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Alucinações hipnopômpicas

Na transição do sono para a vigília, acontece alucinar: a comunicação e as redes sociais desistem da obsessão com autocratas, plutocratas e sociopatas. Reduzem-nos a subespécies, abrindo-se à diversidade e à generosidade humanas. Para despertar menos apoquentado, sem guinadas tragicómicas de Oeste e de Leste, viro-me para o Centro e para o Norte. Do Norte, não nos chegam apenas frentes frias, mas também freias que abraçam violoncelos e valquírias que cavalgam pianos.

Imagem: James Doyle Penrose. Freyja and the Necklace. 1890

Hania Rani e Dobrawa Czocher são duas jovens compositoras polacas. Hania toca piano e canta, Dobrawa é violoncelista. Partilharam dois álbuns: Biała Flaga (2015) e Inner symphonies (2020).

Hania Rani & Dobrawa Czocher – Tak tak to ja (Official Video). Biała flaga. 2015
Hania Rani & Dobrawa Czocher – Chwile. Biała flaga. 2015. At Sofar Warsaw on March 18th, 2016
Hania Rani & Dobrawa Czocher – Telefony. Biała flaga. 2015. Ao vivo em 2018
Hania Rani & Dobrawa Czocher – Con Moto. Inner symphonies (2020). Auditorium of Kraków’s Juliusz Słowacki’s Theater. 2021

Como vento na areia

Gosto das canções do Manuel Freire. Da voz e dos poemas. Envolvem, abalam e embalam. Ressalvando “Pedra Filosofal” e “Livre”, poucas visualizações colhem na Internet. O Tendências do Imaginário contempla seis canções do Manuel Freire. Acrescento quatro: “Pedro Soldado”, “Poema da Malta das Naus”, “Canção” e “Dulcineia”). Aproveito para enxertar algumas figurinhas populares do polaco Tadeusz Kacalak (imagem).

Manuel Freire – Pedro Soldado, 1968. Original de Adriano Correia de Oliveira, 1967
Manuel Freire – Poema da Malta das Naus. EP Dulcineia, 1971
Canção · Manuel Freire. Manuel Freire, 1984
Manuel Freire – Dulcineia. EP Dulcineia, 1971

Zbigniew Preisner

Para ouvir na Casa do Alpendre

Zbigniew Preisner é um compositor célebre pelas suas músicas para filmes, nascido na Polónia, em 1955. Estudou história e filosofia em Cracóvia. Autodidata, nunca seguiu aulas formais de música. Aprendeu escutando e transcrevendo partes de discos de vinil. “Seu estilo de composição representa uma forma distintamente simples de neo-romantismo tonal”. Conquistou o César de Melhor Música Original e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – Melhor Trilha Sonora Original.

Zbigniew Preisner. Homecoming ( Pour l’amour d’une femme). Preisner’s Music. 1995
Zbigniew Preisner. Decision (Tu ne tueras point). Preisner’s Music. 1995
Zbigniew Preisner. Marionnettes (La double vie de Véronique). Preisner’s Music. 1995
Zbigniew Preisner. Jardin d’été (Secret Garden). Preisner’s Music. 1995
Zbigniew Preisner. Perte ( Eminent domain). Preisner’s Music. 1995

Capricho polaco: o violão de Marcin Dylla

Roberto Chichorro. Sem Título. 1999.

Marcin Dylla é um violonista clássico polaco. Coleciona prémios e distinções. Venceu mais de quinze competições internacionais. Seguem três interpretações de compositores espanhóis: Capricho Árabe, de Francisco Tárrega; Junto al Generalife e Concerto de Aranjuez (Adagio), de Joaquín Rodrigo. As músicas e as ideias, quero-as muitas, coloridas e variadas. Três vídeos é demais, sobretudo para visionamento por telemóvel. Comporta, no entanto, uma dupla vantagem: não me obriga a preterir conteúdos favoritos e oferece a solução de experimentar apenas um.

Marcin Dylla interpreta Capricho Árabe (1892), de Francisco Tárrega, em 2014.
Marcin Dylla interpreta Junto al generalife (1959), de Joaquín Rodrigo, em 2013.
Marcin Dylla interpreta Concerto de Aranjuez – II Adagio, de Joaquín Rodrigo, em 2015.

Chopin por Maria João Pires

Eugène Delacroix. Frédéric Chopin. 1838

À selecção de obras culturais aplica-se o princípio abdominal: é mais fácil alargar do que reduzir (AG).

Anunciei no último artigo uma seleção de obras de Frédéric Chopin. Mais vale cedo do que nunca. Retenho duas composições para piano: um noturno e uma sonata, interpretados por Maria João Pires. Dois é pouco, mas é mais que três. Assim vaticina a psicologia dos públicos. Colocam-se dois vídeos, visualizam um; colocam-se três, não visualizam nenhum.

Maria João Pires: Chopin – Nocturne No. 1 in B flat minor, Op. 9.
Maria João Pires: Chopin – Piano Sonata No. 3 – III. Largo (excerto).

O Pianista

Władysław Szpilman, o Pianista.

A besta não adormece, a besta nunca dorme (AG).

Władysław Szpilman “Władek” (1911-2000) é um pianista e um compositor judeu polaco. Trabalhava como pianista na rádio polaca, quando o recital do Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin, foi interrompido pelo bombardeamento alemão. Foram as pancadas do inferno. Sobrevive, miraculosamente, à guerra. O mesmo não sucede à família, deportada em Treblinka. Publicou em 1946 as suas memórias. O livro foi censurado pelos novos senhores da Polónia. As suas memórias serão reeditadas em 1998, volvidos 43 anos, com o título O Pianista. Tinha Wladyslaz Szpilman 87 anos. Dois anos após a sua morte, estreia, em 2002, o filme O Pianista, que o realizador polaco Roman Polanski dedica, inspirado no livro O Pianista, à vida de Wladyslaw Szpilman. Polanski nem sequer altera o nome do protagonista.

Comove o vídeo com Wladyslaw Szpillman a tocar, em sua casa, com 86 anos, o Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin.

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner – Decision (Instrumental, From “A Short Film About Killing”). 1988
Zbigniew Preisner – Homecoming. When a Man Loves a Woman. 1994
Zbigniew Preisner – Damage. Fatale. 1992.
Zbigniew Preisner – Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

Delírio

G2A. 2019.

De regresso a Braga, reencontro o Delírio. Tem bom aspecto! Fomos amigos. O delírio mais requintado é o delírio da intelligentsia. Com ou sem laços. Com uma varinha mágica na mão, o “intelectual” delira o mundo. No essencial, nada tenho a opor ao delírio. Não gosto, porém, quando o delírio alheio salpica a minha realidade.

Delirantes e vertiginosos, os videojogos ligam mundos: o nosso e o dos outros, dentro e fora do ecrã. A publicidade não hesita em reforçar esta propensão.

Marca: G2A. Título: You loose when you overpay. Agência: Change Serviceplan. Direcção: Szymon Pawlik. Polónia, Julho 2019.

Dança lenta

Gabriel Fauré e a esposa Marie Freniet, em 1889.

Fa freddo, fa molto freddo. Un froid de chien. Se helan los tomates en el huerto. Apetece enrolar-se e ficar amorrinhado a ouvir música. Clássica? A maioria dos visitantes do Tendências do Imaginário não aprecia. Mas vou insistir! É uma espécie de “serviço cívico”. Ontem, coloquei a Introduction et Rondo capriccioso en la mineur, de Camille Saint-Saëns, hoje cabe a vez ao seu aluno Gabriel Fauré. Dois compositores exímios no domínio das melodias e das harmonias.

Gabriel Fauré. Pavane pour choeur et orchestre, Op 50. 1987. Young Cracow Philharmonic Krakowska Młoda Filharmonia. 2013.

O mundo a seus pés

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Segundo Zygmunt Bauman, estamos cada vez mais líquidos. Uma liquidez, porventura, antártica: não paramos de dar cabeçadas em barcos e icebergues. Estamos mais líquidos, estaremos mais lúcidos?

Há seres do outro mundo. Têm o globo a seus pés. Estão por todo o lado e em sítio nenhum. São mutantes e cósmicos. Divino e diabólico, aparição e milagre, o futebolista é o semideus da nova mitologia. Está para além do humano, aos nossos olhos demasiado humanos. Awaken the phantom é um anúncio sofisticado e profético da Nike, com efeitos especiais impressionantes.

Aproveito para colar a música Victoria (2014) do compositor polaco Wojciech Kilar (1932-2013).

Marca: Nike Football. Título: Awaken the phantom. Agência: Wieden+Kennedy (Amsterdam). Direcção: Matthew Vaughn. Internacional, Agosto 2018.

Wojciech Kilar. Victoria. Angelus, Exodus, Victoria. 2014.