Pausa
Não é fácil encontrar a serenidade. Tudo nos excita, irrita ou deprime. Estes tempos fazem de nós umas baratas tontas ou umas lesmas arrastadas. Valha-nos a música! O Kit Kat da alma. Agora Chopin, logo Bach, depois Saint-Saëns…
Martha Argerich. Chopin: Piano Concerto Nº 1 in E minor, Op. 11. Ao vivo em Varsóvia em 2010.
A variação do mesmo
Aos emigrantes de Antuérpia
As estrelas anunciam uma quadra em que contos, cânticos, figuras e anúncios tendem a ser uma variação do mesmo. Saturados, os marcadores simbólicos natalícios cobrem quase tudo que é sentido. Ressalve-se, porém, que repetir não é, necessariamente, anular ou reverberar. A própria repetição do mesmo gera uma mesmidade distinta. Dez pessoas que se alinham, uma atrás da outra, em frente a um caixa multibanco formam uma fila, com as possibilidades e os constrangimentos que isso implica. Acrescente-se que a variação não é irmã gémea da repetição. Nada impede a variação de ser genuinamente única. Escute-se, por exemplo, Bach.
J. S. Bach. Goldberg Variations, BWV 988: I. Aria.
O anúncio polaco Talizman, da Allegro, é uma variação do mesmo. Contracenam uma criança e um velho. A fé e a ternura, tanta fé e tanta ternura, são os sentimentos nucleares da época. No entanto, o disco não está riscado. Outras pautas e outras vozes cantam o espírito de Natal. E ouvimos, encantados, o milagre, um milagre que nos apressamos a esquecer.
Marca: Allegro. Título: Talizman. Agência: Bardzo. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2017.
Exorcismos
O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)
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A Fuga dos demónios
Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387
No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714
À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).
Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.
Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.
2. Esqueletos vampiros
O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.
Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.
Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII
“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).
Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.
“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI
No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:
“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).
A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).
Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.
National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002
O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.
Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.
O self complexo
Para Charles H. Cooley, a identidade, enquanto looking glass self, constrói-se a partir das reacções, percebidas ou imaginadas, dos outros. A sociedade funciona como espelho, em que nos revemos e julgamos:
“Da mesma forma que ao vermos nossa face e roupas no espelho ficamos interessados neles porque são nossos, e satisfeitos ou não com eles se eles respondem ou não ao que nós gostaríamos que eles fossem; na imaginação nós percebemos na mente do outro algum pensamento de nossa aparência, maneiras, objetivos, ações, caráter, amigos e assim por diante, e somos afetados por isso de diversas formas” (Cooley, Charles H., 1902, Human nature and the social order, citado em Souza, Mariane Lima, 2005, Self semiótico e self dialógico: um estudo do processo reflexivo da consciência, Tese de doutoramento em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, p. 23).
Self refletido ou self dialógico? A identidade é construída mediante as reações dos outros ou é co-construída na interacção dialógica com os outros? Mikhail Bakhtin propõe a última perspectiva nos livros Marxismo e Filosofia da Linguagem (de ou com Volochinov, 1929) e Problemas da poética de Dostoiévski (1929).
“A ideia de self dialógico baseia-se na distinção entre o eu (o que conhece) e o mim (o que é conhecido) de William James, e na novela polifônica de Mikhail Bakhtin. O self não é mais centralizado e unificado, mas descentralizado e múltiplo. A dialogicidade ocorre entre posições do self que podem ser internas (eu enquanto homem, eu enquanto filho, eu enquanto profissional, eu como membro de uma comunidade) e externas (meu pai, meus amigos, meus colegas). As vozes estão em constante conversação, algumas vezes em conflito (Santos, Maickel Andrade dos & Gomes, William Barbosa, Self dialógico: Teoria e pesquisa (http://www.scielo.br/pdf/pe/v15n2/a14v15n2.pdf, acedido 29.06.2017).
Qual é o olhar que mais bem se ajusta ao anúncio polaco Masquerade, da Allegro? O self refletido, de Charles H. Cooley, ou o self polifónico e dialógico de Mikhail Bakhtin? Talvez um outro self das muitas teorias sobre a identidade e a interacção humanas: o “tábua rasa”, o mimético, o actor, o máscara, o agência… Todas estas identidades são ficções colectivas mais ou menos bem fundamentadas. Relevam em boa parte das profecias auto-realizadas apontadas por W. I. Thomas (comThomas, Dorothy Swaine (1928). The child in America. New York: Alfred A. Knopf). Identidade significa, etimologicamente, mesmidade: vem do Latim IDENTITAS, “a mesma coisa”, de IDEM, “o mesmo”, numa alteração da expressão IDEM ET IDEM, um intensificativo para IDEM (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/identidade/).

Alfred Schütz
Sejamos claros, existe mesmidade e unicidade. Acerca da mesmidade, estamos conversados. Sobre a unicidade, podemos socorrer-nos de Alfred Schütz (1962, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, Dordrecht, Martinus Nijhoff Publishers). Ao falar de tipificações, de seres tipificados ou “identificados”, Alfred Schütz contrapõe os seres apostrofados, ou seja, únicos. Se as identidades colectivas podem ser (re)construídas e reduzidas a partir de uma “caixa de ferramentas científicas”, as unicidades, os seres apostrofados, resistem à redução à série e ao mesmo; são labirintos infinitos com um emaranhado interminável de fios de Ariana.
O anúncio Masquerade dá-nos a mão e não a larga. Agarra-nos e toca-nos. Conhece, porventura, as nossas vulnerabilidades.
Marca: Allegro. Título: Masquerade. Agência: Bartek, Warsaw. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. Polónia, Março 2017.
Desenganos
O esquema adoptado por estes anúncios é corrente. Fabricam-se expectativas até à caricatura e remata-se com uma inversão de sentido bem humorada: os pais alheam-se da performance dos filhos; o avô, afinal, podia dispensar o inglês.
Estima-se em 95% os residentes do Reino Unido que falam inglês como primeira língua. Os restantes falam quase todos inglês como segunda língua. Existem, porém, minorias linguísticas. Por exemplo, as línguas da Ásia do Sul (2,7%) e outras línguas europeias tais como o italiano, o polaco, o grego e o turco (Fonte: http://www.bbc.co.uk/languages/european_languages/countries/uk.shtml). Se não me engano, para azar, ou sorte, do avô, os netos falam polaco como primeira língua. Ao aprender inglês, o avô não perdeu tempo (o anúncio é de uma escola de línguas). O inglês é a língua franca do planeta! No mundo, 942 milhões de pessoas falam inglês como primeira língua (339 milhões) ou como segunda língua (603 milhões). Menos, no entanto, que o mandarim, falado por 1 090 milhões de pessoas. O seguinte gráfico foi construído a partir da informação facultada pela Wikipedia, com base na edição 2015 do Ethnologue – SIL International (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_languages_by_total_number_of_speakers).
Dois ou três apontamentos: cerca de 13% da população mundial fala inglês como primeira ou segunda língua; o português ainda é a sexta língua mais falada no mundo; cerca de 11% da população mundial fala uma língua ibérica (português ou espanhol). Em suma, fica a impressão de que o inglês não é a língua do mundo; é, outrossim, a língua do poder no mundo.
Marca: Canal +. Título: Dads. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Abril 2016.
Marca: Allegro. Título: English. Agência: Bardzo Sp. z o.o. Warsaw. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2016.
Acima das possibilidades
Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.
Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.
Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.
Marca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.
Marca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.
A Besta
Os contos tradicionais nunca acabam, na pior das hipóteses, renascem. A boca do lobo persegue Capuchinho Vermelho há muitos séculos. Os dois, Capuchinho e o lobo, compõem uma moldura que envolve o nosso imaginário. Mudam-se os tempos, mudam-se alguns detalhes. Em fuga, o capuchinho, sanguíneo, não para de se desfazer. A crer nas imagens, levará muito tempo, uma eternidade, como a fome a desaparecer ou o Cristo de Velasquez a morrer, por causa dos nossos pecados.
Anunciante: Nações Unidas. Título: Hunger is a Monster. Agência: Platige Image. Direção: Marcin Filipek. Polónia, Outubro 2013.
Investidores
A Polónia precisa, declaradamente, de investidores. Será que, por cá, não sobra nenhum? Que tal uns profissionais qualificados? E iluminados, não precisam? Poupava-se em óculos de sol… Não deixa de ser curioso como neste anúncio se procede à distinção entre o investidor e o marialva. Reminiscências puritanas? Quem se dedica em demasia a si próprio e quem se distrai com prazeres descura os negócios… Mas nós, que tantas voltas demos ao mundo, podemos sussurrar um segredo aos polacos: investidores bons, mesmo bons, são os financeiros, os gigantes com tiques monopolistas e os ases da importação e da exportação. Há séculos que os governos nos ensinam isso. Os outros, as P.M.E., sem carimbo alfandegário nem assento na bolsa, essas que se “insolvam” e espalhem o empreendedorismo lusitano por toda a parte, incluindo a Polónia.
Marca: Malopolska. Título: The Winner. Agência: Rockandreel production advertising agency . Direção: Suzan Gizynska. Polónia, Abril 2013.













