Ter o Diabo no Corpo

No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.
Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas e umas pauladas.
Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio. (A Fuga dos Demónios, 08.08.2014)
Em 8 de agosto de 2014, escrevi o artigo A Fuga dos Demónios. Três anos volvidos, retomei-o no artigo Exorcismos, de 15 de agosto de 2017, acrescentando-lhe outro texto: Esqueletos vampiros. Recoloco o artigo Exorcismos, mais completo, acompanhando-o com duas canções do Pedro Abrunhosa: “Diabo no corpo” e “Momento”, ambas de 2002.
Amor de filha

Às vezes, felizmente cada vez menos, ainda me dá para escrever artigos com trejeitos académicos. Estou convencido que a ideia e o sentimento passariam melhor com meia dúzia de versos bem cantados. A transbordar inspiração e ternura, o anúncio polaco “Masquerade”, colocado em julho de 2017, merecia outra abordagem, mas nem sempre o violino está à mão ou, então, anestesiado, desafina.
Paula Rego – Happy Family – Mother, Red Riding Hood and Grandmother, 2003
Alucinações hipnopômpicas

Na transição do sono para a vigília, acontece alucinar: a comunicação e as redes sociais desistem da obsessão com autocratas, plutocratas e sociopatas. Reduzem-nos a subespécies, abrindo-se à diversidade e à generosidade humanas. Para despertar menos apoquentado, sem guinadas tragicómicas de Oeste e de Leste, viro-me para o Centro e para o Norte. Do Norte, não nos chegam apenas frentes frias, mas também freias que abraçam violoncelos e valquírias que cavalgam pianos.
Imagem: James Doyle Penrose. Freyja and the Necklace. 1890
Hania Rani e Dobrawa Czocher são duas jovens compositoras polacas. Hania toca piano e canta, Dobrawa é violoncelista. Partilharam dois álbuns: Biała Flaga (2015) e Inner symphonies (2020).
Como vento na areia

Gosto das canções do Manuel Freire. Da voz e dos poemas. Envolvem, abalam e embalam. Ressalvando “Pedra Filosofal” e “Livre”, poucas visualizações colhem na Internet. O Tendências do Imaginário contempla seis canções do Manuel Freire. Acrescento quatro: “Pedro Soldado”, “Poema da Malta das Naus”, “Canção” e “Dulcineia”). Aproveito para enxertar algumas figurinhas populares do polaco Tadeusz Kacalak (imagem).











Zbigniew Preisner
Para ouvir na Casa do Alpendre

Zbigniew Preisner é um compositor célebre pelas suas músicas para filmes, nascido na Polónia, em 1955. Estudou história e filosofia em Cracóvia. Autodidata, nunca seguiu aulas formais de música. Aprendeu escutando e transcrevendo partes de discos de vinil. “Seu estilo de composição representa uma forma distintamente simples de neo-romantismo tonal”. Conquistou o César de Melhor Música Original e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – Melhor Trilha Sonora Original.
Capricho polaco: o violão de Marcin Dylla

Marcin Dylla é um violonista clássico polaco. Coleciona prémios e distinções. Venceu mais de quinze competições internacionais. Seguem três interpretações de compositores espanhóis: Capricho Árabe, de Francisco Tárrega; Junto al Generalife e Concerto de Aranjuez (Adagio), de Joaquín Rodrigo. As músicas e as ideias, quero-as muitas, coloridas e variadas. Três vídeos é demais, sobretudo para visionamento por telemóvel. Comporta, no entanto, uma dupla vantagem: não me obriga a preterir conteúdos favoritos e oferece a solução de experimentar apenas um.
Chopin por Maria João Pires

À selecção de obras culturais aplica-se o princípio abdominal: é mais fácil alargar do que reduzir (AG).
Anunciei no último artigo uma seleção de obras de Frédéric Chopin. Mais vale cedo do que nunca. Retenho duas composições para piano: um noturno e uma sonata, interpretados por Maria João Pires. Dois é pouco, mas é mais que três. Assim vaticina a psicologia dos públicos. Colocam-se dois vídeos, visualizam um; colocam-se três, não visualizam nenhum.
O Pianista

A besta não adormece, a besta nunca dorme (AG).
Władysław Szpilman “Władek” (1911-2000) é um pianista e um compositor judeu polaco. Trabalhava como pianista na rádio polaca, quando o recital do Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin, foi interrompido pelo bombardeamento alemão. Foram as pancadas do inferno. Sobrevive, miraculosamente, à guerra. O mesmo não sucede à família, deportada em Treblinka. Publicou em 1946 as suas memórias. O livro foi censurado pelos novos senhores da Polónia. As suas memórias serão reeditadas em 1998, volvidos 43 anos, com o título O Pianista. Tinha Wladyslaz Szpilman 87 anos. Dois anos após a sua morte, estreia, em 2002, o filme O Pianista, que o realizador polaco Roman Polanski dedica, inspirado no livro O Pianista, à vida de Wladyslaw Szpilman. Polanski nem sequer altera o nome do protagonista.
Comove o vídeo com Wladyslaw Szpillman a tocar, em sua casa, com 86 anos, o Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin.
Tristeza pasmada


Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.
Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

