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Morte com bebé ao colo

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Fig 1. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor.1505.

Quando a causa é boa, qualquer momento se presta. Sensibilizado pela comissão multidisciplinar para a natalidade, contribuo, sem saber como, com o seguinte apontamento.

Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant'Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Fig 2. Sarcofago di Stilicone. Chiesa de Sant’Ambrogio. Milano. Séc. IV.

Georges_de_La_Tour.  L'adoration des bergers. Cerca de 1645.

Fig 3. Georges de La_Tour. L’adoration des bergers. Cerca de 1645.

No Tríptico As Tentações de Santo Antão, Hieronymus Bosch introduz a figura de uma velha, montada num rato. A velha é um ser híbrido: na cabeça cresce uma árvore e os braços são ramos; a parte inferior do corpo lembra a cauda de um insecto. A velha segura nos braços que são ramos um bebé enfaixado. Naquele tempo, era prática enfaixar os recém-nascidos. Assim é retratado, frequentemente, o menino Jesus no presépio (Figs 2 e 3). Somos confrontados com uma velha na antecâmara da morte que segura, encostado ao ventre, um recém-nascido. Extrapolando, reconhece-se o tópico da morte que dá à luz a vida, tópico amplamente estudado por Mikhaïl Bakhtin. Esta figura convoca ainda, através do hibridismo da velha, os três reinos da vida: o humano, o animal e o vegetal. O enquadramento é cósmico.

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Fig 4. James Ensor. A morte a as máscaras. 1927

Esta dobra que aproxima os contrários, neste caso a vida e a morte, é um procedimento típico do grotesco, que o barroco não enjeita. Perpassa o tempo. Reencontramos, por exemplo, uma figura semelhante na pintura de James Ensor. No quadro A morte e as máscaras, o único esqueleto presente segura ao colo um recém-nascido (Fig 4).

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Fig 5. Mason Williams. Tattoo Skeleton and baby.

Não se pense que este tópico da morte que sustenta a vida, a um passo de uma morte prenhe, é uma esquisitice imemorial, bizarria da Antiguidade, da Idade Média ou dos construtores de projectos, em suma, dos pré-pós-modernos. A morte com vida insinua-se nos nichos de todas as sociedades, incluindo a nossa. Por exemplo, na moda das tatuagens ilustrada pelos motivos criados por Mason Williams (Fig 5). O grotesco e o barroco, cada um à sua maneira, pegam no líquido, vertem-no no vazio, agitam-no na centrifugadora e servem a mistela, com ou sem pós-humanos, em shots hipermodernos nas orgias inclusivas. Vai um shot de ideias?

 

A natalidade à luz da publicidade

Avon. Megapracima

Portugal está em “alerta super-vermelho” por causa da natalidade. Assim o entendem os especialistas e os políticos. É razão para franco regozijo, uma vez que o motivo já existe há várias décadas, mas o atraso não é, contudo, de séculos (ver gráfico 1). Esperar que a situação apodreça para intervir é uma forma de estar no mundo e na política. Precisamos de tomar balanço. É uma propensão. Nos anos setenta, o governo francês já adoptava medidas “robustas” para estabilizar e, se possível, inverter a tendência da taxa de natalidade. Consegue-o a partir do início dos anos 1990 (ver gráfico 2). Assim sucedeu, também, na Alemanha e noutros países europeus. O problema é que este problema tem dom de se tornar fonte do problema. Os filhos que ficaram por nascer nos anos setenta e oitenta não têm agora filhos. Brincando com conceitos caros à sociologia e à demografia, estamos perante um efeito de falta de geração.

Mas abordemos o problema com a seriedade que nos caracteriza. A quebra da natalidade pode ter a ver com automóveis e cosméticos. Pelo menos, a fazer fé nestes dois anúncios brasileiros da JWT.

O anúncio Solteira, da Avon, revela como um toque de cosmético pode transformar uma mulher numa mega solteira, mega tudo,  megapracima, mega liberta de homem mosca ou lapa.

Marca: Avon. Título: Solteira. Agência: JWT Brasil. Brasil, Março 2014.

No segundo anúncio, Casa (Ford Focus), uma mulher queixa-se que o marido sai da cama a meio da noite para ir conduzir. Este “desejo de dirigir” pode colidir com o desejo de procriar. Diminui a oportunidade. Automóveis atraentes e viciadores podem dificultar a estabilização ou a inversão da tendência da natalidade.

Marca: Ford Focus. Título: Casa. Agência: JWT Brasil. Brasil, Março 2014.

Em suma, combater a quebra da natalidade é missão complicada. O que vale é que, se a natalidade não tem dado sinais positivos, os especialistas têm crescido que nem cogumelos, lembrando a teoria da geração espontânea. Pasteur, se calhar, não tinha razão.

Evolução da taxa de natalidade em Portugal

Evolução da taxa de natalidade em França

O amor, o papel e o digital

Paperman

Que seria do amor sem o papel? Um amor digital? Cartas de amor, quem as não tem? E emails com 720 kb de amor? Corpos Photoshop. Virais ou protegidos, com firewall e anti-vírus. Carícias à velocidade da luz… Tenho cá para mim que um dia virá em que as crianças vão nascer na motherboard por contacto online. Em suma, filhos digitais. Nada que não esteja ao alcance da nossa elite científica, discriminada positivamente pela actual sagacidade política. Vai ser emocionante ler no rodapé dos telejornais: oito gémeos provenientes de uma ligação no Twitter nasceram por download; no Japão, uma consola deu à luz uma futura equipa de futebol… Era tão giro, não era? A descoberta científica do milénio para resolver o problema do século! Agora ou nunca!… Os portugueses ficaram famosos por andar a espalhar sexo pelo mundo. Pelo menos assim o advoga a teoria do lusotropicalismo. Em breve, será a vez do sexo digital e do lusodigitalismo. Para uma visualização de Paperman com mais qualidade, aceder http://www.dailymotion.com/video/xzt3vb_paperman_shortfilms.

Paperman (O rapaz do Papel). John Kahrs. 2012.

A Unilever e a Natalidade

UnileverA Ana enviou-me este anúncio extra longo (4:25) da Unilever, uma multinacional que reúne várias marcas: Axe, Lipton Ice Tea,  Knorr, Alsa, Olá, Calvé, Maizena, Hellmann’s, Skip, Cif, Omo, Vasenol, Lux, Rexona, Pepsodent, Dove, Azeite Gallo…  Este anúncio é “mais um exemplo da escalada, na publicidade, da auto-proclamação de responsabilidade social, do coro da consciencialização social e da reciclagem da figura do bom samaritano” (https://tendimag.com/2013/12/14/o-bom-samaritano-na-comunicacao-viscosa/). Acrescente-se a este cocktail o simulacro da participação e da interacção! É pelo coração que se cativam os seres humanos. Se pela boca morre o peixe, pelo coração engolimos os anzóis. As grandes causas e altos valores são a nossa perdição. Neste anúncio, a grande causa é a natalidade, o valor, a paternidade, e a promessa, a criação de um mundo melhor.  Why bring a child into this world é um anúncio bem concebido e bem produzido. Na vanguarda da moda, permanece clássico. Sustenta-se que os tempos nunca estiveram tão bons para ter filhos. Hoje melhor que ontem e pior que amanhã…  E no País do azeite Gallo?

Marca: Unilever. Título: Why bring a child into this world. Agência: Ogilvy & Mather London / David Latin America. Direção: Errol Morris. UK, Novembro 2013.