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Para além da tecnologia

Cibertec“Vimos algo muy cierto en estos tiempos, y es que las personas ya no eligen un producto solo porque tenga buena tecnología, sino porque existe una buena gestión de la marca, un diseño único y una excelente comunicación de por medio. La tecnología, por sí sola, ya no es suficiente para el éxito”.
(Tin Sánchez e Fernando Ivo, directores criativos executivos da campanha).

Este anúncio da Cibertec (Perú) é convincente. Pela escolha do smartphone como objecto técnico, pela inscrição dos três novos cursos da Cibertec (Design, Gestão e Comunicação) e pelo objectivo: conseguir que os “chicos se sientan movidos a optar por un instituto que vaya más allá de enseñar solo tecnología” (Claudia Horna, directora de marketing da Cibertec). Este discurso por parte de uma escola centrada nas tecnologias é admirável. Reconheça-se ou ignore-se, a realidade espera-nos. E a realidade é mais construída pelos homens do que pelas coisas.

Marca: Cibertec. Título: Smartphones. Agência: Young & Rubicam Perú. Direcção: Toño Sarria. Perú, Setembro 2015.

Visto de cima

O astronauta. Nazca. Perú.

Figura 1. O astronauta. Nazca. Perú.

A publicidade excede-se. Não há nicho ou alvo que escape. O anúncio indiano ao filme Baahubali (figura 2) mede 4 794 m2 e é recordista do Guinness. O anúncio da BMW, junto ao aeroporto de Frankfürt, mede 30 075 m2, sem homologação pelo Guinness (Figura 3).

Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Figura 2. Global United Media Company. em Kochi, India, 27 de junho de 2015. 4794 m2.

Importa atender aos olhares das alturas, como no caso dos geoglifos do deserto de Nazca, no Perú (ver galeria de imagens no fim do artigo). Os publicitários louvam o consumidor, outros, o sagrado. Se calhar, como anda tudo baralhado, a diferença não é muita.

BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Figura 3. BMW. Anúncio gigante. Frankfürt. Alemanha. 30 075 m2. Do 14 ao 27 de Setembro.

Vem a propósito a canção Eye in the sky (1982) dos Alan Parsons Project, inserindo-a no enfiamento do artigo dedicado aos Pink Floyd (https://tendimag.com/2015/09/22/caes-porcos-e-carneiros/). Ambos convocam George Orwell: os Pink Floyd, Animal Farm, Alan Parsons Project, 1984. Acresce que Alan Parsons foi engenheiro de som dos Pink Floyd em The Dark Side of the Moon. A canção Eye in the Sky está um pouco datada. Como eu.

Alan Parsons Project. Sirius/Eye in the sky. Eye in the sky. 1982.

Mas não é apenas com pedras, terra e placas que se constroem figuras gigantescas. Também se desenham e animam imagens compostas por pessoas para condor ver. Por exemplo, na abertura dos jogos olímpicos ou dos campeonatos mundiais de futebol.

Pyongyang, North Korea. 2015.

Figura 4. Pyongyang, North Korea.

Os ditadores têm particular apetência por estas “coreografias” (Figura 4). Muitos anúncios publicitários entregam-se a estas configurações com humanos. Um dos mais célebres, por sinal em movimento, é a Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/).

Galeria de imagens: Geoglifos. Nazca. Perú.

A força do cimento

APU_04Costumamos opor a força ao jeito, à destreza, à elegância e à inteligência. A obra de Pierre Bourdieu, nomeadamente La distinction, aponta nesse sentido. A força não é um valor aristocrático, é, sobretudo, um valor das classes populares. Não é um valor pós-moderno, nem pós-materialista, nem líquido. A força é atributo de heróis como Sansão, Superman, Hulk e Popeye. O grotesco insiste em aproximar a força e o jeito em pares tais como David e Golias, Teseu e o Minotauro, Panurge e Pantagruel, Don Quixote e Sancho Pança, a Bela e o Monstro, Astérix e Obélix… A força é compacta, dura e resistente como o cimento, o cimento APU. Para contrabalançar esta ode heavy metal ao cimento, vamos reouvir Que força é essa, do Sérgio Godinho, uma canção com mais de meio século de actualidade.

Marca: UNACEM. Título: Los APUS. Agência: CARNE Lima. Direcção: Diego Nuñez Irigoyen. Peru, Agosto 2015.

Marca: UNACEM. Título: Cemento APU, tan fuerte como tú. Agência: CARNE Lima. Direcção: José Zélada. Peru, Setembro 2014.

Sérgio Godinho. Que Força é essa (Sobreviventes, 1971),

Artes da pós-modernidade

Arte Hogarista PósmodernoHá palavras que, pelo risco de se tornar tóxicas, agradeciam uma passagem pelo purgatório. No artigo anterior, sugeri que a América Latina era um oásis de refluxos. O anúncio peruano “Artistas Hogaristas Postmodernos” é um exemplo. A pós-modernidade é motivo de riso. Torna-se risível. Ressalte-se, porém, que o humor deste anúncio não é “chuva dissolvente”, limita-se a fazer cócegas.

Existe uma versão espanhola e uma versão inglesa do anúncio. Não são iguais. Por exemplo, a música de fundo é diferente. Pode aceder à versão inglesa neste endereço: https://www.youtube.com/watch?v=1Kg5OTIYIhc.

Marca: Promart Home Center. Título: Artistas Hogaristas Postmodernos. Agência: Fahrenheit DDB. Direcção: Julian Fernández. Perú, Maio 2015.

A riqueza não é para todos

Classe média na UE. Dario.

Só quem conhece a realidade consegue exprimi-la a partir de pequenos pormenores. Descartes acreditava que a razão estava bem distribuída pelos seres humanos. A riqueza, não!

Marca: La República. Título: For something to change, we need to know it. Agência: Tribal. Direcção: Tito Koster. Perú, Dezembro 2014.

Para além da virilidade

cancer de próstataA virilidade guerreira tem picos. Por exemplo, o mundial de futebol. Estranhei, não obstante, o início deste anúncio: um regresso à caserna, a matriz da virilidade guerreira? Mas não! O anúncio termina com uma reviravolta genial. A virilidade manifesta-se, inesperadamente, vulnerável. Paradoxalmente, a virilidade limita o homem. Os militares, embora corajosos, receiam o exame de despistagem do cancro da próstata. “The fear of a prostate exam is more dangerous than cancer. Be brave! Get checked”. Um anúncio de consciencialização excelente!

Anunciante:  National Institute of Neoplastic Diseases. Título: The Visit. Agência: DDB. Direcção: Jorge Caterbona, Dante Effio, Eduardo Gutierrez. Peru, Julho 2014.

As Três Faces de Cristo

Produzi, há tempos, um protodocumentário intitulado As Duas Faces, Imagens de Cristo (https://tendimag.com/2011/12/11/as-duas-faces-imagens-de-cristo-2/). Hoje, não vão ser duas mas três as faces de Cristo.

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Para representar a Trindade, alguns artistas retratam Cristo com três faces: uma frontal e duas laterais. A imagem mais antiga que conheço remonta a cerca de 1410: o fresco Trinità con tre volti, no Duomo de Atri (Itália) assinado por Antonio Martini de Atri.

Impressionante é também o Cristo Com Três Faces. A Trindade, da Escola Holandesa, pintado cerca de 1500.

Christ with Three Faces. The Trinity.1500, Netherlandish School. Complete

Cristo com Três Faces. A Trindade. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Resulta estranho o quadro Trinity Jesus (cerca de 1610) exposto em Schloss Hellbrunn, num castelo do séc. XVII situado em Salzburg. Um Cristo com três caras e quatro olhos, nem mais, nem menos!

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art, Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art. Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Esta representação da Trindade é bastante rara. A Igreja optou por outras soluções. Nem toda a Igreja tolerou sempre esta imagem de Cristo com três faces, com particular incidência no cristianismo colonial, da América Latina.

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de  Arte de Lima

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de Arte de Lima

À semelhança do que aconteceu com o nu durante a Reforma e a Contra-reforma, algumas imagens do Cristo com três faces foram retocadas e outras destruídas (ver https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/). Pintaram-se, por exemplo, cabelos sobre as faces laterais. O Cristo que domina a pintura Símbolo de la Trinidad (Ca. 1685), de Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos, exposta no Museo Colonial de Bogotá,  foi retocado de modo a encobrir as duas faces laterais. A imagem original, trifacial, só recentemente foi redescoberta, sendo restaurada em 1980.
Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

 

Misericórdia a martelo

Thomas_Muentzer

Nota da República Democrática Alemã com retrato de Thomas Müntzer

Estes três anúncios são, fruto da época, misericordiosos. Também são chocantes. Convocam catástrofes e acidentes. O primeiro, A toonie is all it takes to fill a hungry tummy, canadiano, mostra imagens de catástrofes reais (cheia, tornado, desabamento de terras, incêndio) para terminar com um pedido de ajuda destinada a crianças com fome. No segundo, Heart Attack, peruano, uma mulher tem um ataque cardíaco ao ver o custo das suas compras. No terceiro, Get out from under, canadiano, uma mulher, submersa, é salva do afogamento pela mão de uma instituição bancária. Esta série de anúncios lembra-me Thomas Müntzer (1490-1525), um teólogo do séc. XVI que, radical, se afastou de Lutero e esteve associado à Guerra dos Camponeses que incendiou a Europa Central. Friedrich Engels dedicou um pequeno livro às Guerras Camponesas na Alemanha (1850) e Ernst Bloch escreveu um longo ensaio sobre o próprio Thomas Müntzer (Thomas Müntzer, O Teólogo da Revolução, 1921). Thomas Muntzer, decapitado aos 35 anos, tinha a particularidade de assinar os textos que colocava nas portas das igrejas do seguinte modo: “Thomas Müntzer, à martelada”. Esta leva de anúncios generosos com terapia de choque também se podia apelidar, independentemente da respectiva bondade, “misericórdia à martelada”.

Anunciante: Toonies for Tummies. Título: A toonie is all it takes to fill a hungry tummy. Agência: Capital C. Canadá, Fevereiro 2014.

Marca: Hipermercados Tottus S.A. Título: Heart Attack. Agência: Circus, Lima. Perú, Fevereiro 2014.

Marca: Credit Canada. Título: Get Out From Under. Agência: Reason Partners. Direção: Steve Gordon. Canadá, Fevereiro 2014.

Ternura digital

Promart. The Perfect DaughterNão é só do Oriente que nos vem a ternura digital. Não há como uma bela história de amor para consolidar a liquidez reinante.

Marca: Promart Homecenter. Título: The Perfect Daughter. Agência: Fahrenheit DDB, Lima. Direção:  Ricardo Chadwick. Perú. Janeiro 2014.

Quando precisamos de ajuda, somos invisíveis

Colecta DomundEstes anúncios são raros. Fazem pensar! O coração dirige-se à razão.
A experiência é criativa. Assistimos, várias vezes, a demonstrações de invisibilidade pública de pessoas famosas, por exemplo músicos. Comprovamos, agora, a invisibilidade dos necessitados. Até os mais famosos, um actor e uma actriz, se tornam invisíveis quando vestem a pele de um mendigo. O mote é genial: quando precisamos de ajuda, somos invisíveis! É coisa que se sabe há muito? Mas convém relembrar, relembrar, relembrar… A ver se o olhar desce do céu para a terra.

Anunciante: Colecta Domund. Título: He. Agência: McCann-Erickson Perú. Direção: Mauricio Hidalgo. Perú, Novembro 2013.

Anunciante: Colecta Domund. Título: She. Agência: McCann-Erickson Perú. Direção: Mauricio Hidalgo. Perú, Novembro 2013.