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Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Anunciante: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019
Anunciante: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016
Nick Cave & The Bad Seeds – Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

De braço dado com a solidão

Soares dos Reis. O Desterrado. Detalhe. 1872.

Avec le temps, va, tout s’en va (…) Avec le temps, va, tout va bien (Léo Ferré, 1972).

Fazer-se só

Senti-me só, na infância, “órfão de vivos”, a lutar com heróis de ficção.

Senti-me só, na adolescência, com a “mortificação do eu”, num internato com excesso de alteridade.

Senti-me só, em Paris, exilado numa “multidão solitária”.

Senti-me só, ao regressar, a um ninho que já não era o meu.

Senti-me só, adulto, no trabalho, pela diferença.

Sinto-me só, na reforma, por deixar de ser o que tanto fui.

Senti-me só, na doença, mais de um ano, isolado, sem mobilidade, a perder faculdades, sem interlocutor na procissão das horas, a sorver o pasmo dos ecrãs. Costuma dizer-se que a comunicação e as redes sociais nos fazem companhia. Talvez sim, talvez não. Talvez se reduzam a uma paisagem, paisagem significante da solidão, como em muitas pinturas da melancolia.

Poderei dizer, como Georges Moustaki, que “nunca me senti só com a minha solidão”, que “fiz dela uma companhia”? Nunca estamos sós quando estamos com nós próprios? Este paradoxo nem sempre convence. Existem momentos em que a repetição sufoca o tempo e a memória. Subsiste sempre o risco de nem a nossa companhia desejarmos, da queda em vórtices em que a existência nos pesa e a identidade nos oprime. Nesses casos, a extrema solidão aproxima-se da morte, social ou não.

A solidão fez, portanto, quem sou. Contributo e produto que estimo.

Albertino Gonçalves, Braga, 03 de fevereiro de 2022.

Entre a toma de um medicamento e o pequeno almoço, tenho um tempo morto de 30 minutos. Como rotina, consulto o correio eletrónico. O meu amigo e colega Adalberto Faria insiste num pedido feito há algum tempo a “solicitar uma singela colaboração no [seu] trabalho de campo para um livro a editar sobre a temática «A SOLIDÃO – SOLIDÕES» (…) Gostaria que cada um, consoante a sua experiência, vivência ou opinião, pudesse definir o que pensa do conceito de solidão, entre os vários tipos de solidões, de físicas a psicológicas, e que abranjam na sua diversidade geográfica a urbe e o campo. Aceito um simples parágrafo ou uma conversa com conceitos mais profundos ou complexos”.

O Adalberto soube insistir e o pedido de “um simples parágrafo” foi um argumento feliz. Decidi responder de imediato, para não voltar a esquecer o desafio.

Esbocei mentalmente o texto “Fazer-se só” enquanto tomava o pequeno almoço. Selei-o antes da fisioterapia. Pessoal, alude a diversas formas de solidão: a ausência do próximo, a evasão, a anulação nas “instituições totais”, o desterro, a diluição na multidão, o desencontro e o desaninho, a diferença e a unicidade, a rutura e a descontinuidade, a incomunicação de massas e a desmaterialização das redes sociais, a rotina e a repetição, a reificação e a espacialização do tempo e da memória, o isolamento e a morte social, a crise subjetiva, a desintegração e a alienação do ego. Faltou falar, porque não consigo, da solidão da escrita. Tudo isto coube neste texto raquítico com letras vividas.

Penso que o Adalberto não se importa por eu não ter resistido à tentação de colocar este textinho no arquivo do Tendências do Imaginário.

Seguem três canções, das minhas preferidas, dedicadas à solidão enquanto companhia, destino e erosão da vida: Georges Moustaki, Ma Solitude (1969); Léo Ferré, La Solitudine (1972); e Léo Ferré, Avec le Temps (1972).

Georges Moustaki. Ma Solitude. Le Métèque. 1969. Ao vivo no Olympia, em 2000.
Léo Ferré. La Solitudine. Gravado em Maio e Junho de 1972. Fotografias de Misha Gordin.
Léo Ferré. Avec le temps. Avec le temps. 1972. Top à Léo Ferré, ORTF : émission du 04/11/1972

Sentimentalismo romântico

Francis Bacon. After Three Studies of Lucian Freud. 1969

Estou a ficar saturado de me fazer companhia. Sempre os mesmos estímulos. Minimalistas. Sobra a sensação de um mundo que se esgota. Quando não se pode abrir a porta, espreita-se pela janela, da alma. Sinto saudades de tudo! De Paris, por exemplo. Até o sentimentalismo romântico dos franceses, que ridiculizava, agora me enternece. Fiz bem em regressar? Ganhei quarenta anos, quase dois terços de uma vida; mas nunca saberei o que perdi. Nem quero imaginar. Certo é que até os ecos mais vulgares me satisfazem neste vazio de uma quase morte social. Georges Moustaki, o poeta, nunca se sentia só com a sua solidão (ver A companhia da solidão). Creio que estou a perder a poesia. Ela era tão bonita / Ela tinha olhos revolver / A vida.

Alain Barrière. Elle était si jolie. 1963. Festival da Eurovisão.
Marc Lavoine. Elle a les yeux revolver. Marc Lavoine. 1985. Ao vivo: Olympia, 2003.
Alain Barrière. Ma vie. Ma vie. 1964.

LETRAS
Alain Barrière: Elle était si jolie
Elle était si jolie
Que je n’osais l’aimer
Elle était si jolie
Je ne peux l’oublier
Elle était trop jolie
Quand le vent l’emmenait
Elle fuyait ravie
Et le vent me disait
Elle est bien trop jolie
Et toi je te connais
L’aimer toute une vie
Tu ne pourras jamais
Oui mais, oui mais elle est partie
C’est bête mais c’est vrai
Elle était si jolie
Je n’oublierais jamais
Aujourd’hui c’est l’automne
Et je pleure souvent
Aujourd’hui c’est l’automne
Qu’il est loin le printemps
Dans le parc où frissonnent
Les feuilles au vent mauvais
Sa robe tourbillonne
Puis elle disparaît
Elle était si jolie
Que je n’osais l’aimer
Elle était si jolie
Je ne peux l’oublier
Elle était trop jolie
Quand le vent l’emmenait
Elle était si jolie
Je n’oublierai jamais

Marc Lavoine: Elle a les yeux revolver

Un peu spéciale, elle est célibataire
Le visage pâle, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
Elle se dessine sous des jupes fendues
Et je devine des histoires défendues
C’est comme ça
Tellement si belle quand elle sort
Tellement si belle, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Un peu larguée, un peu seule sur la terre
Les mains tendues, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
À faire l’amour sur des malentendus
On vit toujours des moments défendus
C’est comme ça
Tellement si femme quand elle mord
Tellement si femme, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Son corps s’achève sous des draps inconnus
Et moi je rêve de gestes défendus
C’est comme ça
Un peu spéciale, elle est célibataire
Le visage pâle, les cheveux en arrière
Et j’aime ça
Tellement si femme quand elle dort
Tellement si belle, je l’aime tellement si fort
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
M’a touché, c’est foutu
Elle a les yeux revolver
Elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première
Elle m’a touché, c’est foutu
Alain Barrière: Ma vie

Alain Barrière: Ma vie

J’en ai vu des amants
Ma vie
L’amour ça fout le camp
Je sais
On dit que ça revient
Ma vie
Mais c’est long le chemin
Ma vie
J’en ai lu des toujours
Ma vie
J’en ai vu de beaux jours
Je sais
Et j’y reviens toujours
Je sais
Je crois trop en l’amour
Ma vie
J’en ai vu des amants
Ma vie
L’amour ça fout le camp
Je sais
On dit que ça revient
Ma vie
Mais c’est long le chemin
Ma vie
Qu’il est long le chemin

Morte social

Louis-Vincent Thomas

Louis-Vincent Thomas

“Nunca estou só com a minha solidão” (Georges Moustaki, La Solitude, 1971).

Este anúncio é  poesia com imagens. Há séculos que se faz poesia com imagens. Agora, também.

A solidão pode aproximar-se da morte social (Louis-Vincent Thomas, Anthopologie de la mort, 1975).

Perdura, é verdade, a vida biológica, mas afrouxam-se os laços sociais e o sentido da vida. O mundo perde calor.

Marca: Les petits frères des pauvres. Título: Poisson d’Avril. Agência Euro RSCG. Direcção: Christelle D’Aulnat. França, 2001.