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Telemóvel: O mundo na mão

World of Distraction Nissan Rogue. 2019

Os meus artigos mais lidos não são nem os mais bem escritos nem aqueles que têm conteúdo mais interessante; os meus artigos mais lidos são aqueles que têm um título mais apelativo e são publicados à hora, no dia e no canal certos.

Todas as sociedades cultivam as suas ameaças. Receios reais ou imaginários. Os judeus, no reinado de Don Manuel e no triunfo totalitário de Hitler. Os revisionistas, na era Estaline, e os comunistas, durante o Macarthismo. Hoje, as ameaças tendem a associar-se mais a objectos, eventualmente, técnicos. No pós-guerra, a bomba atómica era o quinto cavaleiro de Apocalipse. Nos anos sessenta, os cabos de mar perseguiam os biquínis nas praias. A televisão era a mãe de todas as alienações; o maço do tabaco, um caixão funesto em vala comum; a Internet, uma aranha pérfida à escala global; e, agora, os telemóveis, um malefício portátil generalizado.

Quino. Ni arte ni parte. Lumen.1982.

Face aos riscos dos telemóveis, existe a convicção de que urge fazer tudo e a sensação de que nada há a fazer. Situação propícia à inutilidade histérica do Estado. Por generalização abusiva, todo cidadão é um caso particular do geral. Esboce-se um “exemplo teórico”: Fulano faleceu ao engolir um telemóvel (notícia de primeira página); conclusão: todos somos passíveis de engolir um telemóvel (prognóstico); contra-ordenação preventiva: falar com o telemóvel a menos de um metro da boca é passível de multa; campanha: o telemóvel é um comestível fatal, mantenha-o longe do tubo digestivo.

Na época balnear, pior do que o telemóvel, só o peixe-aranha. Se for ao mar, vá e volte, mas sem telemóvel: pode electrocutar os caranguejos. Estou a brincar, mas a coisa manifesta-se séria; é, literalmente, a primeira vez que “temos o mundo na mão”!

“Canta, canta, amigo canta
Vem cantar a nossa canção
Tu sozinho não és nada
Juntos temos o mundo na mão!!!”
(António Macedo. Canta, amigo canta. 1974)

Em suma, se quer sobreviver à décima primeira praga, a praga dos teleles, conduza um Nissan Rogue, com música de Conan Osíris (Telemóveis, 2019). Afigura-se-me, contudo, que a praga dos telemóveis se pauta por um medo irónico. Menos drama, menos tragédia, menos profecia; mais humor, ambivalência, reflexividade e abertura dialógica.

Marca: Nissan Rogue. Título: World of Distraction. TBWAChiatDay (New York). Direcção: Tom Kuntz. Estados Unidos, Julho 2019.
Conan Osíris. Telemóveis (Lyric Video). Festival da Canção 2019.

Senilidade intelectual

Ontem, fiz uma comunicação, hoje, outra, sobre “a música do inferno no imaginário medieval”. Tema insólito, indício, quem sabe, de senilidade intelectual. Ninguém acredita na existência do inferno. Ainda menos, na música do inferno. Mas o inferno existe no imaginário e na experiência do mundo. Século após século, a pegada do inferno é incomensurável.

Em jeito de ponte entre a Idade Média e os nossos dias, a comunicação culmina com o trailer do videojogo Agony (2018). O inferno teima em aquecer as nossas almas. A descida ao inferno no videojogo Agony é um tormento vertiginoso. A banda sonora condiz: arrisca desagradar. Mas, apesar das novas tecnologias, pouco se distingue das pinturas medievais. Atente-se no inferno do tríptico O Juízo Final (1467-71), de Hans Memling. O mesmo tormento, a mesma turbulência, as mesmas vertigens.

O “regime da palavra” anda esquisito. Nunca tantos falaram tanto para dizer tão pouco. Um excesso de formatação e de ladainha na Metrópolis do espírito. Uma orfandade do sentido. A ciência está muito regrada, à espera dos robots inteligentes. Nunca pensei que a ciência ingurgitasse tanta burocracia. Uma incontinência para colmatar uma avaliação que analisa as obras como melões na feira e uma perspectiva de desenvolvimento futuro que não se enxerga.

Albertino Gonçalves e Fernando Gonçalves

Agony. Videojogo. 2018.

Pac-Man, o Papa Pontos

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Georges Seurat. Un Dimanche à La Grande Jatte. 1884.

Tenho pesadelos. Deve ser de pensar de mais. Escorregam as margens para o subconsciente. Sonho, por exemplo, que a minha proeminência abdominal é tão grande que preciso de estacas para a segurar. Outras vezes, sonho que faço parte de um processo: o processo de Kafka. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Logo, nada vale a pena. Nem a obra, nem a “governança”, nem a tripulação, nem o farol. Trata-se de um jogo de croquete à maneira da Rainha de Copas. A sabedoria exibe-se coxa, como o Perna de Pau: hipertrofia da investigação; hipotrofia do ensino. Investe-se na ciência como quem aposta no totoloto. Resultados? Encontros, papers, citações, corredores, rácios, concursos e pontos. Muitos pontos! Parece um quadro de Georges Seurat. Melhor, um Tetris, para encaixe, associado a um Pac-Man, para comer pontos. O pesadelo torna-se insuportável. Faço força para acordar. Estremunhado, oiço: “faltam pontos, faltam pontos, faltam pontos, para mudar de nível”. Esqueci-me de desligar a consola. É um alívio acordar para a realidade deste “admirável mundo novo”: Ciência Portugal 2018 – Star Trek.

Para conciliar realidades (hoje, costuma dizer-se plataformas) nada como a música. Clássica, tocada por dois virtuosos de outra época: Narciso Yepes e Andrés Segovia.

Fantasía para un Gentilhombre de J.Rodrigo. Homenaje de Narciso Yepes a Andrés Segovia. Madrid, 1987.

Andrés Segovia

Andrés Segovia at El Prado , Albéniz’s “Asturias-Leyenda”. 1967.

Desconectados. Comunicação intergeracional

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A incomunicação no seio da família, principalmente entre os pais e os filhos, merece mais atenção por parte das entidades que vivem dos nossos problemas. Não consigo perceber as suas prioridades: ora materiais, ora simbólicas, ora esfíngicas, por vezes, de duvidosa e estranha oportunidade. O sexo que procria carece apoio. Por este andar, somos uma espécie a caminho da extinção. Na comunicação, há, pelo menos, dois lados. No anúncio Stay connected, o filho desliga a comunicação. A conexão sobrevém por vias travessas: uma situação de violência exógena. No âmbito do anúncio, é um desfecho coerente, mas não é a solução conveniente. Nunca houve tantos profissionais em comunicação e relações humanas! Nunca houve tantos organismos de solidariedade e sensibilização social! Andam descoordenados? Estrábicos? Impotentes? Sem avaliação? Sem pais e sem filhos, a sociedade torna-se insustentável. Sem comunicação, desenlaça-se. O nosso tempo transborda de causas nobres e espectaculares. Sofre de gastroenterite.

Marca: Elisa. Título: Stay connected. Agência : Bob the robot. Direcção: Pete Riski. Noruega, Outubro 2017.

Fazer política por outros meios

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« Todas as análises políticas, económicas e climáticas tendem a revelar que a terra gira no sentido do inferno” (Marc Lévy, 2004, Sept Jours pour une éternité, Paris, Robert Laffont, p. 19).

Os três candidatos às eleições presidenciais francesas com mais intenções de voto nas sondagens são alvo de suspeitas e acusações:

« Marine le Pen, presidente do Front Nacional, é indigitada em três casos politico-financeiros: os assistentes europeus, o financiamento das campanhas e a subavaliação do seu património” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/02/les-trois-affaires-qui-menacent-marine-le-pen-et-le-front-national_5073473_4355770.html).

“M. Macron é suspeito de ter utilizado os recursos do ministério da economia para preparar a sua candidatura à eleição presidencial no início do ano 2016 (…) Estas alegações fundamentam-se em informações fornecidas pelos jornalistas Marion L’Hour e Frédéric Says. No seu livro Dans l’enfer de Bercy (JC Lattès), lançado no dia 25 de Janeiro de 2017, afirmam que o ministro da economia “utilizou, para si, 80% do pacote anual das despesas de representação atribuídas ao seu ministério”  (pelo menos 120 000 dos 150 000 euros) antes da sua demissão do governo no dia 30 de Agosto de 2016” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/03/emmanuel-macron-peut-il-etre-inquiete-dans-l-affaire-des-frais-de-bouche_5074081_4355770.html).

François Fillon é suspeito de “desvio de fundos públicos, abuso de bens sociais, tráfico de influências… Não obstante as suas explicações, o candidato dos Republicanos não dissipou as zonas de sombra (…) O candidato dos Republicanos para as eleições presidenciais (…) foi duramente atingido pelas acusações de emprego fictício da mulher, publicadas no dia 25 de Janeiro pelo jornal Le Canard enchaîné” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/01/les-affaires-fillon-pour-ceux-qui-n-ont-rien-suivi_5072939_4355770.html#3oFpFBru0DQsHsZg.99).

Nos três casos, os acusadores são jornalistas, com destaque para o jornal Le Canard enchaîné. Sob suspeita, os candidatos não serão provavelmente julgados antes das eleições. O povo francês descobre-se refém desta justiça oportunista: a acusação é formulada em período eleitoral ou pré-eleitoral.

Entretanto, segundo uma sondagem recente (Odoxa, 1 e 2 de março), Emmanuel Macron tem 27% de intenções de voto, Marine le Pen, 25,5% e François Fillon, 19%. Os três somam 71,5% das intenções de voto.

Face a este cenário, sinto-me numa situação de duplo vínculo, desafiado a fazer surf num pântano. Como o burro de Burídan, não sei para que lado me virar. Os políticos desonestos devem ser denunciados, com direito a julgamento segundo as normas e os princípios do direito. Os jornalistas não são juízes nem procuradores. Serão, quando muito, testemunhas. Quanto ao povo, não é jornalista, nem juiz, nem procurador.

Este cenário é uma mixórdia infestante. Na presente conjuntura jornalístico-jurídico-política, tudo parece misturar-se, tudo parece apodrecer. A propensão para amalgamar política, justiça, jornalismo, moral e ciência tem-se revelado uma ameaça tóxica para a democracia. Os exemplos não datam de agora. Acodem à memória o período de Terror da Revolução Francesa, a Rússia de Estaline ou a Alemanha de Hitler. Bem como os regimes das figuras de Estado constantes no anúncio Candel, da Amnistia Internacional. Exemplos não faltam!

As eleições são políticas e assim devem continuar. Os candidatos são políticos, não são santos. Nunca votei em santos! Se quiser devotar, devoto-me a Santa Maria Madalena, a penitente. Duvido que os políticos que mais aprecio tenham lugar cativo no céu. “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'” (João: 8.1-11). Em política, não temo as prostitutas, temo os atiradores de pedras. Desde Adão, somos feitos de um barro que é propenso a defeitos. Basta escarafunchar para encontrar ruindade. Não me dêem políticos desonestos, não me dêem instituições fáceis de abusar, não me dêem paladinos do bem! Dêem-me o que não tenho! E não soprem tanto na vela da democracia.

Anunciante: Amnesty International. Título: Candle. Agência: TBWA (Paris). França, 2005.

Paraíso fiscal

verdades-y-mentiras-en-la-webRessalvando os períodos de campanha eleitoral, a esfera política está sub-representada na publicidade para televisão e cinema. A léguas, por exemplo, do desporto e, até, da religião. Por que será? Não vende? O risco não compensa?

Há excepções. O anúncio Adiós Perrito, do canal de televisão EITB incide sobre o escândalo dos Panama Papers. De um modo explícito e sem rodeios, a partir da suposta morte de um suposto cão. “La verdad aunque nos duela” é o mote do programa Sin Ir Más Lejos, da EITB. O vídeo é falado em espanhol. Se prefere o anúncio com legendas em francês, carregue no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/eitb-channel-siml-news-perrito/.

Marca: EITB. Título: Adiós Perrito. Agência: The Cyranos McCann. Direcção: Martin Kalina & Lluisa Kracht. Espanha, Outubro 2016.

Morte, erotismo e política

'Riding with Death' by Jean-Michel Basquiat. 1988.

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat, é uma pintura que surpreende. Foi concluída no ano, 1988, em que Basquiat faleceu vítima de uma overdose de heroína, com 27 anos de idade. Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma figura humana a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio excepcional da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

O Rapto de Europa,  c. 340 a.C.

O Rapto de Europa, c. 340 a.C.

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, caminhando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, relativa a Fílis e Aristóteles, conduz quem monta.

01. Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. A tal ponto que descurava as responsabilidades e o governo do reino. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

04. Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”. Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

Na lenda de Fílis e Aristóteles, o amor e o erotismo vencem o político e o sábio. A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte.

14. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530

George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Tal como na figura 13, Fílis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Galeria de imagens: Fílis e Aristóteles

Anglicismos

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Ainda criança, a electricidade vinha de Espanha. O peixe fresco vinha de Vigo. As calças de ganga, o pão (cacetes), o bom chocolate e a Coca-cola, proibida em Portugal, também vinham de Espanha. A televisão era a espanhola. Para Espanha, contrabandeava-se, em batelas (pequenas embarcações do rio Minho): café, azeite, sabão, ovos, cobre, prata, ouro… Nós, os transfronteiriços, somos meio espanhóis. Mas nem os espanhóis diziam calças, nem nós, pantalones. Um dia, seriam jeans.

O anúncio Lengua madre solo hay una, da Real Academia de la Lengua e da Academia de La Publicidad Española, é duplamente feliz: porque reage à epidemia dos anglicismos, designadamente na publicidade, e porque não adopta a nossa política da língua.

Anunciante: Real Academia de la Lengua e Academia de la Publicidad Española. Agência: Grey Spain. Espanha, Maio 2016.

Piropos, galanteios e tromboflebites

Quino. Hombres de Bolsillo

Quino. Hombres de Bolsillo

Cara

Proibidos os piropos? A alteração do Artigo 170 do Código Penal, uma nova pérola legislativa, acorda fantasmas de outras eras, tais como a interdição da Coca-cola; o controlo dos isqueiros; as regras de decoro balnear que condenavam o andar descalço fora da praia sob pena de cinco coroas. Zelo do Estado Novo! Zelo renovado com a intenção de proibição do arroz de cabidela, não sei se por iniciativa do governo português ou da comunidade europeia (cada vez os destrinço menos). Acresce a vetusta pragmática de D. João V (1749) que decretou a proibição das rendas no vestuário.

Somos um país de grandes legisladores. Ressalvando um Marquês de Pombal, vislumbramos minúsculo e irrisório. No código penal, consta ou não a figura da agressão verbal? Existe ou não legislação sobre o assédio sexual?

O Artigo 181.º (Injúrias) do Código Penal estipula:

1- Quem injuriar outra pessoa, imputando-lhe factos, mesmo sob a forma de suspeita, ou dirigindo-lhe palavras, ofensivos da sua honra ou consideração, é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 120 dias”.

Constitui o piropo uma agressão verbal tão específica que justifique legislação adicional?

A regulamentação do piropo lembra o artista que compõe uma espiral “à maneira” para uma coluna virtual. Importa ponderar a relevância deste tipo de pérolas. A interpretação e a aplicação da lei agradeciam.

Proibiram os piropos. E os galanteios? Como categorizar um ato verbal como um piropo? Ou como um galanteio? Ou como outra coisa qualquer? Não se trata de mera retórica. Um piropo só é um piropo quando, pelo menos, duas pessoas assim o entenderem. E as frases não saem das cordas vocais com rótulos. Dependem da definição da situação e das linhas de conduta adoptadas pelos intervenientes. Quando ele, ou ela, profere um piropo, este agrada ou ofende, estimula ou inibe. Em suma, ser ou não ser piropo depende dos interlocutores, da interacção e dos “jogos de linguagem”. A Justiça tem manifestado alguma dificuldade em lidar com os crimes de violação. Como vai abordar os piropos ou o que quer que seja? Dava jeito um Índex de piropos. Sempre achei que era o que nos faltava! Aguardo, com expectativa, a polifonia dos piropos nos tribunais. A proibição do piropo afigura-se-me relevar mais de um manifesto, por sinal, ideológico, do que de uma lei do Estado a pensar na Nação.

Alguém na esfera do poder entendeu legislar contra os piropos. São as estreitezas e os horizontes que temos. Proibir assemelha-se, no entanto, à receita de antibióticos: usar com parcimónia. O delírio suscita delírio. Por que não candidatar o piropo a património da humanidade? É tão absurdo quanto concebível, com argumentos sólidos estribados numa análise SWOT.

Para concluir este primeiro exercício de provocação, uma anedota.

No meu tempo de estudante em Braga, os artistas do piropo encostavam-se ao edifício do Turismo. Aproxima-se uma jovem elegante, andar seguro e nariz empinado.
Um jovem lança o piropo:
– Tem cuidado que não te caia a virgindade!
A visada responde de imediato:
– Se me cair a virgindade, apanha-a e mete-a no rabo, que precisas tu mais dela do que eu.

Quando este país estiver completamente depurado de violência simbólica, teremos, fatalmente, saudades dos piropos.

Coroa

Tive, como prenda natalícia, uma tromboflebite. Castiga o corpo e tolda o espírito.

Este texto devia ter começado com o Artigo 170 do Código Penal, designadamente a alteração recente avessa ao piropo:

“Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal”.

Nenhuma menção aos piropos! Adivinha-se que cabem nas “propostas de teor sexual” “importunas”. Importunas, repita-se. Nesta base, qual a razão do alarido na comunicação social? Como emergiu e se tornou viral a notícia da “proibição do piropo”? Será apenas mais uma jogada na miragem das audiências?

A teoria do two step flow, formulada por Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet (The People’s Choice, New York, Columbia University Press, 1948) numa investigação dedicada a uma eleição presidencial releva o papel dos leaders locais de opinião. Entre o primeiro e último elo interpõem-se várias mediações. A influência pública é tudo menos directa e linear. Entre faróis e nevoeiros, entretecem-se diversas versões da “realidade”.

A  alteração do Artigo 170 do código penal foi, “discretamente” aprovada, no dia 05 de Agosto de 2015. Coube ao Diário de Notícias, de 28 de Dezembro de 2015, introduzi-lo na esfera pública numa notícia de intitulada “Piropos já são crime e dão pena de prisão até três anos”. O mote está dado. Seguem-se os ecos na comunicação social, a febre nas redes sociais, os esclarecimentos dos políticos e a perplexidade dos públicos. Temos faróis e tradutores. As “propostas de teor sexual” podem ser vulgarmente interpretadas como “piropos”, assim como os “contactos de natureza sexual” eram associados aos “apalpões”, inclusivamente, pelos próprios protagonistas políticos (“Piropo com teor sexual é crime e dá pena de prisão até três anos”, Esquerda.net,  29 de Dezembro de 2015). É o destino, quiçá desejado, da legislação abstracta, abrangente e vaga. Presta-se ao parecer e à interpretação. A segunda chave é a seguinte: para além da Convenção de Istambul, a proposta avançada pelo PSD foi precedida por iniciativas, de inspiração feminista, por parte da UMAR e do Bloco de Esquerda. Terceira chave, a alteração resume-se à aplicação de decisões assumidas na Convenção de Istambul. Chave gasta. Os nossos legisladores assumem-se cada vez mais como tradutores de medidas deliberadas alhures, o que engrossa um rio de responsabilidade sui generis. Quando, por acréscimo, as medidas “passam despercebidas, “varridas para debaixo do tapete”, as águas tornam-se turvas.

Multiplicam-se os faróis, os nevoeiros e as chaves, que lembram um canivete suíço: servem para abrir e para fechar, para entrar ou sair, para trazer no bolso ou no cérebro. O aditamento referente às “propostas de teor sexual” constitui um bom húmus para a excitação da esfera pública.

Mulheres e meninas

Em crónica no jornal Expresso, de 29 de Dezembro, Paula Cosme Pinto rebate estas chaves de interpretação da alteração do Artigo 170 do Código Penal. Primeiro, considera o artigo no seu conjunto. É uma perspectiva legítima. Uma entre outras. A novidade permanece, contudo, o aditamento, a nova parte do todo. Segundo, importa não confundir piropos, formulação de propostas de teor sexual e assédio sexual:

“diz o dicionário que um piropo é uma “palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; forma de galanteio”. Já no que toca ao assédio sexual, é um “conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa”. Para quem não conseguia chegar lá pela sua própria cabeça, talvez estas definições dos dois termos ajudem a que se faça luz”. Convocar a palavra piropo é uma tradução despropositada. Terceiro, “a lei não se refere à mulher, refere-se à ‘pessoa’ (…) Refere-se explicitamente à vítima enquanto “pessoa”. Mulheres, homens, meninos, meninas. Aliás, convém que não se desvalorize o assédio sexual a que tantos homens e garotos também estão sujeitos”.

O artigo do Código Penal fala, efectivamente, em “pessoas”. Literalmente, nada a acrescentar. Convocar a relação esfíngica entre a letra e o espírito da lei seria terrorismo intelectual, no sentido atribuído por Henri Lefebvre. Mas…

Os próprios protagonistas da alteração do Artigo 170 , como a deputada Carla Rodrigues, não resistem à elipse do género masculino: o aditamento aplica-se

“em qualquer circunstância: no local de trabalho, na rua, em grupos sociais, em qualquer situação em que um agressor pratique qualquer desses atos. Acho que as mulheres e as meninas estão muito mais defendidas com esta formulação. Praticamente todas as coisas que são ditas na rua para importunar as mulheres, tudo aquilo que é ordinarice, fica assim criminalizado. Agora é preciso é que tenham consciência disso e denunciem. É preciso divulgar a existência deste novo crime” (Diário de Notícias, 28 de Dezembro de 2015).

Apesar das aparências, a questão está longe de ser inócua. É grave!

Homens e meninos

Remontando ao combate à violência doméstica, segundo a Lei nº112/2009, de 16 de Setembro, as medidas destinam-se à

“prevenção da violência doméstica, à protecção e à assistência das suas vítimas (…) Para efeitos de aplicação da presente lei, considera -se: a) «Vítima» a pessoa singular que sofreu um dano, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um dano moral, ou uma perda material, diretamente causada por acção ou omissão, no âmbito do crime de violência doméstica previsto no artigo 152.º do Código Penal”.

A lei relativa à violência doméstico tão pouco fala em homem ou em mulher mas apenas em vítima e em pessoa. O combate à violência doméstica foi acompanhado por uma apreciável campanha de sensibilização. Sendo a pessoa o alvo do programa, por que motivo muitos homens se sentiram, de facto, excluídos? Pressentiram que o dispositivo não lhes era dedicado. Os poucos dos muitos homens vítimas de violência doméstica que recorreram às instituições tenderam a ficar pelo primeiro contacto. Vários estudos confirmam esta tendência. Não é uma vergonha nacional? Uma não discriminação que discrimina? Neste caso, a “pessoa”, o “ser humano”, é vítima de agressão física e simbólica: pela Família, pela Sociedade e pelo Estado. São pessoas…  Na Quinta dos Animais, há pessoas que são mais pessoas do que outras.

“Das mais de 26 mil vítimas de violência doméstica em Portugal que pediram ajuda no ano passado, cerca de 15,5% são homens, segundo números oficiais da Direcção-Geral da Administração Interna, referidos nesta segunda-feira durante a apresentação de um estudo universitário sobre o tema. A psicóloga Andreia Machado, da Universidade do Minho aplicou um inquérito cujos resultados indicam que embora 70% dos inquiridos afirmem ter sido vítimas de um comportamento abusivo nos últimos 12 meses, apenas 9% deles se afirmem vítimas de violência. Ainda existe uma relutância masculina em se admitir ser vítima de violência e o preconceito social é o principal motivo.

O inquérito incidiu sobre indivíduos de sexo masculino com mais de 18 anos e com relações heterossexuais. 60% dos inquiridos admitiu ser vítima de agressões psicológicas com impacto para a sua saúde mental, mas apenas 23% procurou ajuda. Destes, 83% relatam que os profissionais das forças de segurança “nada ajudaram”. Para Andreia Machado, o estudo da violência contra os homens está no patamar em que estava o estudo da violência contra as mulheres nos anos 70. A “feminização do fenómeno e a invisibilidade de outras faces do problema” conduz a que esta seja uma violência ainda não reconhecida socialmente no nosso país. Socialmente mas não só.

A psicóloga foi uma das oradoras presentes no seminário-debate As outras faces da violência doméstica, promovido pela Associação de Apoio à Vítima (APAV). João Paiva foi uma voz activa apresentando um caso de violência doméstica, o seu. “As pessoas desatam-se a rir na nossa cara, mesmo quem está destacado na esquadra para tratar de assuntos de violência doméstica”, disse.

Para esta testemunha na primeira pessoa, quando um homem pretende apresentar queixa por violência, é quase certo que esbarra num “comportamento estranho”. Diz ser necessário lutar contra a invisibilidade e a passividade das forças de segurança e da justiça e afirma ser difícil avançar-se para formalizações de processos. A razão, no seu entender, é uma: “sou homem”. (Público, 18 de Novembro de 2013).

Discriminar ou não discriminar, eis a questão, tão antiga quanto a humanidade.  Mais próximo da modernidade é o seguinte paradoxo: discriminar sem discriminar.

Escrever com dores faz mal às letras. Escrever à pressa sobre matéria não urgente é um atentado ao pensamento.

30 anos: apontamentos datados

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

1983. Última grande crise económica antes da adesão à União Europeia. Recorreu-se à austeridade não diferenciada: não se tirou a estes para dar àqueles.
1986. Adesão à União Europeia. Nunca os fundos foram tão altos, nem os investimentos tamanhos.
2002. Adesão ao euro. Principal preocupação pública: como proceder à troca dos escudos por euros? O futuro? Entrar no “pelotão da frente” europeu, um barco, maior que o Titanic, já inclinado para um dos lados.
2007. Anúncio da crise do subprime, associada ao sector financeiro. Nalguns países a reacção chegou de avião, noutros de comboio. O desnorte espelhou-se na disparidade das políticas adoptadas.
2011. Assinatura do Memorando (de entendimento sobre as condicionalidades de política económica), consubstanciado na intervenção de resgate da Troika, apostada numa austeridade severa e diferenciada. Uma parte da população, a mais pobre, é castigada; a outra, dá sugestões! Um velho chavão político torna-se, enfim, realidade ostensiva: os pobres pagam a crise dos ricos. Nem as pragmáticas régias ousaram ir tão longe.

Anunciante: Ministerio de Economía.Título: Euro. Campña “Los García” / “La pregunta fatídica”. Agência: TBWA. Espanha, 2001.