumentistas a bandas filarmónicas dos concelhos vizinhos. Mas o pico das festas coincide com o 10 de agosto. Não sobrava trompete, trombone, saxofone, tuba ou bombo. Contratar uma charanga na Galiza era hipótese que comportava uma despesa excessiva. Chegou a pensar-se numa voz feminina a cantar a solo e à capela um fado. Depressa se descartou a ideia: com o ruído de fundo de um desfile ao ar livre, pouco ou nada se ouviria. Adotou-se uma solução de recurso: numa das carruagens, uma coluna de som emitiria música da época.

H. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Mas nada nos impede de sonhar. Mergulhemos na atmosfera de um dos hotéis do Peso na primeira metade do século passado.

“Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas” (Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa”, texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013; retirado de Melgaço, entre o Minho e a Serra (https://entreominhoeaserra.blogspot.com/), blogue de Válter Alves: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2013/05/1948-um-qualquer-dia-no-hotel-ranhada_14.html).

I. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Imaginemo-nos encostados a um canto do salão, eventualmente com um copo na mão e um cigarro nos lábios. A noite promete: as damas, prendadas e elegantes, entregam-se ao piano e ao canto. Escolhem, porventura, canções da Ercília Costa, “a santa do fado”, atriz, compositora e fadista, nascida em 1902, que alcançou um sucesso notável, inclusivamente no estrageiro, com digressões em França, nos Estados Unidos e no Brasil.

“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).

Com um convite ao sonho, despeço-me.

Seguem:

  • Uma galeria com fotografias de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
  • O texto da autoria de Válter Alves que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
  • Um recorte, “As origens do hotel Ranhada, com uma nota biográfica dedicada a António Ranhada;
  • Um recorte, “O Animatógrafo em Melgaço”, com uma nota biográfica dedicada a Cícero Cândido Solheiro;
  • Três fados de Ercília Costa.

Galeria de imagens: As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

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As Termas do Peso no início do século XX. Texto para a apresentação durante o cortejo

Viajamos até ao Pezo do Minho na viragem para o século XX. Era por este nome que, fora da terra, era conhecido o Peso, onde em 1884 tinha sido descoberta uma nascente de águas termais com caraterísticas medicinais singulares. Rapidamente, a boa nova se espalhou pela região e pelo país e a chegada de doentes à procura destas águas milagrosas não se fez esperar.

A descoberta destas águas mergulhou o Peso numa era dourada durante várias décadas, tornando a estância num oásis de opulência, elegância e glamour, que contrastava com as dificuldades no resto do concelho.

A necessidade de hospedar um número crescente de aquistas levou ao surgimento de várias unidades hoteleiras. Depois do Ranhada, outras foram construídas, entre as quais o Hotel Quinta do Pezo, o Alto Minho e o Rocha, e mais tarde, a Pensão e Hotel Boavista.

Pelo Peso, nas temporadas termais, era frequente encontrarmos governantes, industriais, magnatas, fidalgos, artistas, ou distintos membros da comunidade científica das mais reputadas academias deste país. Nomes como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, na área da etnografia, o pintor António Carneiro, ou Aurélio da Paz dos Reis, pioneiro do cinema em Portugal, entre tantos outros, eram presença assídua. A afluência de académicos deste calibre ao Peso tornava as temporadas termais, épocas de intensa produção científica. Algumas das mais importantes recolhas arqueológicas ou etnográficas no concelho de Melgaço datam desta época e eram realizadas em passeios exploratórios a locais como Paderne, São Gregório ou Castro Laboreiro. Entre os tratamentos, os passeios a pé, as tertúlias, o Peso também se tornou uma espécie de Academia.

O Peso do início do século XX representava a procura da cura das maleitas, o glamour, a ostentação, as festas mas também promovia eventos de solidariedade a favor das instituições melgacenses.

A partir de meados do século XX, esta era dourada das termas do Peso começou a perder a luz, entrando numa sombria decadência com uma queda abrupta da procura destas águas. A inexistência de caminho de ferro era uma das principais fragilidades.

Nos anos oitenta do século passado, fecharam os últimos hotéis históricos e o Peso foi sendo invadido por uma agonia e uma saudade dos seus tempos dourados. Hoje, o Peso procura um novo futuro onde encontre novamente a prosperidade.

Válter Alves

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Recorte: As origens do Hotel Ranhada

Recorte de Edmundo Correia Lopes. Melgaço: Estância Termal. Porto: Edição da Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas, 1949, pp. 65 a 67

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Recorte: O Animatógrafo em Melgaço

Recorte de O Animatógrafo em Melgaço, do blogue Melgaço, do Monte à Ribeira, de Ilídio Sousa: https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-animatografo-em-melgaco-130645

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Fados de primórdios do século XX: Ercília Costa

Ercília Costa – Fada da Alfama. O Fado é Coisa de Mulher (II). Early 20th Century Portuguese Female Fado Chants. Edição de 2019
Ercília Costa – O meu Filho. Arquivos do Fado – As Fadistas de Lisboa (1928-1931) (Vol 3)
Ercília Costa – Fado Dois Tons. Arquivos do Fado – Ercília Costa Com Armandinho (1930)

O baloiço

O projecto Quem somos os que aqui estamos surgiu no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Visa o estudo das freguesias de Melgaço: iniciou em 2018, com as freguesias de Parada de Monte e Cubalhão; em 2019, foi a vez das freguesias de Prado e Remoães. O projecto prevê, para cada freguesia, as seguintes actividades e resultados: fotografias faladas; uma exposição de fotografia documental; um catálogo dedicado à exposição de fotografia documental; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; uma exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares; e uma publicação (um livro).

“Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto é coordenado por Álvaro Domingues, tem produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante”.

O Daniel Maciel escolheu para uma das fotografias faladas O Baloiço, com Celina Ribeiro, por sinal, minha tia. Comprova-se que houve mulheres emigrantes que gostaram de viver no estrangeiro; regressaram a Portugal um pouco contrariadas. Mas existem outras fotografias faladas, igualmente interessantes, na página Lugar do Real: http://lugardoreal.com/.

Em Julho de 2019, foi lançado o livro Pedra e Pele respeitante às freguesias de Parada do Monte e Cubalhão. No dia 20 de Outubro, foi a vez do livro Quem fica, da autoria de João Gigante, com textos de Álvaro Domingues e Albertino Gonçalves. Segue a fotografia falada O Baloiço e uma pequena galeria de fotografias do João Gigante.

O Baloiço, com Celina Ribeiro. Produção: AO NORTE. Agosto 2019.

O egomundo e a pavimentação da vida

Figura 1. Lugar da Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues.

Este artigo é estúpido. Levanta problemas que não existem.

Acreditei inventar uma nova palavra, por sinal, óbvia: egomundo. Mas em Coimbra, uma empresa tem esse nome. Egomundo é o antípoda do mundo colectivo. Remete para a experiência, a memória e o sentido da vida de cada pessoa. É um cúmulo de subjectividade. Uma perspectiva subjectiva de um ponto de vista subjectivo. Nada de consensos, tribalismos ou projectos sociais. Sem retóricas religiosas, científicas e técnicas, o mundo gira em torno do egocentro.

Tenho-me deslocado com alguma frequência à minha terra. No limiar do tempo e do espaço, deixo os olhos e a memória pastar. Demando os sítios onde costumava jogar ao espeto e ao pião. Alcatrão, cimento ou empedrado. Em centenas de metros em redor, é materialmente impossível jogar ao espeto ou ao pião. Terra, só nos campos. Não sendo terra batida não dá para jogar. O cimento e o alcatrão conquistaram tudo. Mesmo nas povoações, a estrada não tem valetas. Não cresce uma única planta. Na Serra, local de convívio público da freguesia, a maré negra e cinza cobriu tudo, até trepou os degraus do cruzeiro. Estar sentado no passeio proporciona o conforto de uma lagartixa numa eira de basalto. O ar aquece de baixo para cima. Assim o impõem o trânsito e a velocidade. Não admira que as estradas se alarguem até ao último milímetro. Os carros também se alongam: um Volkswagen carocha media 1.54 metros de largura; o Golf mede 1.799. Dois Golf que se cruzam, carecem de mais 1.03 metros de estrada. Na minha freguesia, tudo quanto é estrada, caminho ou largo foi asfaltado ou cimentado. Na minha infância, apenas a estrada nacional era asfaltada.

Figura 2. Terreiro. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues. Público, 28/07/2019: “Terreiro”.

O Terreiro era o “campo de futebol” mais à mão. Ficava no caminho da escola e da catequese. Térreo, era um regalo para o jogo da bola. O cruzeiro delimitava uma baliza e uma pedra a par de um pilar das escadas da Igreja, outra. Primeiro, empedraram-no, para mal dos nossos joelhos e cotovelos. Acabaram por o asfaltar e cimentar nas bordas. Porquê tamanha intemperança pavimentar? À velocidade e à circulação, temos que acrescentar um outro cavaleiro do asfalto: o estacionamento. A terceira aresta do triângulo rodoviário: velocidade, circulação e estacionamento. Asfaltou-se todo o terreiro para facilitar o estacionamento, o repouso do motor. O asfalto e o cimento são materiais invasivos. Alastram e grassam. Acontece-lhes engordar. Na minha casa de infância, para entrar na loja convinha subir um degrau; agora, convém descer.

O alcatrão tem muitas virtudes. Quando o sol queimava, fazia esferas com o alcatrão derretido. Não davam, porém, para “jogar aos berlindes”. O pavimento da estrada era perfeito para andar de patins. Com pouca gravilha, areia e cascalho, ficava polido, quase sem atrito. Os dois quilómetros sempre a descer até às termas do Peso eram uma tentação. Dei quedas dignas do cinema mudo.

A minha freguesia, para além de terra, também tem água. Muita água, a condizer com o nome: Prado. Em criança, via-se e ouvia-se cantar a água por todo lado. Agora, nem se vê, nem se ouve; adivinha-se. Dava jeito uma vara de detecção de água subterrânea. Tudo quanto é rego ou poço foi encanado ou tapado, sobretudo, com cimento. A minha casa de infância era contornada por cursos de água em três frentes. A cerca de 70 metros, a levada proveniente do ribeiro dividia-se em três regos: um prosseguia para o lugar da Corredoura; outro passava por debaixo do caminho e, após uma pequena cascata, por baixo da estrada rumo à Serra; o terceiro mergulhava uns quatro metros num “tubo” de granito e reemergia do outro lado da estrada a uma altura de quatro metros noutro “tubo” de granito rumo à Quinta dos Governadores. Tudo foi encanado e tapado, salvo uma dezena de metros destinados a uma espécie de arremedo de lavadouro público. Já não se enxergam nem girinos cabeçudos, nem “alfaiates”. Nestes cursos de água, refresquei os pés no Verão, pilotei barcos, uns de casca de pinheiro, outros de madeira, com mastros de cana e velas de plástico. Fitava, quase hipnotizado, a água corrente à cata de uma truta. Tudo tapado! Até a “arquitectura granítica dos vasos comunicantes” foi cimentada. Para quê? Para alargar a curva. A uns sete metros da entrada da casa, do outro lado da estrada, na base de um muro alto de saibro, uma mina de água, cuja entrada escondia cristais de quartzo ferruginoso. Ali, colocávamos a refrescar as garrafas de bebidas. Munidos com uma lanterna, arriscávamos explorar a mina. Às vezes, éramos obrigados a parar: o tecto da mina tinha desabado. Nestas circunstâncias, subia ao campo que se situava por cima da mina. Lá estava um buraco enorme provocado por um aluimento de terras. Como medida segurança, a entrada da mina foi cimentada.

Figura 3. Casa de infância. Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Gonçalo Dias. Público 28/07/2019: Micro-retrato de um país “corrente de ar” pela vida de duas freguesias.

A terra e a água, esta terra e esta água, fazem parte da nossa memória e identidade. Por que motivo se enterra a água e tapa a terra? Não é, decerto, para evitar acidentes, a exemplo do sacristão que, durante o compasso, caiu com a cruz num curso de água que atravessava o caminho ou da mulher que se afogou num rego. É verdade que se ganham centímetros nas estradas e, porventura, eficácia na distribuição da água.

A expansão do asfalto aumentou a velocidade e reforçou a segurança dos automóveis. E a insegurança dos peões. Sem passeios, existem bermas onde ninguém ousa andar. Na curva da Serra, uma motorizada partiu uma perna a uma pessoa e um idoso foi atropelado mortalmente por um automóvel. Ambos caminhavam pela berma. Um motão entrou pela loja dentro!

Acessibilidade, velocidade, expansão, segurança e eficácia são trunfos do baralho da modernidade materialista (o presente inclinado para o futuro). Mas há mais. Desviando o olhar do espaço público para o espaço privado, constata-se que, junto às moradias, quase todo o solo está pavimentado. Com pedra, mármore, mosaicos, cimento e outros pavimentos. Nada de lama, poças, erva ou bicharada. Tudo asseado e de fácil manutenção. Alguém imagina quanto custa cuidar de um relvado ou de um canteiro de flores? Dar vida à vida dá trabalho. Acrescentam-se, assim, mais duas vantagens a favor da pavimentação: a higiene e a facilidade de manutenção.

A pavimentação da terra e a canalização da água conheceram um franco crescimento nas últimas décadas nos espaços públicos e privados. Autoestradas, caminhos, praças, recintos, nada escapou. Há quem diga que é uma das conquistas de Abril! Seria interessante ter acesso a fotografias de satélite com a evolução da pavimentação em Portugal.

Figura 4. Árvores crescem na pedra. Moledo do Minho. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Pavimenta-se quase tudo. Cobre-se a terra, a pedra e a água. Por enquanto, não se colocam tectos no céu, apenas fios de electricidade onde se enredam os papagaios de papel (ver figura 2). Esta pavimentação do mundo impede a vida, apesar da ilusão do crescimento de árvores na pedra, no cimento ou do alcatrão (ver figura 4).

Esta é a nossa ecologia. Embalsamadores da natureza envolvente, que autoridade nos resta para protestar contra deflorestação da Amazónia, o aquecimento global ou a plastificação do oceano Pacífico?

A pretexto do Terreiro, em Prado, Álvaro Domingues escreve:

“Contrariamente à lentidão do tempo longo no passado pré-moderno, os localismos só sobrevivem na velocidade rápida exigida pela sua franca exposição a tudo o que vindo de onde vier, mexe e circula” (Terreiro, Público, 28 de Julho de 2019: https://www.publico.pt/2019/07/28/opiniao/ensaio/terreiro-1881329).

Prado está inclinado para a frente. É um cata-vento de oportunidades que cavalga na crista dos limites.

E o meu egomundo, cúmulo de subjectividade, como anda? Introspectivo, nostálgico e birrento. Como o Angelus Novus (1920), de Paul Klee, avança às arrecuas com os olhos postos nas ruínas. Anda com vontade de não chegar. “Y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se há de volver a pisar (…) Todo passa y todo queda, pero lo nuestro es passar, passar haciendo caminos, / caminos sobre la mar” (Antonio Machado, Proverbios y cantares, XXIX / XLIV, Campos de Castilla, 1912).

O anúncio Release Me, da Saab, também é um poema: de vitalidade e liberdade. Podia tê-lo colocado no início do artigo.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007.

Antonio Machado. Proverbios y cantares.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar

Hei-de ir a Melgaço!

Museu de Cinema de Melgaço.

Acontece, de 29 de Julho a 4 de Agosto, em Melgaço, uma nova edição dos Filmes do Homem, que já não se chamam Filmes do Homem mas MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival. Uma castração simbólica politicamente correcta. Tenho gosto e orgulho em participar, desde o início, nesta iniciativa que extravasa, ao nível da cultura e da arte, o festival e o concelho de Melgaço.

Segue:

  1. O vídeo de promoção;
  2. O programa;
  3. O catálogo;
  4. Um excerto do catálogo com um texto da minha autoria sobre Prado, a minha freguesia natal.
MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival 2019. Vídeo.
MDOC 2019. Programa. Carregar na imagem para aceder ao programa.
MDOC 2019. Catálogo. Carregar na imagem para aceder ao catálogo.
A. Gonçalves. Prado, população e estilos de vida. Carregar na imagem para aceder ao texto.

O regresso às sombras húmidas

Monte de Prado. Melgaço.

Monte de Prado. Melgaço.

Esta noite não me apetece fazer serão. Como o vinho, tenho um leve sabor a velho! A exemplo do Marcel Proust, tive uma epifania. Vivaldi e Bach lembraram-me um refúgio de infância. A 300 metros da casa do meu avô, no meio da floresta, no ribeiro de São Lourenço, escondem-se uma cascata, as ruínas de um moinho e uma singela represa. O poço, fundo, não fossem as sombras, dava uma bela piscina. O espaço é coberto pela vegetação: por todos os lados e por cima. A luz infiltra-se, tímida, por entre os ramos dos carvalhos e dos pinheiros. Lembra os vitrais das catedrais góticas. É um retiro isolado e deserto. Aventurei-me algumas vezes só, outras, na companhia dos homens e das mulheres que limpavam, religiosamente, ano após ano, os regos. Uma dúzia de pessoas. À medida que as sacholas se aproximavam do poço, as cobras multiplicavam-se. Os lagartos fitavam-nos agarrados aos troncos das árvores. Há cinquenta anos que não vou à cascata sombria do poço fundo. Hei-de voltar! Ao lugar das Mourinheiras, “povoação de mouros”, terra assombrada. Com o portátil ao tiracolo e os headphones do meu rapaz na sacola. Para ouvir Vivaldi e Bach, enquanto desengorduro o cérebro: será o ser humano mais destro a simbolizar a morte do que a simbolizar a vida?

J.S. Bach. Keyboard Concerto Nº 5 In F Minor Bwv1056. V. Tomb Raider.

J. S. Bach. Well-Tempered Clavier, Book I: I. Prelude and Fugue in C major, BWV 846.

A. Vivaldi. Largo from Winter from The Four Seasons. By Yo-Yo Ma.

Concerto For Guitar And String Orchestra In D Major 2 st