Turismo macho
Ousadia é coisa que não falta às agências de publicidade, mormente quando se libertam das amarras do cliente e dos destinos do produto, como acontece na falsa publicidade. “The Gruen Transfert” é um programa da ABC TV dedicado à publicidade, que convida duas agências a competir com anúncios simulados em torno de um tema “intratável”. Por exemplo, persuadir os australianos a aumentar os vencimentos dos políticos (ver http://www.abc.net.au/tv/gruentransfer/thepitch.htm). Tim Brown, da agência The Works (Sydney), ganhou, em 2008, o desafio que o opôs à agência MNC Saatchie & Saatchie e que consistia em convencer os australianos a ir passar férias a Bagdad. Neste falso anúncio, sem cliente e com objectivo fictício, os meios libertam-se, exorbitam, dando azo a um humor desbragado ou, como diriam os espanhóis, sin bragas.
Título: Bagdad, have you got the ball to go? Agência: The Works, Sydney. Direção: Tim Brown. Austrália, 2008. Progama The Gruen Transfert, ABC TV. Falso anúncio.
A havaiana: um passo para a humanidade
A paródia é uma tentação para a publicidade. E Gulliver oferece-se como um petisco que combina vários traços do imaginário. Mas, neste anúncio, o que mais sobressai é a sequência final: um homem contempla uma havaiana gigante enterrada na areia. Lembram-se do momento final do primeiro O Planeta dos Macacos? A gente lembra-se de cada uma! Dá para espreitar?
Marca: Honda Acura.Título: Gulliver, Chariot. Agência: Rp & Station Films. Direção: Dom & Nic. EUA, Abril 2012.
O Planeta dos Macacos, 1968, sequência final
Isabela Adormecida
O humor canadiano recomenda-se. Nomeadamente, na especialidade da paródia. Isabela, a princesa, não acorda. Quem a irá salvar? O médico? A bruxa? O príncipe? Nem pensar. O beijo é mecânico: na era da técnica, quem acorda os dorminhocos é o despertador. Excelente filme de animação.
Realizador: Claude Cloutier. Título: Sleeping Betty / Isabelle au Bois Dormant, Produção: National Film Board of Canada. Canadá, 2007.
Martelada
Pode uma martelada despoletar uma epifania? Pode a vibração ser cósmica? Freud, Jung e Durand devem ter alguma resposta. Nada como um martelo para acordar o céu e a terra! Tenha ele pontaria.
Anunciante: Hornbach-Baumarkt-AG. Título: No one feels it like you. Agência: Stink Heimat, Berlin. Direção: Martin Kreijci. Alemanha, Março 2012.
Exorcismos de machos
Um grupo de alunos de sociologia está a iniciar um estudo sobre a evolução recente da imagem da masculinidade na publicidade. Tropecei neste anúncio e dei-me conta de quão difícil poderá vir a ser a sua missão. O mundo da publicidade é imenso e, à semelhança de um albergue espanhol, nele pode caber quase tudo, incluindo o inesperado. Por exemplo, esta publicidade por parte da Snickers, marca cujos anúncios são reputados pela aposta na virilidade!
Marca: Snickers Bar. Título: Mechanics. Agência: Tbwa New York. Direção: Ulf Johansson. EUA. Fevereiro 2007.
Inversão
Este anúncio peruano, uma paródia de reportagem, é um exemplo de inversão social. Tudo aparece ao contrário, incluindo os países emissores e receptores de migrantes clandestinos. Figura típica do grotesco, a inversão não é inócua. A brincar, com coisas sérias, dá-nos a volta, nem que seja por um momento.
Anunciante: Living in Peru. Título: Peruvian Dream. Agência: Fahrenheit, Lima, Peru. Direcção: Miqy. Peru, Fevereiro 2011.
O ouriço-cacheiro: a road movie
Gosto de ouriços-cacheiros. Os agricultores, também. Porque os ouriços se alimentam de animais nocivos, tais como lesmas e escaravelhos. Um ouriço atropelado representa uma falha na protecção das colheitas. Gosto deles, mas não lhes toco, numa espécie de encontro mediato do 4º grau. Os ouriços não disfarçam, têm os espinhos à vista. Deus não estava cansado quando os criou, ao contrário de certos humanos que, se fossem transparentes como os ouriços, ninguém abraçaria. Retomando o anúncio. Os carros Volkswagen são quase como os ouriços-cacheiros. A gente, em princípio, pode tocar-lhes, mas, na prática, não consegue. Faz sentido a sugestão do anúncio: contentarmo-nos, como os ouriços, com a contemplação do símbolo, do logótipo pendurado na nossa impotência.
Anunciante: Volkswagen. Título: Hedgehogs. Agência: Agence.v.Paris, Saint-Ouen. França, Novembro 2011.
Quem fala de ouriços-cacheiros também pode falar de toupeiras. Acrescento um anúncio, com animação 3D, já antigo mas bem humorado, com a particularidade de recuperar a música de um filme de Jacques Tati.
Até os símbolos perdem as penas
O anúncio “The Hawk of Achill” conta uma história: a lenda irlandesa do Falcão de Achill, ave ancestral que voava entre este e outros mundos. Graças ao generoso whiskey Jameson, ficamos a saber qual foi o seu trágico fim: cozido e assado numa travessa. Na publicidade, como no cinema e nos videojogos, o épico, ou a sua paródia, continua a marcar boa presença. Este anúncio brinda-nos com uma história bem (re)contada, com excelente imagem, assinada por Noam Murro.
Marca: Jameson. Título: The Hawk of Achill. Agência: Biscuit Filmworks. Direcção: Noam Murro. EUA, Outubro 2011.
O cúmulo dos testes
Este anúncio da Lenovo é uma paródia de um teste, uma hipérbole da razão argumentativa. Para aferir a rapidez de início de um portátil, nada mais apropriado do que içá-lo às alturas da estratosfera e deixá-lo cair para verificar se o pára-quedas incorporado abre ou não antes da colisão com o solo. Engenhoso, lógico e convincente. Não restam dúvidas: o pára-quedas é bom!
Marca: Lenovo. Título: Boot or bust. Agência: Mckinney. Direcção: Sam Stephens e John Budion. EUA, Julho 2011.

