Desporto e natalidade: os bebés das vitórias

O desporto influencia a natalidade? Após as grandes vitórias, a procriação aumenta ao ponto de gerar, a devido tempo, picos de nascimentos?
O anúncio francês, com uma ponta de humor belga, “Le sport c’est la vie”, do Canal +, encena uma reportagem conduzida por uma jornalista. Consultada, uma socióloga é taxativa: “A teoria dos bebés das vitórias é sedutora, mas totalmente [estatisticamente] infundada”. Acontece que os demais testemunhos, ilustrados a preceito, defendem o contrário.
O anúncio culmina com a dita socióloga, fã assumida de Moto GP, a evidenciar uma gravidez avançada. Por coincidência, no dia 11 de maio, o francês Johann Zarco conquistou uma vitória lendária no Grande Prémio da França de MotoGP de 2025, disputado em Le Mans. Largou em 17.º e venceu com 20 segundos de vantagem em relação ao segundo. Tornou-se o primeiro piloto francês a vencer o GP de França em casa desde 1954, encerrando um jejum de 71 anos. Para bom entendedor, meia imagem basta!
Um anúncio genial, contanto em francês. Pelos vistos, Portugal, com uma média, em 2023, de 1.44 filhos por mulher dos 15 aos 49 anos, talvez ganhe em ponderar investir mais no desporto
A imigração das cegonhas

Pelos vistos, as cegonhas também imigram cada vez mais para Portugal. Para bem acordar depois da sesta, nada melhor que um anúncio do Xavier Mairesse.
Qual foi o contributo da imigração para a natalidade em Portugal?
Dito pelo ChatGPT:
ChatGPT
A imigração tem desempenhado um papel crucial para a natalidade em Portugal nas últimas décadas, ajudando a mitigar a queda da taxa de natalidade que o país vem enfrentando há anos. O país tem uma das mais baixas taxas de fertilidade da Europa, o que resulta num envelhecimento acelerado da população e num declínio demográfico. A imigração ajuda a atenuar este cenário em diversos aspetos:
- Rejuvenescimento da população
Os imigrantes tendem a ser mais jovens do que a população portuguesa, o que tem ajudado a rejuvenescê-la. Como resultado, muitos imigrantes estão em idade fértil e têm contribuído diretamente para o aumento do número de nascimentos no país. Embora a fertilidade das mulheres imigrantes tenda a convergir com as médias nacionais ao longo do tempo, num primeiro momento, a taxa de natalidade entre os imigrantes é geralmente mais alta. - Aumento da população ativa
A presença de imigrantes jovens ajuda a manter a população em idade ativa, o que é crucial para a sustentabilidade do sistema de segurança social, especialmente num contexto de população envelhecida. Essa faixa etária contribui não apenas para o aumento da natalidade, mas também para a estabilidade do mercado de trabalho. - Fecundidade mais alta entre os imigrantes
Os imigrantes que chegam a Portugal, especialmente vindos de países como o Brasil, Cabo Verde, Angola e outros países africanos, têm historicamente taxas de fecundidade mais elevadas do que as de famílias portuguesas. Isso tem um impacto direto no número de nascimentos no país. Dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) revelam que uma proporção significativa dos nascimentos em Portugal nos últimos anos é atribuída a mães estrangeiras. - Dinamização das regiões despovoadas
Em muitas regiões do interior de Portugal, onde a população envelhece mais rapidamente e o despovoamento é um problema grave, a chegada de imigrantes tem trazido novas famílias e revitalizado comunidades. Nestas zonas, os imigrantes podem ser a principal fonte de novos nascimentos e de dinamismo social. - Políticas de imigração e sua ligação à natalidade
Nos últimos anos, Portugal adotou políticas de imigração mais abertas, favorecendo a entrada de trabalhadores estrangeiros e estudantes internacionais. Estas políticas, além de preencherem lacunas no mercado de trabalho, têm como efeito secundário a melhoria do panorama demográfico e a promoção da natalidade. - Estudos e números
Segundo dados do INE, em 2021, cerca de 12% dos nascimentos em Portugal foram de mães estrangeiras, uma percentagem que tem vindo a aumentar nos últimos anos. Este crescimento reflete a importância crescente da imigração para a natalidade e o crescimento demográfico do país. Em alguns anos, mais de 25% dos novos nascimentos na Área Metropolitana de Lisboa já foram atribuídos a imigrantes ou descendentes de imigrantes. - Casamento e formação de famílias
Os imigrantes muitas vezes formam novas famílias em Portugal, casando-se com cidadãos portugueses ou com outros imigrantes. Isso contribui para a diversidade cultural e demográfica, ao mesmo tempo que apoia os números da natalidade.
Conclusão
Em resumo, a imigração tem um papel fundamental para contrabalançar o declínio da natalidade em Portugal, através do aumento dos nascimentos, rejuvenescimento da população e mitigação do envelhecimento demográfico. Embora a imigração não seja a solução única para o problema da baixa natalidade, sem ela o declínio populacional seria ainda mais acentuado.
(https://chatgpt.com/?temporary-chat=true; consultado 05.10.2024 às 17:44)
Morrer de prazer

Substituindo a garrafa de cerveja por um cigarro, dava um bom anúncio anti-tabaco (AG, 2010).
Publiquei o anúncio Snowman, da Carlsberg, há nove anos no Facebook. Trata-se de um conto de Natal. Uma disforia que dispõe bem. É raro um final infeliz cobrir o coração de ternura e simpatia. Haja talento, inspiração e humanidade! Snowman confronta-nos com o desejo que transcende os limites, incluindo a morte, num contexto de regeneração cósmica: a cabana congeladora, a merenda na floresta, o arroto na água. Não fosse cómico, seria trágico. O anúncio é uma delícia, com sabor a amêndoas com licor.
A utilidade dos bebés
Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
(António Gedeão, Pedra Filosofal, excerto, Movimento Perpétuo, 1956).
Deitei-me misantropo, acordei filantropo. Tudo é, agora, amor e água fresca. Carrinhos com bebés, mulheres grávidas e namorados de mãos dadas. Bom augúrio para a natalidade. O anúncio argentino Anti-Mangazo, do Santander Rio, ensina-nos que os bebés são úteis! Revelam-se bons escudos de protecção contra a cobiça alheia.
Marca: Santander Rio. Título Anti-Mangazo. Agência: Santo. Direcção: Diego Kaplan. Argentina, Agosto 2018.
Uma ressonância: a publicidade sonha; o sonho comanda a vida; mas a vida ultrapassa o sonho. No anúncio Anti-Mangazo, a criança é instrumentalizada como estorvo à pedinchice. Na realidade, muitas crianças são instrumentalizadas como suporte às redes organizadas de pedinchice. Embora “a vida seja um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670), convém aterrar, de vez em quando.
Green Windows / José Cid. 20 anos. 1973. Com com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.
Por falar em crianças, nos anos setenta, a secção de discos das grandes superfícies de Paris contemplavam apenas duas escolhas de música portuguesa: Amália Rodrigues e os 20 anos, de José Cid. Segue a canção, acompanhada com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.
Futebol e natalidade
O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).
Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.
O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).
Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!
Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.
Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.
A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.
Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.
Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.
José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.
As férias e a natalidade
O artigo Fecundidade (https://tendimag.com/2018/06/20/fecundidade-2/) aguçou-me a curiosidade para os anúncios dedicados à natalidade. Consultei, com as entradas Natalidade e Fertilidade, duas bases de anúncios: Culturepub e Ads of the world. Resultado: uma meia dúzia de anúncios, alguns de questionável qualidade. Pelos vistos, o assunto não é relevante. Em cada acto sexual, 200 a 500 milhões de espermatozóides procuram o óvulo. Não é por falta de espermatozóides e de óvulos que os bebés não nascem. Estamos a falar de heterossexualidade. Ora, o prefixo hetero não está na moda. Nem nos organismos de governo, nem nas organizações não-governamentais, nem nas empresas altamente responsáveis. Os bebés, antes de nascer, não têm voz, nem votam, nem pertencem a grupos de pressão. É forçoso admitir que, na publicidade, o marcador dos bebés se resume às fraldas. A pesquisa vale o que vale, aponta, no entanto, para uma inexplicável negligência. Entretanto, a agência de viagens Spies Rejser descobriu que as férias são amigas da natalidade.
Marca: Spies Travel. Título: Do it for Denmark. Dinamarca, Março 2014.
Marca: Spies Travel. Título: Do it for Mom. Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.
Fecundidade
Este anúncio é vertiginoso. A música e a imagem entrelaçam-se a um ritmo alucinante. Neste anúncio barroco e orgiástico, retenho, a contra-ciclo, o pezinho do bebé. Pelos vistos, os orgasmos também podem ser produtivos. Na realidade, há cada vez mais garrafas de champagne e cada vez menos crianças.
Marca: Moët & Chandon. Título: First Time. Agência: Ogilvy (Paris). Direcção: Manu Cossu. França, Junho 2018.
Condom vs Baby Sitter
Por mais que uma língua se desdobre em palavras, nem sempre encontramos aquela que nos satisfaz. Como traduzir baby sitter? Babá, aia, ama, governanta, nutriz, ama-seca, perceptora… Por que não guardadora de crianças? O Constantino também era guardador de vacas e de sonhos. Em espanhol, destaca-se a palavra niñera. Seguem: nodriza, tata, institutriz, ama, aya, chacha, ñaña… Os franceses, habitualmente avessos a anglicismos, adoptaram a palavra baby sitter. Os portugueses, também. Quanto ao preservativo, entre condom, em inglês e em espanhol, e preservativo, em francês e em português, ainda sobram letras para a poesia: camisa-de-vénus e capote.
Vem este exercício de dicionário a propósito do anúncio espanhol “Ten Más Hijos”, para a Campanha de 2016 da empresa de baby sitters BePoppins, designação inspirada em Mary Poppins, uma das baby sitters mais célebres da história do cinema. A única, segundo consta, que voa (vídeo 2). A BePoppins parte em campanha a favor da natalidade contra a contracepção. As sequências do anúncio da BePoppins lembram outros anúncios, mormente a preservativos. Não é por acaso. A Bepoppins defende uma causa e zela pelos seus interesses. Não há motivo para puritanismos. Não é o facto de um comportamento, ou um pensamento, ser interessado que o torna errado.
Marca: BePoppins.com. Título: Ten Más Hijos. Campaña 2016. Agência: La Fuerza. Espanha, Maio 2016.
Mary Poppins. 1964. Flying Nanny Scene.
Fecundidade
Calma, humor e inteligência. Este anúncio dinamarquês é uma delícia. A queda da taxa de fecundidade é, desde os anos 1960, um problema. Mas as mães que querem ser avós encontraram uma solução: apostar no lazer dos filhos “tão distraídos do futuro da humanidade”: viagens, calor e exercício. Com estas artes, a cegonha está a caminho. Se quer ser avó, a agência de viagens Spies Travel é uma boa opção.
Marca: Spies Travel. Título: Do it for mom (Do it for Denmark 2). Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.
Afrodisíaco de Estado
As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?
Marca: Nestea. Título: Confession. Agência: Zulu Alpha Kilo. Direcção: JJ Adler. Canadá, Julho 2014.
Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.
Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.
Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, http://www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.
O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!








