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Chopin por Maria João Pires

Eugène Delacroix. Frédéric Chopin. 1838

À selecção de obras culturais aplica-se o princípio abdominal: é mais fácil alargar do que reduzir (AG).

Anunciei no último artigo uma seleção de obras de Frédéric Chopin. Mais vale cedo do que nunca. Retenho duas composições para piano: um noturno e uma sonata, interpretados por Maria João Pires. Dois é pouco, mas é mais que três. Assim vaticina a psicologia dos públicos. Colocam-se dois vídeos, visualizam um; colocam-se três, não visualizam nenhum.

Maria João Pires: Chopin – Nocturne No. 1 in B flat minor, Op. 9.
Maria João Pires: Chopin – Piano Sonata No. 3 – III. Largo (excerto).

O Pianista

Władysław Szpilman, o Pianista.

A besta não adormece, a besta nunca dorme (AG).

Władysław Szpilman “Władek” (1911-2000) é um pianista e um compositor judeu polaco. Trabalhava como pianista na rádio polaca, quando o recital do Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin, foi interrompido pelo bombardeamento alemão. Foram as pancadas do inferno. Sobrevive, miraculosamente, à guerra. O mesmo não sucede à família, deportada em Treblinka. Publicou em 1946 as suas memórias. O livro foi censurado pelos novos senhores da Polónia. As suas memórias serão reeditadas em 1998, volvidos 43 anos, com o título O Pianista. Tinha Wladyslaz Szpilman 87 anos. Dois anos após a sua morte, estreia, em 2002, o filme O Pianista, que o realizador polaco Roman Polanski dedica, inspirado no livro O Pianista, à vida de Wladyslaw Szpilman. Polanski nem sequer altera o nome do protagonista.

Comove o vídeo com Wladyslaw Szpillman a tocar, em sua casa, com 86 anos, o Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin.

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner. Decision 2046. 2004 (Live).
Zbigniew Preisner. Damage. Fatale. 1992.
Zbigniew Preisner. Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

Delírio

G2A. 2019.

De regresso a Braga, reencontro o Delírio. Tem bom aspecto! Fomos amigos. O delírio mais requintado é o delírio da intelligentsia. Com ou sem laços. Com uma varinha mágica na mão, o “intelectual” delira o mundo. No essencial, nada tenho a opor ao delírio. Não gosto, porém, quando o delírio alheio salpica a minha realidade.

Delirantes e vertiginosos, os videojogos ligam mundos: o nosso e o dos outros, dentro e fora do ecrã. A publicidade não hesita em reforçar esta propensão.

Marca: G2A. Título: You loose when you overpay. Agência: Change Serviceplan. Direcção: Szymon Pawlik. Polónia, Julho 2019.

Dança lenta

Gabriel Fauré e a esposa Marie Freniet, em 1889.

Fa freddo, fa molto freddo. Un froid de chien. Se helan los tomates en el huerto. Apetece enrolar-se e ficar amorrinhado a ouvir música. Clássica? A maioria dos visitantes do Tendências do Imaginário não aprecia. Mas vou insistir! É uma espécie de “serviço cívico”. Ontem, coloquei a Introduction et Rondo capriccioso en la mineur, de Camille Saint-Saëns, hoje cabe a vez ao seu aluno Gabriel Fauré. Dois compositores exímios no domínio das melodias e das harmonias.

Gabriel Fauré. Pavane pour choeur et orchestre, Op 50. 1987. Young Cracow Philharmonic Krakowska Młoda Filharmonia. 2013.

O mundo a seus pés

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Segundo Zygmunt Bauman, estamos cada vez mais líquidos. Uma liquidez, porventura, antártica: não paramos de dar cabeçadas em barcos e icebergues. Estamos mais líquidos, estaremos mais lúcidos?

Há seres do outro mundo. Têm o globo a seus pés. Estão por todo o lado e em sítio nenhum. São mutantes e cósmicos. Divino e diabólico, aparição e milagre, o futebolista é o semideus da nova mitologia. Está para além do humano, aos nossos olhos demasiado humanos. Awaken the phantom é um anúncio sofisticado e profético da Nike, com efeitos especiais impressionantes.

Aproveito para colar a música Victoria (2014) do compositor polaco Wojciech Kilar (1932-2013).

Marca: Nike Football. Título: Awaken the phantom. Agência: Wieden+Kennedy (Amsterdam). Direcção: Matthew Vaughn. Internacional, Agosto 2018.

Wojciech Kilar. Victoria. Angelus, Exodus, Victoria. 2014.

Filhos do Apocalipse

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Zdzislaw Beksinski

Em Portugal, no 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, ocorre uma espécie de inflamação da humanidade. Gente por todo o lado. Uma espécie de solstício de verão no calendário social. Um clímax da efervescência colectiva, votada ao esmorecimento dos próximos meses. É dia de festas; não é dia de trevas. Mas é de trevas que vou falar.

No último artigo, A Sereia Académica (https://tendimag.com/2018/08/13/a-sereia-academica/), figura uma pintura de HR Giger. Quem vê HR Giger, recorda Zdzislaw Beksinski (1929-2005), um dos principais, senão o principal, artista polaco contemporâneo. Classificou-se a si próprio, numa primeira fase, como barroco e, em seguida, como gótico. Não obstante, é um expoente da arte grotesca, o mais estranho e visceral que se pode conceber. As suas obras, além de desconcertantes, são tenebrosas. Na sua pintura, o morrer sobrepõe-se à morte, num mundo moribundo, sem remissão. Um mundo em que nem sequer a morte redime. As figuras, simultaneamente mortas e vivas, são amálgamas, fluídas e deformadas, de carne, ossos, ramificações e excrescências. O ser humano supera os objectos e as máquinas porque, para além da obsolescência, tem a sina de morrer, de ir morrendo. Passe a incongruência, está condenado a sobreviver, a penar, aquém e além, antes e depois da morte. A dilaceração estende-se aos animais e aos objectos: catedrais e prédios em ruínas; carcaças de carros, autocarros e tanques de guerra; cemitérios de objectos no calvário.

Zdzislaw Beksinski faleceu em 2005, esfaqueado até à morte por um vizinho a quem negou um empréstimo de cerca de 100 dólares. Foi um artista prolixo. A página da Wikiart inclui 707 obras. Beksinski fez questão em não dar título às suas obras, bem como resistiu ao mínimo contributo para a respectiva interpretação. A maior parte das suas obras não está datada. Segue meia centena de pinturas desordenadas e sem título. Um excesso de imagens arrepiantes, passíveis de gelar o riso do próprio diabo. Apesar do incómodo, vale a pena uma visita.

Pausa

Frédéric Chopin

Frédéric Chopin

Não é fácil encontrar a serenidade. Tudo nos excita, irrita ou deprime. Estes tempos fazem de nós umas baratas tontas ou umas lesmas arrastadas. Valha-nos a música! O Kit Kat da alma. Agora Chopin, logo Bach, depois Saint-Saëns…

Martha Argerich. Chopin: Piano Concerto Nº 1 in E minor, Op. 11. Ao vivo em Varsóvia em 2010.

A variação do mesmo

Antuérpia

Antuérpia

Aos emigrantes de Antuérpia

As estrelas anunciam uma quadra em que contos, cânticos, figuras e anúncios tendem a ser uma variação do mesmo. Saturados, os marcadores simbólicos natalícios cobrem quase tudo que é sentido. Ressalve-se, porém, que repetir não é, necessariamente, anular ou reverberar. A própria repetição do mesmo gera uma mesmidade distinta. Dez pessoas que se alinham, uma atrás da outra, em frente a um caixa multibanco formam uma fila, com as possibilidades e os constrangimentos que isso implica. Acrescente-se que a variação não é irmã gémea da repetição. Nada impede a variação de ser genuinamente única. Escute-se, por exemplo, Bach.

J. S. Bach. Goldberg Variations, BWV 988: I. Aria.

O anúncio polaco Talizman, da Allegro, é uma variação do mesmo. Contracenam uma criança e um velho. A fé e a ternura, tanta fé e tanta ternura, são os sentimentos nucleares da época. No entanto, o disco não está riscado. Outras pautas e outras vozes cantam o espírito de Natal. E ouvimos, encantados, o milagre, um milagre que nos apressamos a esquecer.

Marca: Allegro. Título: Talizman. Agência: Bardzo. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2017.

Exorcismos

O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)

  1. A Fuga dos demónios

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).

 

Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.

 

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.

2. Esqueletos vampiros

O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII

Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi decepada e colocada ntre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:

“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas ​​para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Sec XIII

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Séc XIII

A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).

Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.

National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002

O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.

Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.